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10.12.16

Por que estamos a andar para trás



«Várias coisas que sempre defendi, prezei e considerei importantes na vida política das democracias europeias estão em profunda crise e não penso que sejam capazes de sair dessa crise tão cedo. É o caso da emancipação da vida política democrática do dilema esquerda-direita, do centrismo e da moderação “central” que partidos do centro-direita e do centro-esquerda traziam às democracias, isolando os extremismos, é a aceitação de que as políticas em democracia são pela sua própria natureza plurais e resultam de uma escolha livre e não da imposição do “não há alternativa”, e que, num certo sentido, os eleitores podem, por tentativa e erro, “experimentar”, sempre com recuo e alternativa. A tudo isto somava-se a luta pela prevalência de uma cultura política civilizacional que distinguia a demagogia da democracia. Tudo isto está em profunda crise e não adianta esperar melhorias, porque o tempo não volta para trás em função dos nossos desejos, embora, num certo plano universal, esteja mesmo a voltar para trás. Para o lado errado do de trás. (…)

Os anos 60 trouxeram um novo alento para as democracias, mesmo escrevendo direito com linhas tortas. Uma geração que chegou à política nesses anos ajudou a uma renovação cultural significativa das democracias envelhecidas e trouxe novos temas e novas “libertações”, em particular nas questões de género e de raça, que iam muito para além da agenda social tradicional dos movimentos sindicais, comunistas e socialistas radicais que existiam na Europa. O radicalismo inicial da geração de 60 ajudou a criar um ponto sem retorno e a entrada desses homens e mulheres no mainstream político fortaleceu as democracias e definiu-lhes novos objectivos. Essa geração não tinha os complexos reverenciais que a esquerda, mesmo a não-comunista, tinha em relação à URSS, integrou na luta pela liberdade os judeus perseguidos e os dissidentes soviéticos e fez parte de alianças sem precedentes como aquela que deu origem ao Solidarnósc, onde o Papa e padres católicos e militantes e intelectuais trotskistas ajudaram a acabar com a Guerra Fria e a derrubar o Muro.

Foi também nesta altura que a dicotomia esquerda-direita começou a perder sentido. Na verdade, foi uma perda de sentido mais instrumental do que afectiva. As “tradições” e o sentido da história pessoal e familiar continuavam muito presos a cem anos de arregimentação, e permanecia igualmente a questão filosófico-política do optimismo e do pessimismo antropológico, que definia uma divisão, mas não era nem é suficiente para lhe definir as fronteiras no quotidiano. (…)

Podia-se dizer que aquilo que em Portugal se chamava “causas fracturantes” não era suficiente para eliminar a demarcação política, até porque ela permanecia na questão social. Mas elas assumiam uma importância considerável porque no mundo ocidental, nas grandes metrópoles, a melhoria das condições materiais associadas a uma nova pluralidade de opções de vida, sociais, escolares, de lazer, familiares, relacionais, as tornavam parte da democracia e da igualdade, por exemplo entre homens e mulheres, e de possibilidade sem exclusão de escolhas no plano sexual, que se revelavam parte da liberdade que cada um exigia para si próprio. Por isso, na vida e nas opções que se incorporaram na política nas democracias estavam cada vez mais questões em que a dicotomia esquerda-direita não tinha sentido. A emergência de partidos como o Partido Libertário nos EUA, ou mesmo em Portugal, o percurso original do PPM, ou a aparição mesmo que débil de uma esquerda liberal e de uma direita emancipada nos “costumes” revelavam essa nova tendência. Os partidos mais conservadores, o PCP, o PSD, o CDS e o PS, e a influência política da Igreja, ainda forte mas em crise, tentaram travar este processo, mas acabaram por se lhe render, uns mais, outros menos.

Mas a chave da questão a que vamos voltar é aquela em que começa o parágrafo anterior: a melhoria das condições materiais de vida. Foi isso que permitiu um aprofundamento e melhoria da democracia e é isso que hoje emperrou e nos faz voltar para trás. É porque o melhorismo que é intrínseco ao objecto das democracias, o bem comum, está em crise, que estamos a voltar para trás. O mundo novo que está a vir é um recuo no modo de pensar, nas palavras e infelizmente nas acções. Lá vou eu ter que voltar a falar de esquerda e de direita, o que bem atravessado me está. Mas se o mundo se tornou cavernícola, não posso agora pedir-lhe que pare às cinco horas para tomar chá.»

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