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16.3.16

O cerco ao Governador



«Clint Eastwood interpretou uma vez o papel de um agente de segurança do Presidente dos Estados Unidos. Numa das cenas ele confundia o ruído de um balão a rebentar com uma detonação.

Aí saltava para cima do Presidente para o proteger. Desfeito o equívoco, o chefe de segurança repreendeu Clint, porque teria colocado em ridículo o Presidente. Clint retorquia: "Creio que estávamos aqui para salvar a sua vida." Ao que o chefe lhe chamava a atenção: "Sim, mas também a sua dignidade." As recentes detonações à volta do governador do Banco de Portugal já são mais do que meros balões a rebentar. São inequívocos sinais de alarme. Carlos Costa caiu ao mar e, na classe política, tem apenas como bóia de salvação o PSD de Passos Coelho. Como a própria Maria Luís Albuquerque deixou de poder emitir opinião a seu favor, porque ela própria tem de pensar na sua própria pele, Carlos Costa defronta-se com a sua própria sombra. Na mesa do seu gabinete não há agora postais de amor. Existem apenas SMS a pedir que disponibilize a cadeira onde se senta.

O elogio fúnebre que Paulo Portas lhe fez no congresso do CDS foi apenas o último capítulo de uma novela que já cansa. Não há aqui nada de maquiavelismo: há apenas a constatação de que a recondução do governador do Banco de Portugal foi um gesto extemporâneo. Uma missão impossível que Carlos Costa aceitou. O problema continua a ser o pântano onde se vão enterrando, sem honra nem glória, problemas sucessivos: o BES/Novo Banco, o Banif, o célebre banco de José Veiga. Não basta ao Banco de Portugal ter o estatuto de independência se a sociedade política desconfia da sua capacidade para resolver os sérios problemas do sector financeiro português. Ou espanhol, se quisermos. É preciso que ele seja o garante sóbrio da estabilidade e do rigor das veias onde circula o oxigénio da economia portuguesa. Clint Eastwood não está disponível para salvar Carlos Costa das balas políticas. E, por isso, era bom que o Governador pensasse no seu futuro.»

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