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26.1.17

O mundo aos quadradinhos



«O Donald da minha infância era um pato de ideias simples, sem inquietações existenciais, sem utopias nem complexos visíveis.

Era o herdeiro não declarado de um velho rico e avarento, o Tio Patinhas, o namorado sem ponta de libido de uma engraçada e esperta Margarida, o companheiro de um simplório Pateta, o primo de um aventureiro sortudo chamado Gastão e o tio de uns patinhos bem-comportados, escuteiros de manual e promotores do bem - o Huguinho, o Zezinho e o Luizinho. A América de hoje está de regresso à América de Walt Disney. Os leitores de Tintim já o perceberam, os de Corto Maltese ainda não.

Walt Disney não desdenharia de uma personagem como Trump para o seu rol de cromos. Para o bem e para o mal, o novo Presidente dos Estados Unidos não é homem de discursos redondos, literariamente bem construídos, repletos de intenções universalistas. (…) Habituemo-nos, pois, ao estilo e às concepções simplistas do novo inquilino da Casa Branca. (…)

Certo é que a pulsão proteccionista recrudescerá e que os grandes beneficiários da deslocalização industrial das últimas décadas, quer no continente americano quer no asiático, se poderão ver em maus lençóis. Paradoxalmente, a China poderá sair beneficiada por esta política. O Império do Meio é o principal tomador de dívida norte-americana, detém o maior PIB industrial do mundo e um mercado interno avassalador. Além disso, é uma potência nuclear e exerce uma influência decisiva em todo o Oriente. Falhando o TAT, os chineses irão promover a Parceria Abrangente Económica Regional (RCEP, na sigla em inglês), que exclui os Estados Unidos e cria uma área de livre comércio de 16 países, incluindo a Índia, sem as restrições laborais e ambientalistas do TAT. Será o maior bloco comercial do planeta, abrangendo cerca de 3.500 milhões de pessoas.

De permeio, estarão a Rússia e a Europa, com as quais Trump ainda não sabe muito bem o que fazer. Aparentemente, não se importará de ver a Rússia alargar o seu espaço de influência no Médio Oriente, na Ásia Central e mesmo na Europa de Leste, porque isso cola com o seu objectivo de reduzir a presença (e os gastos) dos Estados Unidos na NATO. Quanto à União Europeia, quer vê-la aos quadradinhos, porque é essa a sua leitura preferida.»

Luis Nazaré
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