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20.2.16

Faz de conta que estou lá (10)



Igreja de S. Jorge, Lalibela, Etiópia, 2013.

Não há palavras que possam dar uma ideia do que são 11 templos, escavados na rocha e em muitos casos ligadas por túneis, distribuídos por dois conjuntos separados por um rio, estando fisicamente afastado o décimo primeiro: este, o último a ser construído e o mais espectacular, com a sua forma em cruz, enterrado, e com quinze metros de altura.
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Dica (227)




«Há uma condição primeira – e talvez a única – para haver políticas progressistas: um Estado só é capaz de ter uma política para criar emprego e fazer distribuição social se for capaz de controlar os capitais. Se não for, não tem política. Pode tomar medidas fiscais, mas se não controla capitais, essas políticas não resultarão. Serão ameaçadas pelos reguladores da liberdade de circulação de capitais, como a Comissão Europeia, as agências de rating, o BCE, etc.» 
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Sim à morte assistida



A Revista do Expresso de hoje inclui um extenso dossier intitulado «Na hora da morta», com opiniões e textos de diversos matizes. Nesta fase de reflexão e de necessidade de esclarecimentos, divulgo um texto de João Semedo.


Alguma dúvida?



«Aliás, a ideia até foi minha.»
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Tudo está armadilhado



Longos excertos do texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Eu já não estou muito para surpresas, mas ainda tenho alguma capacidade de ficar surpreendido. E por isso me surpreende a ligeireza, para não dizer irresponsabilidade, como que os partidos da actual maioria tomam o que estão a fazer, ou melhor, o que não estão a fazer. Ou seja, meteram-se num curso muito arriscado, perigoso, cheio de dificuldades, e comportam-se como se houvesse uma qualquer normalidade na actual situação que ajudaram a criar, e como se pudessem continuar a fazer política “habitualmente”. (…)

No actual contexto europeu, o que se está a passar em Portugal, sendo na verdade apenas uma tímida mudança, é tratado quase como uma revolução e, como tal, mobiliza as gigantescas forças que estão preparadas para matar no ovo qualquer desvio menor que seja ao cânone alemão. O governo de Costa tem todas as probabilidades de ser derrubado pela Europa do PPE e dos socialistas colados aos alemães, seja directamente por um qualquer “chumbo” europeu, seja indirectamente pela obrigação de aplicar políticas que lhe retirem o apoio parlamentar do BE e do PCP. (…)

Aliás, a dureza e hostilidade que existem contra o governo de Costa, contrastam com a vontade dos principais dirigentes europeus darem a Cameron medidas que significam recuos importantes (e que também estão nos Tratados) em matéria de liberdade de movimentos e direitos sociais dos emigrantes, para que este volte com um frágil papel para convencer os eleitores ingleses que afinal, com uma longa lista de opting out, ainda podem continuar na Europa. Ou seja, em matéria de direitos sociais, a mesma Europa que não cede a Portugal uma décima no défice sem vilipendiar um governo eleito, está disposta a abdicar perante a pressão inglesa. Na economia do “ajustamento”, não há um milímetro de cedência às “regras”, nos direitos sociais, tudo é negociável. Por tudo isto, a “Europa” actual, Schäuble, Dijsselbloem, Moscovici, Dombrovskis, mais as suas cortes de funcionários zelosos, a última coisa que desejam é que possa haver qualquer mitigado sucesso de um governo que está a cometer esse crime de lesa-economia que é “reverter” salários e pensões, taxar fundos e bancos e não ao contrário. (…)

PS, PCP e BE incitaram a sua experiência fora do “arco da governação”, derrubando um governo assente no partido que ganhou as eleições, e apoiando um partido que as perdeu. (…) Tem a hostilidade aberta dos meios de comunicação social, salvo raras excepções, que se comprometeram com as principais ideias do “ajustamento”, quer com proselitismo, como aconteceu com muita imprensa económica, quer interiorizando o modo como se colocam os problemas com a “gramática” dos “ajustadores”. O “não há alternativa” entrou profundamente no espaço mediático e no espaço público e, por isso, qualquer inversão, “reversão” como agora se diz, é vista como uma blasfémia incompetente, uma cornucópia de custos por pagar, um risco de bancarrota ao virar da esquina. (…)

Face a esta ecologia, o PS comporta-se como se pudesse continuar a governar como sempre fez, dá umas coisas a uns e espera sentado pela sua fidelidade; tira umas coisas a outros e depois assusta-se, recua e avança como pode. Ainda não interiorizou o preço que tem a pagar se esta experiência falhar e não tem sentido de urgência face aos riscos, principalmente europeus que estão aí à porta. A “Europa” actual quer a queda do governo Costa e por isso o humilha com novo pacote de austeridade, e força a ruptura com o BE e o PCP. Sim, porque o PS num dilema, vai escolher a “Europa” e deixar o país ao PSD e CDS.

Por sua vez, BE e PCP parecem também não ter percebido que vai haver um antes e um depois dos acordos que fizeram, e que nada voltará a ser como dantes, conforme eles falharem ou tiverem sucesso. Se falharem voltarão a ter uma função meramente tribunícia, agravada pelo desespero dos seus eleitores quando, por uma governação à direita que será agressiva e vingativa, perceberem o país sem esperança em que estão. Partirão por dentro pela radicalização e perderão ainda mais relevo social para fora das suas fronteiras militantes.

PS, BE e PCP ou reforçam de qualquer modo a coordenação política, que lhes permita ganhar algum ânimo colectivo e defrontar em conjunto e de forma capaz toda a tempestade que cai e vai cair sobre o governo, ou vão ter um lindo enterro. Lindo porque deve estar sol, mas só por isso.» 
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19.2.16

Faz de conta que estou lá (9)



Guerreiros de terracota (séc. III a.c.), Xian, China, 2004.
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Dica (226)




«La preuve est faite qu’un autre Sanders, sans doute plus jeune et moins blanc, pourrait un jour prochain gagner la présidentielle américaine et changer le visage du pays. Par bien des aspects, on assiste à la fin du cycle politico-idéologique ouvert par la victoire de Ronald Reagan aux élections de novembre 1980.» 
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José Manuel Pureza



Para quem quiser gastar 36 minutos a ouvir uma bela conversa entre uma excelente entrevistadora e um não menos excelente entrevistado, aqui fica:  

40 oradores, 6 mulheres


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Um OE pousou num galho reflectindo sobre a sua existência



«Nunca um Orçamento do Estado foi tão profundamente avaliado. Já quase não se discutem números. Discutem-se intenções. Paradigmas. O bom e o mau. O Yin e o Yang de Centeno. O ego e superego do Orçamento. A análise psicanalítica do OE. Temos de deitar o Orçamento do Estado num divã. Não precisamos de Schäuble, precisamos de Freud. (…)

Não tenho uma opinião concreta em relação a este Orçamento do Estado. À primeira vista, gosto. A primeira impressão é muito importante e eu simpatizo sempre com quem causa má impressão na Comissão Europeia. (…)

Se me sinto seguro (independentemente dos mercados, a que deixei de ligar desde que também não me ligaram nos meus anos)? Não.

Por princípio, tenho medo de ministros das Finanças. Para começar, juntam duas das coisas de que tenho mais pavor: ministros e finanças. É como um Lobizombie. Ou um Zombielobo. Uma coisa é ser, por exemplo, ministro do Ambiente. Pronto, é ministro, mas o Ambiente é uma coisa boa. Com Finanças, não dá. Por isso, questiono o que move e quem é essa gente que quer ser aquilo. Há ali maldade ou loucura. É como escolher a especialidade de proctologia dentária.

Peço desculpa por este desabafo, mas quero que o leitor tenha consciência de que o meu medo pode interferir com a clareza e justiça do meu raciocínio. Posso assim desabafar e dizer que o Centeno não me dá total confiança. Não é o que diz, é a postura com que diz. Centeno tem cara de indivíduo que anda no centro comercial à procura de informação, urgente, sobre onde são os WC, mas que não tem coragem para perguntar onde são. É esse ar que me assusta. Ele parece aflito e aflito para não dizer a ninguém que está aflito.»

João Quadros

18.2.16

Faz de conta que estou lá (8)



Mosaicos do séc. II, Paphos, Chipre, 2015.
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Cavaco Silva nunca desilude

E-aborrecimento



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Há as facturas da mãe, do pai e de cada um dos filhos, e é preciso validá-las e inseri-las bem validadas e inseridas. Famílias numerosas deverão tirar uma semana de férias para validar e inserir facturas. Duas semanas se o portal as Finanças estiver a funcionar como estava ontem. (…)

Antecipar o futuro pode ser assustador. Depois de criar facturas mais minuciosas e de impor a sua verificação no portal, creio que o próximo passo das Finanças será obrigar o cidadão a fazer uma prova inequívoca de consumo. Depois de jantar num restaurante, o contribuinte terá não só de pedir uma factura mas também deve apresentar-se, no prazo de 48 horas, numa repartição de Finanças à sua escolha, com os restos da refeição e acompanhado por um empregado de mesa que testemunhará, sob palavra de honra, que aquele bitoque foi consumido pelo cidadão em causa.»

Na íntegra AQUI.
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Não havia necessidade




Fui meiga na escolha do título já que não gosto de usar palavrões. E não, não alinho na tese dos «costistas» fervorosos que consideram o possível acto como uma bofetada de luva branca do governo a quem o empossou a contragosto, nem com o respeito pela «tradição» porque esta não existe: em 10 anos, Cavaco Silva nunca foi convidado a presidir a um Conselho de Ministros.

É antes um mau prenúncio de malabarismos maquiavélicos para que temos de estar preparados e em relação aos quais, confesso, não tenho qualquer simpatia nem um mínimo de pachorra. 
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Os centros de decisão



«Em 1945, o empresário Alfredo da Silva, da CUF, atraiu outros empreendedores, como António Champalimaud e Fernando Ulrich, e compraram uma jovem companhia aérea.

Transformaram-na na Companhia de Transportes Aéreos, que passou a fazer as ligações aéreas diárias entre Lisboa e Porto por pouco módicos 306 escudos. O capital português resolvia um problema de transportes rápidos entre as duas principais cidades do país. Hoje, como se vê por todo o lado, o capital nacional está congelado. O célebre debate dos "centros de decisão nacional" é recordado como uma tempestade num copo de água e sucessivos governantes tiveram um prazer masoquista em alienar ao capital estrangeiro tudo o que tinha peso relativo na economia portuguesa. Pode argumentar-se que não havia capital, porque todos estavam endividados até ao limite. É verdade. Mas isso não deveria ter implicado que o Estado se tivesse transformado numa mercearia rasca. Por isso, a discussão sobre a entrada de capital chinês na TAP é risível.

Quando os governantes portugueses se deram ao luxo de destruir um património nacional como o do BES, por vingança pessoal, por tributo a Bruxelas ou por simples défice de inteligência, percebe-se que a lição de Nero continua bem viva em algumas pretensas elites. A decadência confunde-se com a precária condição humana. Mas ajuda-nos a compreender as contradições e revela-nos os aspectos obscuros do poder. E pode ser fonte de lucidez. O debate tribal sobre os "centros de decisão nacional" deixou muitas feridas e aqueceu os bolsos de algumas pessoas. Mas, no fundo, não se aprendeu nada. Uns quantos "liberais" (mais no emblema da lapela do que como essência ideológica profunda) acreditaram que não era necessário um cruzamento dos interesses do Estado com o que restava do capital nacional para defender pilares estratégicos. Só pensaram em "negócios" particulares. A CGD só não voou porque não calhou. E agora alguns piam por causa do "capital chinês" na TAP, como se fosse um escândalo.»

Fernando Sobral
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17.2.16

Faz de conta que estou lá (7)



Mosteiro de Taktsang (O ninho do tigre), Paro, Butão, 2010.
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Dica (225)



Decidir pela morte digna. (Paula Ferreira) 

«Rede de cuidados paliativos é uma coisa, morte assistida outra. O debate de uma e de outra deve seguir os seus caminhos paralelos, mas independentes. (…)

Legislar sobre morte assistida abre a possibilidade de cada um de nós poder ter a palavra final. Uma questão, sem dúvida, de pura liberdade individual. Poder decidir hoje se quero ficar na cama, imobilizada, ausente, numa comunicação impossível com os "desconhecidos" que me rodeiam. Em profundo sofrimento. Não é o direito de quem cuida que está em causa: é o direito de quem pretende fintar a morte e antecipar o fim. Com humanidade.» 
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17.02.1929 – Parabéns, Alípio



Alípio de Freitas faz hoje 87 anos. Quem o conhece e já o ouviu nunca o esqueceu, quem quiser saber um pouco de uma vida fora de todos os cânones pode obviamente recorrer à Wikipedia.

Sem deixar de ouvir Zeca celebrar esse «homem de grande firmeza»:


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Música do passado, esperanças de futuros



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Ícaro e a TAP



«Preso, junto do filho, no labirinto do Minotauro, Dédalo construiu umas asas artificiais com penas de gaivota e mel. Assim poderia fugir. Mas alertou o filho para que não voasse perto do Sol, porque de outra forma a cera derreteria.

Mas Ícaro não ouviu: queria ver o Sol de muito perto e acabou por cair no mar. A TAP já conseguiu várias vezes evitar ter o fim de Ícaro, mas continua perdida num labirinto. Os últimos dias mostram a fragilidade de todas as opções tomadas nos últimos tempos. Porque não há um qualquer consenso nacional sobre uma empresa que foi simbólica da presença portuguesa no mundo e que era, como foram outrora a PT, a Cimpor ou a EDP, locomotiva de internacionalização que, atrás de si, poderia criar uma teia de interesses nacionais. Tudo isso se perdeu, entre erros estratégicos, negócios particulares e liberalismos radicais.

Não admira que Rui Moreira, defendendo (e bem) os interesses do Porto, clame contra o desinvestimento da TAP nas ligações internacionais directas da segunda cidade portuguesa. Mas, na sua denúncia, ele coloca o dedo na ferida: ao privatizar-se a TAP ela deixou de ser um instrumento de qualquer política estratégica do Estado ou do país. Portanto, das duas, uma: ou a TAP é pública e serve os interesses do país (e tem de se assumir os custos financeiros disso), ou privatiza-se e deixa de se poder reivindicar a acção do Governo. Para mais quando as privatizações têm levado as grandes empresas para fora do capital nacional, o que limita qualquer acção concertada entre o Estado e essas empresas.

É por isso que a forma como se destruiu o BES foi uma catástrofe nacional. Quando hoje se vê Passos Coelho e Paulo Portas a clamar contra a entrada de capital chinês na TAP (é melhor nem lembrarmos as privatizações direccionadas para o capital chinês feitas pelo anterior Governo…), só apetece sufocar o divertimento. Sabia-se qual era o jogo de David Neeleman, no âmbito da Azul. Por isso ninguém pode dizer que está surpreendido. Ícaro faz parte da mitologia grega. A TAP é um mito tipicamente português.»

Fernando Sobral

16.2.16

Faz de conta que estou lá (6)



Patan, Nepal, 2005.
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16.02.1925. Carlos Paredes

Dica (224)



Duas espertezas saloias. (Francisco Louçã) 

 «O governo Costa fez um acordo com a dupla Neeleman-Barbosa na TAP, ficando a deter metade da companhia, e isso foi festejado pelo PS como uma vitória. Sabe-se agora que uma cláusula importante desse acordo não foi referida quando ele foi tornado público: uma empresa chinesa, a Hainan Airlines, foi autorizada a comprar 23,7% do consórcio privado, e ficará assim com 10% a 13% da TAP. Este esquecimento de comunicação à opinião pública foi uma esperteza saloia.

Mas é interessante que esta revelação desencadeasse outra esperteza saloia, esta muito ressabiada. Passos Coelho, na senda da sua renascida SDS, social-democracia sempre, veio logo considerar a operação “a todos os títulos reprovável”. O homem dar-se-á conta de que esta trapalhada sublinha como a TAP foi vendida a quem não tinha dinheiro para a comprar? E que o seu governo, que fez na TAP um dos mais reptilíneos negócios dos últimos dias de mandato, é o primeiro atingido por esta notícia?

Passos Coelho foi o primeiro-ministro que mais propriedade estratégica vendeu a empresas chinesas. Poderá considerar-se aliás que foi o político português que estabeleceu as relações mais rentáveis que o Partido Comunista Chinês jamais teve com o nosso país, mordomia estendida a algumas empresas privadas chinesas» 
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O político à procura de memória



«Os políticos também costumam sofrer ataques de amnésia, mais ou menos graves. Nada de espantoso, porque descobrimos casos desses ciclicamente. Um político sem memória pode assim sair dessa experiência traumática sem problemas. Freud explicou os sintomas dessas memórias reprimidas, mas isso não invalida que a classe política continue a brindar-nos com exercícios de amnésia mais ou menos elaborada.

A entrevista de Passos Coelho ao "Jornal de Notícias" é, num momento grave para Portugal, um exemplo de como a memória é uma mercadoria eleitoral. Ele não tem culpa: é um hábito português. Prova como a memória pode ser afectada pela teoria da relatividade. Fica-se comovido porque Passos ficou chocado com o aumento de impostos promovido pelo OE deste Governo. E ficamos na dúvida sobre quem terá promovido, há uns anos, o maior aumento de impostos jamais visto, com a desculpa de se combater a dívida (que afinal cresceu). Terá sido Batman ou o Speedy Gonzalez? Não foi Passos certamente. De outra forma, ele lembrar-se-ia.

Aliás também estamos a tentar recordar-nos de um político que, muito sério, antes de ganhar as eleições, prometia a uma criança que não ia tirar o subsídio de Natal ao pai. O momento foi emocionante. Quem terá sido? A ovelha Xoné? Passos também diz que quando saiu do Governo o Banif dava lucro. Realmente não se percebe porque queria Bruxelas planos de reestruturação do Banif e ainda forçou a sua venda à pressa. Talvez cada um falasse de um Banif diferente. Passos veste agora um atraente fato social-democrata. Mas o que é mais curioso é que estamos a assistir à repetição da estratégia que Passos utilizou quando afundou o PEC IV.»

Fernando Sobral

15.2.16

Faz de conta que estou lá (5)



Angkor Wat, Siem Reap, Camboja, 2009.
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Assim vamos


Nicolau Santos no Expresso diário de 15.02.2016
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Grécia vende Porto do Pireu para pagar 15 días de juros



Terminou na semana passada a privatização do Porto de Pireu, o maior porto comercial da Grécia e um dos mais antigos do Mediterrâneo. O comprador foi o grupo chinês COSCO Limited, e a transação foi feita por um valor total de 368,5 milhões de euros, em duas fases. A empresa chinesa pagou 280,5 milhões para adquirir 51% das acções e, dentro de cinco anos, desde que tenham sido cumpridas certas condições descritas no contrato de compra, Cosco pagará mais 88 milhões de euros para ficar com 67% do total de ações.

Os benefícios para os gregos vão ser escassos: os 280,5 milhões de euros não estarão disponíveis para o Estado, já que todas as receitas de privatizações são direccionadas para o pagamento da dívida. Segundo o Orçamento de 2016, a Grécia tem de pagar 6.000 milhões de euros de juros sobre a dívida e, assim sendo, o produto da venda do maior porto comercial do país chegará apenas para pagar duas semanas dos ditos juros.

Mais informações aqui.


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A primeira vez foi há três anos



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O inimigo público número 1



«Sem o doutor Moriarty, Sherlock Holmes não seria um detective brilhante. E James Bond, sem Goldfinger, seria um fastidioso agente secreto. O valor de uma vitória tem sempre que ver com o poder do adversário.

Alfred Hitchcock, que sabia como fazer tremer os espectadores, chegou mesmo a clamar: "As melhores histórias são as que têm os piores malvados." Porque, quando derrotados, permitem-nos despertar de um pesadelo profundo. Nesta crise das bolsas, dos bancos, do petróleo e das dívidas soberanas, todos procuram o seu inimigo público número 1 de estimação. Nada que admire muito: a culpa é sempre do outro. E assim podem-se criar ódios de estimação ao sabor das conveniências. Que são vendáveis às claques de apoio de cada lado da barricada. O que se está a passar com os juros da dívida pública, aliados a um OE de que muitos desconfiam, serve à vontade para se encontrar bodes expiatórios de conveniência.

Mas, no meio deste drama, onde nem falta essa figura altiva e dispensável que é Jeroen Dijsselbloem e aqueles que acham que este país deve ser um protectorado de Bruxelas, o cerco parece estar montado. Portugal é, mais uma vez, quem der o corpo às balas pela Europa. Já se viu este filme. E vai voltar a ver-se. A austeridade, sob a forma de aumento de impostos, vai manter-se, porque o Governo vai ter de recuar. Mesmo que haja uma manifestação de clones de Ana Avoila até São Bento. Para os mercados, Portugal é o elo mais fraco desta Europa que parece um canavial que treme por todos os lados. Para a Europa das certezas, Portugal é o útil bode expiatório das suas fragilidades. Portugal é o Goldfinger desta Europa que se julga James Bond e que é, apenas, Austin Powers. Mais uma vez mostra-se, à evidência, a fragilidade deste país, definhado pela dívida e incapaz de ter uma visão estratégica sobre o seu destino. Nada aprendemos com a História. Sabemos apenas aumentar impostos para que ninguém nos chame Goldfinger.»

Fernando Sobral

14.2.16

Faz de conta que estou lá (4)



Sossusvlei, deserto da Namíbia, 2007.
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Dia dos Namorados?

«Mon cœur te dit je te aime.»
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E já lá vão cinco anos



«Tahrir é a arma que resta, diz Omar Robert Hamilton, fundador de um colectivo-arquivo da revolução. Num texto publicado no Guardian, lembra: “A Praça Tahrir foi um espectáculo, por um momento parou o país, o mundo até, a história renasceu. A polícia foi expulsa das ruas e a cidade era nossa.” Isto foi real, derrubou um ditador. “Fomos naive, sem dúvida, mas o resto do mundo foi naive connosco.” O que resta hoje para lutar? “A memória da possibilidade é tudo o que temos. Talvez por agora seja o bastante. (…) “Não posso dizer que estou optimista. Mas não estou morto e não estou na prisão, então não tenho o direito de dizer que está tudo acabado.” Não enquanto a memória da possibilidade estiver lá.»

Os melhores dias das nossas vidas.(Alexandra Lucas Coelho)
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Dica (223)



Racistas(Manuel Loff) 

 «Fez bem a Assembleia da República em condenar o que achou, por unanimidade, ser um “evidente retrocesso político, jurídico, social e civilizacional”. E, por mais dúvidas que alguns tenham, bem fez o grupo parlamentar do PS em convocar o embaixador dinamarquês em Portugal para prestar explicações aos deputados sobre a “lei das joias”; se o diplomata queria embaraçar os socialistas portugueses ao sublinhar que até os sociais-democratas do seu país apoiaram a proposta da extrema-direita racista (que já é o segundo mais votado naquele país), não fez mais do que confirmar a eficácia do discurso racista que, por todo o Ocidente, salta barreiras ideológicas que durante décadas pareciam intransponíveis.» 
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Estamos todos em perigo!



«O dr. Pedro Passos Coelho declarou, à puridade, ser social-democrata, ideologia que nunca praticou nos quatro anos e tal em que governou o país. Temo, aliás, que, dos fundadores do PSD, apenas dois, Francisco Pinto Balsemão e Magalhães Mota, possuíam noções do que era, ou seria, a social-democracia. Nem mesmo Francisco Sá Carneiro, porque demasiado autoritário, seria social-democrata genuíno. Quando muito, demoliberal. Estava-lhe no sangue, na cultura e no ambiente em que vivera e, de certa forma, o moldara.

O PSD foi estruturado numa mistura insólita de proveniências. Nele se acolheram republicanos sossegados, fascistas à procura de telhado, dissidentes do salazarismo à espreita de melhor futuro e desempregados da política. Esta "mixurucada" era uma confusão de tal ordem que o próprio Sá Carneiro com ela não se entendia. E disse-o a quem o quis ouvir. (…)

Pedro Passos Coelho disse por dizer aquelas frases sobre a social-democracia. Ele percebe não possuir foças suficientes para mudar o rumo, ancilosado, de um partido que nunca poderá ser social-democrata, até pelas origens da sua fundação e porque não faz sentido algum. Alguns "companheiros" irritaram-se, mansamente embora, pela deriva e assunção direitista claramente assumidas por Passos Coelho, na obediência tola aos ditames alemães. Só isso, e nada mais.

Espancou o país, note-se: os mais pobres e desfavorecidos, e ganhou as eleições. Não é totalmente surpreendente. Com um PS como este, cheio de armadilhas e ciladas, mais propenso ao remanso do que à luta, declaradamente conservador e plácido (exemplos: Seguro, Beleza e Assis, entre outros) nada é improvável. Acresce a comunicação social, um molusco desacreditante, e aí estão as causas das coisas.

O Bloco de Esquerda, que empurrou o PCP para uma situação insólita, aproveitou o vazio e impôs a vivacidade de uma linguagem, e a força de quatro ou cinco mulheres, preparadas e combativas, num tempo de grandes mudanças. Claro que dito assim, tudo é rudimentar. Mas a verdade é que tem sido assim que as mudanças se efectuam.

Tudo está a alterar-se, a ser alterado, e os dirigentes políticos, os nossos e os europeus, parece que não estão a tempo. O "sistema" criou uma série quase infinita de ociosos que vivem à custa dos outros, e fomentou o "facilitismo", a pior de todas as indolências que destrói, lentamente, as sociedades, como acontece na nossa e em outras. É preciso dizer que estamos todos em perigo.»

Baptista Bastos
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