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28.11.15

Um texto imperdível



Este, de Ferreira Fernandes, no DN de hoje:

A minha amiga é negra.

Dica (172)



Um governo de esquerda é isto. 

«Governar à esquerda vai querer dizer apoiar e votar em conjunto as medidas de interesse comum mas, simultaneamente, ter BE, PCP e os Verdes a reivindicar e criticar o PS por ainda não se ter ido longe o suficiente e isso é a nova normalidade governativa.» 
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A Espanha ainda será um imenso Portugal!

Acabou!!!! Acabou. Acabou?



Excertos de um texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje: 

«Acabou!!!!

Experimentem dizer “acabou” junto de uma das inumeráveis vítimas destes anos de “ajustamento” e vão ver como é a resposta. Eu já experimentei várias formas e têm todas um ponto de exclamação no fim ou outro qualquer expletivo. Ou é um suspiro fundo de quem atravessou um trajecto complicado e, chegado a outro lado, respira longamente de alívio; ou é um alto e sonoro “acabou” como antes do 25 de Abril se chegava ao “às armas” da Portuguesa e de repente toda a gente gritava a plenos pulmões; ou é uma espécie de vingança saborosa em ver na mó de baixo aqueles que sempre entenderam que têm o direito natural de estar na mó de cima. (...)

Acabou.

Acabou. Percebe-se no ar que chegou ao fim uma época, um momento da nossa vida colectiva e que existe um desejado ponto sem retorno. E, na verdade, para “aquilo” já não é possível voltar, pode ser para outra coisa pior ou para outra coisa diferente, mas para o mesmo já não há caminho.

O modo como “acabou” conta muito, porque é diferente dos modos tradicionais da vida política portuguesa. Se o governo PSD-PP tivesse acabado nas urnas por uma vitória do PS mesmo tangencial, o efeito de ruptura estaria muito longe de existir, mesmo que o governo PS não fizesse muito de diferente do que o actual governo minoritário vai fazer. Foi a ecologia da vida política portuguesa que mudou, com o fim da tese do “arco de governação” e, mais do que qualquer solução, que pode ser precária, não durar ou acabar mal, acabou a hegemonia de uma das várias construções que suportavam a ideologia autoritária que minava a democracia nestes dias, a do “não há alternativa”. (...)

Não é por amor ao governo de Costa, nem ao PS, é outra coisa, é porque não queriam os “mesmos” e foi essa força que os fez acabar. Vem aí o PREC? Se a asneira pagasse multa podíamos enviar os asneirentos num pacote para pagar a dívida e ainda ficávamos com um superavit.

Pode até não mudar muito, porque já mudou muito.

Acabou?

Não. Há muita coisa que não acabou. Há um rastro de estragos, uns materiais e outros espirituais, que não vão ser fáceis ou sequer possíveis de superar numa geração. Sempre que um jornalista fizer a pergunta pavloviana de “quem paga?” ou “quanto custa?” só sobre salários, pensões e reformas, ou seja aquilo que interessa aos que tem menos e nunca faça a mesma pergunta em primeiro lugar, e muitas vezes único lugar, para tudo o resto, benefícios fiscais, impostos sobre os lucros, “resolução” de bancos, PPPs, swaps, etc. ainda não acabou. (...) Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.

Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.» 
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27.11.15

Para mais tarde recordar

Juntos, na esquerda plural



Associei-me à promoção desta iniciativa e congratulo-me por ter contribuído, com o meu «voto útil» no Bloco de Esquerda, para um virar de página na vida deste país.

«Os acordos políticos subscritos pelo PS, BE, PCP e PEV para a constituição de um governo apoiado por estas forças políticas e que tem como principal propósito fazer reverter a situação social para que os portugueses foram lançados pela coligação de direita, devem merecer todo o apoio e serem condignamente assinalados.

Estes acordos, além de terem um elevado simbolismo democrático, representam uma aspiração partilhada pela maioria dos portugueses, que ao longo de muitos anos têm vindo a demonstrar as suas preferências políticas, dando maiorias parlamentares aos partidos políticos da esquerda numa maioria de legislaturas (1975, 1976, 1983, 1995, 1999, 2005, 2009, 2015).

As condições criadas pela derrota da coligação de direita e o clima de extrema austeridade em que o país viveu nos últimos quatro anos constituíram argumentos particularmente poderosos para que a solução agora encontrada por aqueles partidos tenha toda a legitimidade democrática para se afirmar, respondendo aos anseios que as lutas sociais mostraram ao longo desse tempo.

Saudarmos e celebrarmos, juntos, este acontecimento inédito na política nacional portuguesa é um dever de todos quantos, no passado e até hoje, se bateram para que esta convergência de vontades tivesse uma tradução política. Saudarmos e celebrarmos, juntos, este acontecimento é também uma manifestação de firmeza dos que estão prontos a defender os valores democráticos, a Constituição da República e os direitos de uma vida digna para todos os portugueses e, até, uma visão europeísta mas simultaneamente crítica desta "Europa realmente existente".

Vamos, por tudo isto, estar juntos num jantar, no próximo dia 12 de Dezembro, a partir das 20H00, na Casa do Alentejo.»

A comissão promotora – Adelino Granja (advogado), Almerindo Rego (dirigente sindical), Ana Carita (professora universitária), Ana Matos Pires (médica), Ana Nave (actriz, encenadora), André Barata (filósofo, dirigente político), André Freire (politólogo), António Borges Coelho (historiador), António Diogo (médico), António Faria-Vaz (médico), António-Pedro Vasconcelos (cineasta), Bernardino Aranda (livreiro), Carlos Brito (escritor), Carlos Fragateiro (encenador, professor universitário), Carlos Luís Figueira (gestor), Carlos Matos Gomes (militar de Abril, escritor), Cipriano Justo (médico), Daniel Adrião (dirigente empresarial), Daniel Sampaio (médico), Eduardo Milheiro (gestor aposentado), Eduardo Pitta (escritor, ensaísta), Elísio Estanque (sociólogo), Fernando Nunes da Silva (engenheiro), Guadalupe Simões (enfermeira, dirigente sindical), Hélder Costa (encenador), Helena Roseta (arquitecta), Henrique Melo (editor), Jaime Mendes (médico), J.-M. Nobre Correia (mediólogo), Joana Lopes (gestora, aposentada), João Cunha Serra (engenheiro), João Gama Proença (médico), Jorge Espírito Santo (médico), Jorge Silva Melo (actor, encenador), José Aranda da Silva (farmacêutico), José Manuel Boavida (médico), José Manuel Mendes (escritor, presidente da APE) José Manuel Tengarrinha (historiador), José Vítor Malheiros (jornalista), Manuel Alegre (poeta, político), Maria Santos (gestora do ambiente, dirigente política), Maria Augusta Sousa (enfermeira), Maria Tengarrinha (actriz), Mário Jorge Neves (médico, dirigente sindical), Mário Vieira de Carvalho (musicólogo), Martins Guerreiro (militar de Abril), Miguel Vale de Almeida (antropólogo), Paula Cristina Marques (actriz, especialista em assuntos de habitação), Paulo Fidalgo (médico, dirigente político), Paulo Sucena (professor, ex-dirigente sindical), Ricardo Sá Fernandes (advogado), Rosário Gama (professora aposentada), São José Lapa (actriz, encenadora), Teresa Dias Coelho (pintora), Ulisses Garrido (sociólogo, dirigente sindical), Vasco Lourenço (militar de Abril, dirigente da A25A) 


[Divulgado no jornal Público de 27.11.2015.]
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Paris, hoje



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A pinhata da nação



«Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras.

Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras. Foram necessárias mais de 12.000 horas e 31 audiências com pessoas que, suponho, valem um voto, para o quase ex-PR "indicar" Costa para PM. (...)

Acho que isto de indicar, em vez de indigitar, ficou-lhe dos tempos dos pedidos à PIDE. Depois de tantas audiências, a minha primeira conclusão foi a de que Aníbal não conseguia estar sozinho com a Maria e inventava estas reuniões para estar acompanhado. A outra hipótese era estar a ver se se livra das bolachas e compotas que tem lá em Belém e que lhe convém despachar porque já está de saída. A terceira hipótese mais plausível é a de que Aníbal só quer enxovalhar e mostrar quem manda. É o maluco/chato das reuniões de condóminos. (...)

Vamos lá recordar, que dizem que é viver. Primeiro, Aníbal indigita o Governo que sabe que vai ser chumbado no primeiro dia. Depois exige garantias a um Governo com o apoio parlamentar da maioria, e recordemos, se ainda formos capazes, que este era o mesmo Aníbal que não mandava orçamentos anticonstitucionais para fiscalização preventiva para não atrasar os orçamentos. A verdade é que o dia mais bem conseguido de Cavaco, desde as eleições, foi o 5 de Outubro. Resumindo, Cavaco é o novo Júlio Isidro. Costa vai ter de ir buscar um presunto no cimo de um poste ensebado se quiser ser PM. Cavaco age como se fosse o sultão da nação. Só dá a filha em casamento depois de o noivo cumprir umas quantas missões. Costa só pode ser PM se for pelo mundo e lhe trouxer um presépio feito por virgens ruivas com as mais raras conchas do universo, se decapar um quiosque só com um garfo e se for capaz de comer dois linces da Malcata com uma palhinha. Cavaco só aceita Governo que lhe satisfaça os desejos de grávido: quer iscas com leite creme. (...)

Depois da longa odisseia para nomear Costa, Aníbal ainda fez mais seis pedidos, entre eles a garantia da estabilidade do sistema financeiro. É como se Costa fosse demasiado grande para cair. A minha questão é: como é que o Cavaco consegue topar se há estabilidade do sistema financeiro se garantiu que o BES estava sólido? Cavaco é parte da instabilidade do sistema financeiro, seja através do BPN, patrocinado por si, ou de análises sobre a solidez do BES. Mas que tipo de garantias quer o PR em relação ao sistema financeiro? Essa função não é do governador do Banco de Portugal? Será que o PR retirou a idoneidade a Carlos Costa? No fundo, isto é apenas Cavaco a confessar que, se calhar, o sistema financeiro está por um fio. Bem sei que Costa é um homem de diálogos, seja cara a cara, por carta ou até por SMS, mas eu nunca teria respondido às exigências de Aníbal. Da ideia que tenho de Cavaco, eu enviava o envelope mas, em vez da carta, metia uma nota de cem euros lá dentro. Acho que ao meio-dia, do dia seguinte, já estava a coisa resolvida.

Moral da história: Aníbal termina a sua carreira política atacado por tudo e todos. Até Marcelo já perdeu a paciência para o PR e disse que, quanto à estabilidade do sistema financeiro, considerava tal exigência "estranha e insólita". Todos lhe batem. Ao longo desta presidência, Cavaco transformou-se na pinhata da nação. Já vai tarde.»

João Quadros

26.11.15

Pior não será certamente



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Falou um contabilista



No discurso que fez, na tomada de posse do governo, Cavaco Silva esqueceu-se das mangas de alpaca.
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Carta de António Costa a Cavaco Silva



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Quero sossegar V. Exa. acerca das medidas que o meu governo vai tomar no sentido de garantir a estabilidade do sistema financeiro. São elas: impedir que qualquer amigo de V. Exa. funde ou administre bancos; propor um aditamento à Constituição que impeça V. Exa. de fazer considerações acerca dos bancos nos quais os portugueses podem ou não confiar.»

Na íntegra AQUI.
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A pouco mais de duas horas



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Entre a guerra e a paz



«António Costa sabe, como Sun Tzu, que: "O verdadeiro objectivo da guerra é a paz." E o da política é a conquista e a manutenção no poder. Por isso o seu Governo é de guerra, tentando que a paz futura seja possível.

Mestre da negociação, Costa criou um Governo ninja. Político, mas também técnico e táctico. Porque tem de tentar conciliar aquilo que pode parecer inconciliável: a dívida, a pressão de Bruxelas (e do PPE, cérebro do PSD e do CDS), a tentação distributiva do BE e do PCP, a defesa da economia de mercado e o reforço do poder do Estado, a relação institucional com Cavaco e com Carlos Costa e a fractura política que estes meses alimentaram.

O excel vai continuar a existir, mas vai ser equilibrado com mais política e sensibilidade. É uma sopa de pedra com ingredientes que parecem não combinar. Só que esta procura da paz faz-se à sombra da guerra. Porque esta vai ser de guerrilha constante. O PS perdeu a hegemonia cultural (e mediática) da sociedade portuguesa, hoje controlada pela teia que os cérebros que estão na sombra por detrás do PSD e do CDS teceram. Será uma batalha desgastante que terá sempre uma guilhotina presente: o controlo orçamental.

Este é um Governo contra a ideologia da austeridade como princípio, meio e fim. Por isso terá de, como dizia Einstein sobre Deus, "jogar aos dados com o Universo". É um jogo que também é de sorte e azar, porque terá de convencer a maioria parlamentar e a outra, os portugueses, que estão a assistir. O novo Governo terá também de dar novas energias ao Estado, alvo de uma implosão estrutural por parte da anterior maioria. António Costa terá de apelar ao realismo e ao bom senso. Para resolver a equação terrível de governar entre as fronteiras do que julga desejável e o que é financeiramente aceitável, entre as tradições sociais do PS e o frio clima que a crise da dívida legou a Portugal. É um caminho estreito. E minado.»

Fernando Sobral

25.11.15

Antes que o dia acabe




A minha música do dia – sempre nesta data.
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Marisa Matias, ontem




19 das 20 empresas registadas na Bolsa de Lisboa transferiram a residência fiscal para paraísos fiscais europeus. 
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Voltar a Galeano



Mapa-múndi/ 2 

No Sul, a repressão. Ao Norte, a depressão.

Não são poucos os intelectuais do Norte que se casam com as revoluções do Sul só pelo prazer de ficarem viúvos. Prestigiosamente choram, choram a cântaros, choram mares, a morte de cada ilusão; e nunca demoram muito para descobrir que o socialismo é o caminho mais longo para chegar do capitalismo ao capitalismo.

A moda do Norte, moda universal, celebra a arte neutra e aplaude a víbora que morde a própria cauda e acha que é saborosa. A cultura e a política converteram-se em artigos de consumo. Os presidentes são eleitos pela televisão, como os sabonetes, e os poetas cumprem uma função decorativa. Não há maior magia que a magia do mercado, nem heróis mais heróis que os banqueiros.

A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espectáculo, que não é negado a ninguém. E ninguém se incomoda muito, afinal, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja. Quando as cortinas se fecham no palco, uma vez que os votos foram depositados nas urnas, a realidade impõe a lei do mais forte, que é a lei do dinheiro. Assim determina a ordem natural das coisas. No Sul do mundo, ensina o sistema, a violência e fome não pertencem à história, mas à natureza, e a justiça e a liberdade foram condenadas a odiar-se entre si.

Eduardo Galeano, O livro dos abraços
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Dica (171)



Europe Is Kaput. Long Live Europe! (Slavoj Žižek, Yanis Varoufakis e Julian Assange) 

(Vídeo)
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25 de Abril – 25 de Novembro


Assistir à notícia sobre as comemorações do 25 de Novembro, por PSD e CDS, hoje na AR, traz-me à memória esta bem firme intervenção de Fernando Rosas em 2009.


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A indigitação



«O duelo entre Cavaco e António Costa terminou sem ninguém cair no chão, sem vida. Porque o próximo primeiro-ministro limitou-se a acenar diante de um PR que já só tinha balas de pólvora seca. Agora António Costa tem um desafio enorme pela frente, contra todos os Adamastores. Mas terá o poder. E isso não é algo desprezável.

Deixa feridos pelo caminho: Cavaco, que com as suas "exigências" se transformou num ex-Presidente; e Passos Coelho e Paulo Portas, que vivem o mesmo destino do ancião que perdeu o relógio na rua mas, às tantas, confusos, já não sabem se perderam alguma coisa. Todos eles querem que o país saia de um beco, mas não reconhecem que são eles próprios que estão num beco. A questão é que o país de carne e osso não está a ser discutido nestes momentos de hiperactividade política.

Cavaco queria um governo "fast-food", encomendado pelo telefone. Mas não o vai ter. Terá um Executivo que, no meio de múltiplos interesses divergentes, assumirá os compromissos europeus e orçamentais. Cavaco perdeu o norte por causa da derrota do PSD/CDS para formar Governo. Costa, curiosamente, oferece-lhe uma bússola para sair de Belém. Agora tudo terá de ser rápido. Mas ficarão outros duelos por cumprir. E, esses sim, iniciarão outro tempo na política portuguesa.»

Fernando Sobral
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24.11.15

Pobre Bélgica




... onde vivi alguns dos melhores anos da minha vida. 
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Novo governo. Mulheres? Que é delas?



A crer nas listas de ministros, que por aí circulam, o novo governo terá 4 mulheres num total de 18 ministros. Inaceitável. 
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Indigitação no dia de um fóssil



Não deve ser por acaso que o desfecho cavacal se deu no dia em que se festeja o 41º Aniversário da descoberta do fóssil Lucy (com 3,2 milhões de anos) e que até o Google se associa ao evento.  

Está preservado no Museu Nacional da Etiópia e, sim, vi uma réplica que está exposta no dito museu.
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O fantasma de Cavaco



«Depois de dias e uma reclusão que se confundiu com uma depressão, Cavaco Silva reapareceu através de um comunicado. Ao contrário de Gasparzinho, o fantasma espacial, que procurava sempre novos amigos, Cavaco vai sempre renovando os seus velhos pesadelos.

Tornou-se, ele próprio, o símbolo da instabilidade. Em concordância com o seu trajecto, Cavaco tenta não mudar nada e adiar tudo. Como tem feito, desajeitadamente, há meses. Continua a considerar que está certo e que foi a realidade que se equivocou. E que esta deveria mudar, para se adaptar ao que pensa que é a linha justa para o país. O problema é que encontrou pela frente um líder político como António Costa que acredita nas leis da dialéctica.

Ou seja, que a oposição dos contrários dará lugar a uma nova síntese que supera as contradições da tese e da antítese. Confusos? Só Cavaco o está. Por isso a dupla contradição da sua redacção: encarregou António Costa de promover uma solução governativa "estável, duradoura e credível" e por outro lado pede-lhe "clarificação formal" de "omissões". Cavaco quer mais documentos, talvez escrito com o sangue como se fazia nos tempos da editora Factory com os New Order e o proprietário Tony Wilson. Um sonho inútil.

António Costa encurralou Cavaco e este tem tanto poder numa mão como na outra: nenhum. Por isso, adia o inevitável. Não percebeu que a realidade é uma coisa dinâmica. É por isso que as folhas de excel, que tentam modelar a realidade, também se enganam. Cavaco pode pedir "formalidades", mas são os factos políticos que determinam o presente. O PR já não é dono da realidade que julgou ter criado e que agora se revoltou contra os modelos existentes.» 

Fernando Sobral

23.11.15

Dica (170)

Em verdade vos digo



Há 6 anos, andava eu neste táxi, nas margens do rio Irauádi, algures na Birmânia, bem mais divertida do que estou hoje aqui, à espera de vários Godots. 
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Os Novembros do PS



No dia 23 de Novembro de 1975, num comício de apoio ao VI Governo Provisório, convocado pelo PS para o mesmo local onde quatro meses antes aquele partido organizara uma gigantesca manifestação – a Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa –, o que Soares disse nesse dia está registado no site da Presidência da República como «um marco fundamental da mobilização que visa conter os sectores mais radicais do processo revolucionário português».

Houve outros oradores (entre os quais Jorge Campinos, Lopes Cardoso e Salgo Zenha) e  o PCP e a extrema-esquerda foram fortemente atacados. Mas o que ficou para a história foi o encerramento feito por Mário Soares e, em especial, a passagem em que terá dito que o PS estava a procurar evitar uma confrontação com «os partidários da aventura» mas que «se o preço da liberdade for o combate, combateremos de armas na mão!». Não combateu. O PREC terminou daí a dois dias e ele ficou do lado dos vencedores. (*)

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A esta hora, 40 anos depois, um sucessor de Mário Soares na liderança do PS estará a redigir um documento que talvez lhe permita ser indigitado como primeiro-ministro, com apoio do Bloco de Esquerda e do PCP.

A vida não é monótona e a História anda e desanda.

(*) Notícia detalhada aqui, na primeira coluna. 
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Assm vamos


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Não entendo o espanto



... quanto ao que Cavaco Silva impôs hoje a António Costa.
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O novo declínio do Ocidente



«Robert Skidelsky foi, muito provavelmente, o autor do mais interessante artigo sobre o que sucedeu em Paris e os dilemas que ele coloca à própria civilização ocidental.

Partindo do ensaio "O Declínio do Ocidente" que Oswald Spengler escreveu em 1918, Skidelsky cita um relatório da Ipsos Mori: "A assunção de um futuro melhor para a próxima geração desapareceu em muito do Ocidente". Hoje não se fala de "declínio", mas de "estagnação secular". Daí que Skidelsky afirme: "A linguagem muda, mas a crença de que a civilização ocidental vive de tempo (e dinheiro) emprestado é a mesma". Incapaz de estabelecer um ambiente internacional baseado nos seus valores e modos de vida, o Ocidente falhou. Ao mesmo tempo que o seu modelo interno, especialmente na Europa, o Estado social, se desmorona. O tempestuoso mundo islâmico da actualidade alimenta-se disso: o terrorismo, a falência dos estados do Médio Oriente criados pelos mapas coloniais e os refugiados acertam no coração desta Europa caduca.

Skidelsky liga isso à questão do arrefecimento da globalização económica, que precisa de uma ordem política global estável. Que está a desaparecer. Pelo meio há que recordar que a globalização económica criou ligações que chocam com a essência, por exemplo, do Estado Islâmico: a França é "amiga" de países de onde vem a maior fatia do financiamento deste grupo, tendo com eles acordos de venda de material militar que à luz do que sucedeu em Paris parecem irracionais. (...)

O crescimento económico foi desligado do trabalho (só em Portugal ainda nos agarramos só ao valor do trabalho para termos empresas competitivas). O desemprego e a desigualdade, neste quadro de automatização, estão a transformar as sociedades e a liquidar, em muitos casos, a classe média, o pilar das democracias. Com a pressão das necessidades de segurança, e a limitação das liberdades, a ela associadas, caminhamos para um território muito negro. Os povos foram substituídos por mercados. Daí caminhamos para um capitalismo sem trabalho, como dizia Ulrich Beck? Ou para um "Blade Runner" de que falava Philip K. Dick? Ou para o "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley? O problema é que, neste campo minado por interesses tão conflituantes que convivem nesta globalização económica e financeira, é o declínio dos valores do Ocidente (os do Iluminismo) que estão mais visíveis.»

Fernando Sobral

22.11.15

Até eles apelam


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Maurice Béjart morreu em 22 de Novembro de 2007 e fez-me regressar a 1968



Retomo um texto que publiquei em tempos, com uma correcção porque continha um erro.

«Em 6 de Junho morreu Robert Kennedy, vítima de um atentado que tivera lugar dois dias antes. Nessa mesma noite, em Lisboa, Maurice Béjart apresentou o seu «Ballet du XXe. Siècle», no Coliseu dos Recreios absolutamente repleto. Assistimos a um magnífico «Romeu e Julieta». Durante a última cena, ouviu-se gritar, repetidamente, "Façam amor, não façam guerra!". Simultaneamente e em várias línguas, eram lidas notícias sobre lutas, revoltas e injustiças. Foi arrepiante a emoção vivida na sala que se levantou em aplauso prolongado. Béjart veio então ao palco para afirmar que Robert Kennedy fora “vítima de violência e de fascismo” e para pedir um minuto de silêncio “contra todas as formas de violência e de ditadura”. Com a maior parte dos espectadores de pé, renovaram-se os aplausos, com mais força e com mais entusiasmo.

Informado do sucedido, Salazar proibiu os espectáculos seguintes e ordenou que Béjart saísse imediatamente de Portugal. Franco Nogueira cita uma nota distribuída à imprensa pelo Secretariado Nacional de Informação:

“Foram dirigidas à juventude exortações derrotistas e tomadas atitudes de especulação política inteiramente estranhas ao próprio espectáculo. Perante a luta que teremos que manter em defesa da integridade nacional, não pode consentir-se que uma companhia estrangeira aproveite, abusivamente, um palco português para contrariar objectivos nacionais.”

Béjart nunca se referiu a Portugal. Mas Salazar era bom entendedor e bastava-lhe menos de meia palavra para perceber – como nós – que Béjart quisera deixar um sinal de solidariedade aos antifascistas portugueses.

Momentos raros como este funcionavam para nós como bálsamo e como estímulo. Ajudavam-nos a não desanimar.» (*)

(*) Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007, pp. 118-119.

Alguns minutos de «Romeu e Julieta»:


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Bruxelas

A sobretaxa de IRS e o esplendor da ética


  (...)

Nicolau Santos, Expresso Economia, 21.11.2015. 
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