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21.2.16

Os últimos dias políticos de Cavaco



«Por estes dias, Portugal tem um Presidente que já não o é e um outro que, não sendo, é-o de facto. Cavaco Silva, aparentemente, deixou de ser Presidente da República, mas ainda ninguém o avisou do facto. Porque muitas vinganças servem-se frias.

Marcelo Rebelo de Sousa despacha com Mário Centeno e António Costa, enquanto vai formando a sua equipa para Belém. Cavaco fala de vez em quando, manda para trás uma ou outra lei, mas já ninguém o ouve. Como se fosse um fantasma que ocupa Belém por empréstimo até ser desalojado por falta de pagamento da renda. É o triste fim de um político que marcou Portugal durante décadas e transformou o país num "cavaquistão" material e ideológico. (…)

O "cavaquismo" nasceu numa época em que todos sonhavam em Portugal. E havia meios para tornar esses sonhos possíveis. Representou também o "assalto" ao poder por parte de quem não integrava o eterno circuito Estoril/Cascais que quase sempre determinou a política entre nós. Cavaco não era um "deles", mas tiveram de o engolir, à espera do momento certo para o riscarem do mapa.

Demorou tempo, mas o próprio "cavaquismo" foi criando o seu território minado, do BPN ao mundo dos negócios de muitos de alguns dos seus mais declarados membros. E, sobre isso, Cavaco nunca conseguiu afastar-se, porque sempre foi amigo dos seus amigos. Mas a nova geração de dirigentes do PSD e do PP nunca tiveram uma relação de fidelidade a Cavaco. Desprezavam-no, mesmo. Consideravam-no um "provinciano" com manias de "mestre da economia". Eles, que na maior parte dos casos vestem camisolas ideológicas segundo a meteorologia, encaram a política como uma via para o poder, para as cumplicidades negociais, para a sustentação de uma "elite" não eleita que deve ter sempre o poder entre nós. Cavaco era suportado, mas não fazia parte desse clube do Bolinha.

Cavaco, fechado em Belém, deixou de perceber nestes últimos anos a mutação do poder. Defendeu Passos, mas este nunca retribuiu. Atacou António Costa, e ganhou um inimigo. Todos eles assistem agora, com Marcelo, aos tristes dias do final de mandato de Cavaco. Antes de partir de Belém e de ser esquecido. Todos fazem agora de conta que ele já não está em Belém. Como fim político, é a mais triste das homenagens.»

Fernando Sobral

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