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1.2.16

Sísifo e o OE



«Condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando uma pesada pedra, o rei grego Sísifo deparava-se sempre com uma tragédia. Quando chegada ao topo, a pedra escorregava das suas mãos e rolava até ao chão. E Sísifo, como relata Homero, lá tinha de voltar a carregá-la montanha acima, numa tarefa sem fim. (…) Resolver o problema da dívida portuguesa é o trabalho de Sísifo dos políticos portugueses: inglório, porque ele volta sempre como uma pedra rolante rumo ao início do percurso.

É uma saga de séculos, com raros momentos de acalmia tropical. Mas, depois de anos de anormalidade, as trovoadas da dívida voltaram a colocar o país nas mãos de quem empresta o dinheiro. Já não os bancos internacionais, como no século XIX, quando se penhorava o ouro do Brasil em nome de novos empréstimos, mas junto de instituições como a União Europeia e o FMI que, além de juros, querem governar no lugar dos que foram eleitos para isso pelos cidadãos. (…)

Mário Centeno é Sísifo: arrisca-se a estar quase a chegar ao topo e ver a pedra a rolar cá para baixo.

Seja como for, irrealismo de Centeno à parte, custa ver PSD e CDS a bater palmas a Bruxelas, como se a capital dos burocratas não eleitos devesse ser um torcionário aclamado. Um bocadinho de patriotismo também era bem-vindo. Mas não. A pedra rolante, se acertar no chão, poderá destruir mais pessoas. As serviçais Cinderelas desta história sem fim.»

Fernando Sobral

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