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21.8.16

A era da política Pinóquio



«Aristóteles desenhou o primeiro mapa da ética e, por isso, também da política. Hoje, quando pensamos no que nos legou, não deixamos de ficar arrepiados. A ética ou a verdade são hoje valores insolventes no círculo do poder. Basta olhar à volta. Não deixa de ser curioso como se começou entretanto a discutir a política "pós-verdade" que começa a entranhar-se nas sociedades ocidentais. Há dias, Steve Richards, no Guardian, discorria sobre o tema, sobretudo a partir da evidência da chegada à política de "outsiders" que conquistavam espaço através de argumentos que, obviamente, não são verdadeiros. Olhava de resto para o que sucedeu no Brexit ou no que está a acontecer nos EUA com Donald Trump. (…)

O certo é que os partidos (e os núcleos duros que os controlam) estão fragilizados. Num mundo global e de poderes repartidos, os políticos, quer à direita quer à esquerda, sentem-se perdidos no labirinto das verdades e mentiras. Porque tendo de prestar contas ao eleitorado vivem num constante nevoeiro. Porque o que dizem que vão fazer nem sempre corresponde ao que podem fazer. E, assim sendo, quem não tem pejo em atirar a verdade para o caixote do lixo está à vontade para conquistar território. Quando se escuta Donald Trump a dizer que vai construir um muro (ainda mais alto) na fronteira com o México, que poderemos dizer? Os debates, com tudo isto, infantilizaram-se. São exercícios de "soundbytes" e slogans sem substância. E com isso quem está a perder é a democracia e os próprios cidadãos. (…)

Tudo é entretenimento. E isso tem muito que ver com a superficialidade reinante (basta ver a televisão portuguesa) e o "harakiri" dos círculos de poder. Enquanto a classe política fala para si própria (veja-se a quantidade de políticos no activo vestidos de "comentadores", a ocupar horas sem fim nas televisões portuguesas), os Pinóquios da política "pós-verdade" vão conquistando lugares na "pole position" para a mudança. As meias-verdades, ou "inverdades" estão a criar um novo paradigma político. E a austeridade, o desemprego e o renascer do nacionalismo face à globalização estão a contribuir para isso. E há quem não veja a realidade.»

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