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11.8.16

Globalização desconectada



«Embora aparentemente elegante, em teoria, a globalização sofre na prática. Essa é a lição do Brexit e da ascensão de Donald Trump, nos Estados Unidos. E também está na base da cada vez mais virulenta reacção contra a China que se estende, agora, a todo o mundo. Aqueles que veneram o livre comércio – incluindo eu – devem enfrentar esta desconexão gritante. (…)

Nos Estados Unidos, a ascendência de Trump e a tracção política adquirida pela campanha do senador Bernie Sanders nas primárias reflectem muitos dos mesmos sentimentos que levaram so Brexit. Da imigração à liberalização do comércio, as pressões económicas sobre uma classe média sitiada contradizem as promessas centrais da globalização. (…)

Naturalmente, esta não é a primeira vez que a globalização enfrenta problemas. A globalização 1.0 - o aumento do comércio global e dos fluxos de capitais internacionais que ocorreu no final do século XIX e início do XX – chegou ao fim entre a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão. O comércio global diminuiu em cerca de 60% entre 1929 e 1932, com as grandes economias a virarem-se para dentro e a abraçarem políticas comerciais proteccionistas, como a lei americana Smoot-Hawley, de 1930. Mas os riscos podem ser maiores se a poderosa globalização de hoje tiver um destino semelhante. Em contraste com a Globalização 1.0, que estava largamente confinada ao intercâmbio transfronteiriço de bens tangíveis, o alcance da Globalização 2.0 é muito mais amplo, incluindo o comércio crescente de muitos dos chamados intangíveis - outrora serviços não transaccionáveis.

Da mesma forma, os meios da Globalização 2.0 são muito mais sofisticados do que os da sua antecessora. A conectividade da Globalização 1.0 ocorreu através de navios, ferrovias e veículos motorizados. Hoje, esses sistemas de transporte são muito mais avançados - reforçados pela internet e pela melhoria das cadeias de abastecimento globais. A internet também permitiu a disseminação transfronteiriça instantânea de serviços baseados no conhecimento, como programação de software, engenharia e design, avaliação médica e contabilidade, trabalho jurídico e de consultoria.

O contraste mais nítido entre as duas ondas de globalização está na velocidade de absorção e disrupção da tecnologia. Têm sido adoptadas novas tecnologias da informação a um ritmo anormalmente rápido. Só foram precisos cinco anos para 50 milhões de domicílios dos EUA começarem a navegar na Internet, enquanto que foram necessários 38 anos para que um número semelhante tivesse acesso a rádios. (…)

. A formulação de políticas mais adequadas deve ter em conta as pressões poderosas que recaem agora sobre um conjunto muito mais amplo de trabalhadores. A hiper-velocidade da Globalização 2.0 sugere a necessidade de apoios mais rápidos e de maior alcance para a requalificação profissional dos trabalhadores, subsídios de deslocalização, assistência na procura de emprego e subsídios de desemprego com duração superior.

Como nos adverte a história, a alternativa – seja o Brexit ou o novo isolacionismo dos Estados Unidos - é um acidente prestes a acontecer. Cabe aos defensores do livre comércio e da globalização evitar esse cenário, através de soluções concretas que resolvam os problemas muito reais que afligem tantos trabalhadores.»

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