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12.3.16

É mais ou menos isto


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Se...



Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o «ponto» do Jorge!) tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva»;
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

    ...Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?

Alexandre O'Neill,
1958
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Perito Moreno




Um dos meus lugares de culto colapsou, há dois dias, como não acontecia desde 2012. O que eu não dava para ter lá estado!
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Eutanásia



«A maioria das pessoas toma decisões com base na ideologia, na religião ou nos media. Seria certamente melhor se cada um usasse a própria cabeça com racionalidade. Mas isso é raro. Muito raro.

Neste contexto, o debate público sobre qualquer matéria torna-se extremamente penoso. Não se consegue abordar o essencial e perde-se muito tempo com as mais diversas questões laterais ou irrelevantes. A discussão sobre a eutanásia aí está para o demonstrar. Até ao momento temos algumas declarações "polémicas" de enfermeiros e médicos; seguidas da reação estapafúrdia da Ordem dos Médicos que ameaça processar toda a gente; temos a recorrente defesa da vida divinizada pelos militantes católicos; e o alinhamento ideológico de uns e outros, direita contra, esquerda a favor. Pelo meio fica a barafunda habitual provocada pelas televisões. (…)

Porque se fala então tanto de eutanásia hoje? Por uma razão simples. A extraordinária evolução da medicina nas últimas décadas permite agora combater a maioria das doenças e prolongar a vida até aos 80, 90 e até mais de 100 anos. Não sem consequências perversas. A capacidade de prolongar a vida, por meios artificiais, gera situações incongruentes. Nem se está vivo nem morto, mas o sofrimento subsiste. Chama-se distanásia.

Considero a distanásia um problema muito maior do que a eutanásia. Com a evolução da medicina e das tecnologias da saúde vai sendo cada vez mais frequente prolongar a vida em estados comatosos ou vegetativos. Tal com a distopia está para a utopia, a distanásia está para a eutanásia. É o seu lado negro. (…)

Convenhamos, a morte está no mesmo plano da vida, os direitos têm de ser similares. Bem sei que a maioria das pessoas não gosta de falar do assunto. É um dos maiores tabus das nossas sociedades. Mas na verdade a morte é mais certa do que a vida. Porque esta pode nunca acontecer, mas quando se dá, a morte é garantida.

Por isso tal como existem médicos que praticam os partos, ajudando a antecipar, facilitar, garantir que corre bem, também na morte devemos ter profissionais preparados para assistir quem deseje pôr fim aos seus quinze segundos de fama e brilho.»

É para aí que vamos, por muito que isso assuste algumas pessoas. Na Europa já existem clínicas especializadas na assistência à morte. Na Holanda, Bélgica, Suíça e Luxemburgo onde a prática é legal. No futuro, elas existirão por todo o lado. Nasceremos numa clínica e iremos morrer noutra. Porque é da natureza humana querer acabar sem sofrimento nem mágoa.»

Leonel Moura

11.3.16

Faz de conta que estou lá (30)



Antigua, Guatemala, 2014.
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Dica (243)



Marcelismo, dia terceiro. (Fernanda Câncio) 

«Este lado temerário, irresponsável e tão pouco cristão de Marcelo, há décadas a fazer as delícias do jornalismo dito "político" (o qual, não esqueçamos, integrou nos primórdios do Expresso) e patente no descaramento com que renega declarações e ações anteriores, deveria deixar toda a gente com o mínimo de informação com um ou mesmo os dois pés atrás. Em vez disso, o que vemos são declarações de amor, baba e comoção, e o verberar autoritário dos partidos que "ousaram", recusando palmas na posse e no discurso, não aderir ao unanimismo marcelista. (…)

Tudo bem, ver Cavaco pelas costas é um alívio. E Marcelo puxa à festa, literal e metaforicamente. Mas se há algo de notável naquele discurso é ser uma camisola tamanho universal a que não falta sequer o bafio da exaltação da "alma tuga" - ali em "indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica" - e da "grandeza", a terminar numa espécie de grito de Nun'Álvares: "Pelo Portugal de sempre!".»
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«Olá, Marcelo. Onde é que estava no 11 de Março de 1975?»



Esta era a pergunta que gostava de fazer hoje ao novo presidente da República, só para ver se respondia que estava cheio de «afectos» (ninguém estava…) ou «com todos os portugueses» (o que teria sido uma verdadeira solução para a quadratura de um complicado circulo). Responderia, muito provavelmente, que se encontrava no Expresso a escrever notícias – a resposta sempre pronta que tem para perguntas sobre tempos mais ou menos incómodos.

Eu sei muito bem por onde andei: primeiro no meu local de trabalho, desde o almoço nas imediações do Ralis a tentar ver em que paravam as modas, durante o resto do dia em concentrações, por ruas de Lisboa, convocadas nem sei como, e que desembocaram ali para os lados das Janelas Verdes e da Infante Santo. Mas recordo sobretudo o dia seguinte e uma Assembleia Geral de Trabalhadores da empresa em que então estava – a IBM –, numa sala absolutamente à cunha, com mais de 400 pessoas, na qual foi aprovado, quase por unanimidade, um texto que talvez pareça hoje saído de uma série de ficção:

Moção

As forças dos monopólios e dos latifundiários lançaram mais um ataque contra o processo revolucionário iniciado no 25 de Abril.
Aproveitando-se da impunidade com que actuaram no 28 de Setembro, da presença entre nós de agitadores internacionais ao serviço dos potentados económicos, tentaram mais uma vez fazer regressar o fascismo com todo o seu cortejo de crimes de exploração e opressão.
Mais uma vez os trabalhadores se ergueram aos milhares, com os seus sindicatos e com os partidos verdadeiramente democráticos e defenderam, na rua, a liberdade de levar a Revolução até às últimas consequências.
Os trabalhadores da IBM, pondo-se ao lado da massa dos trabalhadores portugueses, exigem:
1 – Castigo exemplar para os contra-revolucionários.
2 – Expulsão dos agitadores estrangeiros que tentam levar o nosso país para a guerra civil.
3 – Aplicação imediata de medidas económicas e sociais que, retirando aos monopólios e latifundiários o poder de que ainda efectivamente dispõem, tornem realmente irreversível o processo revolucionário.
4 – Proibição de todos os partidos que efectivamente estão do lado da reacção.

O que se seguiu em Portugal é conhecido:

11 de Março marca o início do PREC, que viria a durar oito meses e meio – até ao 25 de Novembro. Quem já era adulto lembra-se certamente dos ambientes absolutamente alucinantes, sobretudo a partir de 14 de Março quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e da maior parte das companhias de Seguros. E não se julgue que foi só a chamada extrema esquerda a aplaudir essas medidas:

«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoiou-as, embora prevenindo que "substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa".

Mário Soares mostrou-se eufórico, considerando tratar-se de "um dia histórico, em que o capitalismo se afundou". Disse num comício que "a nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal".» (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28.)

Quem quiser conhecer ou recordar os acontecimentos do dia 11 tem à disposição três vídeos:


Mais aqui e aqui.
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Aplausos, aplausos!



A saga continua. Só falta lançar uma Petição para que a Constituição seja alterada no sentido de os aplausos, na Assembleia da República, serem obrigatórios em determinadas circunstâncias. Santo país sem emenda! 
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O Silva da Maria



«Sai Cavaco e fica uma alegria semifúnebre, como quando morreu a bêbeda do bairro que aterrorizava os miúdos no Jardim da Estrela e gritava palavrões porno na rua durante a noite.

Foi um alívio imenso quando recebi a notícia, a de que a bêbeda tinha batido a bota, mas, de certa maneira, já fazia parte do bairro. - "Olha, devem ser três da manhã porque lá está a p... da bêbeda a gritar e a partir garrafas." Já não tenho ninguém para insultar às três da manhã porque "este podia ser um bairro do caraças, não fosse o bêbedo do Aníbal", salvo seja. (…)

Na noite de despedida de Cavaco, ouvi, várias vezes na TV, dizer que Cavaco foi um homem muito só. Só?! A Maria enche uma casa. Ninguém vê o papel da Maria Cavaco na história do nosso país?!

A Maria nas inaugurações, nas declarações, à porta de feiras, sempre ao lado (para o fim, até nos discursos à nação) a marcar com os olhos a concordância. Olhando para Aníbal, enquanto este discursa, como um homem forte e de confiança, mas, ao mesmo tempo, vai tirando cabelos imaginários do ombro do marido, infantilizando-o, porque é mais forte do que ela. É o que faz lá em casa: compõe o Aníbal. Dá-lhe o empurrão para o acordar. (…)

Tenho a sensação de que grande parte das decisões de Aníbal, que implicaram chatices, foram instigadas pela Maria: - "Vai lá denunciar que o meu pai vive com outra." - "Anda lá fazer a rodagem ao carro." - "Tu nem penses em ir ao enterro do comuna!" Até o BPN é, no pecado original, culpa da Maria: "Olha as casas que tem o teu amigo Dias Loureiro. E é muito mais baixo do que tu. Faz-te homem! Olha os teus netos." A Maria está ali para o ajudar a descair para o que realmente lhes interessa. (…)

Aníbal, casado com uma mulher diferente, que não inflamasse o pior dele, podia não ter feito tanta asneira como fez e o país podia estar muito melhor. Por exemplo, se Cavaco tivesse casado com a Ana Maria Magalhães (co-escritora dos livros "Uma Aventura"), ela tomava conta dele, acalmava-o. Puxava pelo seu lado bucólico, ajudava-o na concordância verbal, e Aníbal teria estado estes dez anos a dar ideias para os livros "Uma Aventura", em vez de escrever Roteiros de raiva. A bem da Nação, Aníbal precisava de outra Maria.» 

João Quadros

10.3.16

Faz de conta que estou lá (29)



Cópan, Honduras, 2014.
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Não andavam à procura de um sucessor para o Dalai Lama?

Woody Allen, genial como sempre



Dificilmente encontraria um texto que tão bem se adaptasse ao meu estado de espírito no dia de hoje. Repesco-o do baú. 

«Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente. 
Começar morto, para despachar logo o assunto. 
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. 
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. 
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo. 
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. 
Aí torno-me um bebé inocente até nascer. 
Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilà!" - desapareço num orgasmo.» 

Woody Allen
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Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Basicamente, há três grandes perspectivas sobre a liberdade de expressão: há as pessoas que são contra, as pessoas que são a favor, e as pessoas que são a favor desde que a liberdade de expressão sirva apenas para que os outros possam dizer coisas que não ofendam ninguém. Eu pertenço ao segundo grupo, com mais duas ou três pessoas. (…)

Liberdade de expressão, sim – mas sem ofender. Pessoalmente, gosto da minha liberdade de expressão sem mas. É liberdade de expressão sem mas, e café sem açúcar. Realmente, não fica tão docinho, mas não estraga o verdadeiro sabor»

Na íntegra AQUI.
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Não se admirem se eu não voltar aqui



É que, dê-se o caso de Marcelo passar por Benfica e me dizer «Olá, Joana!», e estou certa de que me dará um badagaio. Com este jornalismo sénior que temos, há esperança em quê? Lucidez ou isenção, por exemplo?


«Quando se começa o dia assim, descendo a Calçada da Estrela e ouvindo um cumprimento do Presidente que vai tomar posse, fica-se embevecido e perde-se a noção de que se é jornalista sempre. Foi o que me aconteceu. Tinha Marcelo Rebelo de Sousa ao meu lado, sorridente, trocando cumprimentos, e não fui capaz de pegar no telefone e entrar em direto na minha rádio.» 
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O erro na tradução



«Pierre Moscovici, quando tenta brincar com o "erro na tradução" do "se" e "quando", do "if" e do "when", tropeça no seu drible curto. Moscovici parece não perceber, ou percebe bem demais, que os seus trocadilhos, obra de um equilibrista destinado para outras vocações, não são um momento de humor. Brinca com o orgulho das nações. O trocadilho de Moscovici não tem um vencedor. Tem um perdedor: a UE. (…)

O problema é que a Comissão Europeia não vê com bons olhos a conjugação de forças políticas à volta do Governo português. Tem medo de uma contaminação. E por isso Moscovici, sendo traído pelas palavras, não o foi pelo subconsciente. O que ele tentou dizer de forma atrapalhada, numa versão europeia do discurso de alguns treinadores de futebol nacionais, é que a CE vai apertar António Costa até onde for possível. Ou até onde se tornar impossível a Costa manter um discurso que faça a ponte entre gregos e troianos. O erro na tradução é uma desculpa frouxa, areia do deserto europeu para os olhos portugueses. Apenas mostra o que é Bruxelas neste momento.»

Fernando Sobral

9.3.16

Faz de conta que estou lá (28)



Colónia do Sacramento, Uruguai, 2015.
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Dica (242)



Imposto sobre a vergonha. (Bernardo Pires de Lima) 

«Foram 250 mil as que chegaram à Europa em 2015 - 0,05% do total da população da UE - mas há quem fale em "invasão islâmica". Se a vergonha pagasse imposto pelo menos estas vidas já estariam integradas e uma geração teria sido resgatada do terror.» 
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Ver o Fefé Rodrigues nestas andanças



… tem mesmo alguma graça, se recuarmos umas décadas.
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Pablo Iglesias faz escola

Som do dia




P'ra pior já basta assim.
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O comissário do povo



«Os comissários da União Europeia têm um sonho escondido: gostariam de ser como os comissários do povo bolchevique. Alguns devem ter, nos seus smartphones, fotos do comissário Béria, aquele de que todos tinham medo e que só tinha terror de Estaline.

Por isso, quando o comissário Moscovici ameaça vir a Lisboa, na quinta-feira, para "implementar medidas adicionais" ao OE, vem tentar mostrar que é ele que manda. Nesta UE caduca e a implodir, talvez seja. Mas é, mais uma vez, uma prova de que a força dos comissários europeus é apenas uma ilusão de óptica. Na realidade, a UE e o seu exército de eurocratas militantes são uma tropa fandanga. Ainda amedrontam porque os países endividados deram demasiados trunfos a Bruxelas. Mas já ninguém lhes tem respeito. Se assim fosse, a Europa não era hoje um continente que parece um labirinto de muros e arame farpado onde jaz, perdido, Schengen. A imobilidade forçada a que nos obriga esta UE, incapaz de se recentrar como potência global e como poder económico, vai corroendo as suas raízes. Quanto mais ameaça países como Portugal, mais fraca está. Como se viu nas negociações com a Grã-Bretanha. Como se está a ver nos compromissos que tenta fazer com a Turquia.

Os comissários do povo da UE descobriram que, para que a Turquia faça o que eles são incapazes de fazer, terão agora de aprender a ceder em tudo. Terão de dar o dobro do dinheiro à Turquia, terão de aceitar o acesso mais fácil dos turcos à UE, terão de mostrar com um sorriso nos lábios que querem Ancara na Europa. Não houve uma negociação: os comissários do povo renderam-se porque a Turquia, sabiamente, tem todas as armas e a UE só tem pólvora seca. Para não implodir dentro de fronteiras que deixou de controlar, a UE teve de ceder. Porque as alternativas, como Angela Merkel fez questão de tentar explicar aos seus colegas, eram piores. É face a isto que a mensagem dura do comissário Moscovici parece a de um parente afastado de Béria: a sua ameaça é um grito de medo.»

The end!


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8.3.16

Faz de conta que estou lá (27)



Malaca, Malásia, 2012.
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Dica (241)




«Só um milagre poderá salvar a Europa. A posição alemã é confrangedora. Vemos as pessoas agarradas a uma visão que demonstrou estar errada. O diagnóstico desta crise, a da crise das dívidas soberanas, é completamente patético. Quando verificamos que por cada euro que foi colocado nos resgates dos países tivemos mais de 10 euros dados ao sistema financeiro! (…)

Se saíssemos agora do procedimento por défice excessivo, a partir de 2019 entrávamos num terreno de redução absoluta de dívida pública, de 5% ao ano. O país começava a partir-se! Isto é impossível. Só com uma guerra civil ou pondo as pessoas a pão e água. Infelizmente estamos numa altura em que a diferença entre mentira e verdade é muito ténue. A política utiliza as representações não com o seu valor de verdade mas com o seu valor de funcionalidade. É funcional simular que se acredita nisto, mesmo que não se acredite.»
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O homem que queria ser como Salazar mas a quem faltavam todas as qualidades



Excertos do texto de Daniel Oliveira no Expresso diário de hoje, 08.03.2016: 

   (...)
   (...)

Prenda para Cavaco




... na hora da despedida. 

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Portugal e direito ao voto das mulheres



Hoje não é o «meu» dia coisíssima nenhuma: é de todos, homens e mulheres, que lutaram, e têm de continuar a lutar, pela não discriminação de metade da humanidade.

Quanto a direito ao voto feminino, em Portugal foi assim:

Tudo começou com o decreto 19.692, de 5 de Maio de 1931. Mas com excepções, como a de Carolina Beatriz Ângelo (na foto) que foi a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto (nas constituintes de 28.05.1911), concedido por sentença judicial, após exigência da condição de chefe de família, dada a sua viuvez.


Em 1933 e em 1946 foram levantadas algumas restrições, mas só quase no fim de 1968, já durante o marcelismo, é que acabaram por ser removidas quaisquer discriminações para a eleição de deputados à Assembleia Nacional. (Depois do 25 de Abril, o direito universal de voto passou a aplicar-se também às eleições presidenciais e autárquicas.)


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O adeus de Cavaco



«O seu adeus a Belém marca o fim de uma era e, muito provavelmente, o resto de qualquer influência política no futuro do país que desenhou há muito.

Afinal este Portugal que hoje temos, no melhor e no pior, é uma herança sua. Cavaco Silva sempre foi um crente, mas nunca um devoto. Aliou a crença nas privatizações com o papel determinante do Estado como motor da transformação de Portugal. Trouxe os homens do país real para o centro da política, delimitando o poder da célebre linha Estoril-Cascais, que nunca lhe perdoou. Teve sempre demasiadas certezas e poucas dúvidas e foi, por isso, que muitas vezes se perdeu demasiado atrás de um biombo desnecessário. Não surpreende por isso que o homem que teve os portugueses a seus pés abandone Belém sem uma exclamação de agradecimento. Cavaco perdeu-se no seu tempo e talvez tenha deixado de perceber aquele que se foi construindo longe dos muros de Belém. Esta sua solidão final, ainda mais vincada por estes dias em que Marcelo já parecia ser o PR, mostra que a eternidade, na política portuguesa, é efémera. A sua missão acabou há algum tempo. Mas agora é oficial.»

Fernando Sobral
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7.3.16

Faz de conta que estou lá (26)



Ilhas Galápagos, Equador, 2004.
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Dica (240)



Mr. Scrooge and Dr. Moedas. (Francisco Louçã) 

«Diz Carlos Moedas, agora comissário europeu, que não há consenso para a reestruturação da dívida. “No curto prazo”, tem o cuidado de acrescentar. Em todo o caso, a questão é uma garotice, sublinha o comissário: “Sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele, exactamente porque sei que há outras maneiras de conseguir avançar na Europa e não estar a ir para temas onde não vamos conseguir qualquer tipo de consenso”. Ele não consegue “intelectualmente perder muito tempo com ele”, para que havemos de o incomodar.»
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Grécia: nação valente

O activo tóxico de Maria Luís



«Desde que foi eleita deputada, Maria Luís Albuquerque tornou-se o exemplo da discrição. Senta-se na última fila e fala apenas o necessário para se saber que faz parte do grupo parlamentar do PSD.

Não poderíamos esperar que Maria Luís fosse a Lady Gaga do PSD. Talvez todos sonhassem que ela se transformasse numa versão Carmen Miranda de Margaret Thatcher. Mas não. Ela, desde que saiu do Governo, prefere ser uma nuvem passageira. Não é uma dama de ferro enferrujado. É uma observadora da realidade, uma reserva do PSD enquanto olha para o seu futuro pessoal em termos profissionais. Os anos que passou no Ministério das Finanças deram-lhe aquilo que hoje torna qualquer político num Midas: informação e contactos. A sua contratação pela Arrow Global não pode ser encarada uma surpresa.

Maria Luís é livre, à luz da lei, de seguir o caminho que conduz, segundo ela, ao sucesso. É claro que o grande invento da nossa cultura é a noção de consciência, com a qual cada ser pode decidir o que está bem e o que está mal. Maria Luís invoca a lei a seu favor. E não vê qualquer incompatibilidade entre estar no coração do órgão que elabora e aprova as leis da República e estar a trabalhar com uma empresa que negoceia com activos tóxicos de empresas. E que tem um directo reflexo na economia portuguesa. Mas, é claro, esta decisão não tem que ver com a lei. Tem que ver com a consciência ética. É uma mais-valia para Maria Luís, mas é um défice de credibilidade para o PSD. Porque tudo o que Maria Luís disser a partir de agora, no Parlamento, será sempre lido consoante o momento: fala ela como deputada ou como funcionária de uma empresa? É uma dúvida tão legítima como Maria Luís poder ser colaboradora da Arrow Global. Aqui o PSD perde todo o crédito ético para atirar pedras ao PS. Este é um mundo, como dizia Max Weber, onde muitos vivem "da política" e não "para a política". A dúvida talvez não se aplique a Maria Luís. Mas o PSD terá agora de perceber se Maria Luís não se tornou um "activo tóxico" para o futuro.»

6.3.16

Faz de conta que estou lá (25)



Doha, Qatar, 2012.
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Maria Luís: «Always look at the bright side of life»



Ainda a propósito da ida de Maria Luís Albuquerque para a Arrow Global, vai longa a discussão nas redes sociais e transponho para aqui um breve comentário que deixei no Facebook:

1 – É a própria Arrow Global que indica como único elemento do currículo de MLA, ou seja como elemento justificativo da sua contratação, o facto de ela ter sido ministra das Finanças:

2 – «Always look at the bright side of life». Ao aceitar este lugar, ganhando pouco ou muito, MLA dá-nos um sinal importante: põe fim às suas ambições políticas em Portugal e à esperança daqueles que nela viam uma putativa sucessora de Passos Coelho. Menos uma, para a frente é que é o caminho – que seja daqueles que têm vergonha na cara, seja de que partido forem.
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Garcia Márquez, 06.3.1927



Gabriel Garcia Márquez faria hoje 89 anos e morreu em 2014. Foi certamente um dos escritores da minha vida e, durante muitos anos, respondia à tal pergunta parva sobre o livro preferido entre todos referindo Cien años de soledad. Em espanhol, sim, porque não esperei pela tradução para o ler, assim que saiu em 1967. Não sei se foi o «melhor livro escrito em castelhano desde Quixote», como terá dito Pablo Neruda, mas para mim foi um marco inesquecível.

Pelo caminho, ficaram Os Funerais da Mamãe Grande, O Outono do Patriarca, O Amor nos Tempos de Cólera e muitos outros. Até que, em 2002, me precipitei de novo para a primeira edição, em espanhol, de Vivir para contarla, relato romanceado das memórias da infância e juventude de GGM. A prometida continuação nunca veio (o que foi anunciado como um primeiro volume pára em meados da década de 50). Releio hoje o que escreveu como epígrafe do livro: «La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla.»

Foi nesta cama dos avós, em Aracataca, que veio ao mundo. Estive lá em 2012, sempre à espera de encontrar algum membro da família Buendía ao virar de uma esquina, um qualquer José Arcádio ou um dos muitos Aurelianos… Foi em Aracataca que se inspirou para criar a mítica aldeia de Macondo, de Cem anos de solidão.

Em rigorosa «peregrinação», fiz um desvio de dezenas de quilómetros para chegar a essa localidade, hoje com 45.000 habitantes, feia e infelizmente desmazelada, que não honra como devia o que de mais importante deu ao mundo (a não ser pela boa conservação precisamente na moradia em que «Gabo» nasceu,
actualmente transformada num pequeno museu que justifica, sem dúvida, a deslocação e a visita).

«Gabo» foi pela última vez a Aracataca em 2007, para uma tripla comemoração: dos seus 80 anos, do 40º aniversário da publicação de Cem anos de solidão e do 25º da atribuição do Nobel da Literatura.

Ficam duas referências:

– No Notícias Magazine de 28.04.2013, Ricardo J. Rodrigues publicou uma belíssima crónica sobre a estadia de Gabriel García Márquez em Lisboa, em Junho de 1975, o que pensou, por onde andou, com quem esteve. O texto está online.

– Um pequeno fragmento da descrição da morte de José Arcadio Buendía em Cien años de soledad:
«Entonces entraron al cuarto de José Arcadio Buendía, lo sacudieron con todas sus fuerzas, le gritaron al oído, le pusieron un espejo frente a las fosas nasales, pero no pudieron despertarlo.
Poco después, cuando el carpintero le tomaba las medidas para el ataúd, vieron a través de la ventana que estaba cayendo una llovizna de minúsculas flores amarillas. Cayeron toda la noche sobre el pueblo en una tormenta silenciosa, y cubrieron los techos y atascaron las puertas, y sofocaron a los animales que durmieron a la intemperie. Tantas flores cayeron del cielo, que las calles amanecieron tapizadas de una colcha compacta, y tuvieron que despejarías con palas y rastrillos para que pudiera pasar el entierro.»

Dica (239)



O que (não) é a União Europeia. (Carvalho da Silva) 

«Para os portugueses e para muitos outros europeus, a União transformou-se num agente externo, um quase adversário. Em diversas matérias e ocasiões surge-nos como ameaça da qual temos de nos defender. Porque será? A resposta é simples. A União Europeia, ao mesmo tempo que assume um papel que originalmente não lhe competia, em domínios de política que lhe estavam vedados e se necessário indo contra as escolhas democráticas dos povos, abstém-se de funções que lhe competem em assuntos onde seria absolutamente indispensável agir.»
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A social-democracia de Passos Coelho



«Pedro Passos Coelho, segundo dizem os jornais e as televisões, converteu-se à social-democracia. Profissão de fé nova, após quatro anos de pretenso liberalismo, tem a ver com duas coisas: continuar a ser líder do PSD e reconquistar o "centro" que, segundo alguns, lhe poderá permitir reconquistar o poder. Tudo isso é um logro: Passos Coelho só terá qualquer hipótese de voltar a S. Bento se António Costa falhar no próximo ano. De outra forma o PSD procurará outra solução. (…) O bombom da moção é o PSD preferir a defesa "da economia social de mercado, onde a realização dos direitos sociais vem progressivamente associada às condições materiais objectivas que o progresso económico propicia". Ou seja, Passos Coelho não considera que tem uma ideia social-democrata que deve moldar a economia dentro de um princípio de "contrato social" que esteve na sua génese. Não: a social-democracia nasce do "progresso económico". Ou seja, a economia submete a ideologia. Assim sendo, Passos Coelho não é social-democrata: é um gestor da sociedade. Um tecnocrata que, por acaso, está na política. (…)

O propósito da social-democracia era proteger a classe média, a sua fonte de juventude. Mas a globalização financeira dos anos 80 e o neo-liberalismo inverteram as lógicas: o mundo deixaria de estar dividido entre ricos e pobres, mas entre os que trabalham e investem e os "parasitas". Esse conceito foi central na política de Passos Coelho durante quatro anos e onde se assistiu à destruição da classe média, base do equilíbrio da sociedade, da democracia e da social-democracia. Ou seja, o "centro" que Passos Coelho diz agora querer recuperar foi o que andou selvaticamente a destruir durante quatro anos. Por isso mesmo a sua moção é uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Tudo acaba por se reconduzir a uma pressa enorme para que António Costa caia e ele seja, mesmo sem eleições, recolocado em S. Bento. Coisa em que, pelos vistos, só ele acredita. Porque sem eleições dificilmente Passos voltará a S. Bento. E, para isso acontecer, é necessário que António Costa caia. E que, depois, isso aconteça em tempo útil para o PSD ainda manter Passos como líder.»