25.8.19

Ouvir e obedecer



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Não somos analfabetos, dr. António Costa




Eu não sei se Catarina Martins leu a entrevista toda, mas eu fi-lo, de fio a pavio, e aprendi a ler bem em pequenina, quando António Costa ainda nem sequer em projecto existia.

E confirmo que as frases dedicadas ao BE, que desde ontem circulam em tudo o que é OCS, inclusive em TVs com imagem e som, não foram indevidamente tiradas de qualquer contexto. Reflectem exactamente o que o primeiro-ministro quis dizer e que disse.
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A libertação de Paris



Entre 19 e 25 de Agosto de 1944, a libertação de Paris pôs fim a quatro anos de ocupação.

Charles de Gaulle, chefe do Governo Provisório, fez um discurso à população, que ficou célebre e imortalizado em algumas frases: «Paris outragé! Paris brisé! Paris martyrisé! Mais Paris libéré!».





E há também canções «eternas»:


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Estado da arte


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Matar as greves sem mudar a lei?



«Em Portugal (mas não só aqui), a Ryanair não cumpre a lei. Não é de agora. Já no ano passado houve uma greve com a reivindicação elementar e singela que agora se repete: a Ryanair tem de cumprir a lei portuguesa. Depois da greve, em outubro passado, a Assembleia da República aprovou uma resolução proposta pelo Bloco para que o Governo interviesse nesse sentido – garantir que a lei portuguesa se cumpre, promover um contrato coletivo, estabelecer uma base salarial, fiscalizar as condições de trabalho. Em novembro de 2018, um protocolo assinado entre a empresa e o sindicato assumia que esse compromisso seria cumprido em fevereiro deste ano. Até agora, nada. O que se esperaria das autoridades? Que obrigassem a empresa a cumprir a lei. O que fez o Governo? Nada que se visse. A não ser, esta semana, proteger a empresa na manutenção da selvajaria laboral, ao esvaziar o impacto da greve por via da convocação de serviços mínimos numa empresa privada que não desempenha necessidades sociais impreteríveis.

Na verdade, estamos a assistir, com esta luta na Ryanair, a mais um episódio de um processo em curso com consequências importantíssimas para o mundo do trabalho: o redesenho, socialmente regressivo e politicamente autoritário, da lei da greve por parte do Governo. Esta reconfiguração escapa à alteração da lei escrita para aprofundar, sem debate nem validação democrática, a mudança efetiva da lei na prática. Fá-lo por via da banalização da definição de “serviços mínimos” maximalistas e do recurso à requisição civil. Fá-lo pelo esvaziamento dos efeitos económicos da greve através da completa subordinação do seu exercício aos supostos “imperativos económicos”, nomeadamente no setor do turismo. Fá-lo pelo empenhamento governamental no espaço público com vista a estabelecer como evidentes ideias disparatadas como a de que “durante uma greve não se negoceia” ou que deve poder fazer-se “requisições civis preventivas” antes mesmo de se saber se os serviços mínimos são ou não cumpridos. Fá-lo mobilizando o aparelho coercivo do Estado a favor das entidades patronais – o mesmo aparelho que não é mobilizado, por exemplo, para garantir a efetividade da legislação laboral que a Autoridade para as Condições do Trabalho deveria garantir. Este redesenho da greve, que foi além do que a Direita conseguiu fazer no passado, acontece depois de uma legislatura cujo final ficou marcado pela aliança entre o PS e a Direita para manter no Código de Trabalho o desequilíbrio nele inscrito durante o período austeritário, acrescentando-lhe medidas precarizadoras de constitucionalidade muitíssimo duvidosa (como o alargamento do período experimental). Não vale a pena fingir que não vemos.

O segredo do negócio da Ryanair – para voltar ao caso concreto – há muito que é conhecido. Não passa por nenhuma paixão pela democratização da mobilidade dos cidadãos. Os milhões de lucros da companhia aérea “low-cost” explicam-se por uma estratégia agressiva para reduzir ao máximo os custos da empresa e externalizar até ao limite os riscos para os seus trabalhadores (pelo degradação radical das condições de trabalho e pelo esmagamento dos sindicatos), para o Estado (contornando normas laborais, padrões ambientais e de segurança e chantageando os poderes públicos para obter apoios sob a forma de “incentivos ao turismo”) e para os clientes (pondo-os a realizar tarefas que seriam responsabilidade da companhia, como o transporte de bagagem, cobrando tudo o que for possível por fora, tendo Michael O’Leary sugerido, por exemplo, que os passageiros gordos passassem a pagar mais bilhete em função do peso, que se pagasse à parte a utilização das casas-de-banho do avião, ou que os pilotos simulassem maior turbulência durante os voos para a companhia vender mais bebidas a bordo).

Do ponto de vista laboral, a Ryanair é repugnante. Não há salário-base (são os chamados “ordenados de base zero” de que a empresa se orgulha), os horários não estão previamente fixados e os trabalhadores só recebem a partir do momento em que o avião levanta vôo, deixando de de receber quando ele aterra (ou seja, solicita-se uma permanente disponibilidade não paga, as escalas sabem-se ao dia, não se pagam horas extra e multiplica-se o tempo trabalho não remunerado). Quem trabalha na Ryanair não têm direito a água potável (tem de comprar as suas garrafas de água para usar no período de trabalho, tal como a comida), não goza os 22 dias de férias que a legislação portuguesa prevê como obrigatórios e irrenunciáveis, não vê os direitos de parentalidade respeitados. Para maximizar lucros, a empresa transforma ainda os e as assistentes de bordo numa espécie de promotores de produtos e agentes de vendas (com a famosa história de a sua avaliação depender do número de raspadinhas que vendem durante a viagem). O abuso é a regra e a lei portuguesa é olimpicamente ignorada.

É por isto que os trabalhadores da Ryanair estão em greve. Têm toda a razão em fazê-lo. Ao agir tendo como preocupação fundamental dar conforto à empresa e impedir que a greve se faça sentir, o Governo revela não apenas a sua escandalosa parcialidade, mas abre um precedente grave para todas as empresas que achem que, em Portugal, a lei não é para cumprir. Sim, as greves perturbam o nosso quotidiano. Mas foram greves que nos trouxeram o fim de semana e as férias pagas, os contratos coletivos e a proteção no desemprego, a assistência pública na saúde e até a democracia política. Estamos mesmo dispostos a deixar que deitem ao lixo esse direito?»

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24.8.19

Indispensável


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24.08.1916 – Léo Ferré




Nasceu no Mónaco em 24 de Agosto de 1916, o pai trabalhava no Casino, a mãe era costureira e Léo, com 7 anos, já cantava no coro da catedral.

Deixou-nos preciosidades que resistem a todas as décadas, com letras suas ou de Aragon, Rimbaud e mais uns tantos. Quatro dessas «preciosidades», entre muitas outras:









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Grande Marisa Matias!



Nunca foge com o corpo às balas, mesmo quando estas vêm de políticas poucochinhas.
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Costa na aldeia de Astérix



«Portugal é “uma espécie de aldeia de Astérix da estabilidade”, afirma António Costa na entrevista de hoje ao Expresso. Não é uma mera presunção de oásis, é uma proposta de concentração de votos, por oposição à dispersão eleitoral de outros países. Para o PS, as eleições vão disputar-se à esquerda, o que leva o seu secretário-geral a uma afirmação simples: votem PS, mas se não votarem PS, votem PCP. Costa não tem apenas medo de que o céu de uma crise internacional lhe caia sobre a cabeça, receia uma subida forte do BE. Por isso, descredibiliza-o sem subtilezas. E se desqualifica o BE, nem qualifica a direita: em dez páginas de entrevista, o PSD é nomeado três vezes, o CDS apenas uma. A campanha começou hoje.

Ao contrário de uma entrevista de televisão, que tem mais audiência direta, mais imediatez, é mais rápida e tem menos edição de jornalistas (é, tipicamente, em direto), numa entrevista de jornal há mais tempo para aprofundar, explanar, confrontar. Nos mesmos três anos de mandato em que Marcelo não deu uma só entrevista ao Expresso (por falta de timing? De coragem?), Costa deu três. Todas em agosto. Todas como anúncio político dos seus argumentos para o ano que se seguia. Assim é a entrevista anual publicada hoje: se bem lida, ela revela o essencial de uma argumentação política em vésperas de eleições. Haverá aumentos para a função pública, não há compromissos para pensões; não haverá cedências às carreiras especiais mas os professores terão melhorias na carreira; a economia (não se ria) cresceu em contraciclo com outros países mas, se piorar (não chore), será por causas externas; o camião de investimento público financiado por fundos comunitários suportará o crescimento dos próximos anos, etc.

Mas é no quadro partidário que a entrevista se centra. E se a entrevista ignora, e nisso humilha, a direita, ela é dedicadíssima a elogiar Jerónimo de Sousa e a rebaixar o Bloco de Esquerda.

Se o PCP tem maturidade institucional e é um partido de massas, o Bloco, subentende-se, é um partido com a “angústia de ser notícia todos os dias ao meio-dia”; se o PCP é gente de bem a quem basta apertar a mão, o Bloco, supõe-se, é o contrário disso, diz uma coisa em privado e outra em público, e mais apetece a Costa apertar-lhe o pescoço. Costa não confia nem gosta do BE, que na prática parece qualificar como um partido superficial e populista. É dele que Costa tem medo. Porque, como aqui já foi escrito há algumas semanas, as próximas eleições irão repor o voto útil de uma forma perversa, entre quem, à esquerda, quiser dar mais força ao PS e quem quiser controlar-lhe o poder votando noutros partidos. Segundo as sondagens, é o Bloco que parece estar a capitalizar esse efeito de voto útil à esquerda, de quem não quer dar ao PS uma maioria absoluta. Sim, a maioria absoluta não está entre o PS e o PSD, está entre o PS e o BE. Consciente desse efeito, Costa ataca o Bloco e tenta reencaminhar o voto útil para o PCP.

Não é amor à primeira vista, é acordo político à segunda eleição. A ideia alimentada pelo próprio Jerónimo de Sousa de que a ‘geringonça’ nasceu na noite das eleições em 2015 é uma fábula, pois é evidente que ela já estava pré-negociada entre Jerónimo e Costa antes das eleições, tanto que o Expresso a noticiou em manchete uma semana antes. É especulação mas não é loucura admitir que agora já estará também pré-negociado um acordo entre ambos.

Com um PS fraco e um Bloco forte, há risco de ingovernabilidade e mesmo de formação de Governo, como acontece em Espanha com o Podemos, afirma Costa. É um argumento político de peso, na mesma resposta em que surge a imagem pop da aldeia de Astérix. Costa é o chefe da aldeia, que se passeia no escudo carregado por dois pajens. Um deles, mais baixo, às vezes amua e deixa-o cair. Costa não quer depender deste apoio volúvel: elegeu o Bloco de Esquerda como alvo. O Bloco usará isso a seu favor. E quanto a Rio e a Cristas, é melhor que montem uns campozinhos romanos à volta da aldeia, nem que seja para aparecerem na imagem. E nos boletins de voto.»

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23.8.19

Mas há quem queira fazer...


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23.08.1927 – Sacco & Vanzetti



Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados do homicídio de duas pessoas, nos Estados Unidos, e acabaram por ser condenados à pena de morte e electrocutados em 23 de Agosto de 1927, apesar de, cerca de dois anos antes, uma outra pessoa ter confessado ser autora dos crimes.

Na sessão do tribunal em que a sentença da condenação foi lida, Vanzetti incluiu o seguinte nas suas longas declarações finais:

«I would not wish to a dog or to a snake, to the most low and misfortunate creature of the earth. I would not wish to any of them what I have had to suffer for things that I am not guilty of. But my conviction is that I have suffered for things that I am guilty of. I am suffering because I am a radical and indeed I am a radical; I have suffered because I am an Italian and indeed I am an Italian...if you could execute me two times, and if I could be reborn two other times, I would live again to do what I have done already.»

Nunca pararam as reacções e os protestos contra um caso que, com toda a sua trama, passou a funcionar como um símbolo de desrespeito flagrante pelos princípios da justiça na América.

Deu origem a um filme, inspirou escritores, pintores, músicos como Woody Guthrie . Joan Baez viria a consagrar uma das canções mais divulgadas, até Dulce Pontes interpretou «The Ballad of Sacco e Vanzetti», etc., etc.







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A ignorância é o instrumento usado pelas ditaduras para formar escravos



«EU NÃO QUERO QUE A NOSSA HISTÓRIA SEJA OCULTADA. QUERO QUE ELA SEJA ENSINADA PARA EVITAR NOVOS CRIMES CONTRA A LIBERDADE E A DEMOCRACIA:

A petição contra a criação de um museu dedicado a Salazar foi já enviada ao Primeiro-Ministro com 15.000 assinaturas. No momento em que escrevo, o número já ultrapassou as 15660. [16.390, às 15:00 de 23.09]

Lamento muito que, entretanto, tenha sido organizada uma outra petição, mas para exigir a criação de um museu dedicado à figura mais sinistra da nossa História contemporânea, na sua terra natal e a partir de objetos pessoais do ditador.

Essa petição está a ser assinada por fascistas e por ignorantes, mas também, infelizmente, por democratas, e espalha a mentira de que a petição que nós assinámos se destina a encobrir uma parte da nossa História. Quem leu a nossa petição e os comentários de quem a promoveu e assinou sabe que isso é uma mentira sem vergonha. Nós sempre defendemos a criação de museus que ensinem o que foi a ditadura fascista que governou Portugal durante quase meio século, dirigida por um ditador que mandou perseguir, torturar e assassinar os seus opositores políticos e que enviou milhares de jovens para uma guerra colonial duplamente injusta: para os portugueses e para os povos colonizados.

Não há museus dedicados a Hitler, Mussolini e Franco. Há museus que expõem os seus crimes. Fazer um museu em Santa Comba é um insulto à memória de todas as mulheres e de todos os homens que foram perseguidos, torturados e assassinados.

Aos fascistas nada tenho a dizer a não ser que, se por algum equívoco, forem meus “amigos” do Facebook, que me desamiguem rapidamente. E que onde quer que estejam eu estarei no lado oposto.

Aos ignorantes que queiram deixar de o ser, aconselho a que leiam e se documentem sobre a História de Portugal do século XX. A ignorância é o instrumento usado pelas ditaduras para formar escravos.

Aos democratas, recordo o que eles têm obrigação de saber: que os defenderei sempre, se preciso for, contra as investidas de todas as modalidades de fascismos e nazismos que paulatinamente se vão organizando por essa Europa fora com o apoio político e financeiro de Trumps, Steve Bannons, Bolsonaros, Orbans, Salvinis e Le Pens, acolitados pelos pequenos criminosos locais como Mário Machado e outros.

Abílio Hernandez, professor da Universidade de Coimbra (ontem, no Facebook)
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O tempo dos estúpidos



«A incerteza de viver numa época governada por idiotas faz temer os tempos vindouros. Não porque a democracia vai acabar, como muitos vaticinaram, mas porque há eleitores a colocar no poder pessoas inaptas para as funções para as quais foram eleitas.

Jair Bolsonaro está irritadiço. Mas a paciência de todos nós, especialmente a dos cidadãos brasileiros, está a atingir os limites. Até quando vão carregar o presidente que elegeram? O pulmão da Terra está a arder, e, tal como noutras situações tragicamente conhecidas, a culpa nunca recai sobre quem tem responsabilidades governativas. A narrativa é mais ao menos conhecida. Fenómenos naturais e mãos criminosas são os argumentos que nos vendem na tentativa de isentar erros, incúrias e negligências. Jair Bolsonaro escolheu, desta vez, o argumento mais estúpido de que alguém se poderia lembrar para sacudir a água do capote no que diz respeito aos fogos na Amazónia. Acusa as organizações não governamentais de atearem fogo à floresta devido aos cortes de financiamento público. "Perderem a teta deles", diz.

Quando os números provam (aumento de 83% dos incêndios num ano) que a política ambiental brasileira favorece os proprietários de terras e a exploração mineira e agrícola, Jair Bolsonaro não só ameaça a maior floresta tropical do Mundo. Ameaça cada um de nós.

Depois do amuo de Donald Trump, que cancelou a visita à Dinamarca por não lhe venderem a Gronelândia, e do extremista Matteo Salvini, que deixa milhares de migrantes dentro de um barco e força a queda do Governo italiano, Jair Bolsonaro mostra-nos que provavelmente nunca tivemos tantos líderes de índices cognitivos e humanos tão inferiores à média.

Estes novos dirigentes mundiais podem não ser o "demónio de calças", mas o facto de em cada cinco frases apenas meia fazer sentido revela um mundo cada vez mais queimado.»

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22.8.19

15.000



MUSEU de SALAZAR, NÃO!

Por motivos de ordem técnica, o abaixo-assinado só hoje, 22.08.2019, pelas 18:30, foi enviado ao primeiro-ministro. Com uma vantagem colateral: seguiu com mais assinaturas: 15.000. 

(A Petição continua aberta AQUI e este número já foi ultrapassado.)
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Impedir o desmatamento e exploração da Amazônia!



O mínimo que se pode fazer é assinar ISTO.
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«Aliança»? Desgraçados…



Foram buscar a fotografia a um site que mostra uma praia da URSS em 1967. Registemos esta «aliança» entre o Menino Guerreiro e Brejnev . 

(O original está AQUI.)
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Serviços máximos: primeiro estranha-se, depois entranha-se



«Como temia, a greve cirúrgica dos enfermeiros abriu a Caixa de Pandora. A exigência de fortes serviços mínimos, primeiro, e de uma requisição civil, depois, era inevitável. Antes de tudo, porque sendo uma greve por procuração, em que a esmagadora maioria trabalhava e pagava a outros para fazerem greve, ela nunca teria de chegar ao fim. Não tinha qualquer custo. Não era realmente uma greve. Depois, porque era, pela sua natureza cirúrgica e pelo alvo, uma greve desumana que nenhum Governo, por mais de esquerda que fosse, poderia tolerar que se eternizasse. Mas a verdade é que abriu um precedente. Os serviços mínimos deixaram de ser mínimos e a requisição civil, um gesto sempre extremo, não causaram qualquer indignação ou resistência. Ao isolar os enfermeiros do resto da sociedade, a bastonária enfraqueceu os instrumentos sindicais que, aliás, está legalmente impedida de utilizar.

Depois, veio a segunda greve dos motoristas de matérias perigosas. Fui, como sabem, crítico da liderança desta greve que tinha, à partida, reivindicações mais do que justas. O destino de uma greve por tempo indeterminado que acabou em sete dias veio confirmar a irresponsabilidade de quem levou os trabalhadores a um beco sem saída. Não chega agitar plenários e falar bem na televisão para ser um bom sindicalista. A qualidade da liderança de uma luta confirma-se na capacidade de chegar a um bom acordo. De ter uma estratégia. De ser realmente sindicalista. A verdade é que o Governo aproveitou a impopularidade da greve para ir um pouco mais longe. Os serviços mínimos já se aproximaram ainda mais dos máximos e a requisição civil, que deve ser o último recurso, foi usada ao fim de 19 horas de greve.

E agora, cereja em cima do bolo, vemos serviços mínimos a ser decretados em favor de uma companhia aérea multinacional low-cost, especialmente selvagem na relação com os trabalhadores e até com os países onde opera, por sinal. Esta não é uma greve por procuração, desumana, irresponsável ou por tempo indeterminado. É uma greve por cinco dias num sector que não põe, se falhar, os serviços fundamentais do país em perigo. Em que há concorrência em grande parte das rotas que os trabalhadores foram obrigados a continuar a garantir parcialmente, como as ligações de Lisboa com Londres, Paris ou Berlim. Passo a passo, banaliza-se a redução do direito à greve a um mero ato simbólico, funcionando o Governo como protetor dos interesses económicos das empresas em causa. Considerar que uma greve de cinco dias tem uma “duração relativamente longa” é transformar a greve num ornamento. Não há emergência energética ou questões humanas que justifiquem os serviços mínimos impostos à greve na Ryanair. Há a sensação de que se pode.»

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21.8.19

Alexandre O'Neill, sempre


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Sem palavras



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13.200 assinaturas



A Petição MUSEU de SALAZAR, NÃO! foi dada como encerrada com 13.200 assinaturas, embora estivesse a ser acelerado o seu crescimento e pudesse vir a ter muitíssimas mais (e nem sequer tentámos contactar quem não usa internet). MAS:

1 – É MUITO URGENTE que chegue ao destinatário, já que está previsto que as obras, em Santa Comba Dão, tenham início no fim do corrente mês.

2 – Não é por haver mais ou menos uns milhares de nomes que aqueles que podem evitar o que não deve acontecer tomarão decisões, mas sim pela consciência do poder que têm para o fazer.

3 – O objectivo que tínhamos foi altamente ultrapassado pelo impacto que teve, nomeadamente nos órgãos de comunicação social, televisões incluídas. Saiu das redes sociais, chegou a muitíssimos portugueses.

Esta luta vai continuar, não desistimos e estaremos sempre prontos para combater.
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21.08.1968 – Era primavera em Praga











(Texto e fotos de Josef Koudelka, Invasion of Prague, Thames & Hudson, 2008.)
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20.8.19

Ryanair



Quando um governo de esquerda define serviços mínimos para uma greve como a da Ryanair, derrete mais um icebergue na Islândia.
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Museus de Ditadores



Há sete anos, estive em Gori, na Geórgia, terra onde nasceu Estaline e se pode visitar um Museu que lhe é dedicado – grande, cheio de fotografias, documentos e objectos bem-apresentados. Mas, da primeira à última sala, passa-se por um verdadeiro «monumento» laudatório e glorioso, no mínimo aterrador e que me dispenso de descrever… Antes de sair, através de uma intérprete que falava espanhol, perguntei à guia se não lhe parecia que faltava uma parte das histórias e da História − em 2012, num país orgulhoso de ser independente há mais de duas décadas, etc., etc., etc. Disse-me então que o edifício iria encerrar em Outubro, durante dois anos, por decisão do ministro da Cultura, e que reabriria totalmente reformulado com o nome alterado para Museu do Estalinismo e incluindo o que de «menos bom» o homem tinha feito nesta vida…

Mas, não, não fechou, nem foi remodelado, já que a Assembleia Municipal de Gori decidiu o contrário: que devia ficar tal como está. A maioria dos «filhos da terra», orgulhosos do seu herói, bem ao contrário dos outros georgianos que conheci, querem que o Museu e a casinha logo ao lado, onde Estaline nasceu e se guardam alguns dos seus pertences sem qualquer interesse, continuem a homenageá-lo como sempre.

(Lembrei-me disto tudo por razões óbvias. Mas é escusado dizerem-me que o que está em causa, ali pela Beira, é diferente, porque eu sei. Como sei também que o seguro morreu de velho e que a vida, por vezes, anda «às arrecuas».)
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Petição – Museu Salazar, Não!



Fui ontem contactada telefonicamente por um jornalista do «i», jornal que dedica hoje algumas páginas ao tema. Claro que a conversa durou vários minutos, mas a minha frase que foi posta em destaque não me desagrada.

Junto a capa e um parágrafo sobre os desejos, bem elucidativos, do presidente da câmara de Santa Comba Dão.

E depois da greve?



«A greve dos motoristas chegou ontem ao fim, na sequência de um pré-acordo assinado entre a associação patronal e a Fectrans e da reabertura de negociações com o Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas. São boas notícias, se esse processo possibilitar um acordo que respeite os direitos até agora negados aos trabalhadores.

É verdade que esta greve, como todas, afetou a vida do país. Mas esse é o seu papel, e o seu poder: dar visibilidade a profissões e abusos que de outra forma não seriam vistos, ouvidos ou reconhecidos. São justas as reivindicações dos motoristas - horários seguros ou salários justos e pagos por inteiro, sem esquemas dos patrões para fugir à Segurança Social - e hoje sabemos que os graves problemas laborais, e mesmo ilegalidades, por eles denunciadas são do conhecimento governamental há anos.

Esteve mal o Governo quando definiu serviços mínimos que não o eram, e na forma desproporcionada como geriu a requisição civil. A pensar nas eleições, o Governo do PS aplicou uma visão restritiva do direito à greve e uma interpretação absurda da lei do trabalho.

Esteve mal, em particular, António Costa, que ontem escolheu agradecer em primeiríssimo lugar, não à larga maioria dos motoristas que exerceram o seu direito respeitando serviços mínimos excessivos, mas aos militares chamados a intervir na requisição civil. Não está em causa o desempenho destas forças, mas o sinal político dado pelas palavras do primeiro-ministro e o precedente que abre a porta a que no futuro se esvaziem formas semelhantes de luta através da imposição de serviços máximos.

Mas mal esteve também o porta-voz do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas, quando isolou a greve daqueles trabalhadores, tornando o processo e os objetivos negociais incompreensíveis aos olhos das pessoas. Ambições profissionais e políticas de Pardal Henriques terão prejudicado a condução de uma luta que é justa.

Agora, resta esperar uma real disponibilidade para a negociação, de todas as partes, e em particular do mediador, a quem se exige imparcialidade. O Governo é responsável por assegurar soluções negociadas que corrijam injustiças há muito diagnosticadas e por garantir a eficácia de medidas de fiscalização num setor onde ficaram evidentes os sistemáticos abusos patronais.»

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19.8.19

Lorca & Cohen

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Federico García Lorca foi fuzilado em Agosto de 1936, entre os dias 17 e 19, pelo seu alinhamento político com os Republicanos e por ser declaradamente homossexual.

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Federico García Lorca, «Pequeño Vals Vienés»

En Viena hay diez muchachas, ¡Ay, ay, ay, ay!
un hombro donde solloza la muerte Toma este vals que se muere en mis brazos.
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el museo de la escarcha. en el desván donde juegan los niños,
Hay un salón con mil ventanas. soñando viejas luces de Hungría

por los rumores de la tarde tibia,
¡Ay, ay, ay, ay! viendo ovejas y lirios de nieve
Toma este vals con la boca cerrada. por el silencio oscuro de tu frente.


Este vals, este vals, este vals, este vals, ¡Ay, ay, ay, ay!
de sí, de muerte y de coñac Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".
que moja su cola en el mar.

En Viena bailaré contigo
Te quiero, te quiero, te quiero, con un disfraz que tenga
con la butaca y el libro muerto, cabeza de río.
por el melancólico pasillo, ¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
en el oscuro desván del lirio, Dejaré mi boca entre tus piernas,
en nuestra cama de la luna mi alma en fotografías y azucenas,
y en la danza que sueña la tortuga. y en las ondas oscuras de tu andar

quiero, amor mío, amor mío, dejar,
¡Ay, ay, ay, ay! violín y sepulcro, las cintas del vals.
Toma este vals de quebrada cintura.


En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.
...

Clube dos jerrycans deprimidos


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Costa no rescaldo da greve



Concordo plenamente com aquilo que Paulo Pedroso escreveu hoje no Facebook, em reacção a esta notícia:


«A resposta de António Costa sobre o dispositivo posto em marcha face à greve dos combustíveis sofre de dois erros de abordagem significativos, quando se fala de um primeiro-ministro de esquerda que comenta o seu dever de arbitragem entre direitos num conflito laboral.

O governo não ganhou 3-0 à greve porque, se quisermos ir pela analogia futebolística, era árbitro e não equipa no terreno. O seu papel era o de impedir que o direito à greve não colidisse com a satisfação de necessidades fundamentais e a sua alegria por tê-lo conseguido deveria ficar contida a ter sido um árbitro eficaz.

A escolha de um agradecimento aos militares pelo seu contributo na redução dos efeitos da greve para início de périplo aos que diminuíram os efeitos da greve, sendo provavelmente merecida, é também um erro de perspectiva para um Primeiro-Ministro de esquerda. Os primeiros a quem há que agradecer é aos trabalhadores que acataram os serviços mínimos - e parecem ter sido bastantes - senão a requisição civil não seria tão limitada e circunscrita.

Quando um Primeiro-Ministro agradece antes de mais e primeiro que a todos os outros aos militares o seu papel na limitação dos efeitos de uma greve, desculpem, mas a minha alma de esquerda fica dorida.»
Paulo Pedroso

E acrescento: António Costa tem inegáveis qualidades para ser PM, mas revela que nunca tem qualquer espécie de empatia para com o que lhe causa incómodo – neste caso, os trabalhadores.
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Nada está ok

«O Okjokull, ou glaciar Ok, derreteu. Morreu. A Islândia fez ontem o primeiro funeral ao seu primeiro glaciar.

Em 1980, o gigante de gelo tinha 16 quilómetros quadrados de superfície. Em 2012, já só 0,7 quilómetros quadrados. Em 2014, deixou de ser classificado como glaciar. A morte adivinhava-se. E chegou.

Ontem, no local do Okjobull foi descerrada uma placa. Diz "415 ppm CO2", em referência ao nível recorde de concentração de dióxido de carbono (CO2) registado na atmosfera em maio passado.

Mas podia dizer outra coisa. Podia dizer "a humanidade destruiu-me". Como vai continuar a destruir outros glaciares. A destruir e a matar o planeta. Ou simplesmente dizer "nada está OK".

O tema das alterações climáticas entrou na agenda política. Em Portugal também. Quer se goste ou não, muito por influência do PAN. E a maioria dos partidos percebeu (tarde) que não são só os cães e os gatos que dão likes nas redes sociais. Por arrasto, as alterações climáticas, que todos sentimos na pele, ocuparam lugar nos discursos e nas intervenções políticas. Algumas vezes com hipocrisia. Atrás do voto, é certo. Mas melhor assim do que nada!

A morte lenta do glaciar Ok já era esperada. No seu lugar fica a mensagem para as gerações presentes e futuras. Sim, também precisamos de mensagens. De esperança.

Às portas da rentrée política vamos com toda a certeza escutar promessas, ideias e soluções. Da Esquerda à Direita. Dos novos partidos também. Promessas e garantias de combate ao aquecimento global, apostas nas políticas de economia verde, descontos nos veículos não poluentes, etc. Também já não é mau.

O tema pode dar votos, pode ser popular e viral. Pode ser tudo isso. Mas é sobretudo mais do que urgente. Já não basta consciencializar as pessoas acerca da crise climática.

É preciso agir. E já. OK?»




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18.8.19

A greve acabou, podemos agora pensar no futuro próximo?


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Fim da greve


«No sétimo dia, "Deus" já havia terminado a obra que determinara; nesse dia descansou de todo o trabalho que havia realizado.» (Génesis 2:2)

(Substitua "Deus" por aquilo que entender.)
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Para evitar romarias de fascistas



Bom texto no Expresso
«Inicialmente assinada por um grupo de 18 subscritores — entre os quais se encontram o analista político Pedro Adão e Silva, a ex-eurodeputado do Bloco de Esquerda, Alda de Sousa, o ex-reitor da Universidade de Lisboa, José Barata Moura, a escritora Maria Teresa Horta, e Margarida Tengarrinha [viúva de José Dias Coelho, assassinado pela PIDE] — a petição é uma carta aberta ao primeiro-ministro António Costa».

A petição tem agora mais de 4.600 assinaturas, continue-se a assinar e a partilhar, a partir DAQUI.
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Falta o Marcelo



Não ficava bem na fotografia em calções de banho.
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Como se fossem escravos



«As atenções viram-se para Matteo Salvini, ministro do Interior de Itália: o homem que recusa receber no porto de Lampedusa um barco com 134 migrantes a bordo. Ontem, obedecendo a uma ordem do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, não escondendo a má vontade, Salvini autorizou o desembarque de 27 menores que viajavam sem companhia. Uma atitude de pura desumanidade, mais uma do governante de extrema-direita.

Parece cómodo, todavia, voltarmos as nossas atenções unicamente para o indesculpável Matteo Salvini. É hora de se reclamar algo mais dos responsáveis políticos europeus. Não basta, pontualmente, ir aceitando receber migrantes como deverá acontecer neste caso - Portugal, França, Alemanha, Luxemburgo, Roménia e Espanha já se disponibilizaram - e depois continuar, como se nada fosse, até à próxima emergência ou tragédia.

O "Open Arms", um navio humanitário há semanas ao largo de Lampedusa com 134 migrantes salvos de um naufrágio, faz lembrar um barco negreiro, do tempo em que as embarcações portuguesas e espanholas cruzavam os mares com mão de obra escrava. A situação é explosiva, relatam os voluntários, também eles retidos num navio sob um sol escaldante, com escassos meios de subsistência e praticamente nenhumas condições de higiene.

Não podemos continuar a ver nestas pessoas o outro, como os nossos antepassados olharam para os escravos, sem qualquer gesto de humanidade - como se eles não fossem seres humanos em tudo iguais a nós.

É tempo de a União Europeia definir uma política séria de imigração. Também é tempo de colocar um ponto final na hipocrisia cúmplice: alimenta, como sabemos, conflitos que conduzem ao êxodo destas pessoas em busca, não só de uma vida não digna, mas apenas melhor. E, sobretudo, à procura de um refúgio onde as armas não substituam as palavras.»

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17.8.19

O Gabo é que sabe



Não se queixam de filhos, de netos ou de amigos, porque estes não vos prestam a atenção que esperavam merecer à medida que vão envelhecendo. Experimentem esta receita e verão que resulta.
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As graçolas da imprensa que temos



Ainda há quem se queixe do populismo nas redes sociais, mas nos órgãos de comunicação social clássicos é o que temos. 
(A segunda imagem é do Expresso, da autoria do seu director adjunto.)
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Cinco notas sobre a greve dos motoristas



1. Uma das distorções das nossas representações sobre o que nos rodeia assenta na invisibilidade de grande parte do trabalho humano, seja na esfera da produção mercantil, seja na esfera doméstica. Quando vemos as ruas limpas – ou as escolas limpas, os hospitais o comboio ou a agência bancária – quantas vezes pensamos nos lixeiros e nos varredores que as limparam durante a noite, quantas vezes vemos, quando entramos nesses lugares, o trabalho já feito das mulheres que, para os limpar, ganham uma miséria? Quando pisamos um passeio, conseguimos ver debaixo dos nossos pés o trabalho de quem cortou a pedra e o de quem a colocou ali? Quando escolhemos os alimentos na prateleira do supermercado, conseguimos ver o trabalho, tão desconsiderado, de quem os produziu e transportou? Os exemplos são incontáveis. Há demasiados trabalhos em que só reparamos quando estão por fazer, cujo valor só consideramos quando nos confrontamos com as consequências de não terem sido feitos.

O primeiro mérito de uma greve – e desta greve dos motoristas de matérias perigosas também – é este. Obrigar-nos a apercebermo-nos da importância de um trabalho de que ninguém falava, mas que é afinal tão essencial para que a sociedade funcione. Sem greve, quem teria essa consciência, além dos próprios? Ao longo dos anos, sem greves, alguém falou da centralidade deste trabalho e das condições penosas em que é feito?

2. O objetivo de uma greve é sempre perturbar o normal funcionamento do quotidiano da produção e da circulação mercantil. Mostrar que, se os trabalhadores pararem, o mundo pára. Não há verdadeiro exercício do direito à greve se ela não se fizer sentir, em primeiro lugar, nos bolsos dos patrões que precisam do trabalho para o seu negócio e para obterem os seus lucros; e também, secundariamente, no funcionamento da sociedade, que toma com a greve a consciência da falta que aquele trabalho faz. Isto nunca quis dizer, evidentemente, que o exercício do direito à greve seja absoluto. Toda a gente concorda que, mesmo havendo uma greve, as ambulâncias têm de continuar a ser abastecidas e a comida tem de continuar a chegar aos supermercados, por exemplo. Por isso, toda a gente concorda e a lei prevê que, em cada greve, se deve definir serviços mínimos capazes de garantir que a greve se compatibiliza com outros princípios fundamentais da nossa vida coletiva. Nisso, não há polémica: os serviços mínimos existem desde que a Constituição consagrou o próprio direito à greve. Se não há acordo entre patrões e trabalhadores na sua previsão, intervém o Estado, cabendo ao Governo defini-los. Mas também é óbvio que se a definição de serviços mínimos é de tal modo maximalista que torna potencialmente nulos os efeitos de uma greve, isso é uma forma objetiva de esvaziar esse direito. Fez bem o Governo em fixar serviços mínimos nesta greve dos motoristas – e é compreensível que, em alguns casos especiais, eles sejam muito exigentes (exemplo óbvio: para emergências na saúde ou no combate aos fogos...). Mas fez muito mal em abusar dessa prorrogativa para fixar verdadeiros “serviços máximos” em áreas que não são, objetivamente, “necessidades sociais impreteríveis”, que é o termo da lei (desde quando é que, por um exemplo, um vôo comercial Porto-Lisboa pode alguma vez caber no conceito de “necessidade social impreterível”?). Têm inteira razão os sindicatos e os partidos de esquerda que acusaram o Governo de ter aproveitado – com o aplauso e o entusiasmo dos patrões e da Direita – a má condução desta greve para fazer um ataque não apenas aos motoristas, mas ao próprio direito à greve e a todas as futuras lutas em que o problema se coloque. Se se aceita o princípio de que pode haver “serviços mínimos” para todas as situações com percentagens de 75% a 100%, o que restará no futuro do impacto de uma greve, por exemplo, dos estivadores, dos motoristas dos transportes públicos ou das trabalhadoras da limpeza? Há linhas que não devem e não podem ser transpostas. E o Governo quis transpô-las.


16.8.19

Salazar e as raças



Já que andamos a falar de Salazar por causa do famigerado Museu, não é mau que recordemos o pensamento da criatura. 

Quanto à primeira parte deste texto sobre «raças», estamos entendidos... Quanto à segunda, não perdeu pela demora: menos de quatro anos mais tarde, tinha às costas o início da Guerra Colonial.
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Da novilíngua de Marcelo: «hemisférios governativos»



Entre dois mergulhos, promulgou a Lei de Bases da Saúde, mas… com muitos «MAS».

«1. O Presidente da República sempre defendeu uma Lei de Bases da Saúde que fosse mais além, em base de apoio, do que a Lei nº 48/90, de 24 de agosto, cobrindo os dois hemisférios governativos, quer na votação parlamentar, quer, sobretudo, na abertura a caminhos políticos e legislativos diferentes, a escolher pelas maiorias de cada momento, em função das necessidades, limitações de recursos ou custos-benefícios sociais, sempre a pensar no direito à saúde dos portugueses, respeitando a Constituição da República Portuguesa.
O presente diploma não corresponde, na sua votação, ao considerado ideal, nomeadamente por dela excluir o partido com maior representação parlamentar.
Mas, ao invés, preenche o critério substancial determinante da decisão presidencial: o não comprometer, em nenhum sentido, as escolhas futuras do legislador, dentro do quadro definido pela Constituição.» Etc., etc., etc.

(Daqui)
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Museu de Salazar, NÃO!



Sou um dos primeiros subscritores desta Petição que acaba de ser lançada. Convido-vos a assiná-la, se assim o entenderem, e a partilhá-la pelos vossos contactos.

Para: Primeiro-Ministro do Governo de Portugal

MUSEU DE SALAZAR, NÃO!

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro

Os abaixo-assinados, conhecedores do que foi a ditadura do Estado Novo, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime – de que Salazar foi principal mentor e responsável – , o mais veemente repúdio pela criação do Museu Salazar, recentemente anunciado pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão.

Apoiam a carta dirigida a Vossa Excelência, no passado dia 12 de Agosto de 2019, por 204 ex-presos políticos, apelando ao Governo para que intervenha no sentido de impedir a concretização de um tal projecto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações, se prefigura como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista (1926 - 1974) e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.

Em 16 de Agosto de 2019

Albano Nunes, Alda de Sousa, António Regala, António Taborda, Carvalho da Silva, Francisco Fanhais, Joana Lopes, José Barata Moura, José Sucena, Levy Baptista, Margarida Tengarrinha, Maria do Rosário Gama, Maria Teresa Horta, Miguel Cardina, Pedro Adão e Silva, Raimundo Narciso, Rui Namorado.

A Petição pode ser assinada AQUI.
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A greve



«A greve dos motoristas de matérias perigosas fez emergir um conjunto de perplexidades. A primeira, que se coloca ainda antes de assistirmos às imagens das filas intermináveis de carros em postos de abastecimento ou à greve propriamente dita, é sobre a organização de todo o setor.

Alguém acha normal que as empresas petrolíferas, com centenas de milhões de euros de lucros por ano (só a Galp teve um lucro de 707 milhões em 2018), quase não tenham motoristas de matérias perigosas nos seus quadros de pessoal? Mais, alguém explica como é que toda a operação de distribuição deste setor está dependente de jornadas de trabalho de 14 horas? Ou, ainda, que o salário dessas longuíssimas jornadas de trabalho quase toque o valor do salário mínimo, ao que se adiciona um conjunto de parcelas inventadas para fugir a pagamento de impostos ou contribuições para a Segurança Social? Sim, este país real é o faroeste da responsabilidade social das empresas e os lucros milionários só comprovam que a ganância é como o universo, não tem fim.

Como se chegou a esta situação? O resumo é simples: privatizou-se uma empresa estratégica para o país, dando a uns poucos os lucros que deveriam ser de todos; externalizou-se parte da operação recorrendo-se ao outsourcing para as atividades que anteriormente eram desempenhadas pelos trabalhadores do quadro de pessoal, esperando que a selva do mercado trouxesse a desregulação laboral que ansiavam - o que aconteceu com os motoristas de matérias perigosas; os motoristas passaram de trabalhadores a empreendedores, incentivados a criarem a sua própria empresa - ou contratados por outros nessa situação - perdendo direitos pelo caminho. Ao longo deste processo os lucros aumentaram, a riqueza ficou ainda mais concentrada nos acionistas, e os salários caíram. É motivo para indignação? Claro que é.

Esta introdução explica o contexto que nos trouxe às lutas de hoje. Para quem achava que esta história era apenas entre interesses privados, fica claro como o poder público está na sua origem e dela nunca esteve desligado.

Isso ficou bem claro neste processo. O Governo dizia querer fazer a arbitragem do conflito, mas não mostrou distanciamento para ser um bom árbitro. O primeiro-ministro disse que o Governo se preparou para a greve, mas em nenhum momento isso passou por questionar a atuação das empresas.

Não deveria a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) ter investigado e punido as empresas pelas abusivas jornadas de trabalho, excessos de horas extraordinárias e pela manifesta desadequação dos seus quadros de pessoal? Não deveria a Autoridade Tributária ter investigado a contabilidade criativa que soma complementos ao salário para subtrair aos impostos devidos ao Estado? E não deveria a Segurança Social ter investigado essa mesma folha salarial que retira valor às pensões futuras dos motoristas? Dever, deviam todos, mas não fizeram. Por outro lado, a preparação do Governo terá sido a da folha excel dos serviços mínimos e do parecer jurídico da requisição civil. São precisas mais provas para concluirmos do lado que o Governo está?

Até a jornada de trabalho de oito horas, cuja luta já leva dois séculos e é um dos pilares da cultura de esquerda, foi negada pelo ministro do Ambiente. Disse ele que “ninguém pode ser obrigado a trabalhar para além do horário de trabalho, mas não digam que o horário de trabalho é de oito horas por dia, porque pode ser de 60 horas”. A bússola política entrou em desnorte e só isso explica que um Governo que se diz de esquerda tenha criado um precedente grave de abuso da lei do trabalho e de limitação do direito à greve.

Tudo isto salta à vista e, para o ver, não precisamos de concordar com a convocatória da greve, basta algum bom senso e sentido de justiça. A exigência do tempo é de mais diálogo e menos arrogância, de mais negociação e menos provocação. E não está tudo na mesma, até porque os benefícios das lutas já se começam a conhecer. Apesar de ainda não serem públicos os detalhes, será inegável que o acordo alcançado pela Fectrans resulta do atual contexto e tem nele a sua marca. Que os avanços sejam para todos, será o mínimo que se exige. Que a mediação agora pedida seja imparcial é outra condição essencial.»

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15.8.19

O mundo como nunca o imaginámos



O presidente dos EUA oferece-se para ajudar o presidente da China a resolver o problema de Hong Kong.
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O homem que veio do nada



Supõe-se, está vagamente escrito, que esse imperador veio realmente do nada. Que nasceu algures numa choupana, filho de gente-nada ou pouca-coisa, camponeses ao desabrigo. Que muito possivelmente estudou por cartilhas de aldeia; por catecismos, também. Mais: a acreditar nos compêndios das escolas, teria vindo ao mundo iluminado por Deus e tanto assim que, ainda muito mocinho, fez ciência entre os doutores.

Nessa altura chamava-se Francisco ou Vitorino; Adolfo, talvez Adolfo Hirto; ou Benito Marcolino, Zé Fulgêncio, Sebastião Desejado  não interessa. O que interessa é que quando deram por ele já tinha outro nome: Imperador, Dinosaurus Um, Imperador e Mestre. Palmas.

                «VIVA O MESTRE IMPERADOR!»
                «VIVÓÓÓ...»

Teria tido infância? Mistério: neste ponto, os cronistas tropeçam no aparo e saltam uns anos. Limitam-se a afirmar que já em criança tinha a marca inconfundível dos chefes, como mais tarde se havia de provar quando o Reino apareceu assinado de ponta a ponta com o nome dele. (...)

Saber & Autoridade era o seu lema; sua arma o Silêncio. E sendo assim, tão orientado, é de admirar que tenha atingido o poder que atingiu? Não estaria destinado por natureza a escapar às leis da morte, uma vez que, sabe-se agora, toda a sua vida tinha sido feita à margem das leis dos vivos?

Dinossauro, criatura marcada desde o berço, estava escrito que iria subir muitíssimo na asa da compostura, por cima dos casebres da aldeia e do palácio dos ricos, e que teria de tirar um curso que lhe desse para governar toda a gente. Leis, decidiu o padre local.»

José Cardoso Pires,  Dinossauro Excelentíssimo (excerto), 1972
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Obrigatório, hoje



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Marcianos abrem contas bancárias em Portugal?



«Fez este mês cinco anos que o BES colapsou. Não foi um colapso qualquer, foi um enorme estrondo, que deixou estilhaços por todo o lado. Todos percebemos as razões para a queda do banco, mas acho que praticamente ninguém percebeu o que a seguir se passou e ainda continua a passar-se.

O BES, que dias antes da resolução era considerado por governantes e supervisores como seguro e de confiança, foi dividido em dois, o banco bom e o banco mau, para se evitar uma compreensível crise sistémica, que provocaria efeitos inimagináveis na economia e na sociedade portuguesa.

Aos portugueses foi assegurado que no banco bom (Novo Banco) ficavam os ativos não tóxicos e que no banco mau (BES) ficavam os considerados tóxicos. O tempo encarregou-se de demonstrar que não foi bem assim. Para o banco bom também transitaram muitos ativos tóxicos e problemáticos sendo que, afinal, não era tão bom como apregoaram. Mais uma vez os portugueses foram enganados.

Depois continuam a tentar-nos enganar, agora com a versão de que não vão ser os contribuintes a pagar a fatura dos desvarios ruinosos desses gestores (premiados) e supervisores causadores de tamanha hecatombe.

O imenso dinheiro injetado e a injetar pelo Fundo de Resolução no Novo Banco vai ser pago até 2046 pelas contribuições sobre o setor bancário. Para pagarem ao Fundo de Resolução, os bancos vão ter que criar lucros suplementares (e até já o estão a fazer). Quem pagará esses lucros serão os depositantes e os clientes desses bancos, ou seja, de grosso modo os contribuintes.

Para garantirem esses lucros, os bancos despedem trabalhadores, fecham balcões e criam comissões bancárias em catadupa. Se não chegar inventarão mais formas de nos extorquir cada vez mais dinheiro, sempre defendidos pela máxima de que não serão os contribuintes a pagar. Até será verdade, se por acaso os depositantes ou clientes bancários não forem contribuintes portugueses, forem marcianos.

Como pelo que se saiba ainda nenhum marciano abriu uma conta num banco em Portugal, seremos todos nós a pagar, não via impostos, mas via comissões e mais comissões bancárias e outras formas engenhosas inventadas e a inventar.

A bem da transparência aos portugueses deveria ser dita a verdade. Não vai haver aumentos de impostos para pagar ao Fundo de Resolução, mas os portugueses e as empresas vão ter de pagar, a não ser que não peçam dinheiro emprestado à banca, não tenham conta bancária e guardem o seu dinheiro debaixo do colchão.

Depois temos mais uma vez a justiça a não funcionar em tempo oportuno. Cinco anos volvidos, ainda ninguém foi sequer julgado por estes atos ruinosos. Foram milhares de milhões de euros de gestão quiçá criminosa. Potenciais culpados não faltam. O que falta é fazer justiça.

Essa mesma justiça condenou recentemente e de uma forma célere um “indigente com um percurso de vida errático” a um ano de prisão por ter roubado 15 chocolates num supermercado, que foram valorizados em 23,85 euros. Sem querer fazer qualquer juízo sobre a justiça desta decisão (que se calhar até foi adequada), torna-se percetível ao cidadão comum que os poderosos acabam sempre por encontrar formas de fugirem ou adiarem o assumir das suas responsabilidades.

Torna-se claro que a nossa democracia ainda está incompleta, porque quando o sol nasce deveria ser para todos de uma forma igual e quando chove não deveriam existir abrigos privilegiados para alguns.

Vale a pena pensarmos nisto.»

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14.8.19

Essa é que é essa


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Protestos contra Bolsonaro




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A greve e a Padeira



Conta a história ou a lenda, pouco importa, que há 634 anos Brites de Almeida pegou em armas e se juntou às tropas portuguesas que se fartaram de matar castelhanos.

Não consta que castelhanos estejam a conduzir camiões de matérias perigosas, mas hoje acordei com uma dúvida: de que lado da barricada estaria a nossa padeira, cujos feitos hoje se comemoram? Motoristas ou Antram/Governo?
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O relógio suíço apressou-se demais



«Até esta segunda-feira, a cenografia em torno da greve dos motoristas tinha sido perfeita, um relógio suíço. Alto lá, dirá a leitora ou o leitor atento: mas há mesmo uma greve, provoca alarme social, incomoda quem está em férias, assusta quem anda com a casa às costas, isso não é só encenação. Certo, é muito mais do que encenação. O que há é uma greve que podia e devia ter sido evitada se tivessem ficado fixados calendários de negociação, se o pré-acordo de maio tivesse sido generoso, se o patronato não tivesse sentido desde logo que tinha uma parceria com o Governo e se tivesse sido concluído entretanto um arrastadíssimo processo negocial com o maior sindicato do sector. A pergunta que, por isso, fica no ar nos primeiros dias da greve é esta: e por que é que não a quiseram evitar e, pelo contrário, quiseram empurrar esta greve veraneante?

Pode-se dizer que aquele sindicato ajudou à festa. Não há dúvida. Os trabalhadores estão fartos de uma situação de vulnerabilidade com um salário-base baixíssimo e depois com subsídios e pagamentos dependentes da discricionaridade patronal. Quem trabalha no privado sabe bem como funciona este truque do salário de referência ser insignificante e ter depois complementos e subsídios vários. Os motoristas querem, portanto, uma resposta ao impasse salarial de tantos anos. Bem merecem essa justiça. Mas, como um dos sindicatos é representado por um presidente quase evanescente e por um vice-presidente que não é sindicalista, antes se anuncia com alguma pompa excessiva como o dono de um dos maiores escritórios de advogados do país, além de se ter logo alcandorado a candidato a deputado, foi fácil ao patronato e ao Governo acusarem os trabalhadores dos crimes mais nefandos. Na disputa da opinião pública, os motoristas entraram a perder.

Ainda por mais, e antecipando a greve, o Governo preparou a sua campanha meticulosamente. Tudo estava no seu lugar. Houve recibos de salários, bem selecionados, para serem exibidos nos telejornais: os motoristas ganham muito mesmo que ganhem pouco. Houve o anúncio da escassez, para lançar as pessoas para as filas desde uns dias antes da greve. Houve a contagem decrescente, como se se tratasse de uma tempestade devastadora e com hora marcada. Houve a escalada de ministros em declarações sucessivas, poupando os que são os principais candidatos em outubro, Centeno nem vê-lo, vai ser precisa uma campanha em tom diferente e é bom que não se note a consequência da sequência, temos então Vieira da Silva em doses reforçadas, Eduardo Cabrita porque assim encerra o arreliador caso das golas, o primeiro-ministro nos momentos cruciais. E todos delicados, nada de empolgamentos, estão tão pesarosos como o professor primário do antigamente que aplicava reguadas às crianças, as marcações no palco foram minuciosas, todos recitaram o seu papel. O país, diga-se, não se assustou por demasia e, no fim de semana e no primeiro dia de greve, uma grande parte das bombas de combustível funcionava tranquilamente.

Só que o plano tinha de ser cumprido. Talvez então o relógio tenha sido forçado em demasia: não foi jogada inteligente fazer a requisição civil logo no primeiro dia. E muito menos pôr tropas a conduzir camiões logo passadas poucas horas. As fardas eram para ser notícia grandiosa, eram para assustar, só entrariam quando Portugal inteiro suspirasse pela autoridade de galões. Era para ser quando o país se declarasse nas últimas (curiosamente, é isso que conclui a assustada imprensa internacional, enquanto aqui nos entretemos com problemas mais comezinhos e nos perguntamos se chegou finalmente o mês de agosto). Mas o Governo quis comprometer o Presidente da República com a operação e, por isso, não esperou e requisitou a tropa. Sempre dá umas boas imagens de televisão.

Percebe-se a razão da aceleração do plano, os patrões gritavam por requisição e perceberam que a eles não lhes é pedido que cumpram a lei dos serviços mínimos, ao passo que o Governo aspirava a chegar a este momento culminante, foi para ele que trabalhou, e nestas coisas os conselheiros de imagem e os spin-doctors têm sempre pressa, não se pode deixar perder o pássaro que temos na mão. E assim se antecipou o momento dramático para o fim do dia de segunda-feira, a novidade durará ainda por hoje. Temos as fardas na rua. Só que a partir daqui é só repetição.

E, ressalvada alguma provocação de qualquer tipo, se o que fica é repetição, então é demasiado pouco. O Governo só consegue usar isto para cavalgar na sua ânsia de maioria absoluta, que é ao que tudo se resume, se houver emoção suficiente mas não excessiva, não pode parecer falso ou cínico, ou instrumental. Não se brinca com o país, isso devia estar escrito na parede do Conselho de Ministros. Se o Governo se deixa embriagar pelo sucesso das suas primeiras duas semanas de campanha eleitoral com este abençoado pretexto dos motoristas, em que conseguiu tudo, o risco agiganta-se. Até agora, calou a direita, fala sozinho nos telejornais de fio a pavio, neutralizou os outros sindicatos, raras vozes criticam a restrição ao direito de greve. Mas gastou demasiados cartuchos de emoção. E agora como vai manter o crescendo? Deixa banalizar a coisa, o tempo corre e não acontece nada, ninguém é preso, o pelourinho fica vazio, não há medo? Para ser forte como racha-sindicalistas e para ser enérgico como a voz da autoridade, o Governo precisa de emoção doseada mas crescente. Se gastou todas as surpresas, se só sobrar a rotina das reuniões de emergência sem qualquer urgência, um dia destes acorda e ninguém ligará ao caso. E o dia 6 de outubro ainda vem longe.»

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