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26.3.17

Rua com eles



«Depois da Holanda, temos eleições importantes na Bulgária, na França, na Alemanha e na República Checa, o pedido de saída do Reino Unido, efeitos simétricos dos resgates na Grécia e na Irlanda, manifestações na Roménia e inversões democráticas na Hungria e na Polónia, momentos independentistas em Espanha e incompatibilidades regionais acesas na Bélgica, perceções graves de insegurança no Báltico, instabilidade crónica em Itália, lados sombrios na Dinamarca e na Suécia, interesses pouco mediáticos em Malta, no Luxemburgo ou na Eslováquia, a Croácia e a Eslovénia a fugirem da tremedeira balcânica e o Chipre dividido enquanto vê a Turquia afastar-se fatalmente de Bruxelas. Mas não terá sido sempre em volta de constantes dúvidas existenciais que os europeus se foram integrando, numa cadência natural de ritmos nacionais e de alinhamentos forçados também pelo exterior? O nosso pior defeito tem sido o umbiguismo inebriante, perigoso etnocentrismo militante que nos tira perspectiva, relevância e influência. (…) É por isto que a história dos últimos 60 anos não pode ser reduzida a uns lirismos romantizados sobre o "projeto europeu", o "sonho dos pais fundadores" ou "solidariedade europeia". Foi muito mais cru, sujo e político do que isso. (…)

Feita de altos e baixos, avanços e recuos, a integração europeia não pode ser vendida como uma ilha de fantasia, um oásis funcionalista, um projeto identitário reservado, uma "potência normativa" exemplar. Ou mesmo uma criação "pós-moderna", a qual tem invariavelmente esbarrado na inadaptação a um mundo que permanece moderno, perigoso e agressivamente concorrencial. O umbiguismo e a soberba europeias têm cegado os decisores, esvaziado a natureza política e até tática da integração e respondido mal às angústias de quem cá está ou de quem quer para cá vir. Porque as crises internas e os eventos exteriores são o sangue que corre nas veias da Europa, o que precisamos é de políticos corajosos com senso e perspetiva histórica, não de proclamadores asséticos com horário de trabalho. Por isso, rua com eles e viva a Europa.»  

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