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29.3.16

A essência de Portugal



«A essência de Portugal é não ter essência alguma. Como formação social, o nosso país, como qualquer outro, vive de processos e dinâmicas sociais, uns mais sujeitos a inércia, outros propensos a mudanças, aqueles instaurando-se na longa duração, estes cavalgando nos eventos e criando uma contemporaneidade que é sempre provisória e ultrapassada. (…)

O que define preferencialmente Portugal, a crença messiânica no Quinto Império ou o ceticismo dos "Vencidos da Vida"? A narrativa dos brandos costumes ou a matança dos judeus de 1506? A "generosidade humanista" ou os massacres coloniais, como o de Wiriamu, ainda na década de 70? A Nação de "poetas" ou o país de "soldados"? A religiosidade popular que o Estado Novo comandou a partir dos “milagres” (Ourique, Fátima) ou o país que legislou sobre o casamento homossexual e a adoção sem restrição? A opção por qualquer um dos termos será sempre insuficiente e mesquinha. Quando o presidente diz "Aqui se criaram e sempre viverão comigo aqueles sentimentos que não sabemos definir, mas que nos ligam a todos os Portugueses. Amor à terra, saudade, doçura no falar, comunhão no vibrar, generosidade na inclusão, crença em milagres de Ourique, heroísmo nos instantes decisivos", o que quer dizer o Presidente? Respondo: quer participar, a partir de um ligar de autoridade, isto é, de força e legitimidade, na definição conveniente do que é essa inexistência chamada “espírito” da Nação. E fá-lo invocando as suas memórias de infância e adolescência, a sua socialização por um imaginário nacionalista e devedor de uma configuração de “humanismo” personalista, vincadamente católico. É a sua interpretação do país e diz mais dele do que da Nação.

Os mitos são sempre aquém e além do que necessitamos. Explicam-se a si mesmos, devoram-se na tautologia. Eu sei que sou português de hoje e de aqui, nada mais. Mas isso para mim não é um dado, é um problema. Talvez Pedro Mexia possa instigar o Presidente a um debate nacional, certamente estimulante embora provavelmente inglório, sobre esta temática. Mas ajudaria prescindir de tanta identidade e tanta míngua de questões. Relembro Alexandre O’Neill: “Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo”. Ajudaria se socializássemos a pergunta: Portugal, questão que faremos uns aos outros.»

João Teixeira Lopes
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1 comments:

armandina maia disse...

Belíssimo texto. Conciso, coeso e fulgurante. Três coisas que faltam a Portugal para ser mais que "uma feira cabisbaixa", citando ainda O'Neill.