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2.7.16

Dica (324)

A «lata» de Maria Luís Albuquerque



Mas pelo menos fica claro: segundo MLA, pode haver sanções ao governo de 2015, de que ela fez parte, porque a UE não concorda com a orientação do governo de 2016. 
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E o que farão se houver sanções?



José Manuel Pureza no Expresso de 02.07.2016:



Agora também morrem turistas



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Schäuble e as trevas no meio do caos



«Se a Floresta Negra foi o berço do nascimento do relógio de cuco, que nos trouxe as horas certas, Wolfgang Schäuble é a voz das trevas. A frase assassina sobre Portugal, sobre a eventual necessidade de um novo resgate, mostra como a miopia do que resta da Europa sem o Reino Unido permanece. (…) A dívida, já se sabe, é impagável. O défice pode ser controlado. Mas se essa é a única política da Europa (para lá da vontade de castigar quem não é da família do PPE ou não é "grande" como a França), para que serve a UE? Só para ser um mercado e ter uma moeda única? (…)

Além disso, a UE nunca teve uma política de defesa uniforme. Destruiu com isso economias, incapazes de pagar o serviço da dívida, como a Grécia ou Portugal. Criou uma legião de desempregados por toda a Europa. E foi empurrando as grandes economias do Sul (Itália e Espanha) para um beco. Agora o caos parece ser a norma. A pergunta impõe-se: vale a pena fazer parte desta Europa pouco democrática onde a única lei é a defesa do euro que interessa à Alemanha?

O problema é que este divórcio (o Brexit) nasceu da miopia de Bruxelas que fez desta Europa apenas um mundo de burocratas e de defesa do euro e de um mercado único que separa mais do que une. Onde o poder democrático de cada país foi achincalhado, como se viu continuamente na Grécia. Os líderes europeus estão convictos de que a Europa sobreviverá à saída do Reino Unido. Talvez sim. Talvez não. Mas o Brexit é o prelúdio da gradual desintegração do projecto europeu. Schäuble é apenas o incendiário de serviço à causa.»

Fernando Sobral

1.7.16

Para o Daesh, com afecto




«Para Marcelo, tudo isto "faz parte da democracia" e até lembrou que, quando votou a constituição de 1976, foi para que fosse "aberta, ecuménica para as manifestações mais criativas possíveis. A constituição acompanhou essa criatividade".» 
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Dica (323)




«We discuss and debate the outcome of a referendum without discussing its principles. This should be surprising. In a referendum, we ask people directly what they think when they have not been obliged to think – although they have certainly been bombarded by every conceivable form of manipulation in the months leading up to the vote. But the problem is not confined to referendums: in an election, you may cast your vote, but you are also casting it away for the next few years. This system of delegation to an elected representative may have been necessary in the past – when communication was slow and information was limited – but it is completely out of touch with the way citizens interact with each other today. (…)

In order to keep democracy alive, we will have to learn that democracy cannot be reduced to voting alone. Elections and referendums become dangerously outmoded tools if they are not enriched with more sensible forms of citizens’ participation. Structured deliberation with a random sample of citizens promises to generate a more vital, dynamic and inclusive form of democracy.» 
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Dos tontos não rezará a História




«Não me parece que a eutanásia seja uma inevitabilidade e, pelo conhecimento científico atual, não é absurdo pensar que daqui a não muitos anos possamos ser imortais. A evolução da ciência é tão rápida que eu não digo que a morte seja inevitável daqui a alguns anos.» 

Tudo bem, já se sabe que a fé pode mover montanhas. Entretanto, temos direito a gerir a nossa vida e a nossa morte – se o senhor bastonário não se importa. 

By the way, quem pagaria as pensões a imortais? 
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Salgueiro Maia, 01.07.1944



Salgueiro Maia faria hoje 72 anos.

Antes de rumar a Lisboa, na madrugada de 25 de Abril de 74, na parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, dirigiu estas palavras a 240 soldados:

«Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!» 

E vieram todos.

Algumas horas mais tarde, e depois de muitas intervenções operacionais, coube-lhe ser, pelas 16:30, o protagonista do momento decisivo:



Um detalhe mas que talvez valha a pena frisar: Salgueiro Maia ainda nem tinha 30 anos quando tudo isto aconteceu. Não se considerou demasiado jovem para a função. Aos 29 anos é-se – ou era-se – adulto.
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Perdidos na transição



«O Reino Unido votou e decidiu sair da União Europeia (UE), ao contrário do que eu tinha previsto na crónica da semana passada. (…)

Aquela gente não faz a menor ideia de onde está ou do que lá vem. No fundo, o Reino Unido está "Lost in Translation". O Reino Unido é o actor Bob Harris deambulando num universo desconhecido, com o seu velho estilo, de copo na mão, tentando fazer o que sempre fez, mas numa situação em que ninguém compreende o que diz e em que não consegue compreender nada. Está naquele semiestado de sonho de quem saiu de uma anestesia, mas sem a miúda gira para compensar. Estão perdidos na transição.

Não quero ser fatalista, mas bastou saírem da UE e já nem são a melhor ilha a jogar à bola. Eu até pensei que, no final do jogo com a Islândia, ia acontecer como com as selecções cubanas e metade dos jogadores ingleses desertavam e pediam asilo. E com a xenofobia que anda lá pela ilha aposto que ainda vão tirar a Björk do Madame Tussauds.

A decisão está tomada, deve ser respeitada. Não sei quem passou mandato a Junker para fazer piadas e ameaças à decisão livre de um povo europeu. Foi confrangedor. O principal rosto do sim ao Brexit, Nigel Farage, respondeu a Junker, dizendo: "Vocês, enquanto projecto político, estão em negação. Até a vossa moeda é um falhanço." Nigel Farage é o puto irritante, racista, xenófobo, asqueroso que gosta de fazer bullying mas, infelizmente, faz também o papel do miúdo que diz que o rei vai nu. Não há moral da história que aguente.»

João Quadros

30.6.16

Euro 2016


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Dica (322)




«Thatcherism devastated communities throughout industrial England that have never recovered. Their pain explains why people voted to leave in the EU referêndum.»
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Museu da Presidência: alguém andou a roubar «fatos»?



Se não sabem utilizar o AO, não o façam. Mas factos são «factos», com ou sem AO. 
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Reviver o passado antes de ele passar



Na Visão de hoje, Ricardo Araújo Pereira escreve um texto de Julho de 2020, em que explica o que aconteceu no mundo desde 2016.

«Depois, numa cimeira internacional, Trump, Johnson, Le Pen e três Salazares juntaram-se num canto a rir de Kim Jong-un, a quem chamavam “o moderado”.
Depois, as minhas filhas casaram com dois rapazes que tinham tatuagens e andavam de mota. Tendo em conta o estado em que se encontrava o mundo, achei que podia ser pior».

Na íntegra AQUI.
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Angola, boas notícias (29.06.2016)



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Fabricar ricos



Este texto é especialmente interessante para quem esteve há pouco tempo, como foi o meu caso, em dois países independentes há apenas 25 anos. Sente-se muito do que é aqui referido.

«Um homem rico, não sei se muito ou pouco, nem importa, durante um jantar em Moscovo tratou de me explicar a origem de tantos súbitos milionários na Rússia.

Após o colapso da economia soviética, o poder político de então, sobretudo com Yeltsin, achou que era necessário criar uma nova economia assente no mercado e na livre iniciativa. Sucede que não existiam empresários, nem capital, muito menos famílias abastadas, grandes industriais, investidores, ou seja, aquilo de que se faz o nosso mundo capitalista. Não existiam, tiveram de ser fabricados. Como? Privatizando praticamente tudo, a preços extremamente baixos e, frequentemente, simplesmente oferecendo fábricas e recursos. A quem? Maioritariamente a amigos e membros do próprio aparelho de Estado. (…)

Recentemente um amigo angolano disse-me praticamente o mesmo referindo o caso de Angola. Com uma justificação um pouco mais elaborada. A fabricação de ricos em Angola visou proteger a economia do país do controlo estrangeiro. Sem ricos, as principais empresas e recursos seriam capturados por investidores de outros países. Pode ser chocante assistir à acumulação de riqueza por um lado enquanto a miséria cresce pelo outro, mas se fossem todos pobres estariam nas mãos de novos colonos.

Recorde-se ainda que nos anos 1980 o próprio Mário Soares convenceu Ricardo Salgado, Sousa Cintra e outros a voltarem a investir em Portugal. Ajudando, por exemplo, Salgado a recuperar o BES. Mário Soares considerava então que o país saído de uma revolução e subsequentes nacionalizações precisava de capitalistas ou seria tomado por interesses estrangeiros. O que aliás acabou por acontecer, diga-se de passagem.

Enfim, são argumentos interessantes dignos de registo. Assentes na ideia de que as sociedades beneficiam com a existência dos muito ricos, sejam eles das velhas famílias ou fabricados à pressa tipo fast-food ou prêt-à-porter. Não temos maneira de testar a eficiência de um sistema não baseado na riqueza individual já que as experiências socialistas e comunistas resultaram na concentração do poder económico e não na sua distribuição, ou seja, aquilo que se chamou capitalismo de Estado. Podemos contudo perceber que o sistema atual não funciona tão bem como alguns pretendem, pois gera enormes desigualdades e muita miséria.»

Leonel Moura

29.6.16

O mundo ao contrário




Quem denunciou práticas fiscais agressivas no Luxemburgo é que foi condenado. Quem prevaricou foi ilibado. 
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Dica (321)




«Ah, ce satané peuple de "gens peu formés" qui osent se rendre aux urnes lorsqu'on leur demande leur avis… A en croire Alain Minc, on devrait donc plus écouter les "gens éduqués" mais le problème, c'est que ceux-ci sont injustement stigmatisés : "On ne peut pas tout le temps nous expliquer que les études supérieures sont la chose la plus importante dans la vie et dénoncer en permanence les diplômés. Si les élites diplômées représentaient 48% du peuple anglais, cela ferait un pays très démocratique !" On aurait plutôt dit une nouvelle forme d'aristocratie…»
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Brexit: velhos porcos e maus



Daniel Oliveira no Expresso diário de 29.06.2016:


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Durão Barroso, sem vergonha na cara




Sanções sobre a gestão do governo AD em 2015, dependentes do que o actual governo «disser e fizer» em 2016? 
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Continuaremos bem sentados



Alguma dúvida?
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Os donos da UE



«No fim-de-semana reuniram-se, em Berlim, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países fundadores da União Europeia (UE) para analisar o Brexit. (…) Angela Merkel, François Hollande e Matteo Renzi encontraram-se para concertar uma resposta ao Reino Unido. Diz-se, em defesa desta estratégia, que a UE precisa de ter uma voz de comando forte.

Acontece que o problema da UE não tem sido a falta de voz de comando. Antes pelo contrário. Todos sabem que o general que comanda as tropas é Angela Merkel, e que François Hollande e Matteo Renzi só fazem a vez de militares graduados por força do mercado interno dos respectivos países e do seu peso histórico. (…)

Ironicamente, tanto Hollande como Renzi ascenderam à liderança dos respectivos países, com promessas mais ou menos veladas de baterem o pé ao poder de Berlim sobre a UE. Desistiram dessa ideia, por causa das fragilidades económicas dos respectivos países e submeteram-se à visão dominante da Alemanha, a qual tem escrito a história política e económica da UE desde a crise financeira de 2008.

Estes encontros, por isso, mais não servem do que para institucionalizar a ideia de que existe uma UE a duas ou três velocidades, em que uns mandam e outros obedecem. A resposta ao Brexit, materializada nestes encontros dos que mandam, perpetua a concepção da UE que nos conduziu até aqui. Mais. Alimenta os discursos nacionalistas e fomenta em muitos países o crescimento da opinião de que é preferível um corte do cordão umbilical com Bruxelas, seguindo o caminho agora escolhido pelo Reino Unido.

Agora que a Europa precisava de dar sinais evidentes de mais solidariedade e maior coesão, reforçando o conceito de partilha de decisões e de concordância de objectivos, há líderes europeus, Merkel, Hollande e Renzi, que fazem precisamente o inverso, com uma pesporrência que não cessa de causar perplexidade.

A UE, depois da saída do Reino Unido, precisava de falar a uma só voz. Afinal, constata-se que fala a três e os outros 24 são apenas caixas de ressonância que amplificam a voz dos líderes, os quais devem estar ungidos de um poder que emana desse estatuto de fundadores. E não se diga que se trata apenas de encontros preparatórios para afinar pontos de vista, porque ao olhar da opinião pública são os generais a decidir unilateralmente para onde mandar os seus soldados. Precisamos de mais Europa, não desta Europa.»

Celso Filipe

28.6.16

Sim, estive no aeroporto de Istambul há dez dias



O aeroporto de Istambul tornou-se um hub gigantesco, devido sobretudo ao crescimento das Turkish Airlines. Talvez não se tenha noção de que esta companhia tem três voos diários para Istambul, dois a partir de Lisboa e um do Porto. 
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Juncker anda zangado

Ide e lede


Pai tirano.(Mariana Mortágua) 

«O Bloco sempre defendeu que cada passo deste processo de integração deveria ter sido referendado. O Tratado Orçamental ainda não é Tratado Europeu, mas será. Se é consensual - do presidente da República ao Parlamento - que as sanções são inaceitáveis, então, se forem aplicadas, é justo perguntar ao nosso país se aceita ou não o Tratado que as impõe. Contra a tirania temos o direito e o dever de responder com democracia.»

E a pergunta que eu gostaria de fazer ao PS é esta: se forem aplicadas sanções a Portugal, que fará esse partido e o Governo? Sorri e abana a cabecinha como os velhos mealheiros quando se deitava uma moedinha?
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As pessoas gostam de se orgulhar das suas escolhas



«Ainda as urnas não arrefeceram e a discórdia e o azedume já se instalaram no RU e fora do RU, entre a esquerda e a direita, na esquerda e na direita, entre os tories e os labourites, entre os tories e entre os labourites, entre Bruxelas e Londres, em Cardiff e em Edimburgo, em Dublin e em Belfast, entre os leaves e os remains, entre os leaves que queriam sair e os que afinal não queriam, entre os remains que queriam ficar mas que sempre disseram que era melhor sair, entre os jovens e os velhos, os educados e os mal-educados, os citadinos e os camponeses, os londrinos e os outros todos, entre uns e outros e entre todos e os outros.

Era de esperar que, se se verificasse uma vitória do Brexit no referendo britânico, contra a expectativa da maioria dos peritos, o efeito fosse o de um terramoto de grau 8. Foi o que aconteceu. Só que, aparentemente, ninguém esperava que o Brexit ganhasse mesmo, a começar por muitos dos seus próprios apoiantes. (...)

E britânicos seriíssimos, formados em boas escolas, nascidos do pai e da mãe da democracia, dizem que o voto deles devia contar mais e que é uma injustiça que não conte porque são mais novos e têm mais educação e vivem em cidades e há uma quantidade de velhos com mais de 50 anos e com menos estudos e que até vivem no campo que votaram pelo Brexit e o voto deles conta a mesma coisa e já se viu tamanha injustiça? (…)

Há inúmeras lições a retirar deste referendo e existem para todos os gostos. Uma coisa a notar é o facto de uma maioria de cidadãos britânicos ter decidido votar num sentido contrário ao apontado pelas elites do país e pelas elites do resto do mundo. Chama-se democracia e é algo que pode ser extremamente irritante. (…)

Partindo do princípio de que as pessoas não são todas parvas e que sabem que as promessas não são todas sérias, parece mais plausível considerar a possibilidade de muitos britânicos não terem apreciado o tom de chantagem a que foram submetidos pelas suas elites, pelos patrões, pelos eurocratas, pelos banqueiros e até por Obama. É curioso ler depoimentos de votantes do Brexit e constatar que são raros os que esperam maravilhas. Pelo contrário, sabem que os esperam anos difíceis, mas esperam ter o benefício de controlar os seus destinos. Há aqui soberanismo xenófobo? Em certos casos sim. E em muitos outros há um desejo de democracia que a UE não consegue satisfazer nem consegue perceber. (…)

Penso que, se Juncker tivesse sido despedido pelo Parlamento Europeu em 2014, na sequência do LuxLeaks, isso teria mostrado que havia algum sentido de decência em Bruxelas e poderia ter dado um argumento ao Remain e alguma alma à UE. Mas até o Parlamento Europeu, que gosta de se considerar a “consciência democrática” da UE, preferiu chumbar o voto de censura contra Juncker apesar dos seus esquemas “controversos” de evasão fiscal, como que para provar que dali não viria a salvação.

Juncker já prometeu que o divórcio UE-RU não seria amigável. Há sede de vingança na UE. Juncker parece empenhado em mostrar que a UE é dirigida por pessoas pouco recomendáveis. Será assim tão estranho que tantos tenham escolhido sair?»

Talvez fosse melhor passar directamente para o russo ou para o mandarim

27.6.16

Sim, só a Inglaterra


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Dica (320)

Aeroporto: memórias de uma varanda



Já aterrei dezenas de vezes em Lisboa, o aeroporto é hoje um verdadeiro labirinto, cada vez maior, sempre diferente. Mas quando percorro os infindáveis corredores e as amplas zonas de chegada de pessoas e de malas (quando chegam…), não é raro lembrar-me dele como era nos idos de 60-70. Tinha acabado de regressar à pátria há dois dias quando o Facebook me recordou que, já há alguns anos, tinha publicado um texto que agora repesco.

A varanda que a imagem mostra existiu no aeroporto de Lisboa, durante muitos tempo, e veio acordar algumas das memórias mais nítidas que guardo de certas actividades de resistência, em tempos de Salazar e de Caetano. Ao vê-la, recordo imediatamente um esquema de vigilância que utilizei muitas vezes.

É sabido que quem chegava via frequentemente as malas vasculhadas, não só nem tanto pela alfândega normal, em busca de perfumes ou de jóias, mas pelos agentes da PIDE, que procuravam livros proibidos e, sobretudo, cartas ou outros documentos politicamente suspeitos. Como estes não podiam ser enviados por correio normal porque não passavam nas malhas dos censores instalados nos CTT da época, eram levados e trazidos por quem viajava. E porque eu o fazia frequentemente por razões profissionais, fui «pombo-correio» activíssimo sobretudo nos últimos anos da ditadura, de e para o estrangeiro.

O mais seguro era transportar a informação em microfilmes (esses grandes percursores das nossas pens…), facilmente alojáveis em frascos de medicamentos e tão pouco usados que a PIDE não os procurava. Mas nem sempre era fácil. Mais difícil era a papelada…

O meu esquema mais seguro, mas do qual não podia abusar exageradamente e a que só recorria em casos mais perigosos, era pedir a um amigo, alto funcionário da TAP com livre-trânsito permanente, que me fosse esperar à saída do avião. No percurso de autocarro para a aerogare, no meio de uma galhofa improvisada, passava-lhe os papeis para os bolsos do casaco.

Para o resto, era arriscar. E é aí que entra a varanda. Era importante não só por minha causa mas pela segurança dos destinatários da minha «mercadoria», que se soubesse rapidamente se eu tinha chegado a bom porto, ou seja, se não tinha sido presa por me terem apreendido algo. (E seria mesmo presa porque não trazia propriamente histórias de encantar, nem planos para festas infantis…) Pedia por isso quase sempre a alguém que me fosse esperar e visse, da varanda, se eu tinha passado. Ninguém pedia nem dava explicações sobre motivos nem conteúdos, nem era necessário – era grande a rede de cumplicidades. Passei sempre. Tive sorte.

O mundo mudou. Hoje, quase só se vasculham malas a gente de pele escura. Também passo sempre. 
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União Europeia: Sol na eira e chuva no nabal?


Isto, sim, assino sem qualquer hesitação. José Manuel Pureza

«Disse há dias António Costa que é cada vez mais difícil ser socialista sem ser crítico da União Europeia. Tem plena razão. Mas acrescentou que só se pode ser socialista na União Europeia. E assim incorreu no erro confundir o desejo com a realidade. Só se pode ser socialista contra a City e contra Frankfurt, contra Cameron e contra Hollande, contra Merkel e contra Dijsselbloem. Em nome da melhor Europa do espírito crítico, das lutas todas pela dignidade, da permanente incompletude, não se pode ser socialista senão recusando aquilo em que a União Europeia se tornou.»  

A Europa, do medo à esperança.

«Many Thanks to the English Working Class»



N.B. – O facto de divulgar este texto de João Rodrigues não significa que assine por baixo tudo o que escreve. Mas, ao contrário da maioria esmagadora dos meus amigos, tenho mais dúvidas do que certezas a propósito do tema Brexit e julgo que pensar no que gente sensata escreve nunca causou danos colaterais.

«Peço desculpa ao leitor pelo título em inglês. Sei bem que o inglês e os anglicismos são uma praga evitável. Trata-se apenas de uma singela homenagem à maioria do povo britânico, que teve a coragem de votar pela mudança no referendo à União Europeia (UE).

Uma homenagem aos mais velhos, aos mais pobres, às classes trabalhadoras, aos de baixo. É que não é preciso ser instruído para dar uma lição. E que lição esta, a que foi dada às elites políticas, económico-financeiras, aos de cima, numa sociedade causticada pela polarização social e regional, feita de vencedores e de vencidos da globalização neoliberal, o outro nome da UE realmente existente neste continente. Não creio que aprendam alguma coisa, no entanto, a avaliar por tantas reacções arrogantes.

Quem faz esta homenagem vive, como o leitor, na Europa do Sul, neste rectângulo castigado pela austeridade imposta por Bruxelas, numa moeda única que nunca nos serviu, comandada por Frankfurt; vive numa economia estagnada há quase duas décadas, e endividada externamente em montantes recorde, uma combinação sem precedentes históricos. Tudo isto acontece também porque as elites portuguesas aderiram acriticamente à ideia do pelotão da frente, abdicando de instrumentos de política económica num processo nunca referendado. As elites portuguesas dominantes tiveram um papel crucial em transformar Portugal num indicador avançado da chamada estagnação secular, fenómeno que marca o capitalismo nas suas fases mais desiguais e financeirizadas.

Repare o leitor que durante a campanha do referendo britânico, a Europa do Sul, com o seu desemprego de massas, foi invocada por alguns defensores da saída, pelos que tinham boas razões para tal, como o melhor exemplo do que é a UE: uma ordem pós-democrática, que esvaziou a soberania dos parlamentos e que não a substituiu por nada que fosse competente e decente. Os britânicos levam a sério este problema. Chamam-lhe democracia e quiseram recuperá-la de forma mais integral, quiseram ter um maior controlo sobre a sua vida colectiva.

Não se esqueça o leitor que tiveram e têm de enfrentar o chamado projecto medo, comandado por economistas, os mesmos que garantiam antes da crise financeira, iniciada em 2007-2008, que vivíamos na grande moderação, que os mercados financeiros liberalizados eram o alfa e ómega do progresso e que o euro era a boa moeda para a UE (dois terços dos economistas britânicos inquiridos defenderam tal posição em 1999). Este referendo assinalou o merecido descrédito público da economia convencional. Garantiram e garantem que seria o caos. Esqueceram-se que, para os de baixo, o caos é há muito o outro nome das suas vidas.

O leitor sabe que agora é "ai", que as agências vão descer a notação; "ui", que a Grã-Bretanha vai ficar mais pobre por causa da desvalorização da libra. As agências de notação são irrelevantes para Estados monetariamente soberanos e que estão endividados na sua própria moeda. As taxas de juro relevantes são determinadas pelo Banco Central e nunca, repito, nunca, há problemas de insolvência para Estados deste tipo. Os que operam nos mercados no fundo sabem isso.

Quanto à desvalorização da libra, desde que esta seja controlada, e sê-lo-á, também pela acção das forças de mercado, enquadradas pela natural cooperação entre bancos centrais, pode ser um estímulo para a economia britânica, como foi durante a crise, ajudando-a num ajustamento há muito visto como necessário: desfinanceirizar, reduzindo o peso da City, e promover sectores mais produtivos. Para isso, ajudará a maior margem de manobra, por exemplo em termos de política industrial, obtida, a prazo, graças à saída da UE. Mas isso não é o mais importante: mais liberal ou menos liberal, será ainda mais o parlamento a decidir formalmente. O leitor sabe que isso se chama democracia e ainda se lembra como foi por cá, num breve período, antes de as regras do mercado interno fazerem sentir todos os seus efeitos, e sobretudo antes do euro. Pelo menos nessa altura convergíamos com as economias europeias.

E agora o leitor pergunta: e nós? Nós precisamos de aprender com o nosso mais velho aliado. O quê? Que o pelotão da frente não nos serve: precisamos de sair do euro de forma negociada, idealmente, e, entre outras, obter excepções às regras do mercado interno. Em suma, recuperar instrumentos de política industrial, comercial, cambial ou orçamental. Tudo numa UE de geometria variável, de menu, com menos poder de Bruxelas e mais poder dos Estados. Caso contrário, o nosso futuro será mais do mesmo: declínio das forças produtivas da nação, da energia vital de um país esvaziado. O leitor não quer isso, eu sei. Tem, temos, é de ter a coragem de querer o que tanta falta faz.»

João Rodrigues

26.6.16

Dica (319)




«Estou convicto de que nossa única esperança é agir em nível transnacional – só assim teremos a chance de fazer frente ao capitalismo global. O Estado-nação não é o verdadeiro instrumento para confrontar a crise dos refugiados, o aquecimento global e outras questões urgentes que se colocam. Então ao invés de se opor aos eurocratas em nome de interesses nacionais, por que não começar tentando formar uma esquerda europeia? Não vamos competir com os populistas de direita. Não vamos permitir que eles definam os termos da luta. O nacionalismo socialista não é a forma certa de combater o nacional socialismo.» 
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Maria Velho da Costa, 78



Maria de Fátima de Bivar Velho da Costa, que conheci como Fátima Bívar bem antes de tudo o que veio a celebrizá-la, nasceu em 26 de Junho de 1938. Andámos por aí, na noite de Lisboa, em grupos improváveis que já se foram esvaziando pelas leis da vida – e do fim da mesma.

Se foi sobretudo a sua colaboração nas célebres Novas Cartas Portuguesas, que escreveu a seis mãos com Isabel Barreno e Teresa Horta e que a trouxeram, com estrondo, para a ribalta da perseguição da PIDE e dos tribunais, ela é para mim, antes de mais e acima de tudo, a grande autora de Maina Mendes (1969) que li de um trago e já reli nem sei quantas vezes. Muitos outros livros vieram, talvez com destaque para Missa in Albis (1988).

Em jeito de homenagem, este trecho sobre «Mulheres e Revolução»:

«Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.»

Maria Velho da Costa, Cravo, Moraes Editores, 1976. 
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Donos Disto Tudo?



Mau começo para o pós-Brexit: os fundadores, não da União Europeia como dizem, mas sim da CEE, afirmam que «nunca deixarão que lhes tirem a sua Europa»

«Sua» Europa? É preciso descaramento. 
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Achavam que não?



«Todas as vezes que alguns europeus (nós nunca...) tiveram o privilégio de se poder pronunciar especificamente sobre políticas europeias quis-se despachar a crítica à integração europeia como xenofobia, tacanhez e iliteracia política. (…) Se não percebeu antes, não havia de ter percebido agora os motivos que levam a grande maioria das classes populares britânicas a mostrar tanto desamor europeu: o fundamental da política económica decide-se em Bruxelas, entre a eurocracia da Comissão, o BCE e a decisão voluntária dos próprios governos (de que tantos social-democratas fazem parte e dirigem) que há muito impuseram um euroconsenso da precarização do trabalho, da desregulação e privatização, da eliminação de direitos sociais. Enganaram-se os britânicos que julgaram que votar pela saída impediria a degradação das condições sociais e dos salários? É muito provável. Mas não tem sido precisamente a UE (isto é, o consenso neoliberal que nela vigora) a impor uma coisa e a outra? Em que ficamos: se não vale a pena partir, vale a pena ficar?

É verdade que as sondagens dizem que o sim à UE (o “Remain”) triunfou nas zonas urbanas com população mais rica e com mais formação escolar (a primeira característica propicia sempre a segunda, é essa a lógica da desigualdade social), o não (“Leave”) triunfou por maior diferença nas regiões urbanas e rurais da Inglaterra e do País de Gales mais deprimidas e mais envelhecidas - mas não foi unicamente a Inglaterra conservadora do Sul que votou contra, foi também o Norte maioritariamente trabalhista, desindustrializado e abandonado por Thatcher, Blair e Cameron, que votou “Leave”. É porque são ambos racistas e pateticamente temerosos da mudança? Não: o modelo social britânico revela-se hoje tão consolidadamente xenófobo, incómodo com o estatuto pós-colonial e multiétnico que resultou do fim do Império, quanto o francês, o alemão, o holandês, o belga, o italiano, ou o português – ou ainda se julgará que não, que o defeito está só lá? (…)

Uma das consequências mais evidentes do Brexit, e que a demissão de Cameron comprova, é a da recomposição da direita britânica, com o triunfo de uma velha tendência nacionalista que nunca desapareceu, obscurecida entre nós por essa perceção embevecida e algo bacoca que várias gerações das nossas elites têm mantido sobre um país cuja história se simplifica até à caricatura. Essa “Inglaterra” (nestes casos nunca se fala da Grã-Bretanha) que se descreve democrática e cosmopolita, feita de Oxfords e Cambridges, cerimoniais setecentescos, OO7 e primeiros-ministros de sotaque pedante, é, afinal, muito mais Trump que Obama, mais hooliganismo que fair-play, muito mais paroquial que cosmopolita. (…)

Por último, é tudo menos difícil perceber como o Brexit mostra à saciedade como a UE Schäuble, Juncker&Dijsselbloem, SA, mete água por todos os lados! Depois de anos da tensão a que sujeitou a Europa do Sul, o Brexit vem abrir uma brecha muito evidente que percorre toda a Europa do Norte, da França à Suécia, passando pela Holanda e pela Alemanha. Os mesmos que no Norte impuseram precarização, exploração, paraísos fiscais e segregação racista da mão de obra imigrante, prescrevem ao Sul do continente austeridade e desprezo. A Leste do Oder, a Sul do Danúbio, triunfam as mesmas direitas patrioteiras com que, como nos anos 30, o Ocidente diz querer conter a Rússia. Só boas notícias.

Desde há muitos anos que percebemos que a UE é daquelas coisas que nem precisa de um grande empurrão para cair ribanceira abaixo. Os seus líderes têm-se mostrado completamente eficazes para esse efeito.»

Manuel Loff