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13.2.17

A CGD e o cheiro do dinheiro



«O cheiro de uma nota de dólar, já se sabia, muda consoante o tempo que está em circulação. Ou, se quisermos usar uma expressão que tem mais que ver com a arte dos aromas, evolui.

Há algumas semanas o Wall Street Journal contava-nos a fantástica história de um artista que tinha encomendado a síntese do cheiro do dinheiro. O que era um lapso no catálogo das grandes companhias de perfumes do mundo, que têm guardadas as sínteses mais de 10 mil matérias que produzem aromas. Foi um escândalo: a síntese do aroma de um dólar não estava inventariada. Descobriu-se que afinal uma nota de dólar tem mais de 100 ingredientes. Um deles é o de um aroma hegemónico no Chanel n.º5, o mais conhecido perfume do mundo. O aroma da telenovela da CGD assemelha-se cada vez mais ao de um dólar americano após o uso: evolui. E nada garante que o seu aroma destes dias seja tão sensual como o do Chanel n.º5.

A propalada "mentira" de Mário Centeno é a gota de água neste oceano de dislates que se foram seguindo ao longo do tempo. Não vai ser relevante porque António Costa, neste momento em que as dívidas da Grécia e da Itália estão sob pressão nos mercados, e estão a ficar presos numa armadilha temível que poderá levar ao Grexit, não vai deixar cair Centeno. Mesmo sendo o ministro um doutorado em inabilidade política ele fala, fora de portas, a linguagem que os mercados e os técnicos cinzentos percebem. Deixar cair Centeno seria um terramoto político para Costa. E um desastre para Portugal. Por isso Costa não cederá à oposição. Mas outras questões crescem na sombra de Centeno e mostram a forma como o Estado português está prisioneiro de interesses pessoais. Não é normal que um Governo tenha aceitado abdicar dos poderes do Estado democrático permitindo que um gestor (com o auxílio de uma sociedade de advogados) pudesse ousar mudar uma lei da República para se encontrar uma solução à vontade do freguês. É aqui que está o cerne da questão. E, neste caso, o aroma do caso CGD evoluiu de forma vergonhosa.»