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29.7.16

Esquerda volver



«O Presidente Marcelo não se cansa de afirmar que Portugal está pacificado. Não há sinais de crispação política na população. E é verdade. O povo está sereno. Mas isso não significa que o país não esteja cada vez mais dividido entre esquerda e direita.

A saga das sanções demonstra-o na perfeição. A esquerda resistiu com tenacidade às pressões de Bruxelas, enquanto a direita desejou o pior para o próprio país. (…) Cansa não ouvir uma única proposta séria, um estímulo, um entusiasmo. Como se a desgraça fosse o único destino possível e para muitos desejável, desde logo para que se possa reivindicar que se teve razão. (…)

À esquerda põe-se, portanto, a questão de saber se se deve manter o rumo sereno da atual coligação ou virar um pouco mais à esquerda. Com isto significando para já duas coisas. Distribuir melhor a riqueza produzida pelo país, acabando com a benevolência fiscal e os benefícios dos grandes grupos económicos e dos ricos em geral, e aprofundar o caráter público e tendencialmente gratuito sobretudo na educação e na saúde. (…)

Espera-se pois que o PS esteja preparado para enfrentar o verdadeiro poder das nossas sociedades. Desde logo os famosos mercados, mas também os potenciais investidores e os empresários em geral. Basta ouvir as declarações das respetivas associações para se perceber que rejeitam qualquer alteração. São contra a redução do horário de trabalho, a mera reposição dos vencimentos na função pública, o magro aumento do salário mínimo. E, no entanto, a realidade demonstra que o sistemático benefício do capital não tem representado nenhuma melhoria das condições de vida e nem sequer do próprio sistema, a começar pelo bancário que vai de falência em falência com tanta incompetência e descarado roubo.

A esquerda, que atravessa o seu melhor momento desde o 25 de Abril, deve ter a coragem e engenho para realizar mudanças profundas sobretudo no sistema fiscal e no fortalecimento do serviço público. Se não o fizer, perde uma grande oportunidade. Não há que ter medo. A ousadia é bem melhor.»

Leonel Moura

1 comments:

José Corvo disse...

Nunca Portugal teve um governo tão bom como este, nem mesmo com Vasco Gonçalves porque lhe faltava força política.