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29.12.15

A ideologia e a realidade



«À guisa de brinde de fim de ano, Cavaco Silva decidiu oferecer-nos mais uma pérola na intervenção que fez, na semana passada, no encerramento do Conselho da Diáspora. "Observando a zona euro”, disse o PR, “verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade".

O tópico é um dos temas fetiche de Cavaco Silva, mas é significativo que, em fim de mandato, o PR queira sublinhar o pouco que evoluiu ao longo da sua vida política. Para Cavaco, existe uma única maneira de ver o mundo e de tomar decisões, uma única maneira de pensar e de sentir, uma única perspectiva possível, um único interesse possível, um único objectivo possível, uma única atitude: a sua. Ele marcha bem, os outros marcham mal. Como o próprio explicou uma vez, Cavaco acha que duas pessoas que possuam a mesma informação não podem deixar de decidir a mesma coisa. Não querendo atrever-se a afirmar que a sua ideologia e que os seus interesses são melhores que os outros, Cavaco coloca-se, como sempre fez, fora do mundo, acima do mundo, acima da política, acima da ideologia. As suas opiniões não são opiniões, são factos. Ele não é político, não é ideológico, não defende interesses particulares. Os outros sim. A sua política é a política que é, a dos outros a política que não pode ser. Ele é… Deus.

Para Cavaco, a realidade impõe todas as escolhas e a política poderia reduzir-se a um programa de computador, alimentado pela informação relevante. Para Cavaco não há várias escolhas possíveis porque a realidade proíbe as escolhas. Cavaco é figadalmente contra a democracia, contra a possibilidade de escolher. A própria ideia de escolha e de vontade é infantil, impossível. E, quem tenta escolher, quem tenta moldar o presente e o futuro de acordo com a sua visão do mundo e a vontade dos cidadãos, choca contra a brutal violência da realidade, deixando “facturas por pagar”. Para Cavaco, a Natureza tem horror às escolhas. Cavaco finge que não sabe que cada um de nós tem interesses e desejos diversos, que diferentes grupos sociais têm diferentes visões e objectivos. Cavaco quer convencer-nos de que a política consiste em fazer sempre o jogo do mais forte, da “realidade”, em nunca tentar escolher. Cavaco é um colaboracionista na alma, sempre obedecendo ao mais forte e tentando convencer-nos a obedecer também, a nunca pensar, a não desejar.»

José Vítor Malheiros

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