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9.1.16

O paradoxo das presidenciais



«A pré-campanha da eleição do Presidente da República foi um espectáculo triste. Foi-o pela falta de qualidade do debate político, pela ausência de verdadeira discussão sobre o futuro por parte dos candidatos. Foi-o também pela falta de comparência da comunicação social. Foi notória a ausência de critério jornalístico que seleccionasse, priorizasse e hierarquizasse. Isto para já não falar do absurdo de organizar três frente-a-frente por dia ao longo de uma dezena de dias. O resultado foi uma cacofonia aparentemente democrática, baseada num suposto critério igualitário, que amalgama tudo e todos e funciona como um apelo à abstenção do eleitorado, vencido pelo cansaço e pela inexistência de condições de escolha. (…)

Na democracia pós-25 de Abril, nenhum Presidente foi eleito sem ter origem ou apoio explícito de partidos. (…) Na eleição em curso, a falta de peso dos partidos é determinante para a falta de dinâmica das candidaturas, impossibilitando-as de descolar e impedindo a repetição do confronto esquerda-direita, que se viveu no processo das legislativas. A ausência dos partidos será determinante para o resultado.

À direita, (…) o facto de Marcelo não ser o candidato de Passos e o PSD oficial ter fugido até à última hora, criou uma situação potenciadora da atitude populista de Marcelo de fazer de conta que não quer o apoio do PSD, depois de ter andado longos meses em pré-campanha junto das estruturas do partido a propósito dos 40 anos do partido. (…)

Já à esquerda (…), perante a fuga de Guterres, o PS ficou perdido. E o líder então eleito, António Costa, acabou por informalmente mostrar que apoiaria Sampaio da Nóvoa, o ex-reitor sem origem partidária, mas que se movimentara antes na área política do PS, colaborara com o partido e tinha já o apoio formal de referência dos socialistas como Mário Soares e Jorge Sampaio.

Só que as divisões no PS entre os apoiantes de Costa e os do anterior líder, António José Seguro, acabaram por criar espaço para que a ex-presidente do partido Maria de Belém Roseira sentisse que podia avançar com o seu desejo de ser candidata. Consumou-se assim no plano da eleição presidencial a divisão dos socialistas, acabando por determinar a falta de gás quer da candidatura de Nóvoa, que da de Belém. Por isso a campanha prossegue deslaçada, sem o suporte político consistente que caracterizou anteriores embates presidenciais, mesmo quando havia vencedores anunciados à partida.» 

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