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16.2.16

O político à procura de memória



«Os políticos também costumam sofrer ataques de amnésia, mais ou menos graves. Nada de espantoso, porque descobrimos casos desses ciclicamente. Um político sem memória pode assim sair dessa experiência traumática sem problemas. Freud explicou os sintomas dessas memórias reprimidas, mas isso não invalida que a classe política continue a brindar-nos com exercícios de amnésia mais ou menos elaborada.

A entrevista de Passos Coelho ao "Jornal de Notícias" é, num momento grave para Portugal, um exemplo de como a memória é uma mercadoria eleitoral. Ele não tem culpa: é um hábito português. Prova como a memória pode ser afectada pela teoria da relatividade. Fica-se comovido porque Passos ficou chocado com o aumento de impostos promovido pelo OE deste Governo. E ficamos na dúvida sobre quem terá promovido, há uns anos, o maior aumento de impostos jamais visto, com a desculpa de se combater a dívida (que afinal cresceu). Terá sido Batman ou o Speedy Gonzalez? Não foi Passos certamente. De outra forma, ele lembrar-se-ia.

Aliás também estamos a tentar recordar-nos de um político que, muito sério, antes de ganhar as eleições, prometia a uma criança que não ia tirar o subsídio de Natal ao pai. O momento foi emocionante. Quem terá sido? A ovelha Xoné? Passos também diz que quando saiu do Governo o Banif dava lucro. Realmente não se percebe porque queria Bruxelas planos de reestruturação do Banif e ainda forçou a sua venda à pressa. Talvez cada um falasse de um Banif diferente. Passos veste agora um atraente fato social-democrata. Mas o que é mais curioso é que estamos a assistir à repetição da estratégia que Passos utilizou quando afundou o PEC IV.»

Fernando Sobral

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