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21.4.16

Os limites de Portugal



«Quando o célebre diplomata austríaco, Metternich, se encontrou com Napoleão, para lhe delimitar os seus desejos, disse-lhe: "Entre as aspirações da Europa e os vossos desejos, há um abismo. O mundo tem necessidade de paz." A paz da Europa Central, é claro.

E não a de Napoleão, que tinha de se contentar com os seus limites naturais, os Pirinéus, o Mar do Norte e o Mediterrâneo e os Alpes. Napoleão teve de ceder. Tal como hoje Portugal face a uma UE que já desenhou, a régua e a esquadro, os limites deste país periférico. Onde estão definidos os princípios de tornar a banca uma dependência de Madrid e as regras sobre o que cada Governo pode fazer, ou não, em termos de OE.

E, claro, ficou estabelecida uma linha vermelha sobre a nossa ligação a Angola. Um "inimigo público" que parecia só ter um destinatário quando a Comissão Europeia aprovou o Regulamento 575/2013, onde estavam os países com regras de supervisão equivalentes às da UE. Onde não constava Angola. O governo português da altura fechou os lábios como sempre. E o destino da ligação bancária de Portugal a Angola ficou traçado. É por isso que a intervenção de Marcelo e de António Costa, mudando as regras a meio do jogo, e encostando Isabel dos Santos a um canto sem saída, mostra como os Metternich de hoje tratam quaisquer rebeliões. A dura realidade de quem manda está aqui, por detrás das nuvens de fumo: estando na Zona Euro dificilmente, sem poupanças internas, teremos um banco de capital português. E a CGD também está na mira da UE, o que acabaria com o derradeiro braço armado do Estado. Os limites naturais do nosso país, como protectorado ou outra coisa qualquer, ficaram definidos neste caso. O que é triste. Porque o BCE e a CE tratam Portugal como uma direcção-geral e Angola como um território sem lei. Ao mesmo tempo colocam Portugal e Angola em rota de colisão. O que é grave. Como exemplo da acção da "Europa comum" e "solidária" estamos explicados.»

Fernando Sobral

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