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1.3.16

A UE não aparece no álbum de fotografias



«Pense nos acontecimentos históricos dos últimos 60 anos em todo o mundo. Mais ou menos a partir da segunda Guerra Mundial. Vá, faça um esforço de imaginação. Não, não precisa de saber nada de história. Não é um teste nem um concurso. Não ganha nada mas também não há respostas erradas. É só uma experiência. Comece por onde lhe der mais jeito, ali pelos anos 60 do século passado ou mesmo um pouco mais para trás, ou só depois do 25 de Abril, conforme a sua idade, a sua memória, o seu gosto pessoal e os seus conhecimentos de história.

Pode escolher os acontecimentos que quiser: grandes datas políticas, marcos científicos, revoluções sociais, saltos tecnológicos, choques culturais… Já conseguiu? Está a ver desfilar na sua mente uma série de imagens, como numa daquelas apresentações de documentários televisivos, cheias de imagens a preto e branco? Acrescente as imagens a cores. Podem ser excertos de filmes. Pode juntar documentos, quadros, música (não se esqueça da música). Já está? Está no meio de um turbilhão de recordações pessoais, de recordações importadas dos filmes que viu e dos livros que leu, de discursos e canções, de fotos e de bocados de telejornal, de capas de discos e de manchetes de jornais?

Bom, agora a pergunta: alguma das coisas que evocou tem alguma coisa a ver com a União Europeia? (…)

E havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com os Estados Unidos? Provavelmente havia. É natural. (…)

Havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com um país europeu específico além de Portugal? Com a França, a Itália, o Reino Unido? Ou com a África do Sul, o Brasil, a China? Ou com uma organização internacional? Provavelmente havia. Até a insípida ONU gerou imagens de que nos recordamos: Che Guevara a dirigir-se à Assembleia Geral, Colin Powell a mostrar as “provas” das armas de destruição maciça do Iraque, Malala Yousafzai a discursar, até a (falsa) imagem de Nikita Khrushchev a bater com o sapato…

Será isto importante? É, porque significa que a União Europeia não representa nada, não está associada a nada de particular e, principalmente, não está associada a nada de que nos possamos orgulhar. Significa que a União Europeia, antes e agora, não conquistou espaço nem no nosso coração nem na nossa mente. Não conquistou sequer aquilo a que a gente do marketing chama “share of mind”. Não nos vem à ideia. Não faz parte das nossas narrativas, da nossa história emocional, da nossa história pessoal. Significa que é necessário um violento esforço intelectual para a invocar à nossa memória. Significa que, mesmo quando nos vem à ideia, a UE nos vem pelas más razões, porque nos enfia o pé na porta e nos quer impor a sua vontade, seja a austeridade seja a Europa-fortaleza da xenofobia, mas sem sequer o afirmar de forma clara.

Significa que esta entidade, apesar de condicionar de forma crescente as nossas vidas, não nos mobiliza e não nos inspira. Pelo contrário: cada vez mais, envergonha-nos. (…)

O problema é que a UE não aparece no nosso álbum de fotografias nem cumpre os requisitos mínimos para ser convidada para o nosso próximo aniversário.»

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