Páginas

18.3.17

Dica (507)




«This White Book says more about the crisis the Commission is going through than it does about the crisis the EU finds itself in. Despite the Juncker Commission continuing to present itself as the parliamentary government of the EU, it is in reality an institutional hybrid: a nature at the root of its confusion.» 
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Um país, uma imagem (3)



Birmânia 2009. E eu utilizei os serviços deste táxi…
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António Lobo Antunes



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A "crispação" e os "patriotas"


«Diz Jaime Nogueira Pinto que há em Portugal "uma certa crispação" (Observador, 6.3.2017). É verdade, eu também já o tinha notado. Passada mais de uma semana sobre o que foi descrito como outro episódio de "censura" perpetrado pela "extrema-esquerda" - por "maoistas", assim lhes chamou Pinto -, era bom percebermos por que tanta gente, de forma tão obviamente precipitada (para não lhe chamar outra coisa), quis ver "PREC" no legitimíssimo desagrado com que estudantes da FCSH da Nova de Lisboa viram a convocação na sua faculdade de uma conferência organizada pela Nova Portugalidade, uma micro-associação da extrema-direita (perdão: "grupo cultural de jovens patriotas", segundo Nogueira Pinto) que, assegura o Diretor da faculdade, Francisco Caramelo, vinha acompanhada da "exigência da presença da Polícia antes e durante a conferência".

Ao considerar o Diretor (com bem mais coragem do que o comum dos gestores universitários que há tantos anos temos) que tal exigência era "inaceitável", os "patriotas" anunciaram-lhe que "trariam dez homens, que estariam na sala durante a conferência, e que garantiriam a segurança do evento" (comunicado Diretor FCSH, 13.3.2017), o que motivou, então sim, o cancelamento da conferência. Dias depois, a Associação de Estudantes denunciou ter sido "invadida por quatro dezenas de indivíduos afetos à extrema-direita, que se identificaram como tal", "exigiram conhecer individualmente alguns dos membros" e deles tiraram fotos que apareceram "publicadas em redes sociais da extrema-direita" (comunicado AEFCSH, 11.3.2017). (…)

Nogueira Pinto, além da sua atividade empresarial no ramo da segurança, está muito mais interessado em propor leituras neoconservadoras da história portuguesa e do mundo dos nossos dias do que em se deixar confundir com o comum dos atores partidários da direita. Tem tal saída nos media privados e públicos (…) que a extrema-direita estudantil dos nossos dias, herdeira daquela que ele próprio mobilizou contra Marcelo Caetano nos últimos anos da ditadura, é a ele que convida.

Não admira que o Diretor da FCSH se queixe de "uma sucessão perturbadora de notícias que, fundadas em afirmações erróneas e até mentirosas, repetidamente reproduzidas", e de que, onde havia ameaças da extrema-direita (que não cessaram: o PNR anunciou uma concentração à porta da faculdade no próximo dia 21), tenha havido tanta gente a querer ver "PREC", "ato de censura", "intolerância", "sectarismo" e "estupidez" da "rapaziada do Bloco" (ao contrário do meu hábito de referenciar tudo quanto cito, peço escusa em nem nomear todos aqueles que soltaram estas pérolas...).

Nada disto é inocente. Ainda que os limites da viragem à esquerda no governo do nosso país sejam tão evidentes, esse mundo político e mediático que, afinal, se revê no horror com que Cavaco encarou a possibilidade de acordos do PS à esquerda quer obrigar-nos a fingir que voltámos a 1975 - um 1975 que continuam a reinventar com as mesmas armas da "pós-verdade" que muitos deles denunciam em Trump.»

Manuel Loff

17.3.17

Um país, uma imagem (2)



Guatemala 2014. Mercado de Chichicastenango.
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Dica (506)




«When centre-right politicians adopt the far-right’s language and policies, the only victory is for the hardliners. We must fight racists, not imitate them (…)

In the Netherlands, the defeat of Geert Wilders’ anti-EU, anti-immigration, anti-Islam Freedom party is a pyrrhic victory. The cost of this victory was that the country’s centre-right party appropriated the rhetoric of Wilders to beat him.» 
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Como estava escrito nas estrelas



… a China já deslocaliza para vizinhos com mão de obra mais barata, enquanto espera que cheguem robôs para os substituírem. E a europeia H&M soma e segue.


«Com um salário mensal mínimo de cerca de 63 dólares, baseado numa semana de trabalho de seis dias, o Myanmar tem uma vantagem competitiva sobre os vizinhos Vietname e Camboja, onde o salário mínimo mensal varia entre 90 e 145 dólares, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).» 
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Ok, põe-me ko



«Numa entrevista ao jornal Público, Assunção Cristas revelou pormenores surpreendentes sobre a resolução do BES e não só. Não sei por onde começar. Talvez pela frase: "o Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca". Provavelmente estavam convencidos de que a troika tratava disso. Se no estado em que estava o sistema financeiro português (BES, BANIF, CGD) no Conselho de Ministros não se falava de banca, mais valia fazerem as reuniões num elevador e falar do tempo. Imagino que nessa altura andassem mais preocupados com os aldrabões do RSI e os chupistas dos pensionistas e não tinham vagar para falar de banqueiros. (…)

Este OK cego da Assunção é uma espécie de KO do discurso de exigência que a líder do CDS/PP exibe na Assembleia. (…) Curioso que isto é mais ou menos como o Salgado fazia na gestão do BES. Para a Assunção, a Maria Luís era a DDT. (…)

Tenho dúvidas se a única atitude que podemos ter, sem conhecer os dossiês, é confiar e dizer que damos o OK. Se calhar, também podemos enrolar o páreo com motivos frutícolas, deitar fora o corneto de morango, interromper as férias e ir saber o que se estava a passar. Custa pensar que alguma das nossas desgraças podiam ter sido evitadas se a água naquele dia não estivesse tão boa. Ainda para mais, para infelicidade nossa, ao mesmo tempo que Cristas estava de férias, a máquina das finanças, do indivíduo de elevado carácter, também tinha tirado uns dias de folga. Maldito bom tempo.»

João Quadros

16.3.17

Um país, uma imagem (1)



Etiópia 2013. A caminho do Nilo Azul.
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Num jornal de referência perto de si



Público, 16.03.2017, p.25.
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Teresa Leal Coelho será candidata do PSD a Lisboa?



Se isto de concretizar, conhecidos que ficarão os candidatos à presidência da CML, ninguém deverá sentir-se obrigado ao «voto útil» em Fernando Medina. 
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Núncio costureira e Núncio patroa



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:



Na íntegra AQUI.
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Holanda: o melhor título e o melhor resumo



À esquerda, reina uma euforia mais ou menos generalizada porque o partido de Geert Wilders «só» ficou em segundo lugar e não em primeiro. Festeja-se pois mais uma vitória da direita, a pasokização de um PS, etc., etc.

Impera a bondade do mal menor. Como se, de mal menor em mal menor, não se chegasse normalmente a males maiores. É uma atitude na mesma linha dos que defendem sempre o voto útil – gente fraca, vidas tristes.

(Notícia aqui.)
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15.3.17

FSCH contra o fascismo


«Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial promovido pela ONU, 21 de março será também o dia em que antifascistas que trabalham e estudam na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa, assim como ex-alunos e alunas, se juntam para comemorar a Primavera.

Nos últimos dias a FCSH tem sido notícia na polémica levantada pelo adiamento de uma iniciativa. Independentemente dos argumentos sobre este adiamento, queremos reafirmar o compromisso com uma cultura de conhecimento crítico, de ensino plural e de liberdade de expressão que tem caracterizado a FCSH ao longo dos tempos e que, estamos certos, continuará a ser uma marca fundamental desta instituição de ensino.

Não seremos intimidados por grupos radicais de extrema-direita que aproveitam o momento para denegrir a faculdade e os seus diferentes órgãos legítimos de representação e de direção. Não podemos pactuar com o silêncio num momento em que ideologias fascistas e xenófobas se mobilizam para atacar o pluralismo e a democracia, componentes incontornáveis do ensino no nosso país.

Convidamos todas as pessoas que estudam e trabalham, ou que já estudaram e já trabalharam na FCSH a juntarem-se a nós no dia 21 de março, pelas 16h na esplanada da faculdade. Para que esta celebração da Primavera seja um momento de afirmação de que o fascismo não passará na FCSH.

Somos estudantes de todos os graus de ensino, actuais e ex-alunos, docentes, investigadores, funcionárias e funcionários da FCSH.»

(Daqui, com lista de signatários)
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Árvores neozelandesas

Mariana Mortágua pergunta

15.03.1961 – Angola, no «dia do terror»



Foi nessa data que se deu o ataque da UPA no Norte de Angola, naquele que foi considerado o primeiro acto para a libertação do país e que marcou o chamado «dia do terror». O vídeo resume bem os acontecimentos.

Foi também nesse dia que, pela primeira vez, os Estados Unidos votaram positivamente uma moção contra Portugal no Conselho de Segurança da ONU.

Nos primeiros dias de Março, o próprio Kennedy, através do embaixador em Lisboa, envolveu-se pessoalmente na questão, insistindo com Salazar para que Portugal anunciasse publicamente o princípio da autodeterminação e independência de Angola. Diz Franco Nogueira (Salazar – A resistência, Vol. V, p.211) que, no fim de uma reunião com o embaixador Elbrick, Salazar terá concluído: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muitos boas tardes, senhor embaixador.» E nada mudou na posição portuguesa, como é sabido.

Assim se chegou a 15 de Março, quando Libéria, Ceilão e República Árabe Unida apresentaram um projecto de resolução no Conselho de Segurança, que sublinhava os perigos que a situação em Angola representava para a paz e para a segurança mundiais e exigia expressamente reformas que pusessem fim ao colonialismo. Kennedy deu instruções para que os Estados Unidos votassem positivamente, juntando-se assim aos três proponentes e à URSS. Cinco votos a favor, portanto, mas seis abstenções (França, Inglaterra, China, Chile, Equador e Turquia): a resolução não obteve a maioria de votos necessária para ser aprovada, mas as relações dos Estados Unidos com o salazarismo ficaram profundamente afectadas. Quanto a Angola, esperaria mais 14 anos para ser independente.

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14.3.17

Dica (505)




«The true impact of activism may not be felt for a generation. That alone is reason to fight, rather than surrender to despair. (…) To believe it matters – well, we can’t see the future. We have the past. Which gives us patterns, models, parallels, principles and resources, and stories of heroism, brilliance, persistence, and the deep joy to be found in doing the work that matters. With those in our pockets, we can seize the possibilities and begin to make hopes into actualities.» 
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A Holanda (também) é isto


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Como eu o entendo...


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Um puto com orelhas de burro



Isto parece-se com pôr um puto com orelhas de burro à janela da sala de aula. Mas pronto: é melhor do que nada.

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A sorte de Assunção Cristas


(Alberto Frias)

«Quando um partido fica órfão do poder tem, normalmente, uma tendência: dizer que se vai renovar. Ou rever o seu programa, para provar que não ficou amarrado a ideias caducas e congelado pelo passado.

Ou, então, muda de líder para trocar as voltas à memória. O CDS, de forma inteligente, fez isto. E por isso hoje Assunção Cristas comemora, com alguma euforia, um ano à frente do partido que parecia ser a máscara de Paulo Portas. Cristas criou o seu espaço. E, não esperando que uma vidente lhe dissesse que era a sua hora, candidatou-se à Câmara de Lisboa. Fez bem. E agora colhe os dividendos, mesmo que Paulo Núncio pareça uma bola de ferro que acorrenta o partido a acontecimentos dispensáveis. Ao contrário do CDS, o PSD manteve o líder. Pior: cristalizou-se como o partido da economia e das finanças. Fora disso não há país nem mundo. As únicas vozes que se escutam no PSD são as de Passos Coelho e Maria Luís que, inevitavelmente, falam de aritmética. Como se não tivessem sido mestres na arte da subtracção de rendimentos e direitos aos portugueses. A sociedade estilhaçada que por aí existe é o seu legado. Mas, sobre isso, não emitem opinião. Nem sobre os problemas sociais, o desemprego, a cultura, a vida nas grandes cidades, o ambiente, ou qualquer outro tema.

Tudo tem uma razão. De vez em quando Passos Coelho gosta de acordar os portugueses tentando recordar-lhes que foi primeiro-ministro. Estes, estremunhados, fazem-lhe a vontade. Geralmente isso sucede pelas piores razões. Não se encontra no actual PSD uma ideia para o país, para o futuro, para o que resta do contrato social. Só se fala da CGD e do crescimento económico. É óbvio que isso é importante. Mas o país não se reduz a isso. Os resultados das mais recentes sondagens de opinião não iludem esta dissolução do PSD, um partido essencial para se discutir o que é e pode ser a sociedade portuguesa. É por isso que estas são boas notícias para António Costa, lançando cascas de banana que fazem Passos Coelho perder a pose de ex-primeiro-ministro. E, claro, para Assunção Cristas.»

Fernando Sobral

13.3.17

Micro-ondas is watching you

Dica (504)

Com a Holanda em dias decisivos



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Jean Ferrat calou-se para sempre num 13 de Março



Jean Ferrat foi um dos grandes franceses da canção e até custa crer que tenham passado sete anos desde que se foi embora, em 13 de Março de 2010. Depois de Léo Ferré, Georges Brassens, Jacques Brel e alguns outros.

Representante típico de gerações de intérpretes politicamente comprometidos, para sempre ligado a Nuit et Brouillard e a tantos outros títulos, o eterno compagnon de route do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968:




Algumas recordações, que ficarão para sempre.






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A Europa imóvel



«Parménides, o filósofo grego, acreditava que o ser era imutável e eterno e que a aparência de mudança que os nossos sentidos notam é um puro engano. Tudo permanece igual. A União Europeia é um fruto tardio das ideias de Parménides.

Finge que muda, mas a sua imobilidade é digna de uma torre de cimento. Os fantasiosos debates sobre o futuro do condomínio de países que já só têm o euro para os unir mostram o estado da desgraça. Juncker atira várias pedras para o charco para ver se os Estados deixam de moer a cabeça à CE, culpando-a de tudo, e decidem qualquer coisa. Os fantásticos quatro que se juntaram em Versalhes querem uma Europa a várias velocidades, porque de outra forma "rebenta", na formulação de Hollande, o mais sofrível dos líderes das chamadas grandes nações. A crise de identidade, política, económica e moral da Europa não se resolve com botox. Porque o que transparece destas pretensas posições de força é uma marcha de acorrentados derrotados rumo a parte nenhuma. (…)

A Europa, apesar do apoio unânime a Donald Tusk, está dividida. Não sabe o que fazer com a emigração nem com as assimetrias entre o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste. O actual estado pantanoso das coisas só agrada ao cardume que se alimenta dos fundos que chegam a Bruxelas e Estrasburgo. A burocracia europeia, essa nova aristocracia, não quer nem ouvir falar em mudanças. Ou seja, a Europa é uma história de fantasmas. Face a tudo isso a palavra mítica é: "Reformas estruturais": pedem-se, mas não se aplicam em casa. Deixam-se para países como Portugal.»

Fernando Sobral
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12.3.17

Dica (503)



The Common Sense of Socialism. (Kurt Hackbarth e Colin Mooers) 

«What can the Canadian experience teach us about building a mass working-class party in the US?» 
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A várias velocidades para onde?


A ler, este texto de Francisco Louçã. 

«Tudo bem, desde que Portugal continue no “pelotão da frente”, esclarece o primeiro-ministro. Como sempre, António Costa procura ganhar tempo: ele não quer fazer conflitos na Europa. Percebo a estratégia, os conflitos só se devem travar quando permitem algum avanço. Mas, entendamo-nos: a “árvore de Natal” de Roma e as “várias velocidades” são bombas ao retardador contra uma União em que possa haver convergência. Neste projecto das “várias velocidades” não há um único emprego a criar, nem há protecção contra a pobreza, nem há investimento, nem há educação; pelo contrário, as “várias velocidades” são mesmo contra nós. E sem convergência a União é um projecto falhado e perigoso para as democracias.»
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O rei-sombra de Versalhes



«Luís XIV não era o símbolo da modéstia. Por isso, pretendendo brilhar tanto como o astro-rei, proclamou-se o Rei Sol. Mostrava assim que os seus poderes eram ilimitados, tal como os do Sol, verdadeiro símbolo da vida, da ordem e do rigor.

Isso servia para recordar aos súbditos que, sendo tão poderoso como o Sol, qualquer contestação ao rei acarretaria a morte do contestatário. Para simbolizar o seu poder, Luís XIV mandou erguer Versalhes. Dali pôde proclamar: o Estado sou eu! Versalhes tornou-se um símbolo de poder: foi ali que a Alemanha teve de assinar o humilhante tratado de paz após a I Guerra Mundial que a conduziu à pobreza e ao segundo conflito mundial. Nenhum país tinha a possibilidade de pagar as reparações financeiras e geográficas exigidas à Alemanha. Não deixa de ser curioso como, para discutir o futuro da Europa, 60 anos após o Tratado de Roma, Versalhes seja o centro do poder na UE. Ali estiveram Angela Merkel, Mariano Rajoy, Paolo Gentiloni e o anfitrião François Hollande. Se a Europa estava dividida, Versalhes é o tratado que marca o início da nova ordem.

Já não há pudor, mesmo que o Livro Branco de Jean-Claude Juncker funcione como uma espécie de "Anita perdida na floresta" do sonho perdido. A Europa caminha a passos largos para ser um comboio dividido numa linha TGV, noutra regional e uma última de comboio dos torresmos. Resta ainda saber a qual das linhas pertencerá Portugal. O mundo do Rei Sol foi substituído pelo novo monarca que governa a Europa, o rei-sombra. Um governo de interesses que não hesita em humilhar países como a Grécia, esquecendo o que levou à humilhação da Alemanha em Versalhes. Face aos novos desafios globais a Europa que se julga aristocrática e iluminada pelos deuses fecha-se nos salões do seu palácio. É por isso que nem a Europa política nem o euro conseguem merecer respeito. Porque esta já não é uma Europa das nações. É um condomínio fechado de alguns pretensos reis com ideias arruinadas.»

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