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3.5.17

Verdade e pensamento mágico



«Os tempos de crise rompem os véus de ilusão. Debaixo do que julgaríamos ser a normalidade, esconde-se, de modo cada vez mais nítido, um absurdo lentamente amadurecido e longamente escondido. Ao escutar o discurso de Trump no seu 100.º dia na Casa Branca é impossível não perceber como - não apenas nos EUA, mas a uma escala mais geral - a mediocridade do desempenho dos protagonistas políticos atingiu um tal grau de entropia e grotesco que o perigo de eclosão de uma grande tragédia parece cada vez mais próximo. (…) Nos últimos dois séculos, o processo de tomada de decisão em política esteve longe de corresponder à complexidade crescente registada na esfera do trabalho em sentido amplo. No plano do trabalho, desenvolveram-se verdadeiros códigos de exigência e fina seletividade (…) Na esfera da política, pelo contrário, as qualidades que definem muitos dos mais marcantes líderes do século XX (Mussolini, Hitler ou Estaline) poderiam ser partilhadas por qualquer chefe de malfeitores, como Al Capone. As decisões políticas têm sido, por demasiadas vezes, um obstáculo à criatividade e imaginação que atravessam a maioria das áreas dominadas pela disciplina do trabalho nas sociedades contemporâneas.

O mais ameaçador problema da política contemporânea é a sua recusa da verdade. A verdade, como uma doença grave, é algo que se "suporta" e tem de ser aceite e compreendida, até como condição suficiente para ser superada. A verdade dói, pois contraria as nossas conveniências e o nosso hedonismo. (…) Trump e a vaga populista são apenas o acentuar de tendências muito anteriores, que a crise económica mundial fez acelerar. É penoso constatar como foi possível à mais sólida e constitucional democracia do mundo eleger um mentiroso compulsivo que pensa, por exemplo, poder calar as leis da física e varrer as alterações climáticas cortando o orçamento de ciência e destruindo a agência federal de proteção do ambiente (EPA)! Mas não é menos confrangedor verificar que na União Europeia, mesmo depois de quase dez anos de confirmação de que as estruturas que suportam o euro são insustentáveis e insuficientes, o debate parece estar dividido entre duas formas de pensamento mágico: os que subestimam os custos de uma rutura violenta do euro e aqueles que parecem acreditar que esta agonia lenta poderá continuar como está sem o castigo de consequências devastadoras. Enquanto as nossas democracias não aprenderem a eliminar o aventureirismo político com o mesmo vigor com que combatem a fraude científica, estaremos sempre a um passo do abismo.»

1 comments:

susskind disse...

Ver aqui um artigo interessante (disponível em francês e em inglês) de Bruno Latour incluído no livro "L'Âge de la Regression":

http://www.bruno-latour.fr/fr/node/722