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28.11.16

A união de interesses



«Num mundo que sonha com a mão invisível da economia, Marcelo Rebelo de Sousa é a mão visível que abana o berço onde o Governo comemora um ano de vida.

É o abono de família de António Costa e da sua grande aventura: ter ganho várias batalhas perdendo umas eleições legislativas. Costa, que as sondagens aplaudem, venceu a batalha das expectativas e das percepções. Criou uma fórmula de poder de que a aritmética pura desconfiava. E empurrou a oposição, especialmente o PSD de Passos Coelho, para um labirinto onde este se tem perdido com bravura da suicidária carga da Brigada Ligeira. (…)

É isso que Marcelo reconhece, quando louva a "estabilidade política", abraçando a coligação. O PR sabe que os frutos para qualquer mudança estão longe de estarem maduros. Este ainda não é o tempo de desavenças visíveis entre PS, BE e PCP. E o PSD precisa de mudar para ser um parceiro audível para uma mudança. António Costa sabe que o acordo à esquerda não é para arrogantes nem para humildes. E a impaciência deve ser gerida a contento. Fazer um acordo é compreender os limites do poder e fazê-lo compatível com os limites dos que acordam algo contigo. É esta estabilidade que foi possível e que tem conquistado os cidadãos. Há sombras no horizonte: sem investimento não haverá riqueza futura; sem contas públicas certas a fraqueza será sempre real; as ameaças externas são variadas, da Europa às agências de "rating". A união de interesses de Marcelo e Costa tem, a prazo, amarras fortes: a estabilidade política e o diabo comum, Passos Coelho. É suficiente.»

Fernando Sobral