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22.3.16

O grande jogo da Turquia



«Depois do acordo com a Europa por causa dos migrantes e do novo atentado em Istambul, a Turquia volta a estar no centro da política europeia e do Médio Oriente.

Há alguns séculos o Império Otomano teve, nas suas mãos, o destino do Ocidente. Agora é a Turquia que tem parte da frágil solução para o problema dos refugiados e migrantes que a Europa se tem esforçado por dilatar a resolução. O acordo entre Ancara e Bruxelas tem tudo para recentrar o conflito no Médio Oriente, potenciar novas alianças e colocar a Europa numa posição de fragilidade face à Turquia como seria inimaginável desde que esta tenta entrar na União Europeia. Como pano de fundo temos ainda a guerra na Síria, a questão do estado curdo e a redefinição das grandes alianças na região. Demasiadas pedras para um tabuleiro de xadrez muito complicado. Com uma Europa incapaz de gerar consensos perante uma crise destas (que se junta à orçamental e à derivada da austeridade), onde a sua própria força militar é posta em causa, a Turquia mostra a sua força num delicado momento interno de confronto entre os aliados do Presidente Erdogan e os "secularistas". Se a Turquia se compromete, em troca de um orçamento de seis mil milhões de euros, a "controlar" o fluxo de migrantes, por outro lado a Europa abre parte das portas para uma futura entrada de Ancara na UE. Mas, por outro lado, como têm provado sucessivos atentados em Istambul e Ancara, a Turquia está cada vez mais contaminada pela guerra na região. Quer os curdos do PKK quer o Estado Islâmico são cada vez mais faces díspares de um conflito sem fronteiras. Por isso Erdogan tem vindo a aumentar o seu raio de acção diplomático.»

Fernando Sobral

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