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13.1.16

Ovo estrelado ou mexido?



«Cícero deu bons conselhos ao seu irmão mais velho, Marco Túlio Cícero, quando este se candidatou a eleições: "Não faças promessas específicas; queda-te em generalidades"; " o mais importante da tua campanha é dar esperança às pessoas e gerar sentimentos bondosos face a ti".

Marco Túlio ganhou. Não há a certeza de que qualquer um destes conselhos seja importante nesta campanha presidencial. Quando estamos a discutir se um candidato é melhor ou pior porque dorme mais ou menos horas mostrando a indigência do debate eleitoral. Ou seja, a campanha presidencial é um ovo. Chocado pela descrença nacional pela política.

Marcelo, Maria ou Sampaio podem ser eleitos. Mas são as janelas de oportunidade para o país, como dizia alguém, que estão em causa. O país não pode continuar a ser um ovo estrelado em que alguns molham o pão. Ou mexido, que outros dividem. A questão da presidência é, no entanto, uma mistura de ovos. Uns fora do prazo. Outros ainda passíveis de ser consumidos. É esse um dos dilemas de Portugal. Marcelo tem razão ao dizer que não há "clivagens ideológicas" entre os candidatos. O pior é o reflexo disso: esta campanha é um deserto absoluto, sem um oásis visível. Os candidatos andam e não deixam vestígios das suas pegadas. Ganhará o que causar menos incómodo aos cidadãos.

Estamos defronte de um dilema: país de descobridores, Portugal nunca descobriu um destino consensual para si. Sempre saltou como os cangurus, de megalomania em delírio existencial. O seu tecido educacional, cultural, político ou social nunca se consolidou. Continuamos amarrados à Europa e reféns de uma incapacidade total de, em vez de criarmos mais elefantes brancos, percebermos o que pode ser a alavanca da nação.

Que país, no fundo, queremos construir? As presidenciais poderiam ajudar a semear essas questões. Alguma coisa precisa de agitar esta campanha. Pode ser uma brisa ou uma tempestade de ideias. Qualquer coisa. Os eleitores costumam ser, de alguma forma, inocentes. Mas não merecem este silêncio ensurdecedor dos candidatos a Belém.»

Fernando Sobral

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