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29.9.16

Memória e espelhos: faltam-nos!



«A desvalorização relativa do país ocorre lentamente, e é da nossa responsabilidade. Vai agravar-se, enquanto não tivermos a microeconomia das empresas ricas, competitivas no mundo, lucrativas e de altos salários. É muito favorável para os estrangeiros comprar de novo em Portugal: os preços relativos são fantásticos. As férias dos portugueses, na época do crédito abundante, e da cultura de que "havia vida para além do défice", às ilhas e resorts prazenteiros da América Central e do Sul justificavam-se pelos baixos salários dessas economias pobres. Agora temos o oposto: o estrangeiro invade-nos, porque embaratecemos. O preço crescente dos bons ativos imobiliários, aproveitado, e bem, pelos aforradores dos países estrangeiros atirará a classe média para fora das melhores zonas das cidades. As férias e a habitação poderão não vir a ser o que foram.

Perdemos um passado dos centros de decisão nacional (políticos, sociais e económicos) e de bem-estar relativo. Não o substituímos por nada de novo. Governa-se o país como se estes se pudessem reconstituir, ou como se ainda existissem. Fomos ultrapassados pela montanha de dívida pública e privada. Não se quer reconhecer esta revolução. O verdadeiro desastre nunca será um novo resgate, seja de que natureza for. É a lenta agonia da sociedade que depaupera, sem se dar conta dos males que a afligem.

O exterior vai invadir-nos e tomar posse do melhor de Portugal. O reequilíbrio económico só pode ser este. Quando não houver ricos, nem os remediados puderem viajar para a Europa e os EUA, a velha Europa e a globalização serão responsabilizadas.»

Jorge Marrão