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22.8.17

A poesia vai



A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa.
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Chile: Respect




«Le projet Dominga inclut la construction d’un port et l’installation de mines à ciel ouvert, pour atteindre une production annuelle de 12 millions de tonnes de fer et 150 000 tonnes de concentré de cuivre. L’investissement total serait de 2,5 milliards de dollars. L’activité minière est un moteur de l’économie du Chili, principal producteur de cuivre avec un tiers de l’offre mondiale.»
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Dica (613)



Who are the new jihadis? (Olivier Roy) 

«The reasons for the rise of Isis are without question related to the politics of the Middle East, and its demise will not change the basic elements of the situation. Isis did not invent terrorism: it draws from a pool that already exists. The genius of Isis is the way it offers young volunteers a narrative framework within which they can achieve their aspirations. So much the better for Isis if those who volunteer to die – the disturbed, the vulnerable, the rebel without a cause – have little to do with the movement, but are prepared to declare allegiance to Isis so that their suicidal acts become part of a global narrative.»
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O gambozino da maioria absoluta



«Que há quem garanta que os gambozinos existem, é ponto assente; mas que nunca foi caçado tal bicho, parece mais do que certo. Descontando as inquietações popperianas sobre a dificuldade de refutar a primeira hipótese, resta o problema maior para os duvidantes: devemos caçar gambozinos na presunção de que existem ou de que não existem? A questão complica-se ainda mais para quem sustenta que a inexistência de provas documentadas sobre alguma aparição do animal sugere que se trate de uma ficção. Então, a questão passa a ser: devemos aceitar a ideia da caçada que tomamos por pueril ou devemos recusar o jogo, ainda que algum dia pudesse ser provado que a ausência do registo do bicho foi descuido nosso?

A questão da maioria absoluta é mais ou menos como escolher com que estado de espírito se devem caçar gambozinos. Se tomamos por certo que não haverá maioria absoluta possível na actual configuração da relação de forças, então nem vale a pena considerar a fera. E há boas razões para tal agnosticismo: para uma maioria absoluta, o PS teria de comprimir o PSD muito para além do seu mínimo histórico, mesmo considerando que o CDS já está enfraquecido. Então, a única questão interessante passa a ser: porque é que se fala de coisa nenhuma e se discute uma inviabilidade, ou porque é que nos entretemos com uma veleidade gabozinesca?

A resposta pode ser: não interessa a fantasiosa maioria absoluta, interessam os motivos para se falar dela. Exemplo, para o director do Expresso é preciso que o PS tenha maioria absoluta para então ser mais pressionado do que agora. O raciocínio é decerto contraditório com a experiência dos eleitores: eles sabem que se o PS tivesse tido maioria absoluta teríamos tido pensões congeladas por mais quatro anos, redução nas pensões sociais (o previsto era 1020 milhões) e uma nova regra para facilitar despedimentos, pelo menos. O problema não é de pressões, é de realizações.

O director do PÚBLICO segue outra via e pergunta-se se a entrevista recente de Costa, sugerindo um pacto com o PSD depois das autárquicas para decidir fundos estruturais, é mesmo uma abertura a um novo bloco central e portanto a uma maioria absoluta que “só será possível se for construída por quem tem ideias semelhantes sobre como funciona a economia livre, num mercado europeu e cada vez mais global e competitivo.”

Desculpem a franqueza, mas são gambozinos. Nem haverá pacto, cujo enunciado é o tradicional jogo do empurra das culpas, nem haverá vontade de mudar de parceiro a meio do tango. Haverá mais dificuldades nesta segunda metade do mandato, isso tratarei proximamente, mas ninguém pode voltar para trás. É aliás por causa desta certeza que alguns preferem sonhar com a maioria absoluta, reconhecendo que nada podem fazer agora contra as condições que impuseram esta forma de maioria.

Para o PS, a maioria absoluta é também um gambozino: é evidentemente desejada, mas para jogar esse jogo tem de garantir que não conhece o bicho. Ora, vale a pena perguntar porquê. Qualquer enlevo do PS com essa ideia faria ressuscitar os temores de muitos dos seus eleitores, e mais ainda daqueles que precisa de ganhar para concretizar tal ambição, de que o PS volte ao seu programa e à sua política tradicional. Ou seja, para muitos eleitores do PS, a satisfação com a governação actual deriva essencialmente da certeza de que as circunstâncias excepcionais obrigaram o PS a um acordo com a esquerda. E uma maioria absoluta do PS significaria romper com esse acordo para voltar a um passado que assusta.

Assim, a equação gambozino passa a ser: o PS sabe que só conseguiria a maioria absoluta que lhe permitiria afastar os seus parceiros de esquerda se garantisse aos eleitores que nunca o faria e que, se tivesse o poder absoluto, nunca cumpriria o seu programa, antes continuaria submetido a esse mesmo compromisso que pretenderia romper. Gambozinos, portanto.»

21.8.17

Em Bruxelas, coração da Europa



«Umas centenas de refugiados somalis, eritreus e ... chegaram na última semana a Bruxelas e estão a dormir ao relento na Gare du Nord, sob ameaça da polícia, que começou por lhes retirar mantas e agasalhos. A Plataforma Cidadã recolheu em três tempos uns milhares de euros e comprou sacos-cama para todos. Sacos-cama identificados com o nome do proprietário, cidadãos belgas que assinaram o "seu" saco, e da própria plataforma. Se a polícia os retirar aos refugiados, é roubo.

Diga-se ainda que estes sacos cama foram comprados na Decathlon e que a empresa os vendeu a preço de custo, assumindo o imposto. É assim que a sociedade civil belga cumpre o seu dever de solidariedade e dá lições de moral ao governo. Entretanto, a Bélgica tem um secretário de Estado, Theo Francken, que é um Trumpzinho de trazer por casa e anunciou que vai reenviar os refugiados para os seus países a bem ou a mal. Mas não vai.

Os belgas sabem o que é ter de fugir da guerra, sabem o que é viver em guerra, não esquecem a ocupação nazi durante a guerra. E sabem responder com solidariedade a estes dramas. Uma mulher grávida de oito meses dormiu apenas a primeira noite na Gare du Nord. Ao segundo dia já estava em casa de um casal belga. E todos os dias há quem entregue donativos, roupa e alimentos, no Centro Maximilien.

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Hoje [2ªf.] de manhã, a polícia apreendeu tudo... A Plateforme e os cidadãos que assinaram os sacos vão apresentar uma queixa colectiva contra a polícia.»

António Costa Santos no Facebook 
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Nem Descartes safou os franceses: se pensassem, Macron não existia!




«Após mais de 100 dias no Eliseu, exercendo o cargo de Presidente da República, os franceses que votaram nele como uma barreira contra o avanço das forças reaccionárias da extrema-direita, personificadas em Marine Le, estão desencantadas com ele.(…)

“É um ditador”, “é um muito dirigista e distante”, “não respeitas as pessoas e é vaidoso”.» 
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Janela para o medo



A fome almoça medo. O medo do silêncio atordoa as ruas. O medo ameaça.
Se amas, terás sida.
Se fumas, terás cancro.
Se respiras, terás contágio.
Se bebes, terás acidentes.
Se comes, terás colesterol.
Se falas, terás desemprego.
Se caminhas, terás violência.
Se pensas, terás angústia.
Se duvidas, terás loucura.
Se sentes, terás solidão.

Eduardo Galeano 
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Francisco Louçã sobre o Capitalismo


Concorde-se ou não, vale a pena ouvir e, muito provavelmente, aprender umas coisas.



«Neste episódio abordámos um tema muito vasto e complexo: O Capitalismo. Fomos ao ISEG, falar com o Francisco Louçã, Doutorado em Economia, fundador do Bloco de Esquerda e Conselheiro de Estado para ele nos oferecer uma perspectiva crítica deste sistema económico e social, segundo o qual as sociedades Ocidentais, e muitas outras, se organizam nos dias de hoje.

Durante pouco mais de meia hora, falámos sobre a história do Capitalismo, quais as suas origens, as várias transformações que sofreu e as críticas que lhe foram sendo feitas. Falámos sobre o Capitalismo actual, sobre neo-liberalismo e a sua influência no processo democrático, e em instituições como a União Europeia. Olhámos também para o futuro. Procurámos debruçar-nos sobre para onde seguem as sociedades capitalistas. Quais as várias transformações que podem vir a sofrer numa era onde a inovação tecnológica acontece a uma velocidade estonteante. Falámos de possibilidades como a “Uberlândia”, regimes autocráticos e de soluções para o futuro como o Rendimento Básico Incondicional.»

21.08.1968 – Era madrugada em Praga










A não perder, este belíssimo vídeo com mais fotografias.

(Texto e fotos de Josef Koudelka, Invasion of Prague, Thames & Hudson, 2008.)
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20.8.17

Venham eles...


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O meu padrinho mulato nasceu num 20 de Agosto


(Karel Pott ao meio, comigo ao colo)

Há uma meia dúzia de anos, uma troca de comentários num blogue, que já não existe, levou-me a revelações absolutamente inesperadas. Nasci e passei a infância em Lourenço Marques e os amigos, inseparáveis e quase únicos dos meus pais, eram Karel Pott e a mulher. Fui criada praticamente como irmã dos filhos deles.

De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior, em Coimbra. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje (ou pelo menos há uns anos) em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para ser recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo e o procurei em vão.

Com orgulho póstumo, descobri então que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente. Por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924 [à esquerda, na foto aqui ao lado], lamentava que, em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…». Percebi também por que motivo a sua actividade como advogado nunca lhe foi facilitada...

Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.

Poucas horas depois de escrever um texto semelhantes a este, aqui no blogue, recebi um mail de um sobrinho, apareceu-me um neto na Facebook, recebi muitas informações através de bloggers moçambicanos, descobri uma referência de José Craveirinha («o Dr. Karel Pott, que foi uma referência muito forte na minha vida»). Mais tarde, e também no Facebook, retomei contacto, que ainda mantenho, com um dos seus filhos – o «Berty», com quem cresci durante os primeiros anos da minha vida.

Hoje, «regressei» à minha cidade das acácias vermelhas. 
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«Remove» Trump: era bom, era!



Remove Him Now (Robert Reich)

«I know, removing Trump would mean having Mike Pence as president. But a principled right-winger is better for America and the world than an unhinged sociopath.
Republican as well as Democratic members of the House and Senate must commit themselves to removing this president.
Those of you represented by Democrats in the House or Senate must get their commitment to remove him, as soon as possible.
Those of you represented by Republicans in the House or Senate must let them know that you will campaign vigorously against them in 2018 unless they commit to removing Trump as well.
It is time to end this disgrace.» 
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É uma TV portuguesa, com certeza


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Topos de gama e gamas de topo



«Gama, terceira letra do alfabeto grego, mas também expressando uma série de coisas da mesma categoria, ordenadas segundo o seu valor. Topo, entre outras significações, quer dizer o grau mais elevado que se pode alcançar. Topo de gama, uma expressão recentemente lexicalizada de carácter qualificativo, que atribui a um dado objecto um lugar preferencial numa determinada escala.

O tempo de agora convive bem com esta desengonçada expressão. A obsessão topo-gamista invade tudo e enevoa cabeças. (…)

Evidentemente que o topo de gama pode ser mais de topo do que de gama, ainda que de gama, enquanto tempo de um verbo, se possa sempre dizer algo mais. Sobretudo, considerando a convergência, que por vezes existe, entre o topo de gama e a gama fiscalmente declarada do salário mínimo nacional, ou seja, o rendimento de menor grana, mas de maior gama.

O verbo topar é inseparável do topo de gama. Porque este só faz sentido se for topado. Quer dizer, falado, comentado, invejado, atraído, comparado. A relação com outro verbo – gamar – não é absoluta, mas a sua correlação é crescente. Quer dizer, gamar pode ser uma condição necessária para se chegar ao topo de gama, dependendo, obviamente, da gama e do gamão. Topam? (…)

Falando em impostos, é verdade que os há também topo de gama. Mas esses ninguém os quer exibir, embora, por vezes, topem (isto é, tropecem) nas declarações tributárias. (…) Pena é que o IVA da electricidade que é de alargada gama, mas não é de topo, tenha a mesma taxa de IVA dos diamantes, carros de alto luxo ou vestuário sacado aos animais selvagens que são de restrita gama, mas de elevado topo.

Há ainda os topos de gama literários. Há quem lhes chame best-sellers, ainda que os dois conjuntos não sejam necessariamente iguais. Mas basta ir a uma livraria para apanharmos nas ventas logo à entrada os topos de gama “light” (lidos (?) agora, nas praias e arredores), enquanto nos vemos em palpos de aranha para encontrar um livro de Torga, Jorge de Sena ou Herberto Helder.»

António Bagão Félix

19.8.17

Ironia belga


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Dica (612)



The World According to Bannon (Alexander Livingston) 

«Steve Bannon’s vision of civilizational crisis and violent renewal has deep roots in the American political tradition.» 
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Gracía Lorca morreu num 18 ou 19 de Agosto



Federico García Lorca conta-se entre as primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Foi fuzilado, com apenas 38 anos, em Agosto de 1936, entre os dias 17 e 19, pelo seu alinhamento político com os Republicanos e por ser declaradamente homossexual.

Todos os anos nesta data, em Viznar, perto de Granada, ciganos cantam, dançam e dizem poesia em honra de Lorca e de cerca de 3.000 fuzilados pelos franquistas, cujas ossadas se encontram por perto. De madrugada, à luz de velas e das estrelas, sem nada programado, sem nenhuma convocação formal.





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Se The Guardian não é ainda um jornal de fake news




«The publisher confirmed on Friday that it had complied with a Chinese request to block more than 300 articles from the China Quarterly, a leading China studies journal, in order “to ensure that other academic and educational materials we publish remain available to researchers and educators” in China.
A list of the blocked articles, published by CUP, shows they focus overwhelmingly on topics China’s one-party state regards as taboo, including the 1989 Tiananmen massacre, Mao Zedong’s catastrophic Cultural Revolution, Hong Kong’s fight for democracy and ethnic tensions in Xinjiang and Tibet.»
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Bem podíamos aprender!


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A justiça em Portugal é “mais dura” para os negros



Joana Gorjão Henriques divulga, no Público de hoje, um longo e muito importante texto sobre discrepâncias entre brancos e negros no exercício da justiça em Portugal. Alguns excertos ajudam a perceber a gravidade do problema.

«Há uma marca no rosto de Diogo do tempo em que ele esteve na prisão. Livre há apenas uns meses, prefere não explicá-la. Com voz pausada, Diogo lembra a vida que o conduziu para trás das grades durante três anos e seis meses, justamente numa altura em que até tinha começado a trabalhar e em que não cometia crimes. Cumpriu a pena praticamente até ao fim, mas saiu do Estabelecimento Prisional de Leiria sem perspectivas. (…)

Sempre viveu com autorização de residência permanente. Quando saiu da cadeia em Setembro, ficou em situação ilegal. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) cancelou a sua residência. “Nasci cá. Já cumpri a minha pena, já fiz porcaria, mas já paguei. Estou a trabalhar. Exigem mais porquê? Se não tiver trabalho o que faço?” Tem a sensação de que, ao encurrala-lo assim, o sistema pressiona-o para que vá de novo para a cadeia.

Diogo foi um dos jovens dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que engrossou as estatísticas prisionais. Um em cada 73 cidadãos dos PALOP com mais de 16 anos em Portugal está preso. É uma proporção dez vezes maior do que a que existe para os cidadãos portugueses — onde um em cada 736 cidadãos na mesma faixa etária está detido. O número sobe para 1 em 48 quando se trata de cabo-verdianos, a comunidade africana mais expressiva em Portugal: ou seja, 15 vezes mais.

Mais um dado: se tivermos apenas em conta os homens, que constituem, na verdade, o grosso da população prisional, concluímos que um em cada 37 cidadãos dos PALOP está preso versus um em cada 367 homens portugueses (e uma em cada 1071 mulheres dos PALOP versus uma em cada 6732 portuguesas). (…)

Estas estatísticas podem ter várias interpretações, e também ser analisadas do ponto de vista racial, já que a maioria da população destes países é negra — por não existirem dados étnico-raciais em Portugal, há sociólogos que usam a variável imigração dos PALOP como método de aproximação à questão racial. Os resultados seriam diferentes — e, acreditam os especialistas contactados pelo PÚBLICO, a desproporção aumentaria — se houvesse dados sobre portugueses negros, que aqui aparecem diluídos no grupo de portugueses. (…)

O procurador Alípio Ribeiro, que já esteve na direcção nacional da Polícia Judiciária, não tem dúvidas: as taxas de encarceramento apuradas pelo PÚBLICO mostram uma “diferença abismal” entre presos dos PALOP e portugueses. E confirmam uma intuição que tinha, a de que “há uma justiça para portugueses e uma justiça para estrangeiros, uma justiça para brancos e uma justiça para negros”.

O procurador, também inspector, defende que “não se pode tirar destes números a conclusão de que os PALOP são mais criminosos”. Pelo contrário: “O que posso dizer é que o sistema permite isto. Parece-me que há uma pro-actividade em relação a estes indivíduos.”

A discriminação racial na justiça traduz-se em outros aspectos, afirma. A sua percepção é a de que “é preciso menos provas para incriminar um negro”. Porque “há uma desconfiança inicial em relação ao negro que não há em relação ao branco”. Em geral, afirma, a justiça é “mais dura em relação aos negros”. (…)

As discrepâncias também se encontram nas condenações pelos mesmos tipos de crimes, com clara desvantagem para africanos. As proporções são estas: há nove vezes mais condenados dos PALOP por roubo e violência do que portugueses; oito vezes mais por resistência e coacção sobre funcionário; seis vezes mais por desobediência. Estes dois últimos crimes implicam interacção com a polícia. “Aqui o anacronismo ainda é mais visível”, continua Alípio Ribeiro. (…)

Manuel, nome fictício, não tem dúvidas. Depois de cumprir a sua pena, sabe que “a população” da sua cor “está em massa nas prisões”.

Com quase 40 anos, e a viver em Portugal há 17, na linha de Sintra, é um angolano pai de uma filha de sete anos, portuguesa. Foi Manuel quem se entregou à polícia por crimes de burla e falsificação. Mas acredita que o facto de ser negro influenciou o seu percurso: não contou com atenuante na pena aplicada, de seis anos e sete meses, cumpriu-a praticamente até ao fim e sem conseguir gozar de qualquer precária, mesmo tendo sido um “recluso exemplar”.

“Encontramos o racismo mais puro dentro do sistema prisional”, afirma. “Pedi uma saída. Sendo recluso primário, com um quarto da pena cumprida, por ser desta cor não me deram.”

Quando entram na prisão, os reclusos estrangeiros perdem a autorização de residência e não a conseguem renovar. “O juiz dizia que não me dava a precária porque os meus documentos estão caducados. Se quem me privou da liberdade foi a justiça, a justiça é que tem que ver se eu estou preparado para a precária, não é o SEF. Onde é que estão os direitos humanos?”

Apesar da recomendação da ONU para que o faça, e de insistência de associações de afrodescendentes, em Portugal não há recolha oficial de dados étnico-raciais, por isso alguns cientistas sociais usam dados das populações PALOP. É uma limitação, até pela associação que assim se cria entre negros e imigrantes, mas também uma forma de aproximação. O retrato da desigualdade racial só seria feito se a estes dados conseguíssemos acrescentar os portugueses negros.»
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18.8.17

Dica (611)



Independentes de modo vário (José Manuel Pureza) 

«Um independente não é por definição mais fiel à satisfação dos interesses da população do que um militante partidário. E não, uma candidatura independente não é por definição mais democraticamente pura do que uma lista partidária. (…)
A linha de diferenciação na democracia local não é entre partidos e independentes, é entre quem alarga a democracia e quem perpetua a deformação da prática da democracia tomando-a como jogo de elites e de iluminados. Ora, tanto nos partidos como fora deles há gente que está de um lado e gente que está do outro desta diferenciação.» 
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Ramblas



«La única calle de la tierra que yo desearía que no acabara nunca, rica en sonidos, abundante en brisas, hermosa de encuentros, antigua de sangre, es la Rambla de Barcelona.»

Federico García Lorca
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18.08.1975 – Vasco Gonçalves em Almada



Eu já publique mais de uma versão deste texto, mas regresso ao mesmo, já que foi um marco que os mais novos nunca entenderão, mas que aqueles que viram e/ou ouviram nunca vão esquecer.

Há 42 anos, Vasco Gonçalves fez em Almada, com 15.000 pessoas presentes, um discurso que durou uma hora e meia e que foi transmitido em directo pela RTP (texto, na íntegra, aqui) e que seria o princípio do fim de muitas coisas e o ponto de partida inevitável para muitas outras. Um discurso dramático que acabou com Vasco Gonçalves lavado em lágrimas, como descreve o Diário de Lisboa (pag.5) do dia seguinte.

Uma curtíssima amostra:



Dramática foi também a carta que Otelo lhe escreveu 24 horas depois: «Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa História. Agora companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste País ao assim proceder. (...) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário.»

O V Governo Provisório, que tomara posse dez dias antes, tinha as semanas contadas e não houve muralha de aço que lhe valesse. A 19 de Setembro, Pinheiro de Azevedo assumiria as rédeas do VI. O 25 de Novembro estava à vista. 
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Make Mein Kampf great again



«A cidade norte-americana de Charlottesville foi palco de graves confrontos durante uma manifestação de nazis americanos e uma contramanifestação de pessoas. O resultado final do confronto foi um morto por atropelamento, por um adepto do Alt-right, e vários feridos.

As manifestações foram convocadas depois de uma estátua do general sulista da Guerra da Secessão dos EUA e defensor da escravatura, Robert E. Lee, ter sido removida da cidade. Deviam ter-lhes dito: calma, vamos levar a do general Lee, mas vamos pôr uma do Adolfo. Os EUA são tão grandes que a diferença horária faz com que exista gente a viver no século XIX.

Em relação à retirada da estátua, porque o general era a favor da escravatura, podemos discutir o politicamente correcto, e a "humanidade" dos nossos dias, "versus" a questão histórica e temporal. É um bocado como o Nobel da Medicina para o Egas Moniz. Rebentava-lhes com o cérebro, fazia as pessoas patetinhas, mas achava que pelo menos deixavam de estar tão excitadas. Há coisas, por mais incríveis que sejam, que podem parecer fazer algum sentido na época em que aconteceram. O problema é quando querem fazer dessas estapafúrdias ideias de ontem novas ideias de hoje.

Nazismo não é o mesmo que revivalismo da música dos anos 80. Dançar a fingir que se está a fazer um solo numa guitarra eléctrica imaginária não é o equivalente a fazer a saudação nazi.

Não há espaço para os saudosistas do holocausto. O mundo viu morrer milhões de pessoas e escreveu o pior capítulo da História do homem, mas há quem ache que, apesar disso, deve haver espaço para eles. É como se os ratos que trouxeram a peste negra, no século XV, fizessem uma parada a atravessar a cidade a andar numa roda.

Queria ver o que aconteceria se houvesse uma manifestação dos apoiantes do ISIS com bandeiras, catanas, explosivos à cintura e muitos gritos de morte aos infiéis.

Nos EUA - o cemitério dos militares americanos -, apesar de todas as guerras em que estiveram envolvidos, é maioritariamente preenchido por soldados que morreram a combater o nazismo. Faz falta um "walking dead" para correr outra vez com esta gente saudosista do Adolfo.

Imaginemos os EUA durante a II Guerra com um Presidente como Trump, o cabelo ajuda. De que lado estaria o Presidente dos Estados Unidos? Pois. A resposta é assustadora, nem que seja pelo intervalo de tempo que precisamos para decidir.»

João Quadros
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Nero e os tambores da guerra



«Donald Trump começa a parecer-se demasiado com o Nero dos tempos modernos. Tornou a Casa Branca a sede do seu império empresarial, mas o caos da sua administração ameaça fazer implodir as bases do sistema democrático americano.

E esta confusão constante tanto pode ser uma estratégia pensada como um desvario completo. Ninguém sabe. Fustigado pelo "establishment", Trump refugia-se nos que o elegeram no interior dos EUA. Contra as ameaças internas, fala de "fogo e fúria" atiçados na direcção da Coreia do Norte. São tambores da guerra a ecoar, para distrair os americanos dos problemas que não consegue resolver no seu território. Seneca, o conselheiro de Nero depois de este ter conseguido matar a sua mãe, Agripina, dizia que nenhum Estado pode ser tão mau que possa evitar que algum homem o sirva de alguma maneira. Seneca sonhava influenciar o poder, algo que os filósofos gostam de vislumbrar. Era um mestre da retórica e um dramaturgo. Foi ele que defendeu, numa empolgante carta ao Senado, que Agripina se tinha suicidado após ter tentado em vão fazer um golpe de Estado contra Nero. Este agradeceu-lhe na altura, mas não evitou que mais tarde, se tivesse suicidado após Nero o considerar o arquitecto de um golpe contra o seu poder. Que era então magnífico, entre festas e construções que empolgavam o povo. Tudo acabou com o incêndio que devastou Roma.

Trump, como Nero que insultava as elites romanas, utilizando a calúnia. Táctica antiga, a que hoje se chama "verdade alternativa". A pós-verdade do tempo de Trump é herdeira da de Nero: as fábulas confundem-se com a realidade. Mas o problema é que esta história começa a ter todas as condições para correr mal, como escrevia há poucos dias Gideon Rachman no Financial Times, que descrevia a hipótese de Trump embarcar para um conflito internacional para tornar as suas dificuldades internas. E citava um assessor de Trump, Sebastian Gorka, que disse à Fox News: "Durante a crise de mísseis em Cuba ficamos atrás de John F. Kennedy. Há analogias com essa crise. Precisamos de estar juntos." E, com uma guerra, os EUA poderão ficar atrás de Trump. A Coreia do Norte é problemática, e os generais que estão à volta de Trump sabem isso: um ataque contra Kim Jong-un poderia levar ao desaparecimento de Seul, porque seria impossível parar toda a artilharia norte-coreana. A Venezuela seria um alvo mais fácil. Ou o Irão, nunca se sabe.

Trump representa o triunfo do ressentimento sobre a esperança. Muitos americanos buscam algo que possam culpar pela sua crise: os mexicanos, a China, a União Europeia. Tudo serve para disfarçar os problemas estruturais com que os EUA se debatem hoje. Trump simboliza essas vozes. O seu discurso não vende em Nova Iorque, mas é comprado na Louisiana ou no Dakota. E é tudo isto que nos faz lembrar a República de Weimar nos anos 30. Os alemães não percebiam porque estavam pobres e eram humilhados. Antes da I Guerra Mundial eram o centro da inovação. Hitler aconchegou os seus medos. E o "establishment" convidou-o para o poder em 1933. Só saiu de lá à força.»

Outra «Grande Capa»


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17.8.17

Joan Baez, uma vez mais


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Barcelona



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O discurso pimba



«Alguns têm um enorme desgosto que Constança Urbano de Sousa não seja a agente Atomic Blonde do Governo. Lamentavelmente, Constança não tem perfil nem genica para isso e funciona mais como uma dupla de ministra.

Nada que admire neste país que caminha a passos rápidos para a desertificação da sua fauna e flora. A cultura política está agora ao nível da aquacultura: desenvolve-se em cativeiro. E assim não surpreende a vertiginosa descida aos infernos da política nacional. Não é preciso falar daquele fantasma que o PSD despejou em Loures e que só causa calafrios porque um partido sério incorporou no seu discurso uma deriva populista enervante. Mas como os dislates se tornaram um dever, a acreditar nos principais partidos nacionais, lê-se o que diz a cantora Ágata, candidata independente apoiada pelo CDS à Câmara de Castanheira de Pêra, e percebe-se o abismo para onde caminhamos. Ágata é clara como uma canção pimba: "Para mim a política é zero, não existe." Melhor: "Não sigo a carreira de Assunção Cristas como política nem ouço os seus discursos." Talvez assim se compreenda melhor a sua participação numa lista de um partido político. Ou a razão por que o CDS a convidou. A política chegou ao seu grau zero. Pior é quando dirigentes com mais responsabilidades como Pedro Passos Coelho vêm invocar uma qualquer solenidade patriótica para incendiar a planície. Mostrando-se desejoso de incorporar no seu ADN político a destilaria ideológica do seu candidato a Loures, Passos veio dizer no Pontal uma coisa inimaginável: "O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver a possibilidade de qualquer um residir em Portugal se mantiver?" Além de ter lido só o que quis na lei, Passos abriu uma caixa de Pandora de onde todos os zombies perigosos podem saltar. Passos empunha o discurso pimba da política: básico, rasteiro e fomentador do deserto. Percebe-se: em momentos de confusão, há líderes que perdem qualquer noção de sensatez. E só se querem salvar.» 

Da série: «Grandes Capas»


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Os CEOs americanos que bateram com a porta



Não vi que se tivesse dado muito importância ao tema: como reacção às novas declarações de Donal Trump sobre os acontecimentos de Charlottesville, o presidente «encerrou esta quarta-feira dois órgãos consultivos para assuntos económicos perante a demissão em catadupa de destacados empresários que integravam os conselhos».

Dado o relevo que tinha sido dado ao papel destes Conselhos quando o presidente foi eleito, não é de somenos importância o protesto concertado dos responsáveis de muitas das maiores empresas do país e as declarações com que as justificaram. Talvez acções destas tenham mais peso do que se pensa num país como os Estados Unidos.

A título de exemplo, eis a carta que Ginni Rometty, CEO da IBM, enviou aos empregados daquela Companhia:

Disbanding the U.S. President's Strategy and Policy Forum
Ginni Rometty
Team:

By now, you’ve seen the news that we have disbanded the President’s Strategy and Policy Forum. In the past week, we have seen and heard of public events and statements that run counter to our values as a country and a company. IBM has long said, and more importantly, demonstrated its commitment to a workplace and a society that is open, inclusive and provides opportunity to all. IBM’s commitment to these values remains robust, active and unwavering.

The despicable conduct of hate groups in Charlottesville last weekend, and the violence and death that resulted from it, shows yet again that our nation needs to focus on unity, inclusion, and tolerance. For more than a century and in more than 170 countries, IBM has been committed to these values.

Engagement is part of our history, too. We have worked with every U.S. president since Woodrow Wilson. We are determinedly non-partisan – we maintain no political action committee. And we have always believed that dialogue is critical to progress; that is why I joined the President’s Forum earlier this year.

But this group can no longer serve the purpose for which it was formed. Earlier today I spoke with other members of the Forum and we agreed to disband the group. IBM will continue to work with all parts of the government for policies that support job growth, vocational education and global trade, as well as fair and informed policies on immigration and taxation.

Ginni Rometty's signature
Ginni Rometty
Chairman, President and Chief Executive Officer 
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16.8.17

Dica (610)



No More Charlottesvilles (Keeanga-Yamahtta Taylor) 

«The fight against racism in Charlottesville forced public officials to finally come out and speak against the growth of white supremacy and neo-Nazis. We have to continue to unite the struggle against right-wing racists and stop them before they kill again.» 
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Churchill, Gandhi e a independência da Índia



Eduardo Galeano, Los hijos de los días:

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Joan Baez – ela, ainda ela



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O mundo está mesmo perigoso




«Donald Trump’s press conference was a grotesque display of empathy for violent racists. At least it united the Republicans in disgust at their presidente.»

Vale a pena ler e vários outros textos publicados depois das declarações de Trump, ontem proferidas e que estão AQUI na íntegra.

E deve-se estar também atento ao que se passa deste lado do Atlântico:

Não vou render-me!



«As grandes decepções fazem, muitas vezes, com que os líderes políticos se refugiem em coisas pequenas. É esse o pequeno desafio que Pedro Passos Coelho faz a si próprio, como provou a sua soneca discursiva no Pontal.

Tudo espremido, o líder do PSD continua a choramingar, dois anos depois, por ter sido apeado do poder. Sem o seu alvo favorito (a crise económica) como argumento, torna-se difícil invocar que o diabo está a chegar num avião "low-cost" ao aeroporto da Portela. O crescimento económico e a quebra da taxa de desemprego derretem qualquer momento de exaltação cívica. Por isso as palmas foram de circunstância. Que resta então, neste vazio, a Passos Coelho? Os incêndios, uma declaração de amor à Altice e, com boa vontade, a crítica ao modelo económico de turismo, exportação e baixos salários, que está em vigor, e que, afinal, é semelhante ao que foi cozinhado nos anos em que foi primeiro-ministro. E que, no laboratório da troika, era a solução de futuro para Portugal. O que agora Passos critica é o que, com as suas "reformas", fez. Mas tudo isto é política à nossa maneira.

A parte mais robusta da "stand-up comedy" de Passos no Pontal foi assegurar que em 2018 ali estará novamente para contar umas histórias aos militantes. Isto quer dizer muito simplesmente que, independentemente dos resultados autárquicos, Passos não resignará. Se for desafiado em Congresso, irá à luta. Passos diz, do fundo do coração: nunca me renderei! Passos está convicto de que tem razão e é disso que se forjam os políticos. É certo que os homens de ferro são muitas vezes afectados pela ferrugem, de que normalmente não se dão conta, mas é bom que o líder do PSD seja claro. Os seus inimigos internos, quase todos eles escondidos atrás de cortinas, esperam. Mas o poder não lhes cairá, de mão beijada, nas mãos. A sua declaração é relevante pela carga emocional e política que contém. É uma advertência aos que o podem desafiar, de herdeiros a conspiradores. Pela sua firmeza, há que elogiar Passos Coelho.»

15.8.17

Quando os animais ainda falavam


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Inevitável



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Dica (609)




«What we must keep in mind is that Charlottesville is a symptom and we must deal with the cause: hate, bias and racism have been empowered and taken from the margins into the mainstream. Now we must come to terms with the fact that the president of the United States has played a role in emboldening these hate groups to come out of the shadows.» 
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Segurança a cheirar a esturro




«Na validação de 2014, por oposição da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), que desta vez não foi ouvida, tinha ficado excluída a "recolha e gravação" de som neste equipamento. O MAI remete para a lei em vigor e tem o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). Garante, no entanto, que no Bairro Alto, apesar de a PSP estar autorizada, as câmaras de vídeo em funcionamento não estão a captar ou a gravar os sons. A decisão para escutar as conversas nas ruas cabe à força de segurança e é validada pela tutela, não havendo intervenção judicial (do Ministério Público ou do tribunal) prévia como é exigido no Código de Processo Penal para as interceções telefónicas, incluindo as escutas ambientais. (…)

A CNPD não quis comentar a posição do governo nem da PGR, remetendo para os seus pareceres publicados anteriormente. No Bairro Alto, a CNPD considera que, dada a estrutura das ruas e o local onde estão fixadas as câmaras, é grande a hipóteses de se captarem conversas no interior de habitações e questiona mesmo a gravação de sons num espaço público de diversão sem a fundamentação do "perigo concreto" exigido por lei.» 
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Uma data, mil efemérides



É um mar de acontecimentos que teve lugar em 15 de Agosto, desde o (hipotético) primeiro contacto entre europeus e chineses quando sete barcos portugueses chegaram ao delta do Rio das Pérolas à abertura do festival de Woodstock, passando pela independência da Índia, a fundação da ordem dos jesuítas, a inauguração do canal do Panamá e a separação das duas Coreias.

Quem quiser que festeje o que quiser, sem esquecer também que foi nesta data que morreu René Magritte e que assassinaram Macbeth, rei da Escócia. Quanto a nascimentos também não estamos nada mal já que vieram a este mundo, em 15 de Agosto, o nosso queridíssimo Santo António, Napoleão e, num registo mais modesto, Sylvie Vartan e o inesquecível António Silva. E é ele que recordo porque numa comédia vivemos nós e esta vida são dois dias...



Mas temos feriado porque se festeja a assunção de Nossa Senhora que correria hoje o perigo de chocar com uma vaca voadora ou de ser abalroada por um drone não identificado.
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14.8.17

Make America Great Again?


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Verão de 1967 – A caminho de S. Francisco



Sucedem-se os textos sobre o Verão de 1967, agora que completa 50 anos um marco na vida de toda uma geração que o viveu «na hora» e, por tabela, na de outras que foram herdando farrapos. Foi uma magnífica silly season, mesmo que a expressão ainda não fosse usada, com S. Francisco no centro do mundo e flower power como insígnia de muitas utopias.

O Negócios de hoje inclui um longo texto sobre o tema e utilizarei uma parte do mesmo.

«São Francisco, no Verão de 1967, foi o centro de uma revolução cultural, musical e social, o delicado ponto de equilíbrio que prometia mudar a História. E que, até certo ponto, mudou.»

«Foi o ponto alto da cultura hippie, mas as raízes do movimento estavam muitos anos antes, nos heróis literários da contracultura que ficaram conhecidos como a geração Beat. Desde os anos 40 que Jack Kerouac e os seus comparsas perseguiam uma forma diferente de vida, de viagens à boleia, de música e de libertação dos espartilhos dos costumes da sua geração.»

«O movimento hippie ganha embalagem a partir do final de 1965 e em todo o ano de 1966, numa altura em que o LSD já tinha deixado de ser um passatempo de intelectuais e chegara às ruas. A sua junção com a música rock consolida-se. (…) A imprensa nacional toma bem nota do fenómeno, e todo o país fica a conhecer o universo libertário de São Francisco. Resultado: enquanto os pais lêem horrorizados as notícias, os filhos só pensam em juntar-se à rebelião hippie.

Depois de uma invasão de umas dezenas de milhares de jovens em 1966, com o eco da imprensa, tudo ia subir de dimensão, tendo como lema o oportuno hino "San Francisco (Be sure to wear flowers in your hair)", editado em Maio de 1967. A canção foi um grande sucesso e serviu de convite para o Verão que se seguia.»

«Do outro lado do Atlântico, a cultura hippie também se fazia sentir, fruto do intenso intercâmbio musical entre a Inglaterra e os EUA. Acima de todos estavam, naturalmente, os Beatles. É de 1967 o histórico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", álbum conceptual editado em Maio que deixou os músicos rock de todo o mundo a coçar a cabeça e a pensar como seria possível fazer algo tão criativo e ao mesmo tempo acessível (Brian Wilson, dos Beach Boys, foi apenas um deles). Esse disco foi a face mais visível, mas há mais exemplos no Reino Unido. Donovan marcou pontos com o seu "Mellow Yellow", os Moody Blues deram um passo em frente com "Days of Future Passed", e os Cream atacaram com "Disraeli Gears", depois de Jimi Hendrix ter aterrado em Londres e tirado o ceptro a todos os grandes guitarristas locais, de Eric Clapton a Pete Townshend, dos The Who. Num caminho mais próprio houve ainda a estreia em disco dos Pink Floyd, com o psicadelismo tipicamente britânico de "The Piper at the Gates of Dawn".»

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E em Portugal? Também o vivemos, sim, e com um enorme entusiasmo, apesar do cinzentismo salazarista e de todo o atraso. «Vivemos»? Uma minoria urbana, obviamente, mas que viu em tudo o que estava a acontecer uma enorme razão de esperança e de alegria e que cantava e dançava «If you are going to San Francisco» como se estivesse a caminho. E, de certo modo, estava mesmo.


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Dica (608)



A casa dos nazis (Fernanda Câncio) 

«"Nazis go home, there's no place for you here" (Nazis, vão para casa, não há lugar para vocês aqui), disse, no discurso de reação aos acontecimentos, o governador da Virgínia, o democrata Terry McAuliffe.
É onde, "aqui"? Charlottesville? A Virgínia? Mas a Virgínia é na América. Aqueles nazis são americanos - e como o reivindicam. Acham-se mesmo os únicos americanos de pleno direito, os donos da América. E que a Casa Branca é deles.» 
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Racistas unidos



«É possível que Donald Trump não seja racista mas é improvável. Ele certamente conta com os votos de racistas. Nos Estados Unidos da América essas contas estão sempre a ser feitas e a política americana não se compreende sem falar de racismo.

É estranho que Trump não se importe de passar por racista. Mais estranho ainda é que ele se recuse a denunciar os nazis. Denunciar os nazis não prova que não se é racista. Apenas prova que se é contra os nazis. Estes podem chamar-se alt right ou suprematistas brancos ou neo-nazis.

Mas o que é que têm de neo? Nada. São nazis e os nazis são sempre, por definição, racistas. Aliás a ideologia do nazismo é notoriamente pobre por ser, para todos os efeitos, 100 por cento racismo.

Sabe-se o que aconteceu com o nazismo. Matou muitos milhões. É por isso que é preciso denunciá-lo, para não encorajá-lo. O racismo é sempre perigosíssimo porque simplifica todo o pensamento. É uma preguiça altamente contagiosa. É o contrário de avaliar cada ideia e cada pessoa uma a uma, conforme os casos e conforme as alturas, os comportamentos e as informações disponíveis.

Se calhar Trump, como pato bravo que é, só vê números. Os números dele dependem de pessoas racistas de raça branca, desde os paternalistas aos nazis, passando por todas as graduações e por todas as subtilezas que o racismo tem. Quanto menos óbvio o racismo mais ele tem de ser pensado.

É banal tentar esconder o racismo através da denúncia dos nazis, os mais racistas de todos. Nem isso Trump fez.»

Com dedicatória



… a um sujeito qualquer que ontem discursou no Pontal. 
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13.8.17

Violência? Que violência?



Whose Violence?

«In the US and around the world today, political violence is the hallmark of the Right, not the Left.»
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