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13.4.17

Os desafios do futuro próximo



«Hipnotizados pelos disparates do senhor Dijsselbloem, Portugal dispensa muitas vezes olhar à volta e discutir o que verdadeiramente importa. (…)

É um tema [sair ou não do euro] para pensar em Portugal. Especialmente quando parece evidente que muita da solução passa por repensar a dívida externa e reestruturá-la. Mesmo que isso seja ruído que doa a muitos ouvidos. Sobre a Grécia já se percebeu que, com a continuação de "reformas" destas o custo social da austeridade vai destruir o país de vez. Os credores salvaram os seus bancos (a começar pela Alemanha e França, que emprestaram para que os seus bancos recebessem os seus créditos) e, eventualmente, os seus contribuintes. Mas já se percebeu que sem alívio da dívida este é um caminho sem fim: empréstimos quando o doente está quase sem oxigénio e, depois, volta-se ao mesmo. Não há futuro. Portugal, não estando na situação da Grécia, tem problemas. Que são visíveis: para se baixar o défice a níveis de conforto dos credores, tem de se cortar no investimento (é divertido ouvir agora a oposição pedir mais investimento público, ou seja aquele que cortou nos anos da troika, e que acha que ideologicamente é dispensável). Os desafios estão à nossa frente.

Até porque eles fazem parte de um quadro mais complexo que tem a ver com a digitalização crescente e as mudanças climáticas, que vão impor grandes alterações no mundo. Ou seja, eles vão impor a criação de um novo modelo económico onde terá de ser garantido um mínimo de rendimento para que o fim do trabalho (substituído por máquinas a curto prazo) não provoque um colapso total da sociedade. Mas, sobre isso, não se fala em Portugal. Num futuro próximo todos seremos menos ricos e teremos de refrear o consumo. Mas isso ninguém quer ouvir. Nem mesmo neste jardim à beira-mar especado.»

Fernando Sobral

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