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12.3.16

Eutanásia



«A maioria das pessoas toma decisões com base na ideologia, na religião ou nos media. Seria certamente melhor se cada um usasse a própria cabeça com racionalidade. Mas isso é raro. Muito raro.

Neste contexto, o debate público sobre qualquer matéria torna-se extremamente penoso. Não se consegue abordar o essencial e perde-se muito tempo com as mais diversas questões laterais ou irrelevantes. A discussão sobre a eutanásia aí está para o demonstrar. Até ao momento temos algumas declarações "polémicas" de enfermeiros e médicos; seguidas da reação estapafúrdia da Ordem dos Médicos que ameaça processar toda a gente; temos a recorrente defesa da vida divinizada pelos militantes católicos; e o alinhamento ideológico de uns e outros, direita contra, esquerda a favor. Pelo meio fica a barafunda habitual provocada pelas televisões. (…)

Porque se fala então tanto de eutanásia hoje? Por uma razão simples. A extraordinária evolução da medicina nas últimas décadas permite agora combater a maioria das doenças e prolongar a vida até aos 80, 90 e até mais de 100 anos. Não sem consequências perversas. A capacidade de prolongar a vida, por meios artificiais, gera situações incongruentes. Nem se está vivo nem morto, mas o sofrimento subsiste. Chama-se distanásia.

Considero a distanásia um problema muito maior do que a eutanásia. Com a evolução da medicina e das tecnologias da saúde vai sendo cada vez mais frequente prolongar a vida em estados comatosos ou vegetativos. Tal com a distopia está para a utopia, a distanásia está para a eutanásia. É o seu lado negro. (…)

Convenhamos, a morte está no mesmo plano da vida, os direitos têm de ser similares. Bem sei que a maioria das pessoas não gosta de falar do assunto. É um dos maiores tabus das nossas sociedades. Mas na verdade a morte é mais certa do que a vida. Porque esta pode nunca acontecer, mas quando se dá, a morte é garantida.

Por isso tal como existem médicos que praticam os partos, ajudando a antecipar, facilitar, garantir que corre bem, também na morte devemos ter profissionais preparados para assistir quem deseje pôr fim aos seus quinze segundos de fama e brilho.»

É para aí que vamos, por muito que isso assuste algumas pessoas. Na Europa já existem clínicas especializadas na assistência à morte. Na Holanda, Bélgica, Suíça e Luxemburgo onde a prática é legal. No futuro, elas existirão por todo o lado. Nasceremos numa clínica e iremos morrer noutra. Porque é da natureza humana querer acabar sem sofrimento nem mágoa.»

Leonel Moura

1 comments:

C.C. disse...

Joana, no Google assino CC, no face assino maria cancela; e comecei assim:

"A banalidade em que se está a transformar um assunto sério!
Na verdade o texto diz mais que o destaque mas, como lhe disse, entendi que o destaque diria o essencial do texto.O autor do texto coloca bem a questão da eutanásia e necessita de discussão; concordo em absoluto.
Pessoalmente também não tenho um conhecimento aprofundado como gostaria,mas, com a experiência e conhecimentos que possuo, não sou sua defensora.Defendo afincadamente a expansão dos "Cuidados Paliativos"e princípios mais flexíveis e mais rigorosos nas atitudes de recuperação da vida (distanásia); há muito para fazer aí.
Não gosto de colocar a questão como política de Dta ou Esq nem de a associar à IVG. Sou por esta, a ária política onde me situo e já vem do tempo da "outra senhora" não tem nada de Dta e com os conhecimentos que tenho não defendo a eutanásia.
Era só isto que lhe queria dizer. Há bocado estava com muita pressa.