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6.2.16

Dica (218)




«O mais grave disto tudo é que há quem goste e prefira ser funcionário menor europeu do que político de um país soberano. É muito difícil encontrar sobre esta questão a tradicional divisão esquerda-direita, e, se a procurássemos o que encontraríamos seria contrário ao senso comum tradicional: uma esquerda patriótica, e uma direita rendida a trocar a soberania pelo diktat de uma política económica e de interesses de que gosta e que lhe dá força.» 
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A Europa morreu



Daniel Oliveira, Expresso, 06.02.16 (excerto).
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Hoje, «o homem sério que contava dinheiro parou»




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Direito a morrer com dignidade



Foi hoje divulgado o texto de um Manifesto, a que já tinha aludido e que subscrevi, o qual está na base da criação de um Movimento Cívico para a Despenalização da Morte Assistida.

Somos cidadãs e cidadãos de Portugal, unidos na valorização privilegiada do direito à Liberdade. Defendemos, por isso, a despenalização e regulamentação da Morte Assistida como uma expressão concreta dos direitos individuais à autonomia, à liberdade religiosa e à liberdade de convicção e consciência, direitos inscritos na Constituição.

A Morte Assistida consiste no acto de, em resposta a um pedido do próprio — informado, consciente e reiterado — antecipar ou abreviar a morte de doentes em grande sofrimento e sem esperança de cura.

A Morte Assistida é um direito do doente que sofre e a quem não resta outra alternativa, por ele tida como aceitável ou digna, para pôr termo ao seu sofrimento. É um último recurso, uma última liberdade, um último pedido que não se pode recusar a quem se sabe estar condenado. Nestas circunstâncias, a Morte Assistida é um acto compassivo e de beneficência.

A Morte Assistida, nas suas duas modalidades — ser o próprio doente a auto-administrar o fármaco letal ou ser este administrado por outrem — é sempre efectuada por médico ou sob a sua orientação e supervisão.

A Morte Assistida não entra em conflito nem exclui o acesso aos cuidados paliativos e a sua despenalização não significa menor investimento nesse tipo de cuidados. Porém, é uma evidência indesmentível que os cuidados paliativos não eliminam por completo o sofrimento em todos os doentes nem impedem por inteiro a degradação física e psicológica.

Em Portugal, os direitos individuais no domínio da autodeterminação da pessoa doente têm vindo a ser progressivamente reconhecidos e salvaguardados: o consentimento informado, o direito de aceitação ou recusa de tratamento, a condenação da obstinação terapêutica e as Directivas Antecipadas de Vontade (Testamento Vital). É, no entanto, necessário, à semelhança de vários países, avançar mais um passo, desta vez em direcção à despenalização e regulamentação da Morte Assistida.

Um Estado laico deve libertar a lei de normas alicerçadas em fundamentos confessionais. Em contrapartida, deve promover direitos que não obrigam ninguém, mas permitem escolhas pessoais razoáveis. A despenalização da Morte Assistida não a torna obrigatória para ninguém, apenas a disponibiliza como uma escolha legítima.

A Constituição da República Portuguesa define a vida como direito inviolável, mas não como dever irrenunciável. A criminalização da morte assistida no Código Penal fere os direitos fundamentais relativos às liberdades.

O direito à vida faz parte do património ético da Humanidade e, como tal, está consagrado nas leis da República Portuguesa. O direito a morrer em paz e de acordo com os critérios de dignidade que cada um construiu ao longo da sua vida, também tem de o ser.

É imperioso acabar com o sofrimento inútil e sem sentido, imposto em nome de convicções alheias. É urgente despenalizar e regulamentar a Morte Assistida.

Adelino Gomes, Aldina Duarte, Alexandre Quintanilha, Álvaro Beleza, Ana Drago, Ana Gomes, Ana Luísa Amaral, Ana Matos Pires, Ana Zanatti, Anabela Mota Ribeiro, André Freire, António Canastreiro Franco, António-Pedro Vasconcelos, António Pinho Vargas, António Sampaio da Nóvoa, Boaventura Sousa Santos, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Catarina Portas, Clara Ferreira Alves, Cláudio Torres, Constantino Sakellarides, Cristina Sampaio, Daniel Oliveira, Diana Andringa, Dulce Salzedas, Elisa Ferreira, Fausto, Fernanda Lapa, Fernando Alves, Fernando Rosas, Fernando Tordo, Francisco Crespo, Francisco George, Francisco Louçã, Francisco Mangas, Francisco Teixeira da Mota, Helder Costa, Helena Roseta, Heloísa Apolónia, Henrique Sousa, Isabel Medina, Isabel Moreira, Isabel Ruivo, Jaime Teixeira Mendes, Joana Lopes, João Goulão, João Lourenço, João Ribeiro Santos, João Semedo, Jorge Espírito Santo, Jorge Leite, Jorge Palma, Jorge Sequeiros, Jorge Torgal, Jose A. Carvalho Teixeira, José Gameiro, José Jorge Letria, José Júdice, José Manuel Boavida, José Manuel Mendes, José Manuel Pureza, José Pacheco Pereira, José Vítor Malheiros, Júlio Machado Vaz, Laura Ferreira dos Santos, Lucília Galha, Luís Cília, Luís Filipe Costa, Luís Moita, Machado Caetano, Mamede Carvalho, Manuel Loff, Manuel Luís Goucha, Manuel Pizarro, Maria Antónia Almeida Santos, Maria Filomena Mónica, Maria Irene Ramalho, Maria Teresa Horta, Mariana Mortágua, Mário Crespo, Mário Nogueira, Marisa Matias, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Guedes, Nuno Artur Silva, Nuno Saraiva, Octávio Cunha, Olga Roriz, Paula Teixeira da Cruz, Paulo Magalhães, Pedro Abrunhosa, Pedro Campos, Pedro Ponce, Pilar del Rio Saramago, Raquel Freire, Raquel Varela, Ricardo Sá Fernandes, Richard Zimler, Rogério Alves, Rosalvo de Almeida, Rosário Gama, Rui Rio, Rui Tavares, Rui Zink, Sérgio Godinho, Sobrinho Simões, Tatiana Marques, Teresa Pizarro Beleza, Tó Zé Brito, Vasco Lourenço, Viriato Soromenho Marques

Movimento Cívico para a Despenalização da Morte Assistida

movcivic.ma@gmail.com

Divulgado aqui

Ler também esta notícia
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O que o OE2016 terá esquecido...


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5.2.16

Esboço do OE – Diário de um sobrevivente



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R.I.P.



There Is No Alternative – R.I.P.
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E os Comissários falaram…



Ao ouvir as declarações do «Colégio de Comissários» da União Europeia sobre o nosso OE2016, fico com a sensação de que somos uma espécie de condenados com pena suspensa, obrigados a comportamento exemplar no fio da navalha. Será para isto que nasceu a União Europeia? 
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Dica (217)




«Globalisation has changed our worlds domestically and beyond the nation state. Our societies are facing opportunities and risks. It depends not at least on political action what will prevail. Three major factors will be decisive for social and political cohesion in our advanced democratic societies. But they can be changed and are not set in concrete. They are the essential screws for knocking politics into shape.
- Class: socio-economic inequality
- Culture, religion, ethnicity: cultural inequality
- Cosmopolitan elites and communitarian citizens: discursive inequality.» 
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Os ex da TINA



«No momento em que escrevo esta crónica, as notícias e as fontes asseguram que os técnicos da Comissão Europeia já deram luz verde ao Orçamento do Estado 2016.

Sim. Esse mesmo, o Orçamento que ia ser chumbado pela CE porque não há alternativa: a TINA. Na verdade, entre a TINA e "o da Joana" vai um mundo. Querem ver que já podem circular geringonças na UE?

Há muita gente que já devia ter aprendido a não achincalhar antes de tempo. Gozar com as esperanças alheias é um "hobby giro", mas só resulta quando não é feito antes de tempo. Andaram 15 dias a gargalhar da possibilidade de haver um pacto PS/BE/PCP e foi o que se viu. Depois, a anedota era Cavaco aceitar um Governo daqueles. Agora, para os mesmos comentadores, a bambochata total era o Costa andar a convencer a CE a aceitar um "Orçamento de esquerda" em vez de ir lá assinar o que eles mandam sem discutir. Um mau-olhado desta gente enche-nos de saúde.

Confesso que também estou admirado. No fundo, António Costa conseguiu inscrever um cigano ateu nos Salesianos. Teve 11 na prova de acesso, e gamou um globo terrestre, mas entrou. Alguém sabe se Costa tem um curso de hipnotismo? Isso podia explicar quase tudo.

Não esperava tanta "flexibilidade da CE". Talvez o facto de não ter lá a ministra das Finanças - e o PM de Portugal - a pedir mão forte com os incumpridores possa ter ajudado. Se calhar, metade da exigência era nossa. Éramos os do além da troika e a CE sentia-se tentada a ser mais radical para não ficar mal vista. Ainda agora, lendo tudo o que disse a oposição nestes dias, é justo dizer que, depois de além da troika, foram o além da CE. (…)

Querem um conselho? Vão atestar a Espanha antes que venha lá a "geringonça" deles.»

João Quadros
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É isto


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4.2.16

Orçamento 20xx



Bonito, bonito, será quando um Orçamento do ano 20XX incluir um mini imposto especial que atinja o mundo do futebol. 
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Tempos Modernos



Em Estocolmo, surgiu um novo sinal de trânsito que chama a atenção dos condutores para possíveis peões demasiadamente absorvidos por telemóveis. 
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Com factura, se faz favor



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Os Medici, uma família do século XV, tinham um banco e faziam mecenato. Os portugueses, um povo do século XXI, fazem mecenato a bancos. (…) Os Medici patrocinavam artistas com o seu banco; os portugueses são artistas a patrocinar bancos. (…)
Gostaria ainda que, sempre que ajudo a resgatar um banco, me passassem factura.»

E RAP sugere à Santa Casa um novo jogo, o Totobanco: qual o próximo a falir?

Na íntegra AQUI
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Dica (216)



Três verdades inconvenientes. (Marco Capitão Ferreira) 

«Tudo visto e ponderado, parece impossível defender, como alguns fazem, que era possível ou sequer desejável manter a política orçamental que produziu estes resultados. Não é empobrecendo as pessoas que se enriquece o país. Isto devia ser evidente, mas pelo que se vai lendo por aí, o evidente pode precisar de ser repetido. Que não vos falte nada.» 
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Número redondo: a Guerra Colonial começou há 55 anos



4 de Fevereiro de 1961 marca o início da luta armada em Angola, concretizado numa revolta em Luanda, com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional.

Os acontecimentos agravam-se com importantes ataques no Norte de Angola, na noite de 14 para 15 de Março, mas só em 8 de Abril é que Salazar se refere pela primeira vez, em público, aos acontecimentos.

A partir daí, tudo se precipita: cinco dias depois falha um golpe de Estado dirigido por Botelho Moniz, ministro da Defesa, Américo Tomás reitera a sua confiança no Presidente do Conselho e este anuncia uma remodelação ministerial que o faz assumir também a dita pasta da Defesa, entregando a do Ultramar a Adriano Moreira.

Em 13 de Abril, lança uma frase que ficará célebre: «Andar, rapidamente e em força!»



Depois, foi o que se sabe. Durante mais treze anos.



Sobre a Guerra Colonial, veja-se este site.
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3.2.16

Recordar o passado para memória futura


Hoje, 03.02.2016:






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Querida Justiça



José Eduardo Martins conta, na primeira pessoa, um argumento perfeito para um conto kafkiano. Leitura obrigatória. 

Kafka e eu

Ainda bem que não se candidatou à presidência da República

Bye bye love, bye bye TINA?


Moscovici já deu luz verde ao Orçamento.

It’s a long way…. to Brussels.


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O cessar-fogo



«Vespasiano chegou ao poder e teve a desagradável surpresa de encontrar as arcas vazias. Nero e as guerras civis tinham deixado Roma sem um sestércio. Vespasiano, ousado, aprovou um imposto sobre a utilização dos banhos públicos.

Tito, desagradado com a medida, questionou o pai. E este respondeu-lhe: "O dinheiro não tem cheiro." Mário Centeno, para fazer jus ao seu passado, poderá pensar que não tem. O problema é que Bruxelas gosta do dinheiro com um cheiro e PCP e BE do vil metal com um aroma totalmente diferente. Sendo assim, como é que todos poderão frequentar os mesmos banhos públicos, sem uma tempestuosa gritaria no seu interior?

O OE não é uma questão, mesmo atraente, sobre que sabonete usar ou que perfume pôr. Este, de 2016, atrasado como o país, ainda não vai implicar que alguém atravesse o Rubicão. Porque todos têm algo a ganhar se ele não for chumbado em Bruxelas ou, de forma mais panfletária, no Parlamento português. Por isso quem vai negociá-lo não é o ministro das Finanças, Centeno, mas António Costa. Será ele que, nos gabinetes de Bruxelas e Berlim, terá de mostrar que este OE não é uma lotaria. Não é fácil, mas é negociável. Mas, claro, o resultado vai ser um cessar-fogo em que todos os intervenientes não acreditam na paz eterna.

No meio de tudo isso, Mário Centeno percebe que a técnica perdeu face à táctica. Porque a técnica era má e só a táctica pode salvar a face do Governo. Não é contorcionismo: é realismo. Agora ninguém ganha com a guerra. Mas, um dia destes, a paz será impossível.»

Fernando Sobral
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2.2.16

Dica (215)




«Na semana passada o consultor Relvas foi promovido a acionista, e pede agora ao Banco de Portugal que ateste a sua idoneidade para ser dono de um banco, o Efisa.
Miguel Relvas e idoneidade, uma contradição nos termos capaz de arrancar uma boa gargalhada a qualquer um se não corresse o risco de vir mesmo a ser declarada.»
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Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa conversa fascinante (3)



Publico hoje a terceira e última parte de um texto baseado numa conversa que tive com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP). (Parte 1 e Parte 2)

Uma esperança chamada Cuba

Quando Portugal vivia ainda no rescaldo, já desiludido, das eleições presidenciais a que Delgado concorreu em 1958, a vitória de Fidel de Castro em Cuba, em Janeiro de 1959, funcionou como uma verdadeira mola para grande parte dos antifascistas portugueses. Foi uma «grande esperança de uma revolução democrática, de rosto humano, um solução diferente da soviética, que teve um impacto enorme» para EP, uma realidade seguida com «um muito grande entusiasmo» por NTP.

Experiência especialmente importante para este último foi uma estadia em Havana, em 1962, algum tempo depois da crise dos mísseis na Baía dos Porcos. NTP participou então no primeiro congresso internacional que teve lugar em Cuba depois da revolução (e tal aconteceu porque o local tinha sido escolhido antes de 1959), integrado num grupo de arquitectos de muitas nacionalidades – com direito a um discurso de Che Guevara e a um outro de Fidel, «que nunca mais acabava» (mas, segundo um participante cubano, «o mais curto que até então tinha feito»). Depois de grande insistência, NTP conseguiu convencer os responsáveis da rádio cubana a cederem-lhe a gravação do discurso de Fidel, garantindo-lhes que era «para fazer propaganda em Portugal» – o que era rigorosamente verdade. De regresso a Lisboa, promoveu várias audições em casa, religiosamente seguidas por grupos de amigos. Recorda-se bem de uma delas, em pleno rescaldo dos acontecimentos estudantis de 1962, quando Víctor Wengorovius levou consigo, e lhe apresentou, Jorge Sampaio. Conseguiu também realizar uma sessão no Sindicato dos Arquitectos, mas, alguns anos mais tarde, e apesar de não estar identificada, a bobina despertou a curiosidade de agentes da PIDE durante uma rusga e foi levada juntamente com livros e com papéis.

A esperança depositada na revolução cubana foi, para ambos, tão grande como a desilusão com a sua concretização. Mas essa desilusão só viria mais tarde, muito mais tarde – nem conseguem situá-la exactamente no tempo. 


Partidos – adesões e desilusões

Pouco dizem sobre a década de 60 – avançam para o 25 de Abril, ou quase. E, no entanto, foram anos muito importantes nos seus percursos: de intensa actividade nos meios dos católicos progressistas para NTP, cheios de peripécias para EP, começando pela preparação – e falhanço – do golpe de Beja, no dia 1 de Janeiro de 1962 (tema que está precisamente a abordar neste momento, na preparação do segundo volume das suas Memórias).

EP conta como aderiu ao PS. Nos primeiros dias de Setembro de 1973, cruzou-se por acaso com Mário Soares no aeroporto de Madrid, numa escala que este fazia, vindo da América do Sul e de regresso a Paris, onde estava então exilado. EP recorda a preocupação de Mário Soares relativamente a uma conversa tida dias antes com Salvador Allende e à situação que encontrara no Chile (que viria a acabar muito mal, como é sabido, alguns dias depois, a 11 de Setembro). Foi nesse encontro no aeroporto de Madrid que EP foi convidado a aderir ao PS, o que aceitou imediatamente.

Diferente foi o percurso de NTP, hoje também membro do PS: só aderiu em 2002, depois da derrota de Ferro Rodrigues nas eleições legislativas. Antes, pertenceu ao MES, desde a sua fundação, em 1974, até à extinção. Esteve depois ligado à fundação do BE, foi candidato por Portalegre nas primeiras eleições a que aquela organização concorreu, mas viria a afastar-se.

Tanto EP como NTP comentam largamente o papel do MES – o que teve e, sobretudo, o que, segundo eles, poderia ter tido como «braço político» de uma parte do MFA» (expressão de NTP), sua «consciência política», (diz EP). NTP considera mesmo que a cisão ocorrida no MES, em Dezembro de 1974, em razão da qual «saíram os melhores quadros», «foi uma verdadeira tragédia». Sem ela, talvez não tivesse ocorrido «a deriva esquerdista do MFA, que foi fatal».

Hoje são ambos militantes de base do PS, mas muito, muito críticos em relação à actuação do partido a que pertencem. Nas últimas eleições presidenciais, não estiveram juntos: EP apoiou Manuel Alegre, NTP esteve ao lado de Mário Soares. 


O país, a Europa e o mundo

Pergunto-lhes como vêem a actualidade. Transcrevo uma parte do que foram dizendo.
EP – «A coesão social, de que tanto se fala, implica solidariedade entre aqueles que têm muito e os que não têm nada. Em muitos países mais avançados, os muito ricos têm a preocupação de uma certa justiça. Não em Portugal: o nosso capitalismo é mais selvagem do que a maior parte dos outros.»
NTP – «Completamente de acordo.»
Quanto ao futuro, EP afirma que é optimista por natureza, mas que sente angústia com o que se passa no mundo:
EP – «Esta globalização selvagem não anuncia nada de bom. É preciso criar, a nível europeu, um grande movimento de contestação para interpretar esta mudança. Não para acabar com os capitalistas, porque está provado que não é fácil. O que é necessário é criar uma situação de partilha, de interesse comum no desenvolvimento entre empresários e trabalhadores».
NTP – «O capitalismo precisa de ser regulado, a crise actual é uma demonstração da falência do sistema.»
EP – «As rupturas revolucionárias só trouxeram desgraças: a russa acabou, a cubana está num impasse e a chinesa também.»
NTP – «A chinesa traiu os seus próprios ideais e conservou só sistema policial.»
«Uma via reformista ousada», insiste EP. «Completamente de acordo», conclui NTP.

A conversa continuou ainda, com outras memórias e com outras histórias. Já quase a terminar, perguntei a NTP se ainda se considera católico.
«Não, não, sou agnóstico.»
«É uma evolução curiosa, é uma evolução curiosa!», conclui EP.
Para quem me acompanhou nesta conversa, desde o início, não haverá expressão mais adequada: «evolução curiosa». Estes dois homens, nascidos e criados na mesma cidade mas em extremos opostos, social e culturalmente, no plano político e no plano religioso, foram convergindo. São hoje ainda idealistas mas cada vez mais pragmáticos, talvez menos radicais do que muitos esperariam e estão sintonizados em tudo – ou em quase tudo. 
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Há 62 anos foi assim



Em 2 de Fevereiro de 1954 nevou em Lisboa. Muitas escolas pararam as aulas para as crianças poderem brincar ou levaram-nas mesmo a Monsanto ou a Sintra, onde nevou mais. Foi dia de festa.


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Humanidade,2016



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Pode alguém ser quem não é?



«Aristóteles situava a virtude no centro. O que não quer dizer que era centrista. Considerava sim que os homens com valor encontravam a virtude sem ambiguidades nesse lugar central entre a temeridade e a cobardia.

Aristóteles sabia o que dizia. Foi ele que desenhou o mapa da ética e, ao fazê-lo, marcou a política para sempre. O centro exige um equilíbrio constante, especialmente se a esquerda e a direita se movem. Ser do centro não significa que não se tenha princípios ou ideologia. É um lugar de segurança e bom senso. Não é por acaso que o centro foi construído, nas democracias modernas, à imagem e semelhança das classes médias. As que queriam um presente e um futuro em que pudessem confiar.

Como se transforma então um político extremista num centrista? É isso que, pelos vistos, Passos Coelho quer fazer, colocando uma máscara, fazendo uma plástica ou simplesmente mudando o excel do seu discurso. Será possível? Passos acredita que, ao contrário de Paulo Portas, que não se fechou um ciclo político.

Por isso recandidata-se e, acredita que, vestindo um fato de Batman ou de Darth Vader, se transformará no homem do centro do PSD. Depois de ter seguido uma política marcadamente ideológica (de uma direita pretensamente liberal), Passos quer mostrar que o PSD "continua a ser um partido social-democrata". Tudo aquilo que esteve a demolir durante quatro anos de governação, onde os princípios sociais-democratas foram atirados para o incinerador.

Pode alguém ser quem não é?»

Fernando Sobral

Fruta da época


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1.2.16

Dica (214)




«“Agência Luxemburguesa de Notícias, segunda-feira, 9h13’, do nosso correspondente em Lisboa – Fonte do Governo de Lisboa reiterou hoje a sua apreensão quanto à execução orçamental da Alemanha e às respostas do governo Merkel às autoridades europeias.» 
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O OE2016 no labirinto europeu



Nicolau Santos, no Expresso diário de 01.02.2016.




Daniel Oliveira, no Expresso diário de 01.02.2016.
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Morte assistida




Também subscrevi o documento que serve de base a esta iniciativa e que será em breve divulgado.
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Europa: foi um sonho lindo que acabou?



Costa Gavras: «Europa fue un gran sueño, pero eso se acabo»

«Europa fue un gran sueño, pero eso se acabó desde que la economía, los bancos y una derecha agresiva y extrema llegó al poder. Éstos son los que dirigen Europa hoy, y es una catástrofe", ha señalado.
En su opinión, lo que vivimos hoy es una tercera guerra mundial, y económica. "Las víctimas son enormes, desde los emigrantes que mueren en el mar, a los muertos de la guerra de Bush. Se dice de forma muy ligera que cada día hay ricos más ricos y pobres más pobres, pero hay que luchar contra eso", subraya.» 
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Sísifo e o OE



«Condenado pelos deuses a subir uma montanha empurrando uma pesada pedra, o rei grego Sísifo deparava-se sempre com uma tragédia. Quando chegada ao topo, a pedra escorregava das suas mãos e rolava até ao chão. E Sísifo, como relata Homero, lá tinha de voltar a carregá-la montanha acima, numa tarefa sem fim. (…) Resolver o problema da dívida portuguesa é o trabalho de Sísifo dos políticos portugueses: inglório, porque ele volta sempre como uma pedra rolante rumo ao início do percurso.

É uma saga de séculos, com raros momentos de acalmia tropical. Mas, depois de anos de anormalidade, as trovoadas da dívida voltaram a colocar o país nas mãos de quem empresta o dinheiro. Já não os bancos internacionais, como no século XIX, quando se penhorava o ouro do Brasil em nome de novos empréstimos, mas junto de instituições como a União Europeia e o FMI que, além de juros, querem governar no lugar dos que foram eleitos para isso pelos cidadãos. (…)

Mário Centeno é Sísifo: arrisca-se a estar quase a chegar ao topo e ver a pedra a rolar cá para baixo.

Seja como for, irrealismo de Centeno à parte, custa ver PSD e CDS a bater palmas a Bruxelas, como se a capital dos burocratas não eleitos devesse ser um torcionário aclamado. Um bocadinho de patriotismo também era bem-vindo. Mas não. A pedra rolante, se acertar no chão, poderá destruir mais pessoas. As serviçais Cinderelas desta história sem fim.»

Fernando Sobral

Alguém duvida?

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31.1.16

Dica (213)




«Votou contra quotas, voltou atrás na PMA, tem um Comité Central 76,6% masculino, nunca teve nem se prevê para breve líderes femininas. Agora, Jerónimo foi acusado de sexismo. Há no PC um problema com as mulheres?

Alguma coisa está a mudar na política portuguesa - e depressa. O fenómeno de popularidade das "mulheres do Bloco", reforçado com a candidatura e o resultado de Matias, mais o anúncio de Assunção Cristas como herdeira de Portas no CDS isolam o PCP e o PS num reduto de preponderância masculina. São já os únicos dois dos "grandes" partidos que que nunca tiveram (o PSD foi pioneiro, ao eleger Manuela Ferreira Leite em 2008) nem perspetivam ter nos tempos mais próximos uma liderança feminina.» 
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Horror e raiva




«O diretor do Serviço Europeu de Polícia disse ao jornal britânico The Guardian que, só em Itália, desapareceram 5 mil crianças e na Suécia outras mil. (…) A organização Save the Children estima que, só no ano passado, entraram nos países europeus 26 mil menores sem família. A Europol acredita que do milhão de refugiados que chegaram ao Velho Continente durante o último ano, 27% serão menores.» 
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Jogos Olímpicos no Rio?



«Estamos a perder a luta» para o Zika.

Só eu é que penso que é uma loucura manter os Jogos Olímpicos, que se realizam daqui a seis meses, no Brasil?
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Quem disse que ia ser fácil?



«Por estes dias, lembrei-me de uma frase repetida durante a crise estudantil de 69 pela guerra colonial e que era qualquer coisa do género: “Rejeitem o polícia que o fascismo vos enfiou pela garganta abaixo.” A frase veio-me à memória na tentativa desesperada de entender o debate em torno das linhas gerais do Orçamento que o Governo enviou para Bruxelas. As críticas são quase todas no mesmo sentido, ou seja, que temos de engolir as regras de Bruxelas e de Berlim, porque não temos alternativa que não indisponha os mercados, as agências de rating, ou, em última instância, a chanceler. Também nós engolimos o mercado, temos um economista dentro de nós a fazer contas com um qualquer powerpoint construído nos cursos de Gestão das universidades mais prestigiadas.

Reconhecendo que há razão nalgumas das críticas a este Orçamento, a minha primeira perplexidade é simples: António Costa apresentou-se aos eleitores defendendo uma política diferente da receita única que vigorou desde o início da crise do euro em Portugal e noutros países do Sul. Seria impossível esperar que elaborasse um Orçamento de mera continuidade do anterior Governo. Mas, quando o apresentou, caiu-lhe toda a gente em cima: do Conselho de Finanças Públicas (ainda que num tom moderado) à UTAO, passando pelas primeiras reacções da Comissão e por quase todos os comentadores de todas as origens, como se fosse uma grande surpresa. Dir-me-ão que não podemos riscar os mercados do mapa (ou do estômago). Nem queremos, mas a outra verdade, igualmente importante, diz-nos que, sem soluções mais flexíveis, a Europa não sobreviverá politicamente como infelizmente vemos todos os dias. (…)

Não é possível continuar a aceitar, sem pedir contas a ninguém, que, de vez em quando, entidades tão respeitáveis como o Tribunal de Contas Europeu ou o FMI, publiquem relatórios concluindo que os programas de ajustamento estavam mal feitos, não levavam em conta a realidade e destruíram mais do que seria necessário. Quer dizer, destruíram a vida de pessoas. “Olha, enganámo-nos no efeito sobre o desemprego em Portugal. Que maçada.” Os jornais resumem-nos e no dia seguinte tudo fica na mesma. Não há nada de mais revoltante. (…)

Não somos a Itália, nem a Espanha, nem a França, é verdade. Mas não podemos abdicar da nossa capacidade negocial, nem do dever de contrariar a destruição económica e social que até os relatórios de instituições imparciais admitem. Tem de haver uma forma.»

Teresa de Sousa