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17.6.17

Os últimos dias da humanidade?



«Custa-me dizer-lhe isto tão à bruta: a Agência do Medicamento é questão de somenos e provavelmente rumará a outras paragens. Mas o que resta desta questão é o retrato de uma caça egoísta aos “despojos” britânicos, como gentilmente escreve um entusiasta europeu, com os governos a promoverem descontos fiscais e mordomias para seduzirem os chefes nómadas, o que diz muito sobre a malandrice numa União que vive disto. Em Portugal, também tudo trivial: é assunto para as eleições autárquicas. Ora, esta banalidade é inócua, será o menos que nos ameaça. É assim e vai continuar a ser assim, a genética europeia manda.

A questão que então me importa é outra: por que é que nos embriagamos com estes casos (ou com os mails e as zangas do futebol, sem dúvida ainda mais apaixonantes)? A resposta talvez seja que é assim que se forma o senso comum, o mais poderoso instrumento de poder dos nossos dias, ou que esta é a dominação mais forte, por se reproduzir consensualmente. É eficaz: não gera conflito, o cidadão é um espectador. É universal: não requer presença, aceita a representação etérea da decisão. O senso comum é portanto uma exterioridade que nos invade sem se ver.

“George Steiner em The New Yorker” (Relógio d’Água, 2017) é um livro fascinante que selecciona alguns dos artigos de Steiner, judeu franco-americano, crítico literário e ensaísta. No seu labirinto de temas, há um que porventura interessará aos meus leitores de hoje e que responde precisamente a este sentimento de banalização como gramática do quotidiano. Lembra ele o trabalho de Karl Kraus, austríaco, dramaturgo, que interpretava Shakespeare a solo, promoveu centenas de récitas que fascinavam os ouvintes e que, com a sua peça “Os Últimos Dias da Humanidade” (esteve recentemente em representação em Lisboa e Porto, pelo Teatro de S. João), descreveu, numa possessão de lucidez, termo de Steiner, a vulgaridade, a ostentação, os discursos do Estado Maior, do governo ou da imprensa para justificarem a Primeira Guerra, ou o mapa das palavras em que se tecia a ordem burguesa que anunciou a catástrofe – e ela veio mesmo.



Só que Kraus se enganou, não foram os últimos dias, nem seriam depois com Hitler (numa trágica ambiguidade, Kraus respondeu a Hitler com o silêncio, e morreu em 1936 sem ver o que estava a chegar). Houve o apocalipse e a meia-noite no século, houve o Gulag e a guerra do Vietname, houve napalm em Angola e tortura na Argélia, houve as Torres Gémeas e bombas de fósforo em Falluja, há a vala comum do Mediterrâneo, mas ainda cá andamos. Ou seja, o terror banalizou-se também, são dias como outros quaisquer.

Lembra então Steiner: “1984” esteve para se chamar “O Último Homem da Europa”, mas Orwell preferiu por no título uma data sem significado. O livro tornou-se assim um sucesso, narrando precisamente a banalização do poder sob a novilíngua, a sua voz do senso comum. Mas é assim, insiste Steiner, que a Europa se descobriu sempre: antes de “1984”, “As Viagens de Gulliver”, de Swift, que desembarca num Estado de bufos, ou Kafka, com a alucinação dos campos em que a sua Milena e as suas irmãs morreriam, ou Huxley com o “Admirável Mundo Novo”, ou Zamiatine com “Nós”, ou London com “O Tacão de Ferro”, todos descrevem esse mosaico de vozes de poder que domestica a cultura de massas. Ou seja, gritam contra uma época crepuscular que é engendrada pela banalização.

A literatura europeia sobre a Europa do século XX tem esta marca: o seu tom é a tragédia, descobrimos com ela que o pior não é vivermos os últimos dias, que não o são, mas antes sabermos que a humanidade está submetida a uma transcendência – a banalidade. Talvez por isso, a crítica ficou sempre à margem, o que tem consequência política, pois ela trata de um mundo que não se reconhece.»

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