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24.3.16

A Guerra e a Paz em Bruxelas



«A Europa, ainda mais depois dos atentados de Bruxelas, defronta-se com a sua imagem reflectida pelo espelho. E ela não é bonita.

Faz agora de mártir (porque sente a dor profunda de ataques que apenas desejam matar), mas defronta-se com um inimigo para quem o martírio público é uma expressão da fé religiosa. É uma guerra que a Europa já conheceu e conhece, mas de que evita sempre falar. Até porque hoje a única ideologia da Europa é o euro. (…)

Afinal as atrocidades a que vamos assistindo na Europa nestes últimos anos é a réplica dos terramotos militares em Bagdad, Cabul ou Aleppo. Números gerais: milhões de mortos e de refugiados. Só no último mês os atentados na Síria, Turquia, Somália, Costa do Marfim ou Iraque fizeram centenas de mortos. Ou seja, o valor da vida nunca foi tão miserável. E é esse o centro do problema.

Os ataques de Bruxelas são feitos numa altura em que a Bélgica parecia viver em clima marcial. Por isso ainda são mais surpreendentes. São de uma simbologia perturbadora: acertam no coração da União Europeia, entidade que, na sua fragilidade, mostra o que é este Velho Continente. Ao longo dos anos, paralelamente à criação de uma instituição federal que determina a sorte das nações e dos povos que integram a UE cresceu o epicentro do terrorismo "jihadista" na Europa. Ali tudo o que se conhece foi planeado. O que mostra a fragilidade da segurança num país que alberga a sede das instituições que fazem políticas económicas que atiram milhões de europeus para o desemprego. (…)

Com o medo na Europa, a vítima principal será Schengen. As intervenções militares ocidentais, apresentadas como "humanitárias", para desalojar ditadores e colocar "democratas" como líderes, foi um desastre. Se David Cameron e Nicolas Sarkozy não tivessem ajudado a destruir o estado líbio, o Estado Islâmico não teria encontrado aí um território de referência para as suas actividades. A destruição da Síria aumentou essa dinâmica. Erros brutais que agora se pagam caro. Mas feito o mal, os líderes europeus deveriam agora procurar uma política séria e estratégica para derrotar este terrorismo sem alma ou coração, que só tenta vencer pelo medo. Para isso a Europa tem de responder em diferentes vertentes e não fazendo acordos de circunstância (como fez com a Turquia para acalmar os votantes alemães).

É uma guerra diferente a que estamos a viver. Sem regras. E é neste momento que poderemos ver se temos líderes a sério ou apenas burocratas dispensáveis. E é neste momento que apetece voltar a ouvir "Les Flamandes" de Jacques Brel.»

Fernando Sobral

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