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22.4.17

A Europa testa os seus limites



«A sociedade francesa polarizou-se e radicalizou-se. E esta eleição, onde se discute sobretudo identidade e segurança, acontece no momento em que Theresa May, do outro lado da Mancha, faz a sua jogada de mestre para enfrentar a União Europeia e destroçar a oposição (trabalhista e interna, dentro dos próprios conservadores). (…)

Nesse aspecto a UE está mais frágil: não consegue reforçar-se politicamente de uma forma tão clara. As próximas eleições em França, na Alemanha e na Itália ilustram a sua debilidade. (…) A Europa está fracturada e volta a dividir-se ao meio, como aconteceu há um século. O sucesso de Le Pen e Mélenchon em França não é estranho: é o reflexo de sociedades onde se tem destruído o factor de estabilidade, a classe média, em nome da necessidade de austeridade cega. Une-os uma crença: o valor do trabalho deixou de existir e grande parte dos cidadãos olha, revoltada, contra uma elite de privilégios. (…)

Com um Fillon sem grande força, resta à elite e aos sectores menos radicalizados apostarem todas as fichas em Macron, o candidato que diz que é como De Gaulle: não é de direita, nem de esquerda, nem sequer do centro. É uma mistura de tudo isso. Ou seja, ele é o reflexo cosmopolita desse universo não ideológico em que só contam os resultados. Pode ser tudo e não ser nada. Mas é isso que leva a que seja confiável pelos sectores que mais têm a perder em caso de radicalização. (…)

O que é curioso é que três dos candidatos em França (Macron, Le Pen e Mélenchon) falam da necessidade de uma "revolução". Não uma nova Revolução Francesa, como a de 1789, mas à medida dos nossos dias. Sobre isso Macron é o menos convincente, mas seja qual for o resultado, dificilmente França voltará a ser a mesma.»

Fernando Sobral

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