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29.1.17

Uma coisa é criticar a imprensa outra é contestar o seu direito




«O curso das coisas com a Presidência Trump nos EUA é particularmente perigoso, porque revela uma crescente tendência autoritária. O modo como Trump se comporta é o de detentor da verdade, sabendo que está a mentir, mas impondo-se com o poder ou pura e simplesmente relativizando tudo, de modo que os "factos" soçobram para "opiniões". As opiniões podem coexistir e à cabeça são iguais face ao mercado da influência. Enfim, não é bem assim, mas podemos, para já, não ir mais longe. Mas os factos não são moles, são duros. (…)

Trump pode ter muitas razões de queixa da comunicação social, muitas aliás justas, mas atravessou toda a campanha eleitoral e agora os primeiros dias da Presidência a mentir sem qualquer pudor. Depois de ter chamado "nazis" aos serviços de informação, vem agora dizer que ninguém mais do que ele os estima. Faz o mesmo que já fez aquando das célebres declarações sobre o modo como "segurava" as mulheres, tendo no dia seguinte dito que "ninguém mais do que ele respeitava as mulheres". Vamos ver disto todos os dias e isto levanta um enorme problema para todas as pessoas, a começar por aquelas que têm que lidar com ele, chefes de Estado estrangeiros por exemplo.

Quanto aos jornalistas confrontados com esta imposição de mentiras flagrantes, "factos alternativos", começaram a fazer aquilo que deveriam ter feito durante a campanha: a titular as declarações de Trump com adjectivos como "falsas". Por exemplo, no New York Times: "Trump falsely hits media…", ou o Washington Post "Spicer [o porta-voz] makes easily disproved claims…". Claro que, como a guerra é com eles, os jornais e as cadeias de televisão aprenderam a lição de que nenhuma complacência pode haver com este comportamento, porque é o equivalente a uma forma de violência, de bullying. (…)

O que ele está a pôr em causa é que possa haver um espaço público democrático, onde se confrontam todas as opiniões, mas onde não se confrontam os "factos" com "factos alternativos", ou seja mentiras, como se tivessem o mesmo estatuto.»