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31.7.16

Desfoque



«Como há-de alguém perceber a Europa? Como há-de alguém perceber que, no mesmo dia em que um padre é degolado pelo ISIS no norte de França, em Bruxelas a preocupação central seja debater e decidir sobre penalizações a aplicar a Portugal e Espanha? O resultado da discussão, após semanas de intrigas, ameaças e burburinho, com todo o mérito dos envolvidos, foi que a multa é zero - vamos a ver se a coisa fica por aqui ou se ainda há mais trapalhadas. Mas a questão fundamental é esta: a Europa ficou refém da morte anunciada pelo ISIS, de atentados que se repetem, de sobressaltos no dia-a-dia dos cidadãos. O problema principal da Europa é político, tem que ver com decisões que vão além do défice, tem que ver com a sua relação com os seus cidadãos. A Comissão Europeia continua a achar que a sua missão é vigiar o Pacto de Estabilidade, apesar de, literalmente, todos os dias lhe rebentar uma bomba nas mãos, que mata inocentes e agrava a insegurança. Qualquer dia, o Pacto de Estabilidade pode estar a ser cumprido a 100%, mas entretanto o terror dominou a Europa. Sobre o que se passa na Turquia, nota-se que significativamente não surge nem uma palavra.

A Europa é uma entidade muito mal gerida do ponto de vista político e, do ponto de vista económico, os maus resultados estão à vista na falta de crescimento, na ruína do sistema financeiro, no próprio Euro. Com um desgoverno assim, não admira que haja quem dele queira sair. Sobre isto, sobre a política na Europa, não há reflexão séria transnacional, apenas se vêem fundamentalistas de opereta como Dijsselbloem a falarem sobre fantasias, e Junckers de humor variável a ensaiar represálias aos ingleses. O maior problema está na falta de uma atitude clara da Europa perante as ameaças que a atacam todas as semanas. A casa está a arder e há quem pense no que deve ser a sua decoração, mesmo quando as salas já estão em labaredas.»

Manuel Falcão

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