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17.7.16

A ode à tristeza europeia



«Haja ou não "sanções zero", o sonho europeu adormeceu em Portugal. Podemos ter ganho o campeonato da Europa, mas os ministros do Ecofin, liderados pela figura do ministro Schäuble, um Bismarck de série Z, trataram de refrear a euforia portuguesa.

Conseguem admitir, relutantemente, que os portugueses vençam no futebol, mas não estão dispostos a cercar a possibilidade de oxigenarmos o nosso futuro. (…) Nem a comoção do Brexit, nem o cataclismo que pode fazer implodir a banca italiana, nem a falta de qualquer política comum sobre a emigração que vem de África, afastam a noção de "punição" que um desvio de 0,2% do OE merece aos olhos de Bruxelas. É preciso dar um exemplo!, pensam os burocratas que vão abrindo um fosso cada vez maior entre os cidadãos, arredados de decisões que influem na sua vida, e os burocratas da UE que, à primeira oportunidade, buscam um emprego mais vetusto, quiçá no Goldman Sachs. (…)

A ideia de unidade europeia colapsou. Afinal a longínqua ideia de um só Estado desapareceu e sobrevivem, aos soluços, a Zona Euro (escudada no Tratado Orçamental e nos interesses da Alemanha) e o espaço Schengen. É pouco. (…) Era um sonho tremendo para evitar a guerra na Europa e para unir política e economicamente culturas e povos tão diferentes. A Europa, depois, não se deu bem com a globalização e a revolução tecnológica. Perdeu o estatuto de farol moral da democracia. E está a ver desmoronar-se o Estado social.

No fundo, a UE liquidou o contrato social que era o seu eixo. Em vez de apoiar os que saíram mal da crise (dos países aos excluídos e desempregados), pune-os com políticas económicas que os enterram ainda mais. 300 mil milhões de euros depois, o que é da Grécia? Os que perderam com a globalização, e com a austeridade de Bruxelas, rebelam-se cada vez mais. Não admira o Brexit. Ou a deriva radical em muitos países. As sanções não são um incentivo, ao contrário do que diz Schäuble. São mais um prego no caixão da UE. Já não há "Ode à Alegria". Só há uma ode à tristeza.»

Fernando Sobral

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