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19.3.16

Faz de conta que estou lá (37)



Habitantes de um Orfanato de Elefantes no banho diário, Pinnawala, Sri Lanka, 2011. 
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Butão: um dos mais fascinantes países deste mundo



Deep in the Himalayas, on the border between China and India, lies the Kingdom of Bhutan, which has pledged to remain carbon neutral for all time. In this illuminating talk, Bhutan's Prime Minister Tshering Tobgay shares his country's mission to put happiness before economic growth and set a world standard for environmental preservation.


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Refugiados – Ainda sobre o acordo EU – Turquia


Insisto porque julgo que não está a ser dada a devida importância àquilo que ontem foi decidido, talvez porque as nossas atenções estão quase exclusivamente viradas para o Brasil. Mas creio que foi grave, muito grave.

Cito o Editorial do Público de hoje:

«É difícil considerar que o controverso acordo do "um por um" (por cada imigrante que a Europa devolve à Turquia, a União Europeia recebe um refugiado legal) que ficou concluído esta sexta-feira em Bruxelas faça parte de uma política europeia consistente e integrada para os refugiados. Quando muito, é um remendo, que tenta colocar um tampão nas fronteiras da Turquia e que muito provavelmente terá o efeito imediato de ser contraproducente e levar os refugiados a procurar rotas ainda mais perigosas para chegar à Europa. “Se não posso ir para a Grécia, vou tentar ir de Mersin [um porto no Sul da Turquia] para Itália. Até já combinei a rota com um traficante.” As palavras são de Youssef Frayha, um estudante sírio, quando questionado pelo Guardian sobre o acordo firmado entre Davutoglu e a União Europeia. Provavelmente e infelizmente nos próximos dias ouviremos falar mais de embarcações ao largo da Líbia ou em Lampedusa. (…)

O entendimento a que se chegou, apesar de vincar que não haverá lugar a “expulsões colectivas”, continua no limite da legalidade, já que será muito difícil de monitorizar se os reenviados para a Turquia não serão reencaminhados para os seus países de origem, nomeadamente para a Síria. E resta perceber a questão da logística, pois no espaço de 48 horas terão de ser colocados na Grécia uma quantidade anormal de funcionários, nomeadamente juízes, para garantir que os pedidos de asilo são analisados de forma individual, respeitando a lei internacional. E aqui vem-nos à memória a velocidade desconcertantemente lenta de execução do acordo para a realocação dos 160 mil refugiados que estão na Grécia e na Itália. Até agora só 937 é que foram acolhidos noutros países. Só 937.

Por falar em números, ficou subjacente no acordo do "um por um" um tecto provisório de 72 mil, um número muito aquém dos 108 mil por ano recomendados pelas organizações humanitárias, durante cinco anos, até perfazer os 540 mil, um nível que o Comité Internacional de Resgate acredita representar um quarto dos sírios a precisar de ajuda internacional.» 
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José, pai




De facto, podia ter tido uma vida menos complicada...
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Dica (248)




«Impõe-se que o Ministério da Educação faça cumprir novamente a Constituição da República Portuguesa onde ela está a ser flagrantemente violada, nomeadamente impedindo que as escolas públicas pressionem direta ou indiretamente os seus alunos para a participação em cerimónias de uma qualquer religião, incluindo naturalmente da religião católica e a utilização do tempo letivo para a realização destas práticas.»
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Os 28 expulsam o direito de asilo



«Subjacente a grandes proclamações sobre o respeito dos direitos humanos, do direito internacional e europeu, a realidade é brutal: os vinte e oito estados europeus vão, pura e simplesmente, enterrar o direito de asilo, considerado responsável por atrair centenas de milhares de refugiados. O plano turco- alemão, apresentado na cimeira da UE de 7 de Março, que prevê a devolução à Turquia, praticamente automática, de todos os migrantes, económicos ou candidatos a asilo, foi hoje aprovado pelos chefes de Estado e de Governo, mais uma vez reunidos em Bruxelas. (…)

Sendo o exame individualizado, não haverá "expulsão colectiva", uma prática proibida pelo direito internacional e pela Carta Europeia dos Direitos Humanos, depois das barbáries nazista e soviética, mas sim expulsões individuais agrupadas ... O Secretário-Geral do Conselho da Europa, o norueguês Thorbjorn Jagland, ficou satisfeito com este golpe de magia jurídico, que consiste, na realidade, a negar asilo na Europa a quem passou por um "país seguro” ou "país de primeiro asilo ".

A União regionaliza assim o direito de asilo: durante a viagem, é raro que um refugiado não tenha atravessado países onde não há risco, sendo a perseguição muitas vezes limitada ao seu país de origem. Com este princípio, nenhum cambojano ou vietnamita teria obtido asilo em França na década de 80, uma vez que passaram primeiro pela Tailândia, um país seguro. A partir de agora, caberá aos países que se encontram à volta de áreas de conflito ou de ditaduras a tarefa de gerir o problema dos refugiados. (…)

A questão eminentemente prática do regresso de dezenas de milhares de pessoas não é de todo abordada: será sem dúvida necessário mobilizar o exército para garantir a calma e fretar barcos e charters, encarregados de levar os refugiados e imigrados para a costa turca. As imagens arriscam-se a ser especialmente chocantes.»

Na íntegra aqui (em francês). 
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Brasil: a saga continua


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18.3.16

Faz de conta que estou lá (36)



Joya de Cerén («A Pompeia das Américas»), El Salvador, 2014.
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Dica (247)



A Europa pode sobreviver? (Roberto Savio) 

«A ideia de uma Europa integrada, com um forte componente social, de alguma maneira era uma ideia progressista. Mas o nacionalismo e a xenofobia estão de regresso, graças à visão neoliberal, onde os mercados são os únicos atores das sociedades, com a imposição da austeridade e o fim da solidariedade dos países europeus mais ricos.» 
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Sanders. O socialismo emigrou para os EUA



«Sanders está cada vez mais perto de perder a nomeação do Partido Democrata. Mas a sua maior conquista pode ter sido mostrar que milhões de americanos estão dispostos a colocar um socialista na Casa Branca. (…)

"Nunca o negaria. Nem por um segundo. Sou um social-democrata", assume Bernie Sanders. O senador de 74 anos, eleito pelo pequeno Estado do Vermont, não foge a esse epíteto. Pelo contrário. Abraça-o e repete-o. Até agora, não se está a sair mal.

Quando anunciou, há quase um ano, que ia correr à Casa Branca, as sondagens davam-lhe pouco mais de 5% dos votos. No entanto, o Verão de 2015 trouxe um aumento do entusiasmo. As bases da campanha foram crescendo em número e em volume, com os jovens a servirem de trave mestra da estrutura. Hoje, as sondagens dão-lhe cerca de 40% do voto nacional face aos 50% de Hillary Clinton. E conquistou 818 delegados contra 1.139 da sua adversária (além destes, há também 712 superdelegados, cuja esmagadora maioria apoia Clinton).

Um auto-proclamado socialista está numa eleição renhida para ser o nomeado de um dos dois maiores partidos dos Estados Unidos. Pode parecer ficção científica, mas as pistas existiam há muito. (…)

Na verdade, Sanders é apenas o ponta-de-lança de uma transformação que começou lá atrás. As sementes de uma juventude mais encostada à esquerda foram semeadas há muito e, ironicamente, acabaram por florir durante a Presidência Obama, a candidatura que mais mobilizou jovens activistas. A popularidade de Sanders não pode ser explicada sem falar do "Occupy Wall Street", um movimento efémero - os manifestantes estiveram só dois meses no Zuccotti Park - mas que moldou definitivamente o discurso mediático com o slogan "Nós somos os 99%". A desigualdade não voltou a sair dos jornais e das televisões. Quatro em cada dez participantes no Occupy tinham trabalhado apenas três anos antes na campanha de Obama de 2008. (…)

Bernie Sanders não descobriu a pólvora. Soube ler os sinais e surgiu no momento certo, integrando parte destas reivindicações num programa político menos radical, mas que pretende mudar o sistema. (…)

Para muitos dos jovens que votam Sanders, há poucos motivos para ver "socialismo" como uma palavra proibida. Muitos deles nasceram depois da queda do Muro de Berlim ou ainda nem sequer tinham fumado um cigarro antes do colapso da União Soviética. Não têm memória de uma guerra de civilizações entre EUA e URSS e a Rússia que conheceram já não é socialista.»

Nuno Aguiar

18.03.1871 - A Comuna de Paris

Grécia: abram-se as fronteiras




«Um grupo de ativistas pendurou faixas com as inscrições “Fronteiras abertas”, e “Passagem segura – Parem as guerras”, em protesto contra o acordo UE/Turquia em negociação esta sexta-feira.»
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Todos os portugueses do Presidente



«Já está. Custou mas temos um novo Presidente. Finalmente. Mas estamos sem primeira-dama... os mercados já se pronunciaram?

Podemos dizer que a primeira-dama é o Omeprazol. Mas acho que os mercados vão gostar da novidade. Não ter primeira-dama, só em sapatos, poupa-se para um hospital, três creches e 100 km de auto-estrada.

Foram mais de 500 convidados, o Parlamento decorado com 2.000 rosas das cores da bandeira nacional, o novo Rei de Espanha e o Junker, que veio cá relembrar ao Marcelo quem é que manda nisto. Como diria o outro, não é esse, é aquele, "foi bonita a festa, pá". Há quem diga que Cavaco só teria uma festa destas no enterro. Foi uma festa da inclusão, durou três dias para incluir a comunidade cigana. Foi uma tomada de posse popular quanto baste. Imagino que, se Tino tem ganho as eleições, iria cair no exagero e acabava a fazer uma festa no Terreiro do Paço com o José Cid e o Anselmo Ralph. (…)

A chegada do Professor Rebelo de Sousa a Belém é como se saísse um monge capuchinho e entrasse um travesti. Vai-se beber mais esta semana em Belém que nos últimos 10 anos. Vai haver coisas partidas e nódoas onde sempre houve arrumação e limpeza: o Presidente de Angola todo em loiça colado com cola, café no sofá, migalhas de bolacha araruta nos documentos históricos, etc. Nada será como dantes. Só tenho pena que Aníbal se tenha retirado sem revelar a sua "password" de PR. Aposto em 1 2 3 4 5 6.

Em jeito de conclusão (que já se faz tarde e ainda tenho de ir aos frangos), Marcelo banhou-se de povo. Mergulhou no rio da emoção popular. Ficou ali entre o amor fraterno do Papa Francisco e a cumplicidade popular do Fernando Mendes. Tornou as gentes de Portugal como seu salvo conduto. Imagino que, se alguém agora lhe quisesse fazer frente, teria que enfrentar a ira da população e seria bombardeado com produtos regionais. É bem pensado para o que aí vem.»

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17.3.16

Faz de conta que estou lá (35)



Aracataca, Colômbia, 2012.

(Terra de Gabriel Garcia Márquez e casa onde nasceu.)
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Não é caso para menos


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Uma República «quase» laica



(Foto Expresso)
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17.03.1945. Como cantaria Elis Regina, hoje, o seu Brasil…



Elis Regina faria hoje 71 anos e morreu com apenas 36. Nestes dias terríveis em que o seu país não sai dos nossos ecrãs e das nossas vidas, lembrá-la – e ouvi-la – pode ser um misto de homenagem e catarse.

Viveu os «Anos de chumbo» da ditadura brasileira e não lhes passou ao lado, participando em vários movimentos culturais e políticos. Uma das suas canções – «O bêbado e o equilibrista» – funcionou como uma espécie de hino pela amnistia de exilados brasileiros. Notável também, nessa mesma linha, «Aos nossos filhos».







E, como não podia deixar de ser, o seu ícone:

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Da amizade



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Tenho ouvido as escutas judiciais a José Sócrates presumindo com todas as minhas forças a inocência do antigo primeiro-ministro, operação que levarei a cabo até que a sentença indicativa do contrário transite em julgado. (…)

Numa das escutas, Santos Silva contacta Sócrates para lhe dizer que a cor que o antigo primeiro-ministro escolheu para o chão é, no entender do empreiteiro, demasiado escura. Muito delicadamente, quase a medo, Santos Silva pergunta se o empreiteiro pode optar por uma cor mais clara. Sócrates, muito aborrecido, responde: “Sim, que faça o que ele quer, mas que faça depressa.” Qualquer outra pessoa, na posição de Sócrates, diria: “Eh pá, o Carlos, deixa-me agradecer-te novamente. Emprestas-me a casa, deixas-me escolher o pavimento e ainda telefonas a confirmar se a cor pode ser alterada. Estou sem palavras.” (…) Não é o que faz Sócrates. Está irritado porque o amigo não se despacha a emprestar-lhe a casa.»

Na íntegra AQUI.
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Show off, agora no «Diário da República»?


Isto é a sério ou mais uma montagem, como tantas que circulam nas redes sociais? «Diário da República» azul por causa do mar??? E será verde noutras circunstâncias, vermelho de vez em quando?
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A crise não é «dos refugiados»



«A crise que a Europa vive não é "dos refugiados", não acontece por causa dos refugiados, que representam menos de 1% da população da UE, enquanto num pequeno país como o Líbano já chegam a 1/4 da população: a crise é, de facto, europeia. Por falta de Europa. Os refugiados são também vítimas dessa falta, que explica muito da desordem global.

UE e Estados-Membros têm de assumir a sua quota-parte de responsabilidade pela incapacidade de enfrentarem, com coordenação e em coerência com os princípios fundadores, desafios externos e internos em que as linhas divisórias se esbatem. Forças xenófobas e anti-europeias por essa Europa fora alimentam-se da insegurança sentida pelos cidadãos: por causa do terrorismo, do afluxo de refugiados, da guerra na vizinhança, mas também devido a políticas desreguladoras e destruidoras de emprego e do Estado Social.

E o pior é que está também mesmo em causa a segurança dos europeus. Não porque refugiados a fugir da guerra e da barbárie sirvam para infiltrar terroristas: eles já estão na Europa - mais de seis mil "foreign fighters" ("combatentes estrangeiros", como responsáveis em negação insistem em designá-los) ao serviço do chamado "Estado Islâmico" são europeus, tal como todos os atacantes em atentados terroristas cometidos na Europa. Mas porque sujeitar homens, mulheres e crianças pedindo protecção humanitária a tratamento degradante e desumano, como hoje vemos em solo europeu, alimenta ressentimentos e dará mais recrutas a extremistas - a acrescer às "gerações perdidas" de crianças e jovens impedidos de ir à escola pela guerra e sem escolas em campos de refugiados. (..)

A Turquia devia ser parte da solução para esta crise, mas é preciso reconhecer que também é parte do problema. Portugal não deve permitir que o Conselho Europeu se deixe chantagear, sob a ilusão de que é possível "outsource" a gestão da crise e obrigações europeias, em troca de facilitar negociações de adesão, liberalizar vistos ou fechar olhos à repressão do governo turco contra os seus cidadãos e media, em despudorada violação dos critérios de Copenhaga. E contra os curdos nos vizinhos Síria e Iraque. Portugal não pode dar aval a uma política de retorno e de readmissões (o grotesco bazar de um sírio aceite na Turquia por outro sírio recebido na UE...) que é ilegal, pois implica violar o princípio de "non-refoulement".

Solidariedade, liderança política e partilha de responsabilidades são indispensáveis para vencermos esta crise, a pior desde a II Guerra Mundial. Este não é apenas mais um teste à credibilidade europeia: é uma verdadeira crise existencial para a UE.»

16.3.16

Faz de conta eu estou lá (34)



Gori, Geórgia, 2012.
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Dica (246)




«For several years now, Europe’s policy leaders have been paralyzed. They have invested too much political capital in their failed policies to attempt to reverse course. But no one should be fooled by statistical legerdemain: Focusing on real national income data during a period of deflation is merely an effort to repackage an economic depression as a great success story.» 
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Muito preocupante

16.03.1974 - O falhanço das Caldas, a caminho do 25 de Abril



Há 42 anos, o golpe falhado das Caldas foi um passo importante para a queda da ditadura.

Em 2014, por ocasião do 40º aniversário dos acontecimentos, o Diário de Notícias ocupou duas páginas com vários textos sobre «A coluna rebelde que Spínola e Costa Gomes impediram de ocupar o Aeroporto de Lisboa». Excertos:

«A imagem que ficou na memória dos portugueses sobre a intentona tentada pelo Regimento de
Infantaria N. º 5 das Caldas da Rainha no dia 16 de Março de 1974 foi a de uma coluna militar que ficou parada às portas de Lisboa. Ilustrava perfeitamente o golpe militar frustrado, que só teria o seu epílogo a 25 de Abril, e que logo deu origem a uma anedota bastante popular. A de que os camiões com 200 militares que iriam ocupar o Aeroporto de Lisboa teriam parado às portas de Lisboa porque o então presidente da República, Américo Tomás, ameaçou que o primeiro a chegar à capital seria obrigado a casar com a sua filha. (...)
A anteceder o 16 de Março tinham- se verificado mais dois factos políticos que fizeram o presidente do Conselho hesitar: a 22 de fevereiro dera- se o lançamento do livro Portugal e o Futuro, do general Spínola, que defendia uma solução política e não militar para a guerra no Ultramar; a 14 de março, o Governo demitira os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de chefe e vice- chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, devido à ausência no evento em que as chefias militares se solidarizavam com Caetano, numa cerimónia definida como representativa da “Brigada do reumático”.
A demissão dos dois generais espoletou a Intentona das Caldas e criou esse acto militar falhado.»

A nota oficiosa difundida pelo governo foi esta:

«Na madrugada de Sexta-feira para Sábado, alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insubordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma Companhia autotransportada que tomou a direcção de Lisboa.

O governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito.

Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar.

Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País.»

Alguns dias depois (em 22 de Março), na sua última «Conversa em Família», foi assim que Marcelo Caetano se referiu ao golpe das Caldas:


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ADSE: quid?



Entre vozes confusas e interesses específicos mal disfarçados, há finalmente alguém – Paulo Pedroso – que, e em curtos parágrafos, defende uma posição mais do que sensata.

«Eu, beneficiário da ADSE e contente pelo que dela recebo, disponível para continuar a pagar para ter um sistema complementar de saúde, também acho que esta, tal qual existe, é uma reminiscência do tempo em que não havia serviço nacional de saúde e cada grupo profissional tinha direitos diferentes à saúde.
Não defendo a sua extinção, mas também não acho que os funcionários públicos devam ter um direito à saúde separado do resto da sociedade.
Como quero - pagando para isso - um benefício complementar em saúde, concordo com a proposta que o meu amigo Alexandre Rosa há muito defende: vamos transformar a ADSE numa mutualidade, assumir que é o fruto da auto-gestao de uma parte dos seus recursos por um grupo profissional e acabar com a actual ambiguidade.
Serviço público de saúde deve haver só um. Para benefícios complementares, prefiro os associativos, mas a competirem com os seguros privados, separados do Orçamento de Estado e não a distorcer o princípio do serviço nacional de saúde. Por isso não vejo porque há-de o Estado administrar o que devia ser a mutualidade dos funcionários públicos. Quero o Estado fora da ADSE e a ADSE fora do Estado»

O cerco ao Governador



«Clint Eastwood interpretou uma vez o papel de um agente de segurança do Presidente dos Estados Unidos. Numa das cenas ele confundia o ruído de um balão a rebentar com uma detonação.

Aí saltava para cima do Presidente para o proteger. Desfeito o equívoco, o chefe de segurança repreendeu Clint, porque teria colocado em ridículo o Presidente. Clint retorquia: "Creio que estávamos aqui para salvar a sua vida." Ao que o chefe lhe chamava a atenção: "Sim, mas também a sua dignidade." As recentes detonações à volta do governador do Banco de Portugal já são mais do que meros balões a rebentar. São inequívocos sinais de alarme. Carlos Costa caiu ao mar e, na classe política, tem apenas como bóia de salvação o PSD de Passos Coelho. Como a própria Maria Luís Albuquerque deixou de poder emitir opinião a seu favor, porque ela própria tem de pensar na sua própria pele, Carlos Costa defronta-se com a sua própria sombra. Na mesa do seu gabinete não há agora postais de amor. Existem apenas SMS a pedir que disponibilize a cadeira onde se senta.

O elogio fúnebre que Paulo Portas lhe fez no congresso do CDS foi apenas o último capítulo de uma novela que já cansa. Não há aqui nada de maquiavelismo: há apenas a constatação de que a recondução do governador do Banco de Portugal foi um gesto extemporâneo. Uma missão impossível que Carlos Costa aceitou. O problema continua a ser o pântano onde se vão enterrando, sem honra nem glória, problemas sucessivos: o BES/Novo Banco, o Banif, o célebre banco de José Veiga. Não basta ao Banco de Portugal ter o estatuto de independência se a sociedade política desconfia da sua capacidade para resolver os sérios problemas do sector financeiro português. Ou espanhol, se quisermos. É preciso que ele seja o garante sóbrio da estabilidade e do rigor das veias onde circula o oxigénio da economia portuguesa. Clint Eastwood não está disponível para salvar Carlos Costa das balas políticas. E, por isso, era bom que o Governador pensasse no seu futuro.»

15.3.16

Faz de conta que estou lá (33)



Glaciar Perito Moreno, Argentina, 2003.
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Marcelo é Presidente?

De pernas para o ar



Não é porque o Facebook me recorda que publiquei una versos de Manuel António Pina exactamente há um ano. É que não está a ser fácil olhar hoje para este mundo com os pés no chão.

Da tragédia dos refugiados, que a Europa continua a tratar com preguiça e displicência, a um Brasil tão efervescente que nem é fácil entender quem é quem e quem não fez o quê, a um novo estado de sítio em Bruxelas, tudo transpira uma tal anormalidade que pode ser que sim, que seja bom «pensar em outras coisas e olhar para as coisas noutra posição» e talvez conseguir imaginar que «as coisas sérias que cómicas que são, com o céu para baixo e para cima o chão».

Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina, in O país das pessoas de pernas para o ar 
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Dica (245)



Presidente para todas as audiências. (Nuno Ramos de Almeida) 

«A maioria dos jornalistas e comentadores estão neste momento em estado de “orgasmo marceliano” perante o começo do novo Presidente da República. Não está em causa a inegável inteligência e simpatia do eleito, nem o facto de que, depois de Cavaco Silva, até um calhau poder fazer boa figura.» 
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Refugiados: indignação, vergonha, horror



O que se está a passar neste rio, que faz fronteira entre a Grécia e a Macedónia, ultrapassa tudo o que é admissível ou mesmo imaginável.



Drone footage shows refugees crossing river in Greece
People form a human chain across a river in Greece as more than 3,000 migrants and refugees attempt to make it to Macedonia.
Posted by Channel 4 News on Monday, March 14, 2016

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Comprar em Portugal?



«Num dos filmes de Woody Allen surge um homem que vai ao psiquiatra e diz: "Doutor, o meu irmão está louco. Pensa que é uma galinha." O médico, espantado, questiona-o: "Porque não o mete no manicómio?" Ao que o homem responde: "Não posso. Preciso dos ovos."

Entre a galinha e a loucura vai um espaço que não se esgota na quantidade de milho disponível. Mas muitas vezes este estado de confusão e irrealismo transfere-se para a política. Veja-se o caso do ministro Manuel Caldeira Cabral. Por certo com a melhor das intenções, pediu aos portugueses para não abastecerem os carros em Espanha. Porque prejudica Portugal. O seu argumento é arrasador: "Isso significa que muitos portugueses estão a pagar impostos em Espanha. É algo que, em primeiro lugar, temos de pedir aos portugueses que não façam." (…)

Não podendo baixar os impostos indirectos, que faz Caldeira Cabral? Veste-se de Padeira de Aljubarrota, versão Rua da Horta Seca. Nada contra. Mas, usando o mesmo argumento, o ministro teria de pedir aos portugueses para não consumirem carne de porco polaca, couve holandesa ou morangos espanhóis que pululam nos hipermercados. A preços mais baixos do que o que é produzido em Portugal. O argumento patriótico tem efeito? Nenhum. Porque sabe-se qual é a média do salário médio em Portugal. Há, depois, uma realidade que soterra todos os nacionalismos do ministro: como pode ele pedir aos habitantes da raia para comprarem gasolina em Portugal, se o Terreiro do Paço há anos os trata como espanhóis? Tirou-lhes serviços centrais, centros de saúde e escolas. Agora quer o quê? Caldeira Cabral pode não ter culpa de nada disto. Mas tem culpa do seu frágil argumento.»

Fernando Sobral

14.3.16

Faz de conta que estou lá (32)



Mercado de Chichicastenango, Guatemala, 2014.
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Jean Ferrat morreu há 6 anos



Jean Ferrat foi um dos meus grandes franceses da canção e até custa crer que tenha já passado uma meia dúzia de anos desde que se foi embora, em 13 de Março de 2010. Depois de Léo Ferré, Georges Brassens, Jacques Brel e alguns outros.

Representante típico de gerações de intérpretes politicamente comprometidos, para sempre ligado a Nuit et Brouillard e a tantos outros títulos, o eterno compagnon de route do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968:




Em jeito de homenagem algumas recordações, que ficarão para sempre.






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14.03.1975 – «O dia em que o capitalismo se afundou»



As semanas que se seguiram ao 11 de Março de 1975 foram naturalmente ricas em acontecimentos e convulsões. Três dias depois, no dia 14, para além de ser criado o Conselho da Revolução, deu-se a nacionalização da Banca e dos Seguros. Foi um marco importante da nossa História (muito) recente e que, em diferentes e piores circunstâncias, volta agora à ordem do dia. Mas, adiante, que isso são esmolas para outros peditórios.

Da imprensa da época:

«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoio-as, aliás, embora previna que “substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa”.
Mário Soares mostra-se mais expansivo. Eufórico mesmo, considerando aquele “um dia histórico, em que o capitalismo se afundou”. Dirá, a propósito o líder socialista, num comício: “A nacionalização da banca, que por sua vez detém (...) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal”.»  (Realce meu)
(Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, edições Expresso / Público, 2006, p. 28.)

Comentários? Para quê… 
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Marcelo soma e segue



O Vaticano só é uma cidade-Estado desde 1929. Se MRS vai em visita oficial a um outro Estado, enganou-se no destino. Ou faz de nós parvos. 
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CDS, cuidados paliativos e morte assistida



João Semedo no Público de hoje: 

«Sobre cuidados paliativos, defendi no Parlamento dois projetos apresentados pelo Bloco de Esquerda, o primeiro em 2012 e o outro em 2014, ambos recomendando ao governo a instalação de uma unidade de cuidados paliativos para crianças e adolescentes na cidade do Porto. (…)

A ideia foi recusada, os votos do PSD e do CDS/PP chumbaram-na duas vezes. Em 2012, votaram contra, pura e simplesmente. Mas, em 2014, não querendo repetir a triste figura que fizeram dois anos antes, apresentaram um projeto em que recomendavam ao governo – ao seu governo – “que reforce o estudo e devidas respostas no âmbito dos Cuidados Paliativos Pediátricos e que implemente as medidas necessárias à disponibilização efectiva desses cuidados no nosso país”.

O projeto acabou por ser aprovado por unanimidade, confirmando que a defesa de cuidados paliativos não é um exclusivo da direita e, muito menos, do CDS. Apesar disso, nada foi feito, mas, enfim, a ideia também não era essa. De facto a direita não pretendia que o governo fizesse fosse o que fosse, era mesmo só para fingir alguma preocupação e apagar a iniciativa da oposição.

É por isso extraordinário o que se passou agora no congresso do CDS/PP com a apresentação, por iniciativa, entre outros, de Isabel Galriça Neto, Pedro Mota Soares e Teresa Caeiro, de uma moção reclamando o alargamento da rede nacional de cuidados paliativos. O descaramento não tem limite: saíram do governo há pouco mais de três meses, no Parlamento votaram contra a criação de novas unidades e já estão a reclamar do novo governo o que eles não fizeram durante quatro anos. “Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”...(…)

A moção não traz nada de novo, é mais do mesmo: os cuidados paliativos eliminam a dor e o sofrimento, são o garante de uma morte digna e, portanto, não é necessário despenalizar a morte assistida, basta alargar a rede e tudo fica resolvido.

Como sabemos, nada disto é certo, bem pelo contrário, está entre a crença e a publicidade enganosa. Os cuidados paliativos não são 100% eficazes, não se aplicam em muitas situações de fim de vida, sofrimento ou dependência, arrastam o doente para um estado vegetativo e, imagine-se o sacrilégio, a sedação paliativa acaba por antecipar a morte do doente, como têm vindo a reconhecer todos os profissionais que a praticam.

Defendo o crescimento da rede de cuidados paliativos e a despenalização e regulamentação da morte assistida. Não são respostas que se excluam ou que sejam alternativas. São respostas diferentes e legítimas, ambas necessárias para os difíceis momentos do fim de vida.»
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13.3.16

Faz de conta que estou lá (31)



Baía Ha Long, Vietname, 2009.
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Lisboa de antanho



Lisboa de Hoje e de Amanhã
Um retrato da cidade de Lisboa em 1948, com destaque para a construção de infraestruturas desde os novos bairros de renda económica da Ajuda ou Serafina, até às Avenidas novas, aeroporto, estradas, espaços de lazer, etc.Um filme muito marcado pela propaganda do "estado novo" mas com imagens deslumbrantes de uma Lisboa em transformação e actualmente muito diferente.
Posted by Ambitare.com on Friday, February 26, 2016


… mesmo se com muita propaganda do Estado Novo. 
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CDS: proposta para novo logo



… mais modernaço. 
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Dica (244)




«With her refugee policies, Chancellor Merkel has isolated Germany to a greater degree than any of her predecessors. The Balkan Route has been closed down against her will and many EU leaders believe her overtures to Turkey are delusional.» 
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A pele de Cavaco e os milagres de Marcelo



Excertos de um grande texto de Alexandra Lucas Coelho no Público de hoje:

«Portugal largou Cavaco como se mudasse de pele. Nenhuma transição desde o fim da ditadura gerou este alívio, quase uma libertação nacional. Marcelo tomou posse do momento, impaciente de optimismo e ecumenismo: apaziguar, unir, sorrir, curar. Descendo a minha rua, vi lágrimas no meio do povo, aos pés da Assembleia. No item empatia, foi a passagem do zero para a maioria absoluta. E aí vai Portugal para a Primavera de 2016, cheio de fé renovada.

Fé em cima de amnésia, toda uma tendência. Portugal erra entre aquilo que larga e aquilo a que se agarra, de qualquer das formas sem pensar muito. (…) Celebrar os Descobrimentos será um suplemento de ânimo sempre à mão; já ir ao fundo do que foi o Império implica enfrentar o que os portugueses também foram/são, ou afinal não. (…)

O discurso da posse integrou os lugares comuns habituais, uns para a direita, outros para a esquerda, com a novidade de um tom caloroso, e o recuo a um saudosismo messiânico. Por exemplo, Marcelo enumerar as singularidades nacionais, e à pobre da saudade, que mal se aguenta nas canetas, suceder a “crença em milagres de Ourique”. Imagino resmas de portugueses sub-40 a pesquisarem milagres de Ourique no telemóvel. Entretanto, o orador citava já aquele “Herói Português do século XIX” segundo o qual “este Reino é obra de soldados”. Mais resmas de portugueses não estariam a ver quem seria esse herói, mas com certeza o presidente de Moçambique, saudado no parágrafo anterior, percebeu: porque o tal herói é nada menos do que Mouzinho de Albuquerque, que no século XIX capturou e desterrou Gungunhana, futuro mito da resistência para os moçambicanos. Em resumo, perante o ex-colonizado, Marcelo citou o colonizador vencedor, não aludindo ao vencido, e Portugal apareceu como reino e obra de soldados. Tudo isto, rematado pela frase “converter o Império Colonial em Comunidade de Povos e Estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos”, sem uma palavra sobre a violência desse império, cujas consequências se mantêm vivas até hoje, como sabe quem conhece países da CPLP. O império passa suavemente a CPLP, nenhum sub-40 terá nada para googlar, em breve ninguém saberá do que aconteceu a não ser em calhamaços, que em breve ninguém lerá. (…)

Grande não seria Portugal romper o ufanismo? De que adianta suturar, unir e rir, se por baixo a coisa continuar preta? Enquanto alguém quiser o pastiche de uma nau ou um museu para “celebrar os Descobrimentos” não teremos avançado. Portugal continuará a repetir os velhos mitos que o confortam e adiam, ora desconfiado, ora ufano, nunca mudando o ponto de vista. (…) Incorporar esse refazer da história nas escolas, na política, na diplomacia, sem saudade e sem lamento, seria a coragem que ainda não houve.» 
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