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7.5.17

Nuno Brederode – a última crónica



No texto que publicou na Revista do Expresso de ontem (06.05.2017), José Pedro Castanheira confirmou o que eu pensava, embora sem certeza: a última crónica do Nuno no Diário de Notícias data de 10 de Maio de 2009. Ainda a encontrei nos meus registos e aqui fica (nos do DN, desapareceu…) 
Uma semana mais tarde, perguntei-lhe: «Escreveste? About???», mas o meu mail ficou sem resposta.

As convicções no baloiço 

Ao avançarmos na vertigem pré-eleitoral, acentuam-se as confusões de ideias e as habilidades verbais, os truques para os media verem, as tentações populistas, a manipulação da rua, os ataques pessoais e as excepcionalidades administrativas de curtíssimo prazo. Mantenho que nada disto seria importante se às crianças de hoje só viesse a chegar, como no futebol, o resultado histórico final. Mas como é muito duvidoso que o resultado final seja assim tão histórico, o mais certo é que, na pedra, só fique gravado o anedotário e aquela atitude impensada ou a palavrinha traiçoeira que, no calor de um debate ou no destempero de uma pose para a televisão, o actor político (ou económico ou social) deixa escapar para a eternidade possível. Como o - esse sim, histórico – voo sem rede de um deputado que se preocupava com relações sexuais sem intuitos de procriação e que Natália Correia estatelou a tiros tribunícios, com o famoso e poético “truca-truca”.

Os últimos dias trouxeram disto exemplos vários. Como, de resto, sempre trazem. Eu pego neste. Porque gosto.

Todos os partidos – numa unanimidade que um voto contra, uma abstenção e (creio que) três declarações de voto, por muito que honrem, não desmentem – votaram a nova versão da lei sobre o seu financiamento. Dos mais temperados pelo exercício do poder aos mais remetidos ao apostolado moralista por insuficiência de votos. Por boas e más razões, todos eles despertaram com isso hostilidades e dúvidas, não sei se generalizadas, mas, pelo menos, excessivas. Pela parte que me toca, mantenho as reservas que manifestei aquando da primeira versão: mesmo que não fosse a altura de acentuar a componente pública sobre a privada nesse financiamento, não se deveria ter aberto a porta a um retrocesso. E haverá retrocesso desde que, como é inteiramente previsível, for impossível uma fiscalização convincente e eficaz. Mas a minha posição é inteiramente irrelevante para o caso. Ao contrário do que parece ser um recuo do PSD. Dias depois da votação, ainda tão fresca – e após Paulo Rangel ter dado a cara pela decisão do parlamento e do seu partido – já Manuela Ferreira Leite recuava na colagem que fez às palavras de Cavaco e sugeria que o PSD pode mudar de posição (se vierem a surgir “efeitos perversos”, é claro). A gente sabe que toda a legislação é testada através da sua aplicação (que é o seu cotejo com o real). Mas sabe também que isso abre para a possibilidade de tal avaliação ser feita após as eleições que se perfilam, remetendo assim a apreciação final para depois delas. Por outro lado, sublinhá-lo em cima da decisão e aos primeiros embates com a hostilidade e a descrença só contribui para a insegurança do direito, o que não honra quem tanto diz preocupar-se com a ineficácia do nosso sistema de justiça. O “vamos a ver se a lei pega”, que os brasileiros reivindicam para si, é um dos maiores contributos para que a justiça não funcione. Mas a lógica eleiçoeira e populista de, em período eleitoral, tergiversar ao sopro das vozes inorgânicas é isso e mais qualquer coisa de pior. Além de que se baseia num preconceito infantilizador do eleitorado que ainda não deu grandes provas. (Declaração de interesses: cá por mim, ainda bem. Em coincidência, se não de alma, pelo menos de circunstância, com Rui Rio e Marques Mendes, mais uma listagem onomástica que não tenho aqui à mão).

O que vale é que o cidadão eleitor já sabe. Destas e de tantas outras tropelias da razão e da vontade. E julgo que já escolhe o que mais lhe apraz para a quadra festiva que aí vem. Pode sofrer e arrancar os cabelos agarrado à televisão. Pode ser displicente e aliviar a paixão e a atenção na leitura diária dos jornais. E pode preferir recolher a um “bunker” da consciência, ajustando o despertador para as 17 horas do dia sete de Junho. Aí, levanta-se, lava-se, sai de casa e vai votar. Como responsavelmente lho mandarem a convicção, a experiência, os interesses e a livre vontade. Porque é exactamente a essa hora que ninguém pode impedi-lo de ser o dono do mundo. Do mundo que mais lhe importa, pelo menos. 
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