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25.7.16

Burro-em-pé



Conversa a várias vozes numa casa de pasto do Poço do Bispo, Lisboa.

- Jogo, quê? Mas alguma vez foi o jogo, o burro-em-pé? 
- Se serve para apostar é jogo. 
- Mas quais apostar, quais joão! Com que ver, com que moral é que você ia apostar num jogo de crianças? 
- Aí é que está. 
- Além de que nunca foi jogo, caraças. Burro-em-pé nunca foi jogo. 
- Nem burro. Burro-em-pé é palhaço. 
- Bem visto. 
- Não é vaza, não é bisca, não é coisa nenhuma. 
- É roda de putos... 
- É baralho no ar... 
- ...Velhadas a zurrar. 
-  Velhadas, quê? 
- Deixa dizer, pá. É cuspo, é dedo, reinação pra engonhar. 
- É moinho de cartas, adivinha a feijões. 
- Burro-em-pé é paciência... 
- ...Debicar por debicar. 
- É brinquedo... 
- Entretém... 
- ... Pró vizinho e prá criança. 

«Tem-se dado muita desgraça nas brincadeiras das crianças, sim senhor» - disse a mulher que coçava a cabeça e comia carapaus, encostada ao balcão.

José Cardoso Pires, O burro-em-pé, Moraes editores, 1979.
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