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18.4.17

O futebol é tudo?



«No futebol, não há muitas contemplações: ou existe o êxito ou há apenas lugar para o drama. Os últimos dias, nesse aspecto, foram sofríveis peças de teatro coreografadas e interpretadas dentro dos melhores princípios da comédia portuguesa.

Provou-se também que o futebol indígena é uma versão gastronómica da célebre "fast food": não se desfruta, não se digere, não se saboreia com prazer. Tudo tem um sabor amargo, que qualquer pessoa com bom senso quer esquecer rapidamente. Parece que já ninguém tem prazer em ver futebol. Tal como os sistemas de jogo se tornaram conservadores e há cada vez menos espaço dentro de campo para os artistas, porque se preferem jogadores que são robôs, também o discurso dos dirigentes parece ser uma bebida energética. Não se discute futebol: os dirigentes reciclam discursos radicais de ódio. Não há indústria que resista a isso: os nossos dirigentes desejam tribos que se guerreiam porque acham que o futebol é a mãe de todas as virtudes.

Não é um mal português: basta olhar para o que se passou nos últimos dias em França, onde também o radicalismo que se sente na sociedade saltou para os relvados. (…) A balcanização do futebol português, num debate de galos a três, e onde a televisão tem a maior parte da culpa, está a destruir a indústria. E parece que ninguém quer perceber isso, no seu afã de protagonismo pacóvio. O futebol precisa de mais jogadas de génio como as de Isco, do Real Madrid, e menos declarações idiotas de dirigentes. O futebol português já nem é "fast food". É apenas uma tragédia alimentar anunciada.»

Fernando Sobral

2 comments:

Rui Silva disse...

Parece-me uma abordagem interessante, se aplicada ao futebol-negócio dos três clubes monopolistas. Fora deles há outras posturas, outra capacidade de interpretar rivalidades de forma saudável (ainda que também existam rivalidades animalescas fora do circuito fechado dos chamados "três grandes"). Os clubes desportivos são expressões muito relevantes do associativismo popular, frequentemente com forte ligação às classes trabalhadoras, que deles se foram apropriando. É nesse contexto que surgem mecanismos de expulsão das pessoas comuns da gestão dos clubes. Mecanismos como as SADs, por exemplo. Creio que a generalização é quase sempre má conselheira, e neste caso - no caso do artigo citado - é.

Joana Lopes disse...

O Canelas é um dos grandes clubes?