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1.8.17

A época tola



«Lá vamos entrar mais uma vez na silly season, a época tola, ou melhor a época mais tola na sequência de muitas outras épocas tolas. E o melhor da época tola é a parte que não esconde o que é: o Quim Barreiros, a Rosinha, a Ruth Marlene, e os múltiplos clones de cada um deles. Aquilo ainda é Portugal, a manha camponesa, a lascívia rural e do subúrbio, a grosseria e o plebeísmo, a graça do trocadilho fácil, a juventude da cerveja, uma certa boçalidade e brutalidade, aquilo ainda é nosso, porque Portugal ainda é muito assim. Isso suporta-se razoavelmente e o título destas crónicas veio da habitual reciclagem anual na música pimba, com o refrão de "quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré". Pode merecer uma reflexão sobre o que ainda somos, nós e muitos outros europeus que vêm para o Algarve, ou Torremolinos, mas não merece desdém.

Mas o que é insuportável é a silly season comunicacional, feita da mais completa falta de imaginação, os mesmos inquéritos, as mesmas imagens das praias, a procura dos famosos em fato-de-banho, as equipas cor-de-rosa atrás dos amores de Verão, "assumidos" e não "assumidos", a moda da comida e dos restaurantes, o reino das fotos no Instagram e no Facebook , as opiniões e os comentários raivosos que nunca vão para férias parecem explodir de intensidade no Verão. Pensam que descansam? Engano, a época tola faz imenso mal à cabeça e a cabeça nos mamíferos superiores ainda manda um pouco no corpo. Um pouco, no Verão menos.

Sem futebol, o espaço que é preciso encher nas televisões é um drama. Sem parlamento e com os políticos a banhos, não há política, as fontes estão a secar ao sol. Sem tragédias, espera-se, o exercício da masturbação da dor, a que se entrega ardorosamente a comunicação social até ao espasmo final, fica penoso.

A estação tola tem pelo menos um mérito, que é mostrar a vacuidade que existe todo o ano e que fica disfarçada.»

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