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28.6.16

As pessoas gostam de se orgulhar das suas escolhas



«Ainda as urnas não arrefeceram e a discórdia e o azedume já se instalaram no RU e fora do RU, entre a esquerda e a direita, na esquerda e na direita, entre os tories e os labourites, entre os tories e entre os labourites, entre Bruxelas e Londres, em Cardiff e em Edimburgo, em Dublin e em Belfast, entre os leaves e os remains, entre os leaves que queriam sair e os que afinal não queriam, entre os remains que queriam ficar mas que sempre disseram que era melhor sair, entre os jovens e os velhos, os educados e os mal-educados, os citadinos e os camponeses, os londrinos e os outros todos, entre uns e outros e entre todos e os outros.

Era de esperar que, se se verificasse uma vitória do Brexit no referendo britânico, contra a expectativa da maioria dos peritos, o efeito fosse o de um terramoto de grau 8. Foi o que aconteceu. Só que, aparentemente, ninguém esperava que o Brexit ganhasse mesmo, a começar por muitos dos seus próprios apoiantes. (...)

E britânicos seriíssimos, formados em boas escolas, nascidos do pai e da mãe da democracia, dizem que o voto deles devia contar mais e que é uma injustiça que não conte porque são mais novos e têm mais educação e vivem em cidades e há uma quantidade de velhos com mais de 50 anos e com menos estudos e que até vivem no campo que votaram pelo Brexit e o voto deles conta a mesma coisa e já se viu tamanha injustiça? (…)

Há inúmeras lições a retirar deste referendo e existem para todos os gostos. Uma coisa a notar é o facto de uma maioria de cidadãos britânicos ter decidido votar num sentido contrário ao apontado pelas elites do país e pelas elites do resto do mundo. Chama-se democracia e é algo que pode ser extremamente irritante. (…)

Partindo do princípio de que as pessoas não são todas parvas e que sabem que as promessas não são todas sérias, parece mais plausível considerar a possibilidade de muitos britânicos não terem apreciado o tom de chantagem a que foram submetidos pelas suas elites, pelos patrões, pelos eurocratas, pelos banqueiros e até por Obama. É curioso ler depoimentos de votantes do Brexit e constatar que são raros os que esperam maravilhas. Pelo contrário, sabem que os esperam anos difíceis, mas esperam ter o benefício de controlar os seus destinos. Há aqui soberanismo xenófobo? Em certos casos sim. E em muitos outros há um desejo de democracia que a UE não consegue satisfazer nem consegue perceber. (…)

Penso que, se Juncker tivesse sido despedido pelo Parlamento Europeu em 2014, na sequência do LuxLeaks, isso teria mostrado que havia algum sentido de decência em Bruxelas e poderia ter dado um argumento ao Remain e alguma alma à UE. Mas até o Parlamento Europeu, que gosta de se considerar a “consciência democrática” da UE, preferiu chumbar o voto de censura contra Juncker apesar dos seus esquemas “controversos” de evasão fiscal, como que para provar que dali não viria a salvação.

Juncker já prometeu que o divórcio UE-RU não seria amigável. Há sede de vingança na UE. Juncker parece empenhado em mostrar que a UE é dirigida por pessoas pouco recomendáveis. Será assim tão estranho que tantos tenham escolhido sair?»

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