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24.10.16

O marxismo do PSD



«Pode dizer-se que um partido está em bancarrota existencial quando o seu líder e um ex-candidato a chefe se colocam no camarote dos irmãos Marx e começam a repartir entre si os papéis destes.

As duas entrevistas, de Passos Coelho e de Aguiar-Branco, na sexta-feira, mostram que ambos gostariam de ser Groucho Marx. Passos Coelho fica-se, com a sua bondade muda e catastrófica, utilizando buzinas de bicicleta que já ninguém consegue ouvir, por ser Harpo. Aguiar-Branco, mais militante, só consegue ser Chico, conhecido pelo seu falso sotaque italiano. Este prefere sovar tudo o que mexe. São duas facções marxistas dentro do PSD que temos de respeitar. Passos Coelho repete o seu discurso de há um ano, onde só se fala de macroeconomia e se esquece o desemprego, a pobreza ou a esperança. É uma buzina ensurdecedora. Já Aguiar-Branco, transformado em ideólogo do marxismo passista, prefere a contundência: "Debaixo da pele de cordeiro social-democrata, António Costa é um lobo marxista."

Escondam as avozinhas e as criancinhas! E os porquinhos, porque estes também não têm onde se esconder! Ficamos descansados: Aguiar-Branco confessa que nunca será "o António Costa do PSD". Não será, porque em vez de ir combater para ser presidente de uma Câmara Municipal (coisa onde deveria dar o exemplo, como líder nacional) vai antes concorrer a uma Assembleia Municipal. Assim nunca será Costa. Nem Brutus. O que sossegará Passos Coelho. Afinal depois de descobrir que António Costa é um "lobo marxista", que devora sociais-democratas ao pequeno-almoço, Aguiar-Branco poderá quanto muito candidatar-se a pequeno ou médio intelectual do PSD. Porque ele vislumbra algo impossível de descobrir: Costa pode ser acusado de muitas coisas, mas de ser um lobo marxista é um manifesto erro de óptica. Com mais facilidade, Aguiar-Branco pode ser acusado de ser marxista (facção Chico ou, se nos esforçarmos muito, Harpo). Porque aquilo que debita na entrevista mostra o problema do PSD: a falta de ideias para ser uma alternativa credível.»

Fernando Sobral