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31.1.17

A luz eléctrica de Trump



«Benjamin Harrison foi o primeiro Presidente americano que teve luz eléctrica na Casa Branca. Estávamos em 1891. Mas a inovação não mudou os hábitos do casal presidencial.

Tanto Harrison como a sua mulher, Caroline, tinham tanto medo de serem electrocutados que nunca foram capazes de tocar num interruptor. Donald Trump gosta de tocar em todos os interruptores como um menino rabino. Mesmo aqueles em que a sensatez mostra que podem causar um curto-circuito. Continuará a fazê-lo até que os republicanos garantam o que efectivamente lhes interessa alterar dos anos de Obama. Depois se verá. A obsessão proteccionista de Trump, feita de forma populista para seduzir os descrentes que nele votaram, é uma descarga eléctrica. O mundo precisava, é certo, de se agitar face a esta globalização que estilhaçou universos saudáveis. Mas Trump é um pistoleiro à solta. A construção do muro com o México, que seria pago com uma taxa de 20% sobre as importações mexicanas, acabaria assim por ser paga pelos contribuintes americanos. (…)

Com a Europa, Trump julga estar num casino de Las Vegas: a ameaça de um acordo comercial com o Reino Unido é apenas a face visível de uma política americana de há muito. Os EUA, depois de terem favorecido a integração europeia no pós-guerra, sempre utilizaram o Reino Unido para a estilhaçar. Quando Londres não integrou o euro, a moeda europeia perdeu a possibilidade de ser uma moeda onde o petróleo era cotado (a libra e o dólar continuaram a ser determinantes no preço do petróleo do Mar do Norte). Daí que Trump seja tão perigoso para a ideia de Europa unida. Ele talvez julgue que, no meio das ruínas à sua volta, os EUA voltem a ser a única superpotência. Mas é aí que Trump (e os seus ideólogos) estão enganados. Há interruptores que causam choques mortais em quem os toca.»