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2.1.16

A esperança espanhola



Manuel Loff no Público de hoje:

«E vão três! Durante o ano que acabou, os três países da Europa do Sul que foram sujeitos a políticas radicais de austeridade neoliberal, em geral desenhadas entre Bruxelas, Frankfurt e Nova Iorque, viram os seus governos serem largamente derrotados pelo voto popular. Em Janeiro, na Grécia; em Outubro, em Portugal; há duas semanas atrás, em Espanha. Em todos os casos confirma-se uma forte viragem à esquerda. (…)

A austeridade neoliberal imposta à Espanha ao longo dos últimos cinco anos (o primeiro dos quais, como em Portugal, a cargo do governo socialista de Zapatero) sustentou-se em três tipos de instrumentos, cujo peso relativo é diferente nos casos português e grego. Em comum aos três casos, uma aposta demasiado óbvia em fazer pagar aos mais pobres e aos assalariados os custos de uma globalização feita para encobrir o aventureirismo financeiro, espécie de estádio final da desfaçatez do capitalismo, e para accionar o mais potente dos aspiradores que têm promovido, desde há 40 anos, uma concentração sem paralelo da riqueza. No caso espanhol, o governo de Rajoy (um desses dirigentes da direita, tão incaracterístico quanto Passos e Samaras, a quem nestes países se recorreu para desempenhar este papel) sujeitou a Espanha a um programa duríssimo de cortes nos programas sociais e nos salários das administrações públicas (quer a gerida pelo governo central, quer as que dependem das Comunidades Autónomas) e de precarização generalizada da contratação, que fez do país um caso excepcional à escala europeia e de desvalorização do valor económico e simbólico do trabalho.

O segundo dos instrumentos é uma consequência da intensidade do primeiro: nenhum outro governo europeu (com a eventual excepção do húngaro) respondeu ao protesto social com semelhante dose de violência policial. (…)

Reduzido à irrelevância política o novo fenómeno nacionalista espanhol dos Ciudadanos, tornada impossível uma maioria de direita entre estes e o PP, aos socialistas espanhóis abre-se agora a possibilidade de seguir o modelo português, isto é, o de uma negociação à esquerda que permita dar passos decisivos na resolução, quer da questão social (revogar a legislação neoliberal toda, revalorizar o trabalho, recompensar os milhões de espanhóis que pagaram o preço da austeridade), quer da questão nacional, abrindo um processo de negociação com a Catalunha que passa forçosamente pela revisão da Constituição. O problema para os socialistas é que, como eles gostariam, não lhes basta virar à esquerda na política social para conseguir uma maioria no Parlamento: têm mesmo de obter o apoio (ou, pelo menos, a tolerância) dos independentistas catalães (com 17 dos 350 deputados), o que os levaria a quebrar alguns dos tabus estruturais da política espanhola e discutir um novo modelo de Estado. Ao contrário do que com grande ligeireza e patetismo se tem descrito (quer em Espanha, quer por cá, por exemplo), uma tal evolução nada tem a ver com os espantalhos do desmantelamento da Espanha ou da sua balcanização. Tem a ver, isso sim, com uma esperança muito intensa na mudança, na vontade de resolver problemas que parecem bloqueados. De, uma e outra vez, negar que não haja alternativas.» 
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