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6.3.16

Garcia Márquez, 06.3.1927



Gabriel Garcia Márquez faria hoje 89 anos e morreu em 2014. Foi certamente um dos escritores da minha vida e, durante muitos anos, respondia à tal pergunta parva sobre o livro preferido entre todos referindo Cien años de soledad. Em espanhol, sim, porque não esperei pela tradução para o ler, assim que saiu em 1967. Não sei se foi o «melhor livro escrito em castelhano desde Quixote», como terá dito Pablo Neruda, mas para mim foi um marco inesquecível.

Pelo caminho, ficaram Os Funerais da Mamãe Grande, O Outono do Patriarca, O Amor nos Tempos de Cólera e muitos outros. Até que, em 2002, me precipitei de novo para a primeira edição, em espanhol, de Vivir para contarla, relato romanceado das memórias da infância e juventude de GGM. A prometida continuação nunca veio (o que foi anunciado como um primeiro volume pára em meados da década de 50). Releio hoje o que escreveu como epígrafe do livro: «La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla.»

Foi nesta cama dos avós, em Aracataca, que veio ao mundo. Estive lá em 2012, sempre à espera de encontrar algum membro da família Buendía ao virar de uma esquina, um qualquer José Arcádio ou um dos muitos Aurelianos… Foi em Aracataca que se inspirou para criar a mítica aldeia de Macondo, de Cem anos de solidão.

Em rigorosa «peregrinação», fiz um desvio de dezenas de quilómetros para chegar a essa localidade, hoje com 45.000 habitantes, feia e infelizmente desmazelada, que não honra como devia o que de mais importante deu ao mundo (a não ser pela boa conservação precisamente na moradia em que «Gabo» nasceu,
actualmente transformada num pequeno museu que justifica, sem dúvida, a deslocação e a visita).

«Gabo» foi pela última vez a Aracataca em 2007, para uma tripla comemoração: dos seus 80 anos, do 40º aniversário da publicação de Cem anos de solidão e do 25º da atribuição do Nobel da Literatura.

Ficam duas referências:

– No Notícias Magazine de 28.04.2013, Ricardo J. Rodrigues publicou uma belíssima crónica sobre a estadia de Gabriel García Márquez em Lisboa, em Junho de 1975, o que pensou, por onde andou, com quem esteve. O texto está online.

– Um pequeno fragmento da descrição da morte de José Arcadio Buendía em Cien años de soledad:
«Entonces entraron al cuarto de José Arcadio Buendía, lo sacudieron con todas sus fuerzas, le gritaron al oído, le pusieron un espejo frente a las fosas nasales, pero no pudieron despertarlo.
Poco después, cuando el carpintero le tomaba las medidas para el ataúd, vieron a través de la ventana que estaba cayendo una llovizna de minúsculas flores amarillas. Cayeron toda la noche sobre el pueblo en una tormenta silenciosa, y cubrieron los techos y atascaron las puertas, y sofocaron a los animales que durmieron a la intemperie. Tantas flores cayeron del cielo, que las calles amanecieron tapizadas de una colcha compacta, y tuvieron que despejarías con palas y rastrillos para que pudiera pasar el entierro.»

1 comments:

Monteiro disse...

Tenho bocados do livro Cem anos de Solidão espalhados por todo o lado, cá está a página 86 onde o padre Nicanor aproveitou a circunstância de ter sido ele a única pessoa que pudera comunicar com José Arcádio Buendia para tratar de infundir a fé no seu cérebro transtornado...e as provas da existência de Deus que o padre lhe levou eram medalhas e figurinhas e até uma reprodução do pano de Verónica, mas José Arcádio Buendia repeliu-os por serem objectos artesanais sem fundamento cientifico..
Gabriel Garcia Marquez viveu em casa de Fidel e foi embaixador itinerante de Cuba por vários anos. Agora para o fim da vida acho que o domesticaram e até o João Manuel Santos (custa-me a escrever este nome) decretou 3 dias de luto oficial, coisa que Cavaco não teve a nobreza ou honradez ou sensatez de fazer a Saramago e levou o João Manuel Santos (custa-me tanto a escrever este nome) e foi-lhe mostrar o pavilhão português na feira do livro de Bogotá (seria lá?) e mostrou-lhe os Lusíadas como se ele fosse um entendido na matéria.
Raul Castro escreveu a Mercedes sobre a morte do Gabo e acho que não houve correspondência…a vida é muito cansativa e vai-nos deixando debilitados e os ciúmes de Fidel deixaram marcas que os anos não sararam mas isso é outra história e uma coisa que aprendi com Gabriel Garcia Marques no “Viver para Contarla” foi reduzir sempre o número de palavras para descrever algo.