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25.7.16

Euro, o Titanic do bloco central



«O actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem feito repetidamente uma proclamação antidemocrática inaceitável, ao afirmar que nunca autorizará qualquer referendo que questione a União Europeia. A explicação para esta obsessão é simples. Para quem não se lembre ou não saiba, convirá recordar que os grandes responsáveis pela adesão e integração desastrosa de Portugal na Zona Euro foram, precisamente, Marcelo Rebelo de Sousa (então presidente do PPD/PSD) e António Guterres (então primeiro-ministro e secretário-geral do PS), além do então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio (ex-secretário-geral do PS), todos na esteira do então ex-primeiro-ministro e “grande timoneiro” Aníbal Cavaco Silva (ex-presidente do PPD/PSD). Não espanta, por isso, que todos eles tenham fugido, por exemplo, da possibilidade de referendar o sinistro Tratado de Maastricht, que instituiu a União Europeia em 1992, e continuem a fugir, como o diabo da cruz, de qualquer referendo que questione a nossa presença no “colete-de-forças” da Zona Euro - ou questione esse tratado intergovernamental mais conhecido como “Pacto Orçamental”, que é um autêntico pacto de austeridade perpétua contra a democracia. (…)

O muito controverso Milton Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, escreveu em 1999: “O que mais me perturba é que os membros do euro tenham atirado fora as suas chaves. Assim que o euro substituir fisicamente as moedas nacionais, como é que se sai desse mundo? Será uma crise imensa”. E avisava: “Os defeitos do euro levarão algum tempo a aparecer. Nada surge rapidamente nessa área. (…) O sistema político dificilmente reagirá com rapidez bastante (a uma recessão) para acabar com o euro. Por isso, julgo que seria muito conveniente pensar seriamente na elaboração de uma forma de sair da camisa-de-forças do euro depois de 2002”. Ninguém pensou. E “o euro devia ser abandonado antes de 1 de Janeiro de 2002”. Não foi. (…)

Em conclusão: Portugal nunca deveria ter aderido ao euro, mas aderiu, e hoje está metido na tal “camisa-de-forças” de que falava Milton Friedman (ao menos desta vez cito-o por concordar com ele). E o que é dramático é que as consequências seriam sempre as que estamos a sofrer agora, mesmo que a meia dúzia de governos que entretanto se sucederam no poder não tivesse cometido quaisquer erros. Porque o nosso destino já estava traçado pelo euro.»

Alfredo Barroso

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