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20.3.16

Pobre Brasil rico



«O Brasil está à beira de uma guerra civil. Sobretudo porque desta vez um golpe militar não ficará sem resposta popular, num contexto em que as elites exprimem com frontalidade o ódio aos pobres e a sua oposição a qualquer política social.

O argumento maior da campanha contra Dilma, Lula e o PT é a corrupção. Mas trata-se de uma desculpa. A corrupção no Brasil é transversal, cultural, afetando todo o campo político sem exceção. Numa lógica matemática. Quem está no poder aproveita, quem está na oposição é contra. Como alguém disse, com uma ligeira diferença: a direita rouba e fica com tudo; a esquerda rouba mas distribui alguma coisa.

Sucede que muito provavelmente a corrupção no Brasil não é superior à que sucede em tantos outros países e, em boa verdade, a que vai pelo mundo. Convenhamos. A corrupção não é um desvio do sistema, mas um mecanismo essencial da dinâmica capitalista. Pode ser mais primitiva ou mais sofisticada mas está presente em muitos atos das empresas e dos governos. A vasta maioria dos negócios não se faz sem alguma forma do que podemos perfeitamente chamar corrupção. (…)

De qualquer modo o que se passa no Brasil tem pouco a ver com corrupção. Trata-se de política. Pura, dura e suja. A direita não aceita as sucessivas derrotas eleitorais e quer regressar ao poder o mais depressa possível. A bem ou a mal. Nem que seja preciso recorrer a um golpe militar já que o judicial está em curso. (…)

Contudo dois outros aspetos da crise brasileira são particularmente chocantes. O comportamento das elites económicas e a cegueira de alguma gente intelectual e que se diz de esquerda.

Choca assistir à indigência cívica, democrática e moral de muitos ricos que, no essencial, protestam pelo facto do PT de Lula e Dilma terem tirado milhões de brasileiros da miséria. (…) Choca também o racismo em manifestações praticamente só de brancos num país de maioria não-branca. (…)

Mas não deixa também de ser chocante ver tanta gente, supostamente civilizada, culta e que até se pensa de esquerda, juntar-se à turba fascista, confundindo povo com uma elite sórdida. Definitivamente estão a semear ventos. Esperemos que não sejam colhidos pela tempestade se ela aí vier.»

Leonel Moura

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