Páginas

28.2.15

Um país paralítico


Alguém se lembrou de fazer uma comparação entre os resultados obtidos pelos quatro partidos existentes hoje e aquando das primeiras eleições em democracia – as que deram origem à Assembleia Constituinte, há 40 anos, em 1975 – e as previsões divulgadas, ontem, pela Eurosondagem, para as próximas legislativas (sem coligação PSD/CDS, para que seja possível comparar).

PS    - 37,87 % (agora 36,5)
PSD - 26,39 % (agora 27,8)
PCP - 12,46 % (agora 10)
CDS - 7,61 % (agora 7,7)

Impressionante e nem comento. Um país parado no tempo? Assim parece.
,

Em 60 segundos

As cataratas europeias




Eduardo Paz Ferreira, excerto do texto publicado no Expresso de 28.02.2015:

.

Lido por aí (245)

Europa, uma questão de política interna



Excertos do artigo de José Pacheco Pereiro no Público de hoje:

«Pela primeira vez, desde sempre, uma matéria europeia tornou-se uma fractura de política nacional: a questão grega. Apesar dos esforços inglórios de muitos europeístas, e de alguns eurocépticos, esta entrada de uma questão europeia na agenda política nacional não se deu com nenhuma das matérias canónicas da “construção europeia”. (...)

Não foi, o que é ainda mais revelador, nenhuma das agendas que surgem nas eleições europeias, que só mobilizam votantes, e mesmo assim pouco, pelo uso do voto europeu nas questões políticas nacionais. Não foi nada disso, foi uma discussão que envolve questões poderosas mas incómodas na União Europeia: democracia, vontade popular, liberdade dos povos, igualdade das nações, soberania, pensamento “único”, hierarquias de poder, todas as questões malditas que a actual geração de governantes europeus anda a querer evitar a todo o custo e agora não pode fugir delas.

Foi isso que tornou a questão grega uma questão nacional em muitos países, do “nein” alemão do Bild às sucessivas sessões do Parlamento português, com tomadas de posição pró e contra muito mais apaixonadas do que é costume numa questão internacional, e muito menos na pasmaceira que costuma caracterizar a política europeia. (...)

O que se assistiu foi a uma pura exibição de poder imperial, até com uma dimensão individualizada em Schäuble, rodeado por uns gnomos serviçais e no meio de uma série de governantes que de há muito se esqueceram que eram democratas- cristãos, sociais-democratas, socialistas, e que agora são “europeístas”, uma coisa indiferenciada e iluminista, feita de uma engenharia utópica serôdia e do mais clássico impulso burocrático. O que mais os incomodou naquelas salas não foi a petulância de Varoufakis, nem os discursos inflamados de Tsipras, mas o facto de os governantes gregos terem lá chegado com um esmagador apoio popular, que as sondagens revelam ir muito para além dos resultados nas urnas, e de eles estarem acossados em cada país, a começar pelos mais serviçais, portugueses e espanhóis. (...)

A exibição de um poder imperial unanimista dos dezoito contra um, com motivações que se percebe não terem qualquer elevação, dignidade, ou sequer utilidade, é, como todas as exibições de força, muito preocupante. Assusta, e bem, quem ainda tiver uma réstia dessa coisa maldita na Europa, o sentimento nacional antigamente chamado "patriotismo". E se um dia for Portugal a estar do lado perdedor? E se um dia os eleitores portugueses votarem num governo “errado”, como pode acontecer em democracia? E se um dia todas as políticas nacionais tiverem de ir a visto em Bruxelas (já vão em parte)? E se um dia a União se começar a imiscuir nas nossas fronteiras atlânticas, como já se imiscui no que os nossos pescadores podem ou não pescar? E se um dia algum burocrata europeu entender que Portugal deve ser reduzido a um país agrícola e turístico e fazer uma fábrica for proibido, se competir com a quota francesa ou espanhola? E se um dia os nossos europeístas (como já o dizem) considerarem que as decisões do Tribunal Constitucional são “ilegais” face ao direito comunitário? E se um dia houver um qualquer sobressalto nacional que nos coloque em confronto com um qualquer Schäuble e os seus dezoito anões?

Nessa altura lembrar-nos-emos certamente da Grécia.» (Realces meus.)
.

27.2.15

Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill



.

Tristes figuras, boas figuras




Em versão mais longa:


.

Lido por aí (244)


@João Abel Manta

* Reading The Greek Deal Correctly (James K. Galbraith)

* What Greece Won (Paul Krugman)

* Francisco Assis, o pragmatismo e a moderação (Ricardo Paes Mamede)
.

Maria Luís Uber Alles



«Sempre pensei que a nossa presença no festival Eurovisão da Canção fosse o momento máximo de vergonha a que um português pode ser submetido, em termos de visibilidade europeia. Mas não. Mil vezes a participação da Tonicha em Dublin, em 1971, do que a da Maria Luís, em Bruxelas, em 2015. (...)

Maria Luís era vista como alguém que queria ir além da troika e ser mais alemão do que os alemães, e quem melhor do que os alemães para o afirmarem. A edição online do jornal alemão Die Welt não deixava dúvidas e, numa tradução mais fácil do que a de grego, afirmava que "Maria Luís Albuquerque terá pedido, pessoalmente, a Schäuble, para ser duro com os gregos". Ou seja, chegámos ao ponto em que a nossa Maria Luís chamou piegas aos alemães - "ai, se eu estivesse no lugar dessa coração de manteiga da Merkel...". Um dia destes, o síndrome de Estocolmo vai dar lugar ao síndrome de Massamá. (...)

A nossa presença na UE faz lembrar o tempo da monarquia francesa, quando havia um indivíduo cuja única função era limpar o rabo ao rei, depois de o rei fazer as necessidades. Era um lugar de prestígio, dentro dos mais desprestigiados. Feita a comparação, isto do bom aluno e do exemplo, no fundo, é como se Schäuble dissesse à UE: "Fiquem sabendo que Portugal limpa esfíncteres como poucos".

Infelizmente, tanto passar de pano, de nada serviu. A Comissão Europeia resolveu pôr Portugal sob vigilância. A Comissão Europeia colocou Portugal sob vigilância provavelmente porque acha que ninguém pode ser assim tão bom aluno. Parecendo que não, os professores desconfiam, sempre, de quem engraxa muito.»

João Quadros

26.2.15

Da sensualidade nas Finanças



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«O nosso executivo também já teve um ministro das Finanças recém-eleito, que também visitou a Alemanha para negociar. Nessa altura, a imprensa internacional não disse uma única palavra sobre a sensualidade de Vítor Gaspar, a sua masculinidade clássica, o seu magnetismo animal. Portugal não rejeita que a Grécia tenha um tratamento diferente no que diz respeito ao pagamento da dívida; Portugal leva a mal que a Grécia tenha um tratamento diferente quanto à avaliação da sensualidade dos seus ministros das Finanças.

Os dirigentes alemães pareciam acreditar que [Vítor Gaspar] era sensual, uma vez que lhe davam as mesmas ordens que as dançarinas exóticas costumam receber: «Ti-ra!, ti-ra!, ti-ra!, ti-ra!» E Vítor Gaspar tirou mesmo. Tirou empregos, tirou salários, tirou reformas.»

Na íntegra AQUI.
,

Lido por aí (243)

Mangas de alpaca



«Sabe-se, há muito, que há cinco escolas de pensamento marxista. A silenciosa e idiota, dirigida por Harpo. A ligeiramente criminosa, chefiada por Chico. A que vive em constante festa, de Gummo. A amigável, mas sem qualquer utilidade, de Zeppo. E a seca e fria, que dirige tudo, cujo líder é Groucho.

Qualquer destas correntes está presente no Governo. Onde, ao contrário do que se tem feito constar, não há uma ideologia liberal como bússola, mas antes se segue uma filosofia "selfie". Onde o que interessa são os interesses individuais e do grupo a que se pertence. Toda a "destruição criativa" impulsionada por este Governo segue a mesma lógica: estilhaçar o contrato social, colocar o país numa constante zaragata de todos contra todos e eliminar a ascensão social típica das sociedades democráticas.

Estamos a voltar ao mundo do amiguismo, do facilitismo, das familiaridades. Onde o único valor são os números e os resultados e não a formação real e a educação, a reflexão ou a cultura. Quando se vê o caos instalado pelo Ministério da Educação, o desinvestimento cultural, o triste deserto de ideias em que se transformou o país, a "reforma" está à vista. Por isso não surpreende que a presença na Expo'2015 fosse chumbada por oito milhões de euros, perdendo o país muito mais com a não presença. Mas nada admira num Governo inculto.»

Fernando Sobral

25.2.15

Pela boca morre o peixe?



No Expresso diário de hoje, Pedro Santos Guerreiro comenta o caso do dia: as afirmações feitas por António Costa numa sessão comemorativa do novo ano chinês, trazidas hoje à luz do dia pela revista Sábado (com vídeo):

«Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões. E numa ocasião difícil para o País, em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os chineses, os investidores disseram presente, vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos atrás. E queria agradecer à China todo o apoio que nos deu e que certamente não esqueceremos e que é um sinal do muito que ainda temos para desenvolver nas relações entre todos nós.»



A História os julgará



Acabei de passar 1 hora e meia a ver o documentário «Puissante et Incontrlôlée: la Troika», estreado ontem no canal ARTE. O seu visionamento devia ser obrigatório em todas os países europeus, nomeadamente nos que estão, ou estiveram, «ocupados» por troikas.



O jornalista alemão Harald Schumann esteve na Irlanda, na Grécia, em Portugal, em Chipre, em Bruxelas e nos Estados Unidos e interrogou ministros, economistas, advogados, banqueiros, vítimas da crise e o Prémio Nobel da Economia 2008, Paul Krugman, que explica por que motivo a política de restrições não funcionou. Cristalino!

(Em Portugal, do minuto 32 ao minuto 40 e de 1h.01 a 1h09)
.

Dois vídeos bem esclarecedores





.

John Wayne, o governo português e a Grécia



«Quando, em 1969, John Wayne recebeu o seu único Óscar emocionou-se. Mas fez rir a plateia ao dizer que se soubesse que ia ganhar, tinha utilizado uma pala 35 anos antes.

O galardão foi entregue a Wayne pela sua interpretação do xerife Rooster Cogburn, que usava uma pala num olho. John Wayne, o último dos duros, sabia comunicar. O Governo português, que gosta de parecer durão, é um desastre nessa área. É um pistoleiro envergonhado, que só sabe usar Colts 45 contra aqueles que parecem mais fracos. É uma opção de vida e de coerência ideológica.

Afinal o Governo faz de John Wayne contra a Grécia para que os portugueses esqueçam a crueldade dos números: a dívida externa em vez de descer, voltou a subir em 2014. Ou seja, após três anos de austeridade a dívida vai nos 128,7% do PIB. Em vez de encurtar, porque esse seria o resultado da poção milagrosa da troika e do Governo, aumentou. (...)

Se reconhecesse o seu erro o Governo teria de se julgar a si próprio, em vez de julgar os outros. Compreende-se: o Governo pensa no seu futuro partidário em vez de ser a voz do interesse nacional. Nada a opor a esta versão "selfie" da política. Mas escusa o Governo de fingir que está aqui para defender o interesse dos portugueses.»

Fernando Sobral

24.2.15

Lido por aí (242)

David Mourão-Ferreira – 24 de Fevereiro de 1927



David Mourão-Ferreira faria hoje 88 anos. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também (quem não se recorda de Um amor feliz), acidentalmente político como Secretário de Estado da Cultura, de 1976 a Janeiro de 1978 e em 1979, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado, na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio:






Amália:




.

Hoje no canal Arte, às 21:30

Grécia: Lista de Reformas enviada a Bruxelas

Temos política externa?



«Marilyn Monroe sabia do que falava: "Hollywood é um lugar onde te pagam 50.000 dólares por um beijo e 50 cêntimos pela tua alma".

Na União Europeia, acredita-se, o preço é mais variável. Na União Europeia ninguém, por certo, ofereceu 50 mil dólares ao Governo português por um beijo. Nem mesmo Angela Merkel, que antes de Passos Coelho chegar ao poder, gostava de sorrir ao lado de José Sócrates. (...)

A questão que se coloca é simples: tem Portugal uma política externa própria? Compreende-se que Passos Coelho não possa admitir que a acção da destruidora da UE na sociedade foi um atentado à nossa dignidade. Isso era dizer que o seu Governo tinha sido um atentado à dignidade dos portugueses. E que estava a defender interesses alheios e não os dos cidadãos que votam em Outubro. Tudo bem. Mas isso não explica a imagem que Portugal deixa no seio da UE, como voz sem alma.

Mas que se pode esperar de um país sem política externa? Não vamos à Expo'2015 por oito milhões de euros. É a imagem da nossa miséria.»

Fernando Sobral
. 

23.2.15

Dr. Marques Guedes, não em nosso nome



 (...)


Nicolau Santos, no Expresso diário de 23.02.2015.
.

Zeca Afonso – 23 de Fevereiro de 1987



Quando Zeca Afonso nos deixou, em 23 de Fevereiro de 1987, já o país aturava Cavaco Silva como primeiro-ministro há mais de um ano e não sonhava que teria de o aguentar uma eternidade – até hoje. Bem jeito nos daria se o Zeca andasse ainda por cá a ajudar-nos no difícil tempo que passa, mas ficou na nossa memória com uma força que o tempo não apaga.

Pretexto para o recordarmos.






E um longo excerto desse espantoso concerto, no Coliseu de Lisboa, em 1983. Quem lá esteve nunca o esquecerá:

.

Lido por aí (241)

Juncker veio confirmar o óbvio, mas...



«Num episódio de "Seinfeld" uma loja de gelados começa a fazer sucesso com gelados "light". As filas são enormes porque aquele produto não engorda. Seinfeld desconfia, manda analisar os gelados e chega à conclusão de que tinha 40% de gordura e, portanto, era uma falsificação.

Seinfeld denuncia a loja de gelados e aí acontece o que não esperava: os clientes revoltam-se contra ele porque arruinaram a sua felicidade. Jean-Claude Juncker veio, sacudindo as culpas para Durão Barroso e para outros, dizer que a troika "pecou contra a dignidade" dos gregos, dos portugueses e dos irlandeses. Ou seja, que os gelados fornecidos eram uma fraude. Mas, para surpresa de todos, os clientes revoltaram-se: desejam continuar a ingerir gordura maléfica porque isso lhes traz uma felicidade estranha que os comuns mortais desconhecem. (...)

A verdadeira batalha entre a Alemanha e a Grécia é sobre qual é o melhor caminho a seguir. Juncker veio confirmar o óbvio: a medicina falhou e os empréstimos servem sobretudo para pagar os juros. O fim desta batalha parece tétrico: a Europa acha que a dignidade é um jogo de roleta russa. Em quem acertará o tiro decisivo?»

Fernando Sobral

22.2.15

Estranho mundo, nosso mundo



Africanos na vedação que separa Marrocos do enclave Melilla, vigiados por um elemento da Guarda Nacional Espanhola. 

(Expresso diário de 20.02.2015)
.

A Alemanha e o voto da Grécia


Excertos do artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 21.02.2015:

«Wolfgang Schäuble é uma personagem condenada à história. Da sua cadeira de rodas, ele não vê de perto os milhares, milhões, de mutilados que a receita da troika causou em países como Portugal e a Grécia. Ele não está no aeroporto de Atenas ou no de Lisboa a ver partir para o exílio toda uma geração de jovens a quem o seu país não tem futuro para dar (mas cujos engenheiros, formados com o dinheiro dos contribuintes portugueses, a chancelerina Merkel, de visita a Portugal, declarou aceitar, "generosamente", receber na Alemanha). E quando o ministro alemão, numa operação mútua de marketing, se reúne com a nossa sorridente ministra das Finanças e proclama que o exemplo português é a prova de que a receita da troika funciona, omite dizer que ela nos custou 6,5% do PIB, 400.000 novos desempregados e 300.000 emigrantes, que nos fez vender em saldos e para estrangeiros todas as empresas estratégicas em que tanto havíamos investido ao longo de décadas e que, no final de todo esse brilhante ‘ajustamento’, a dívida pública passou de 90% para 130% do PIB. E também não conta aos contribuintes alemães que o grosso do empréstimo à Grécia serviu para salvar o investimento da banca alemã na venda de submarinos e outros luxos aos gregos, e quanto é que a Alemanha facturou já nos juros dos empréstimos a Portugal ou à Grécia. (...) A atitude actual da Alemanha em relação à Grécia — e que, para vergonha de todos, é a política da UE, socialistas incluídos — não é ditada por qualquer pensamento racional, mas apenas por um desejo mesquinho de punição e humilhação. Que não é digna da Alemanha e que prenuncia o fim da ideia de Europa, mais tarde ou mais cedo. (...)

A Grécia não votou apenas pelo fim da austeridade que os arruinou de vez, votou também, e mesmo que ingenuamente, pelo resgate de alguma noção mínima de dignidade nacional e por uma consequência mínima da vontade dos povos, expressa em eleições democráticas — que são a matriz da construção europeia. E, indirectamente, votou também para que a Europa saísse do colete de forças intelectual imposto pelos mercados e pela ditadura dos economistas académicos e começasse a discutir política.» 
.

O suicídio político de uma ministra



«Não sugeri a alteração de uma única vírgula» 

Mas alguém acusou Maria Luís Albuquerque de sugerir alteração de vírgulas? Toma-nos por parvos? Sabe bem que não é isso que está em causa.

Bem antes da conferência de imprensa dada por Yanis Varoufakis (que teve início pelas 20:45, hora de Lisboa), já a SKAY TV grega tinha referido as pressões exercidas pelos ministros das Finanças espanhol e português durante a reunião do Eurogrupo (citada em The Guardian, às 19:31). E é a própria imprensa alemã a noticiar que MLA terá discutido a questão previamente com Schäuble.

Com este comportamento, e com o espectáculo indigno a que se prestou, na passada quarta-feira na Alemanha, alinhando numa tentativa para isolar a Grécia como «o mau aluno europeu», assistimos – assim o espero –, em directo e em duplicado, ao suicídio político de uma ministra. Claro que lhe restarão boas hipóteses de sucesso em instâncias internacionais. Alguma dúvida?
.

O Mediterrâneo e o destino da Europa



«O destino da Europa escreve-se, por estes dias, no Mediterrâneo. Nas suas águas e nas suas margens. Mar de encruzilhadas políticas, económicas, culturais ou alimentícias, o Mediterrâneo assiste a um tumulto gigante. Seja na Grécia, seja na Líbia ou na Síria.

Enquanto os europeus estão apenas preocupados com o cumprimento das medidas de austeridade pela Grécia, do outro lado do mar os radicais do Estado Islâmico apontam a Roma, ocupando os territórios onde não há Estado, uma "cortesia" da NATO, da União Europeia e da NATO em defesa da "democracia". No mar buscam milhares de emigrantes um futuro em forma de terra prometida, a Europa. (...)

O Mediterrâneo foi uma zona de equilíbrios, mesmo quando as guerras o assolavam. Nas suas margens nasceram e cresceram algumas das civilizações fundamentais do mundo. Como dizia Fernand Braudel, o grande estudioso do Mediterrâneo, quando a vida não se equilibra, desaparece. O Mediterrâneo apesar de tudo sobreviveu, mesmo à ida de Vasco da Gama à Índia, que criou um novo circuito comercial, o que implicava a falência das rotas que lhe garantiam a riqueza. Mas o Mediterrâneo foi mais do que isso. Era a fronteira porosa entre as duas sedes da religião, Roma e Meca, onde nascem os anos zero: o do nascimento de Cristo e o da fuga de Maomé de Meca a Medina. Por isso a Grécia, país do euro e da NATO, é tão vital. Por isso, enfrentar de vez o problema do Estado Islâmico nas costas da Líbia é outro. (...)

Talvez seja o tempo de rupturas para que a Europa perceba realmente o que está em jogo. Para ser respeitada no mundo, para poder continuar a ser um foco de sonho (como referência do Iluminismo, das ideias, da ética democrática e da moral capitalista, do futuro), a Europa precisa de olhar para esta crise e utilizá-la como motor de uma profunda mudança interna. Onde devem existir regras, mas também discussão e não hegemonia de alguns face a quem quer ser "bom aluno" ou "mau aluno". Nunca, desde a II Guerra Mundial, a Europa esteve tão perto de ter de decidir o que quer ser no futuro. Ou, pior, não quer ser.»