23.1.19

10 de Junho? Vai ser assim



Marcelo a exceder todas as nossas possíveis expectativas. E fica aqui um recorte da página da Presidência para não se pensar que é Imprensa Falsa ou notícia do Inimigo Público.
.

Jeanne Moreau




Faria hoje 91 e nunca me canso de ouvir isto.
.

Vem aí mais um partido




André Ventura, Presidente da comissão instaladora do «Chega» – movimento que esta manhã entregou no Tribunal Constitucional o processo de formalização enquanto partido.

(Expresso diário, 23.01.2019)
.

A Avenida da Liberdade não é para negros


« Segunda-feira aconteceram duas coisas que não me lembro de ter alguma vez visto em Lisboa.
A primeira foi uma manifestação maioritariamente de jovens negros, unidos na indignação face a um episódio de violência policial num bairro periférico. Uma manifestação convocada em horas, sem intervenção de qualquer associação ou movimento institucional, que quis mostrar-se ao país e ocupar o centro da capital num protesto contra o racismo e a brutalidade da polícia.
A segunda foi o facto de a polícia ter dispersado uma manifestação com balas de borracha.
Ambas estas coisas são, creio, estreias absolutas. No entanto, nenhuma delas foi relevada como tal. É estranho.»

Fernanda Câncio

Ler ou ouvir o resto AQUI.
.

Os limites da violência policial



«Nós não sabemos exactamente o que aconteceu antes de uma equipa da PSP desatar a agredir cidadãos no bairro da Jamaica, no Seixal. Sabemos sim que o mundo não é a preto e branco, que há zonas cinzentas entre os que se dizem vítimas e os que são acusados de ser algozes.

Podemos por isso presumir que, como diz a polícia, algo como uma recepção dos agentes à pedrada pode ter acontecido. Mas, tivesse ou não acontecido esse gesto de provocação, nada explica e ainda menos justifica a forma desabrida e descontrolada como os agentes começaram a agredir as pessoas.

Sim, o vídeo dos acontecimentos que passou nos últimos dias tem tudo para ser duvidoso, como o provam os comentários associados que procuram apenas revelar uma parte do incidente, a parte das vítimas. Mas, mesmo que seleccionadas ou truncadas, essas imagens são comprometedoras da imagem de uma polícia de um país subordinado ao imperativo da lei.

Estamos cansados dos sucessivos comportamentos de agentes que dão origem a inquéritos, da mesma forma que não há paciência para os que usam essas atitudes abusivas e indignas de alguns, para criar a ideia genérica de que a PSP é um agrupamento de malfeitores habituado ao uso desproporcional da força para instigar o racismo larvar da sociedade portuguesa.

Só há uma forma de travar esses maniqueísmos e de proteger a necessária integridade da PSP: condenar sem reservas actos como o destes dias e exigir que tudo se esclareça. Não pode deixar de haver punições sempre que agentes da polícia dispam a farda e actuem como arruaceiros. Vendo apenas as imagens divulgadas, foi isso que aconteceu.

Pretender que a denúncia deste tipo de atitudes é uma forma de esvaziar a autoridade da polícia não passa, por isso, de pura demagogia. Ainda que se admita que em bairros como o da Jamaica (no qual o espaço físico degradado é em si mesmo uma agressão aos moradores e uma vergonha para a autarquia e para o Estado) haja uma cultura endémica que estimula a desobediência e o confronto com a polícia, não se pode aceitar que os agentes percam o controlo em situações nas quais não se aplica a necessidade da legítima defesa nem da manutenção da ordem pública.

De resto, é mantendo esse nível de exigência que melhor se consegue evitar a espiral de violência e destruição gratuita que se verificou na noite de segunda-feira e, em situações extremas, combate-la exemplarmente como se impõe.»

Manuel Carvalho


.

22.1.19

Desculpa, Mãe, eles não sabem o que fazem



«Em 1992, a polícia militar invadiu o Bairro dos Pescadores em Quarteira, sem pedir licença para entrar, arrombou todas as portas que não abriram ás únicas 3 pancadas de "Bom dia, é a polícia!" Por nos estarmos a preparar para ir para a escola, eu, o meu irmão Elisio e a minha caçula Ligia, assistimos pela primeira vez a um choro desesperado da nossa sempre forte Mãe! O pai já tinha madrugado para ir exercer o seu trabalho como mais um pedreiro Cabo-verdiano.

Iam em busca de droga e dinheiros oriundos da mesma. Conta-se pelos dedos de uma mão, as casas em que encontraram o tão desejado troféu; Mas nem com todos os dedos das mãos da minha família e de todas as famílias numerosas oriundas de uma Africa na altura tão distante, conseguiriamos contar as lágrimas derramadas nos rostos daquelas mães e crianças daquela manhã de 92. Ainda hoje, para mim e para o meu irmão, a palavra Polícia não consegue ser sinónimo de "Segurança Pública". Ainda hoje tento perdoar o que vi naquela manhã, de G3 apontadas aos nossos rostos quando saímos para a escola, com a forma agressiva com que revistaram as nossas mochilas que o único peso que carregavam provinha dos livros. Esta história aconteceu no início dos anos 90 em Quarteira, sul de Portugal, mas é comum a todos os Bairros sociais representados de norte a Sul do País. O choro da dor de uma Mãe é a maior cicatriz que um Ser Humano carrega no seu corpo e alma. E acreditem que o que mais me dói neste momento, é ver as reações de puro ódio, daqueles que exclamam ignorantemente "Se não estão bem aqui, porque não vão para a vossa Terra?" Fomos criados pelos nossos pais a não falar de politica, por ser perigoso, a não levantar a voz a uma autoridade por ser perigoso, a não dar a nossa resposta de revolta a cada "Preto de merda" saído da boca da ignorância que continuam a chamar de Racismo. Sempre procurei compreender as piadas, brincadeiras e até justifiquei muitas atitudes com um simples "não foi com intenção", mas o que tenho assistido estes dias só me faz aperceber que o Sonho tão desejado de MLK, ainda é uma Utupia para todos nós.

"Olho por olho, e o mundo acabará cego." Ghandi.»

Claudino Pereira no Facebook
.

Há três anos, no adeus a Nuno Teotónio Pereira



.

"Só senti a bala"




«O realizador João Salaviza, que esteve na manifestação e acompanhou os manifestantes desde as 17h30, relatou por telefone ao PÚBLICO que um grupo subiu a Avenida da Liberdade em direcção ao Marquês de Pombal “de forma completamente ordeira e pacífica”, gritando palavras de ordem contra a violência policial e o racismo. “Havia polícias armados de shotgun. A determinada altura, o trânsito estava parado e esses carros começaram a buzinar em solidariedade. Alguns manifestantes aproximaram-se dos carros para agradecer. Não percebi muito bem como, oiço tiros e vejo toda a gente a correr. A polícia começou a varrer todos os que tinha pela frente e a quem tivesse associado à manifestação, segundo critérios cromáticos (cor da pele), batia com cassetetes. Acho que a maioria conseguiu fugir”, relatou o cineasta vencedor de um Urso de Ouro em Berlim e de uma Palma de Ouro em Cannes.

“Havia pessoas àquela hora que iam buscar os filhos à escola, a sair do trabalho, turistas a sair dos hotéis. A polícia transformou a Avenida da Liberdade numa espécie de guerra civil. Vi muita gente a dizer que tinha medo de estar perto dos polícias mas não dos manifestantes”, disse ainda.»
.

Uma ideia simples e subversiva



«De cada vez que se apresenta uma lei no Parlamento, há algumas pré-condições que têm de ser verificadas para que ela possa ser debatida. Viola algum artigo da Constituição? Se sim, vai para trás. A proposta implica despesa? Se sim, só poderá entrar em vigor com o Orçamento do ano seguinte e tem de dizê-lo explicitamente – é a chamada “norma travão”. Da mesma forma, quando um Orçamento do Estado é apresentado, os Governos indicam qual preveem que seja o crescimento da economia, a receita e a despesa fiscal, os indicadores de emprego ou qual a meta de défice que se propõem atingir. Esse prognóstico condiciona todo o debate público que se segue e a avaliação que se faz sobre a proposta. Favorece o crescimento ou não? Implica maior ou menor despesa? Aumenta ou diminui o défice? As próprias instituições internacionais pronunciam-se sobre algumas dessas metas, muitas vezes violando flagrantemente a soberania democrática dos países e o seu direito a tomarem as suas opções de política económica.

Há uns anos, a Rede Europeia Anti-Pobreza/EAPN Portugal lançou um desafio que, sendo uma ideia simples, tem a força subversiva do que é sensato e provocador ao mesmo tempo: e se, antes de se discutir qualquer lei, se avaliasse não apenas o seu impacto no Orçamento, mas também o seu impacto sobre a pobreza? Ou seja, quando se discute o aumento do número de alunos por turma ou o encerramento de um centro de saúde, quando se debate o valor do salário mínimo ou as regras do subsídio de desemprego, quando se apresenta uma nova lei das rendas ou uma política sobre os passes de transporte, quando se discute o valor das pensões ou as mudanças no abono de família, qual é o efeito previsível que essa proposta tem na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social?

A proposta é sensata porque parte de um tema e remete para um objetivo que, supostamente, merece consenso nacional: o combate à pobreza. Em 2008, a Assembleia da República declarou solenemente, por unanimidade, que “a pobreza conduz à violação dos direitos humanos” e comprometeu-se a desenvolver políticas para erradicá-la. O que se seguiu é conhecido: depois de algum progresso até 2010, o período que se seguiu, particularmente até 2013/2014, foi o do maior agravamento da pobreza que Portugal conheceu nas últimas décadas.

É por isso que, além de uma inteligente provocação, a proposta é também subversiva: ela pretende obrigar a que todos os que têm responsabilidade assumam a consequência das suas propostas. De todas. Ou seja: que se assuma que o combate à pobreza não é apenas uma questão de “apoio aos pobres” nem tampouco de políticas sociais, mas sim uma questão de distribuição primária de rendimento, de políticas orçamentais, económicas, de políticas de emprego, de educação, de saúde ou de habitação. Por exemplo: há quem tenha achado que era importante liberalizar o mercado do arrendamento para “dinamizar a economia” – mas quantos novos pobres resultaram dessa medida? Houve quem decidisse congelar ou cortar as pensões em nome da “diminuição da despesa pública” – mas quantas pessoas foram atiradas para a pobreza à conta disso? Há quem entenda que a vantagem competitiva de Portugal para atrair investimento estrangeiro é comprimir os custos do trabalho (seja no salário, seja no trabalho suplementar ou em dias de férias) – mas além dos efeitos nas “exportações”, que relação é que isso tem com o facto de haver em Portugal 10% de trabalhadores na pobreza, mesmo com salário? Se no campo das declarações de princípios parecemos estar de acordo, por que razão a pobreza não acaba? A explicação não se encontra em comportamentos individuais. Encontra-se no modo como a sociedade e o sistema económico estão estruturados, nas desigualdades que promovem, nos mecanismos da sua reprodução – e nas escolhas que fazemos a todos os níveis.

Em Portugal, mais de 1 milhão e 700 mil pessoas continuam na pobreza. Uma parte significativa são crianças e jovens. Temos pois um imenso caminho a percorrer para erradicar o fenómeno. A sugestão da Rede Europeia (que o Bloco transformou num projeto de lei entregue na Assembleia, o que suscitou já reações do Governo e do Presidente da República) tem o enorme mérito de nos obrigar a pensar no assunto permanentemente, em cada medida que é proposta e a assumir as consequências do que defendemos. Se a pobreza é uma violação dos direitos humanos, o que a tem agravado? E que escolhas concretas a combatem?»

.

21.1.19

O Brasil quebrou?



.

Marcelo: e o ridículo não paga portagens


.

Revista «O Tempo e o Modo» online



Já se encontram online todos os números das três séries, bem como informação adicional sobre censura, autores, etc.

(Também online capas e índices da revista «Concilium».) 

A partir daqui.
.

China: regresso à terra natal para o Festival da Primavera



Mais imagens aqui.
.

E, não obstante, o Supremo Tribunal de Justiça viola a Constituição da República



«Quinze de Janeiro. É sempre normal, por esta data, ter lugar a cerimónia de abertura do Novo Ano Judicial e este ano não foi excepção. Com a presença dos titulares dos cargos mais importantes da República.

Este ano de 2019, em que estamos a dois meses de completar 45 anos sobre a Revolução de Abril de 1974 e 43 sobre a aprovação da Constituição da República Portuguesa. Em que em Junho passarão 18 anos sobre a publicação em Diário da República da Lei da Liberdade Religiosa.

E, não obstante, o cardeal patriarca lá estava na sessão solene, com lugar de destaque e invocação pela generalidade dos que usaram da palavra, como é também sempre normal. Ora, é precisamente a normalidade desta presença que não pode aceitar-se e nem sequer a sua habitualidade.

Portugal é uma democracia laica e, tanto quanto presumo, nenhum dos partidos representados na Assembleia da República pretende reverter esta realidade, que muito custou a alcançar a quantos lutaram contra o Estado Novo.

A Constituição da República, desde a sua primeira versão de 1976, é claríssima na consagração da separação das religiões e do Estado, sem qualquer excepção, nem sequer da Igreja Católica, num país cuja população se declara maioritariamente católica.

Determina o actual art.º 41.º, n.º 4 da Constituição que As igrejas e outras comunidades estão separadas do Estado, disposição que é repetida no art.º 3.º da Lei da Liberdade Religiosa, contida na Lei n.º 16/2001, de 22 de Junho.

Estabelece o n.º 2 do artigo seguinte (o 4.º) da Lei da Liberdade Religiosa que Nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade.

Estas disposições legais são obviamente do conhecimento das mais altas instâncias nacionais e muito mais o são, naturalmente, dos titulares dos cargos mais relevantes da máquina judicial, que são os venerandos conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça. E, não obstante, todos têm feito tábua rasa dos dispositivos constitucionais atrás convocados e condescendem com a sua violação. Talvez seja por considerarem a sua violação normal e habitual ou vice-versa. Talvez.

Talvez seja eu quem está errada. Talvez. Mas, não obstante, abençoado (já que de religião se trata) erro, que me mantém a lucidez.»

.

20.1.19

Três anos sem Nuno Teotónio Pereira


.

20.01.1973 - Amílcar Cabral



Foi nesse dia, há 46 anos, que Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri. Tivesse a morte esperado um pouco mais e teria assistido ao 25 de Abril.

Nasceu na Guiné, em Bafatá, em 12 de Setembro de 1924, fez o liceu em Cabo Verde e veio mais tarde para Lisboa onde se licenciou em Agronomia. Em 1956 foi um dos fundadores do PAIGC, partido que, em Janeiro de 1963, declarou guerra contra o colonialismo de Portugal.

Está disponível online um riquíssimo arquivo, recuperado e tratado pela Fundação Mário Soares, a pedido das autoridades guineenses e cabo-verdianas e com o especial empenho de Aristides Pereira, Iva Cabral e Pedro Pires. Encontra-se na «Casa Comum», site criado por aquela Fundação, e pode ser consultado a partir daqui.

Um pouco de história e (boa) música com os Super Mama Djombo:



Leitura aconselhada: Diana Andringa, Conversas sobre Amílcar (Público, Janeiro de 1993)

Eles pulam e avançam




Estes discursos estão a ir mais longe, e mais depressa, do que talvez suspeitássemos..
.

Ele lá sabe...


.

Mulheres



«Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Falar de igualdade entre homens e mulheres já não é necessário, dizem algumas vozes que procuram convencer que por se dizer uma coisa ela é automaticamente realidade. Penso exatamente o contrário. Este é o tempo de não deixarmos cair os direitos das mulheres, de não aceitar recuos, de percebermos que a resistência é a condição para não perder o direito que nunca o foi mas que pode vir a ser. Fingir que não está a acontecer é meio caminho andado para voltarmos à condição de pessoas de primeira e pessoas de segunda, com a agravante da suposta legitimidade democrática.

Em toda a Europa, as mulheres estão menos integradas no mercado de trabalho, em média 12% abaixo dos homens. Das que têm trabalho, um terço exerce-o só a tempo parcial. As mulheres têm salários mais baixos, mais concretamente 16% menos do que os homens só na União Europeia. As mesmas qualificações e o mesmo posto não são sinónimo de salário igual. As mulheres têm pensões ainda mais baixas. Neste caso, a média é de 40%, e não os 16%, porque se acumulam todas as desigualdades de uma vida. São as mulheres quem mais cuida dos filhos. São as mulheres quem mais cuida de familiares com deficiência ou com necessidades de cuidado permanente. Também na União Europeia, 80% dos cuidados são prestados por cuidadores informais, dessas 75% são mulheres. As injustiças acumuladas de uma vida fazem que as mulheres cheguem à idade de reforma com quase metade dos recursos para viver.

Por muitas declarações que continuem a ser feitas, a igualdade entre homens e mulheres só estará mais próxima de ser realidade quando passar a integrar as políticas concretas. Nesta semana deu-se um passo no Parlamento Europeu para que sejam integradas nas políticas fiscais. Caberá aos diferentes governos aceitar ou não o repto, mas nenhuma das propostas apresentadas é impossível. Impossível é continuar a fechar os olhos às evidências.»

.

19.1.19

Muros e muralhas


.

10.01.1942 - Nara Leão



Nara Leão faria hoje 77 anos e morreu, em 1989, com apenas 47. Estreou-se em 1963, mas a sua verdadeira consagração deu-se depois do golpe militar de 1964, em «Opinião», um espectáculo de crítica à repressão policial. Foi passando de musa da Bossa Nova a cantora de protesto.

Canções? Muitas, com destaque para «O Barquinho», «Com Açúcar e com Afecto» e a inesquecível interpretação de «A Banda» com Chico Buarque da Holanda.






E em 1966: ainda hoje como se fosse ontem.


,,

Jornalismo a meia-haste





Graça Franco
.

Mujica e Bolsonaro, o que nos eleva e rebaixa



«Há umas semanas vi o filme “Uma Noite de 12 Anos”, de Alvaro Brecher. O filme conta os 12 terríveis anos de cativeiro de José Mujica, carinhosamente conhecido pelo seu povo como “Pepe”. Durante a ditadura militar uruguaia, Mujica e dois companheiros viveram 12 anos de terror, grande parte do tempo em isolamento total, com sessões de tortura e fome. “Pepe” esteve mesmo à beira da demência. O filme está disponível na Netflix.

Apesar de Mujica ter sido Presidente do Uruguai, viveu sempre uma vida espartana, abaixo de classe média. Numa casa pequena, fora de Montevideu, onde trata, com a sua mulher (que é senadora), da sua pequena exploração agrícola. Tem um “carocha”, uma casa minúscula e pouco mais. Tenho inveja de pessoas como “Pepe”. Que se conseguem libertar do dinheiro e do que ele nos dá. São mais livres do que eu sou ou alguma vez conseguirei ser. Se querem conhecer a sua vida, as suas contradições e o seu exemplo, podem ver o documentário de Emir Kusturica, “El Pe pe”. Aí não se esquece que a sua militância nos Tupamaros incluiu assaltos a bancos e luta armada. Mujica não é beatificado.

Já AQUI escrevi que não podemos fazer política com a santidade. Porque isso excluiria quase todos da política e a aproximaria perigosamente da religião. Mas isso não nos impede de nos comovermos com Jose Mujica. Com o que a sua história, a sua resiliência e a sua pobreza escolhida nos ensinam. O exemplo é sempre mais comovente quando não é dever e quando não é para ser seguido. Quando é uma escolha do próprio que a ninguém a quer impor. No caso de Mujica, é uma radical coerência política que ajuda a ilustrar um desejo intransigente de liberdade. Vi “Uma Noite de 12 Anos” poucos dias depois da tomada de posse de Jair Bolsonaro. Ao ver o filme sobre aqueles 12 terríveis anos de cativeiro, tortura e sadismo, e ao olhar para como foi Presidente e como continua a ser político, não pude deixar de pensar no contraste. De um lado temos um homem que lutou a vida toda, que sofreu a tortura e o isolamento durante anos, do outro um militar medíocre (apesar de ter a Academia Militar, nunca passou de capitão) e que vegetou num congresso durante 26 anos, sem nada de relevante ter ali produzido – conseguiu aprovar apenas dois projetos, mesmo quando havia largas maiorias conservadoras.

De um lado temos um homem que é, para qualquer pessoa, extraordinário. E é extraordinário porque se distingue de nós pela liberdade que escolheu para si e de praticamente todos os estadistas pela simplicidade que conseguiu manter. Fazendo dela uma mensagem política. E foi através dessa extraordinária diferença que se aproximou do povo. Do outro lado temos um homem boçal no trato e indiferente nas suas capacidades. E é através da semelhança com a banalidade humana, no que ela tem de pior, que ele se aproxima do povo. De um lado temos alguém que teve uma vida dura e que não guardou ressentimento. A sua mensagem é de tolerância. Do outro temos um tipo cuja vida não se distingue pela coragem ou pelo trabalho, mas pela capacidade de transmitir em público o pior dos sentimentos humanos: o preconceito, o ódio e o ressentimento. De um lado temos um discurso combativo mas nunca consumido pelo ódio, do outro temos o ódio como único programa político.

A democracia tende, pelo menos do ponto de vista simbólico, a igualizar o poder de todos. E é por isso que ela também tende para a mediania, que é a sua parte dececionante. As redes sociais vieram trazer uma coisa mais estranha, que alguns autores já tinham assinalado, há dois séculos, como um perigo democrático: o desprezo por tudo o que se distinga. Uma das coisas mais comuns no discurso político, à esquerda e à direita, é a ideia de que queremos “pessoas como nós” a representar-nos. Não aqueles que consideramos os melhores de nós. Na realidade, a tendência tem sido a de querer aqueles que representam o pior de nós. E que assim nos reconfortam.

Os heróis são os santos laicos. Precisamos deles como exemplo que nos permite a busca de um ideal. São uma espécie de utopia viva que nos dá um horizonte para onde caminhar. Não quero uma política feita de santos, quero uma política feita de pessoas. Mas no meio daqueles que nos representam tem de haver alguns exemplos que nos mobilizem. A diferença entre Mujica e Bolsonaro não é apenas política, apesar dela ser bastante relevante. As suas funções junto do povo são as opostas. Um é seguido pelo povo por ser aquilo que todos sentimos que devíamos ser. Eleva-nos. O outro é seguido pelo povo por ser aquilo que nós sabemos que não devíamos ser mas somos. Rebaixa-nos, porque nos autoriza a não querer ser melhores. Um teve uma vida extraordinária, outro teve uma vida ordinária, nos dois sentidos que a palavra tem. Um retirou do seu sofrimento (na luta armada e nos terríveis anos de prisão e tortura) alegria; outro retirou do seu privilégio (nas forças armadas onde foi um militar sem brilho, no Congresso onde foi deputado sem obra) ódio. Eles não são apenas dois olhares políticos, eles são, mesmo detestando maniqueísmos, o que mais se aproxima do bem e do mal. Mesmo com as contradições que cada um tenha, porque nem o bem ou o mal são simples.»

.

18.1.19

Ary dos Santos morreu num 18 de Janeiro



.

Marcelo no nosso labirinto




Baralhada me confesso: o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa vai a este evento religioso como jovem católico ou como presidente de Portugal?
..

Em tempos de Gerigonça, também se formam Zingarelhos




.

Robôs e outras coisas que vale a pena discutir



«Absorvido pelas agendas particulares que determinam a discussão pública, o país passa muitas vezes ao lado dos verdadeiros desafios do futuro próximo. Como o que um estudo da CIP põe em questão, ao alertar para a destruição de 1,1 milhões de postos de trabalho no curto prazo de uma década por força das mudanças em curso com a digitalização e robotização da economia.

Não é ficção científica, e mesmo que os mais cépticos tendam a encontrar alguma dose de exagero, os desafios com que a actual geração que trabalha ou a que se prepara para entrar no mercado laboral se confronta ameaça mudar radicalmente o mundo que conhecemos. Discutir as consequências dessa mudança nos empregos, na política, na geografia das cidades ou nas rotinas do quotidiano é uma obrigação.

PUB O impacte da robotização vai causar mudanças em todos os países desenvolvidos e se as perspectivas do estudo dirigido pela consultora McKinsey apontam para a destruição de mais de 20% dos postos de trabalho existentes, é porque Portugal continua sustentado num modelo de desenvolvimento que tolera vastas zonas de arcaísmo em que predominam os salários baixos. Muitos dos seus trabalhadores (uns 700 mil) poderão dispor de alternativas. Outros talvez não – porque o que se augura só em parte poderá ser uma destruição criativa. Muitas empresas e ofícios deixarão de fazer sentido.

É verdade que Portugal está mais bem preparado do que nunca para a quarta revolução industrial, como avisou o primeiro-ministro. Talvez – porque as exigências dessa revolução implicam uma noção de velocidade e de ruptura que tornam a era do vapor um idílico pôr-do-sol.

Mantendo as marcas da sociedade dual que o sociólogo Adérito Sedas Nunes detectou nos anos de 1960, com segmentos de produção científica e de organização empresarial do primeiro mundo com vastas camadas de população sem o ensino secundário a trabalhar em empresas ineficientes, Portugal vai sofrer um choque que ditará o seu próximo ciclo de desenvolvimento.

Entretidos com a próxima greve, o conflito politiqueiro ou com as indignações do dia das redes sociais, os portugueses estão a passar ao lado destas ameaças (e das suas oportunidades). Era bom que, para lá das medidas anunciadas pelo Governo, houvesse novas acções de formação, novos currículos escolares, mais estímulos à reconversão empresarial ou mais aposta na ciência.

Para lá chegarmos, porém, teremos de acreditar que no próximo ciclo político haverá oportunidade para discutir o país e não apenas a agenda da constelação de estrelas e de cometas que gravita em torno do Estado.»

Manuel Carvalho
.

17.1.19

Para festejar os 90, um Popeye politicamente correcto



«A nova série Popeye’s Island Adventures, disponível no YouTube, contará com 25 curtas animados para celebrar os 90 anos que o personagem completa em 2019. Os episódios apresentam um marinheiro de traços mais amigáveis, um apito no lugar do cachimbo e espinafre orgânico na dieta. Para quem não lembra, Popeye abria um enlatado com a hortaliça — agora, ele tem sua própria horta no navio.


E pachorra para aturar isto?
.

Françoise Hardy, 75



Françoise Hardy nasceu em 17 de Janeiro de 1944. Em 2015, em luta contra um cancro, anunciou que tinha posto fim à carreira. Mas venceu o dito cancro e lançou, em 2018, o seu 28º álbum: «Personne d’autre».

Seja como for, quando desaparecer, nós, «les garçons et les filles de son âge», ficaremos para sempre a dever-lhe memórias de ternura e de inocência. Voltar a ouvi-la, nos seus primeiros tempos, devolve-nos uma ingenuidade que parece hoje irreal, quase impossível que alguma vez tenha existido.

Do álbum de 2018:




Do álbum de 2012:




E, inevitavelmente, o início de tudo (1962), a canção ícone que ficou para sempre, com letra e música de sua autoria:


 .

A China, enquanto a Europa dorme




O corredor aéreo de Chongqing. 430 metros de largura a 300 metros de altura. (Ler mais informação aqui.)

Em 2004, quando lá estive, Chongqing, era uma cidade caótica, feiíssima, com uma poluição devastadora, nas margens do rio Yangtse. Era então «uma aldeia» com 9 milhões de habitantes e leio que tem crescido mais de 600.000 por ano. Safavam-se os pandas do Jardim Zoológico e os palácios do tempo de Chiang Kai-shek quando esta cidade foi capital da China. Hoje é assim…



.

Battisti, Marielle e "Bolsogate"



«De repente, os passageiros de um naviozinho que atravessava tranquilamente parte do rio Amazonas são surpreendidos por um cenário cinematográfico: a polícia abalroa a embarcação em plena caça ao homem, como num filme de ação americano, daqueles de sessão da tarde.

Além dos passageiros do barco amazonense, também funcionários de embaixadas estrangeiras em Brasília tiveram os seus pacatos e burocráticos dias desassossegados pela entrada abrupta de agentes excitadíssimos, na mesma caça ao homem, de arma em punho.

A família de um amigo do ex-presidente Lula da Silva parou tudo o que estava a fazer quando polícias, possuídos por um furor bélico, lhe invadiram a casa ainda na tal caça ao homem.

Foram cerca de 30 diligências deste tipo - à Inspetor Clouseau, portanto - em menos de um mês para tentar encontrar Cesare Battisti, um ex-terrorista de extrema-esquerda italiano, sessentão, que se exilou no Brasil por anos e era considerado foragido desde pouco antes do Natal.

Não estava no barco do Amazonas, em nenhuma embaixada estrangeira ou sequer escondido em casa de um amigo de Lula, como a polícia do Brasil supôs. Foi apanhado enquanto caminhava numa via de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, pela Interpol, por uma polícia especial italiana e por agentes bolivianos na peugada de Battisti naquela localidade há quase um mês, andavam as autoridades brasileiras à toa, de pista falsa em pista falsa.

O governo Bolsonaro, infestado de militares, ainda tentou sair bem na fotografia: após reunião com o presidente himself, o ministro da Justiça Sergio Moro e o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, o titular do Gabinete de Segurança Institucional general Augusto Heleno anunciou que de Santa Cruz, Battisti apanharia um voo para território brasileiro, enviando ao local uma aeronave paga pelos contribuintes para esse efeito.

Os italianos não quiseram saber e trasladaram o terrorista diretamente da Bolívia para Roma, passando por cima - literalmente - do Brasil.

O voo para Fiumicino decorreu a 14 de janeiro, dia em que passaram dez meses sobre o assassínio de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, cidade que passou o ano todo sob intervenção militar especial.

De então para cá, só se sabe que nada se sabe. Só não se sabe se não se sabe porque não se quer saber ou porque não se consegue mesmo saber porque má-fé e incompetência confundem-se entre si e confundem-nos a todos.

No início de dezembro, entretanto, estourou o "Bolsogate", um escândalo em que, desconfiam as autoridades, um assessor do ex-deputado estadual do Rio Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair, recolhia o dinheiro dos outros assessores todos, na sua maioria fantasmas, e os repassava ao deputado, prática velha e ilegal chamada localmente de "mensalinho". Até Michelle Bolsonaro, a primeira-dama, aparece como destinatária dessas transferências.

Solicitado a prestar esclarecimentos, o assessor em causa já se furtou duas vezes, alegando razões de saúde. Os seus familiares também escaparam. E Flávio, que tem a prerrogativa parlamentar de escolher hora e data para falar, ainda não se dispôs a enfrentar a justiça, lembrando a velha rábula do pai a fugir dos debates televisivos eleitorais.

Os dribles policiais de Bolsonaro e amigos, assim como os de Battisti e os dos assassinos de Marielle, são casos, entre outros, que servem para adensar a insegurança dos brasileiros em quem lhes deve garantir segurança.

Não é justo responsabilizar apenas o atual presidente, empossado no início do ano, por estes fracassos - mas é obrigatório exigir resultados durante o seu mandato.

Afinal, a segurança é a sua (única) área de expertise, o seu governo parece uma messe de oficiais na reserva e ainda cabe lá Moro, o implacável super-herói na luta contra o crime.

E afinal foi Bolsonaro quem deu em campanha eleitoral a solução genial para a guerra de traficantes na favela da Rocinha: distribuir, através de um helicóptero, milhares de panfletos no local a dar seis horas para os criminosos se entregarem. Caso eles não o fizessem, abrir fogo sobre a maior favela do país.»

.

16.1.19

Querem saber se ganha Rio ou Montenegro


.

“Salazar injetava-se com frequência” com um opiáceo “primo” da heroína



Se ainda não leu este livro, pode ouvir este podcast para abrir o apetite.



(Daqui)
.

Marcelo telefona, Cristas cozinha




Já deve haver inscrições de muitos outros políticos, agora que as eleições se aproximam. E como a SIC acabou com a «Quadratura do Círculo», talvez convença os seus membros a discutirem com a Cristina os amanhãs que não cantarão.

Hoje, marido uma filha e o cão de Cristas também estiveram no programa. E falando de Marcelo, ela confessou: «Já me ligou em momentos improváveis». Ui!... Em quais, em quais?

P.S. - Lido algures no Facebook: «Havia a esquerda caviar, agora há a direita arroz-de-atum»
.

Dica (843)



Rosa Luxemburgo: mujer, marxista, pacifista (Joaquín Oaquín Estefanía) 

«Antimilitarista, defensora de la democracia en el seno de la revolución, está considerada como la dirigente marxista más importante de la historia. Se cumple un siglo de su asesinato, pero su vasta producción teórica sigue viva.»
.

O PS suspira por Montenegro



«É intriga, é autofagia, será o que se quiser, mas é também rotina no PSD. Ora, se o enredo se repete ao longo dos tempos, conceda-se que a importância é escassa, pouco vale como telenovela, trama previsível, afinal só se contavam os dias para saber quando Montenegro “avançaria”, e pouco vale como drama, afinal tudo se encaminha para o resultado que se sabe. Tudo isto é sempre uma encenação sem adereços e sem narrativa, com uma “vaga de fundo” que são duas deputadas a ajustar contas, outros aliados a calcularem as forças para não se queimarem demasiado e só sobra Maria Luís Albuquerque, a anunciar, afoita, que sai do seu mutismo para arrasar Rio mas a ficar-se por um modesto “preferia diretas” e assunto arrumado. É tudo poucochinho, como agora se diz nestes casos de labirintos partidários. Também a coisa não merece mais: Montenegro colecionou trivialidades e apresentou-as como programa político, algum jornalista enfunou o drama pedindo respostas “já hoje” de Rio, até houve o frisson de saber o que teriam conversado Rio e Marcelo, que puseram de imediato a constar que terá sido só descentralização e um vago assunto internacional, tudo uma maçada, e o dia acabou pacato, sem efusões exageradas nem chuvas de telegramas. Qual era a pressa?

Resta o poder silencioso do primeiro-ministro. O que quer Costa de todo este espetáculo? Pois quer a vitória de Montenegro, já, implacável, suculenta. Por duas razões, cada uma mais importante do que a outra. A primeira é que um PSD mais histriónico é o único que pode voltar a colocar nos carris a ideia da maioria absoluta. A recuperar votos, o PSD não vai longe, mesmo que os passistas se entusiasmassem a deitar abaixo Rio (e ainda seria preciso que conseguissem o golpe palaciano). Há muito que o PSD está em baixo. Nas últimas eleições, em que PSD e CDS somaram os votos, por pior que estivesse o CDS o PSD não passaria de 28%, a marca que já tem desde Santana Lopes, com a exceção do momento de fulgor contra o demitido Sócrates (quando chegou a 38% e, logo depois, perdeu quase um milhão de votos). Nas autárquicas, Passos Coelho (e Montenegro, então seu ajudante) conduziu o partido a uma das suas piores derrotas, incluindo uma humilhação em Lisboa com 11%. Em resumo, os salvadores de hoje já gastaram a sua oportunidade para criar a primeira boa impressão e afundaram o partido. Por isso, o que um Montenegro mais declarativo e passadista pode fazer é simplesmente ajudar Costa a fingir uma bipolarização, de que este precisa como de pão para a boca para se dirigir ao eleitorado de esquerda e pedir a sua condescendência. Perdendo pouco à direita e tendo o patronato a pedir uma maioria absoluta do PS, um apelo ao voto de esquerda contra o “regresso da direita” seria um truque maravilhoso. Montenegro quer oferecer a Costa esse subterfúgio e o PS já o percebeu e reza por ele.

A segunda razão é que a substituição de líder do PSD nas vésperas das eleições, se Montenegro ganhasse, evidenciaria um sentimento de desespero que vulnerabiliza antes de mais o salvador, que depois vai perder todas as eleições nacionais (até a da Madeira pode perder). Então o PSD deitou o homem abaixo, ofereceu o maior que tinha e foi arrasado logo à primeira e à segunda? E vai Montenegro embora, vem outro. Para um Governo que, se voltar a enveredar pelo caminho tradicional do PS, será mais frágil em período mais difícil, este alívio dado por um ano de descalabro do PSD e, depois, pela sua derrota e mais algum tempo de confusão, é o mais saboroso dos presentes. Se o primeiro-ministro pensa a prazo, e pensa mesmo, este cenário Montenegro é a melhor oferta que lhe podiam fazer em 2019.»

.

15.1.19

O Brasil a ultrapassar as expectativas




«A Igreja Evangélica perdeu espaço na História. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas. Quando nós não questionamos. Quando nós não fomos ocupar a ciência. A Igreja Evangélica deixou a ciência para lá. "Ah, vamos deixar a ciência caminhar sozinha". E aí cientistas tomaram conta dessa área. E nós nos afastamos» – diz ela.
.

Luther King faria hoje 90



Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo.
.

Quando o PPD se dizia «de esquerda»



I Congresso do PPD, Novembro de 1974. Quando algum PSD não se cala com o regresso às origens, não perder esta pérola. 

(Via Renato Soeiro no Facebook)
.

As 50 sombras de um Portugal atrasado



«O PÚBLICO deu conta da notícia do Expresso sobre a retirada de alguns versos do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, de um livro escolar da Porto Editora. Estão em causa versos com notório conteúdo sexual.

O que me importa na notícia, para além de lamentar a mutilação de qualquer peça literária, em qualquer circunstância, é ainda a pequenez de espírito de algumas mentes que, por dever de ofício, deveriam revelar uma muito maior largueza de vistas.

Trata-se, contudo, de um mero sintoma de uma questão bem mais profunda e que permanece em Portugal à entrada da década de 20 do séc. XXI: o modo como se encara o sexo. E isto temporalmente próximo de uma reportagem em que se dava nota de “terapias de conversão” de homossexuais, alegadamente levadas a cabo por uma psicóloga que insistia em se afirmar católica e com o beneplácito de alguns sacerdotes. Que Freud e outros autores da sua escola de pensamento neguem a homossexualidade qua tale, é um facto científico já desmontado por quem estuda a área.

Somos, na verdade, uma nação que ainda não percebeu que a sexualidade humana é uma mera componente da nossa personalidade e que, sendo por certo de grande relevo, não nos define na totalidade, nem dita o que mais interessa na relação que estabelecemos uns com os outros. Significa isto que, numa sociedade em que o sexo se acha tão sobrevalorizado, dizer-se hetero, gay, bi, lésbica, intersexo, trans, ou qualquer outra coisa, é apenas e tão-só a assumpção, para o/a próprio/a de um rótulo que o/a ajuda a sentir-se enquadrado/a.

E o ser humano necessita, para se sentir mais seguro, de etiquetas. Sou do FCP, sou bancário, sou de esquerda, gosto de francesinhas, aprecio cinema de Hollywood. Uma espécie de cartão de cidadão que nos identifica quase sempre mais perante os outros que perante nós. E isto porque nós somos isso tudo e o seu contrário, dependendo dos dias, dos minutos e dos segundos.

Não se define o humano, por natureza indefinível, e o convite que os tempos actuais nos lançam é o de não insistirmos em definir as pessoas pelo seu sexo, orientação política, ideológica, pertença a um clube. Somos bem mais que isso. Qualquer caracterização serve apenas e tão-só para saciarmos a vontade humana de defesa do outro: ele/ela está já etiquetado/a e, por isso, dentro das minhas categoriais cognitivo-comportamentais, já sei como lidar com ele/ela.

Simplesmente, a auto e heteroetiquetagem podem provocar dores internas imensas. E dissabores profissionais. Pessoalmente, quando falo com alguém, por instinto, parto do princípio que essa pessoa é, no mínimo, dotada da mesma massa cinzenta que eu. É uma característica que me tem sido de grande utilidade, tantas são as vezes que vejo um engravatado fazer figuras tristes ante um suposto esfarrapado de cabelo desgrenhado e que lhe dá dez a zero em inteligência, argumentação e cultura.

Em Portugal, o hábito ainda faz, em grande medida, o monge. E se o hábito não corresponde à etiqueta, então não será grande coisa. Entre um advogado enfatado e um outro de jeans e t-shirt, p. ex., sem que se saiba nada sobre qualquer deles, é humano a maioria decidir-se pelo da gravata. Que pode bem ser o menos competente. Avaliamos ainda muito o conteúdo pelo recipiente, esquecendo que os melhores conteúdos se estão a marimbar para a suposta beleza onde se acham contidas.

A luta fratricida no PSD é mais um exemplo disto. Agora sabemos melhor quem são “eles” e “nós” e é caricato o coro de virgens ofendidas com a luta pelo poder de Montenegro e sua entourage. O que é um partido político senão uma forma mais ou menos organizada de chegar e conservar o poder, num sistema político que, imperfeito, é melhor que todos os demais juntos? Se é bonito, eticamente falando? Talvez não, mas também não é mais bonito ser frontal que andar diariamente a fustigar Rio pelas costas? E aí virá uma clarificação, pelo que voltamos à necessidade do preto e branco, do maniqueísmo que nos tem seguros (não é nenhuma piada ao lugar paralelo que se quer estabelecer entre a luta de galos Seguro/Costa). Tudo normal. Só fumaça. Apenas é notícia porque urge preencher o espaço.

Com o que se volta à absoluta necessidade que tantos têm de pensar por nós. “Estes versos podem chocar e é melhor tirar para não causar embaraços aos professores”. Mentes pequeninas. Nada deve ser truncado. E a reflexão que esses precisos versos provocaria em espaço de aula? E os professores não necessitam de ser provocados, certamente detendo estratégias que lhes permitissem explicar o agora truncado na economia do poema e da lírica pessoana? Mas não. Há gente que gosta de pensar por nós. E vai daí – mesmo que sem maldade –, quer-nos poupar a coisas “desagradáveis”. E o que é a vida se não um constante diálogo com sentimentos de dor e prazer, como diriam Bentham e companhia?»

.

14.1.19

PSD: época de saldos


,

Vão «parar Portugal»?



Movimento «Vamos parar Portugal»
Porto 13.01.2019

Via Ephemera no Facebook
.

«As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» (3)




Terceira parte da conversa de Fernando Rosas com Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, co-organizadores do livro «As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» no Socialismo 2018.

(Daqui)
.

“Coletes amarelos” e nouveau regime: mais um sinal para as democracias do mundo



«Na capa da edição online do jornal francês Le Monde está escrito: “Ato IX: 84.000 ‘coletes amarelos’ em toda a França, maior mobilização”. A reportagem continua dizendo que “O ato IX da mobilização de ‘coletes amarelos’ continuou no sábado, 12 de janeiro, dois meses depois do primeiro dia de ação, em 17 de novembro, e três dias antes do lançamento do ‘grande debate nacional’ desejado por Emmanuel Macron. No início da noite, o Ministério do Interior contava 84.000 manifestantes em toda a França (incluindo 8000 em Paris) e quase 35.000 a mais do que na semana anterior. Após uma diminuição na mobilização durante as férias, o protesto já havia se recuperado em 5 de janeiro, com 50.000 manifestantes (incluindo 3500 na capital). Para este nono sábado, várias chamadas foram lançadas por figuras do movimento: Paris, Bourges e várias outras grandes cidades. Alguns atos foram apimentados com violência no final do dia, mas nenhum grande estouro deve ser lamentado”.

Ao acompanhar a manifestação em Paris pude notar a estratégia inicial dos manifestantes divulgando mais de um lugar para a concentração a fim de confundir o serviço policial e o governo: a dúvida estava entre iniciar a caminhada do Arco do Triunfo ou da Praça da Bastilha (a distância entre os dois pontos é de aproximadamente seis km).

Fui para o Arco do Triunfo por volta das 10h da manhã e quase não havia manifestantes no local, poucos “coletes amarelos” se reuniram próximo a esquina da Avenue des Champs-Élysées. O aparato policial era poderoso, muitas viaturas e policiais bem armados já indicavam que a manifestação realmente seria de grandes dimensões.

Após conversar com alguns manifestantes e entender que, na verdade, o ponto de encontro seria na Bastilha, apanhei um desses patinetes elétricos para me deslocar mais rapidamente até ao local (os metrôs na região central estavam bloqueados devido aos protestos). A Bastilha era uma antiga prisão e ficou conhecida devido à sua tomada ter sido considerada o marco inicial da Revolução Francesa ocorrida a 14 de julho de 1789.

O chamado movimento dos “coletes amarelos” (Mouvement des gilets jaunes em francês) é um movimento de protesto que começou com manifestações na França em 17 de novembro de 2018. Suas principais reivindicações são inicialmente relacionadas contra o aumento dos combustíveis e posteriormente ampliadas contra as injustiças sociais de uma forma geral. O colete de alta visibilidade é item obrigatório em todos os carros na França, daí provém o nome do movimento.

Caminhar junto com os Gilets Jaunes durante cinco horas foi uma experiência interessante, pois foi possível notar a heterogeneidade do imenso grupo de manifestantes. As diferenças eram de natureza etária: jovens, crianças e idosos compunham o grupo. A diversidade ideológica também emergia das mensagens escritas nos coletes: uns contra o capitalismo, outros contra políticas ecológicas. Mas um tema parecia ser unanimidade nos gritos de guerra dos manifestantes e nas inscrições que carregavam nos coletes: a renúncia do Presidente francês Emmanuel Macron.

O alvo dos protestos é o establishment na sua face política, econômica e fiscal. Democracias tradicionais entram em colapso? É com essa pergunta que se inicia o livro de Steven Levinsk chamado Como as Democracias Morrem?, lançado logo após a posse do Presidente Donald Trump.

Os autores tratam da insatisfação com o estado atual de coisas que tem levado a escalada de movimentos radicais no mundo inteiro. A chamada extrema direita está ganhando cada vez mais espaço na Europa e nos EUA. No entanto, é importante notar que o movimento francês contra as medidas do governo Macron conseguiu reunir o cidadão médio (que se vê cada vez mais refém de tributos e taxas e com salários reduzidos), a extrema esquerda (anticapitalista), a extrema direita (anti-imigração).

Apesar da heterogeneidade mencionada, durante todo o percurso da Bastilha até o Arco do Triunfo houve cooperação e harmonia entre os manifestantes. Durante a passagem do imenso grupo por um cruzamento, os organizadores orientaram os demais manifestantes a fim de que abrissem passagem para uma ambulância que passava na rua perpendicular.

Na chegada ao Arco do Triunfo iniciou-se o confronto entre os manifestantes e o grupo de policiais que tentou conter a passagem do grupo utilizando bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. A tensão tomou conta da Praça Charles de Gaulle e a dispersão de idosos e crianças foi necessária dado o nível de violência entre manifestantes e policiais.

As democracias e os direitos sociais estão sofrendo um processo de desgaste ao redor do mundo: escândalos de corrupção, mal-uso do dinheiro público, injustiças sociais e deficiência na prestação dos serviços públicos como saúde, educação e segurança que reforçam desigualdades têm afetado negativamente a percepção da humanidade sobre a eficiência da democracia como regime de governo “menos pior”.

Nenhum regime político foi, é ou será perfeito. As lideranças do mundo devem ficar atentas ao recado dos “coletes amarelos”, pois estamos vivendo um tempo em que a cidadania exige mais transparência, prestação de contas e redução de privilégios para grandes bancos, multinacionais, magnatas e poderosos.

Há pouco mais de 200 anos, bem aqui na França, foi derrubado o chamado ancien régime feudal. Se as democracias não respeitarem tais reivindicações e se adequarem aos novos tempos, podemos estar presenciando o início de uma nova era. Uma era ainda desconhecida.»

..

13.1.19

O «Público» esgotou hoje?



Dizem-me que sim, em muitos locais onde habitualmente se acumula. Adivinhem porquê. Nobre povo, aos pés de Cristina.
.

O Estado Novo era de direita?



Não ponho aqui o link, mas o texto é todo ele fantasmagórico.
.

«As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» (2)




Segunda parte da conversa de Fernando Rosas com Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, co-organizadores do livro "As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação" no Socialismo 2018.

(Daqui)
.

A guerra de audiências é tão feia



«Percebe-se bem a zanga que lavra nesta guerra pelas audiências: nas vésperas da estreia do programa da Cristina Ferreira, Goucha convidou um nazi, a coisa parecia ter corrido bem, falou-se do caso, mas acabou por dar bernarda, perdeu logo a liderança das audiências, e daí encontrou um santo remédio, anunciou um fascista para a semana seguinte, Alexandre Frota. É uma galeria de horrores? Que nada, é uma feroz guerra pela audiência e pela publicidade, é dinheirinho. E, se o Presidente telefona à Cristina, a resposta é convocar a coleção dos energúmenos que parece que Goucha quer adotar. Se uma chora de comoção pela honraria, o outro promete o ator porno que se vangloria de uma violação, agora justificada como uma comédia stand up, entre muitas outras aleivosias (e depois o homem não vem no dia aprazado, malcriado). O sujo é mesmo sujo.

O convite de Goucha a Mário Machado foi interpretado como um gesto político e o convite a Frota logo de seguida só reforçou essa ideia. Mas continua a ser errada uma grelha de leitura política ou a teoria sobre a invasão fascista na comunicação social (já nem me refiro à pretensão de que um programa com um delinquente é uma restituição do pluralismo que falta). O único motivo de Goucha é a guerra das audiências, o que não desvaloriza o convite a um delinquente condenado a uma soma de 19 anos de prisão, e nazi declarado, ou vontade de promover o porradismo de Bolsonaro. Aliás, Goucha tentou apresentar Machado como um homem de “ideias” e o convite como uma forma de democracia, ou até de higiene preventiva, mas recuou logo e suspendeu a rubrica. Insistiu depois convidando Frota porque os números foram constrangedores: estava a valer metade do programa concorrente. A bolsa das audiências é que ativa o disparatómetro em que se tornou esta novela. Pode-se por isso temer que o programa passe a incluir, depois das receitas de cozinha, uma secção para ouvir os simpáticos milicianos que depois da emissão tiram a maquilhagem, dizem boa-noite e vão organizar a caça aos negros ou aos homossexuais, ou espancar mulheres pelas ruas fora. Se der audiências, pode estar certo que vai ser proposto.

De tudo, o que verdadeiramente me incomoda é que esta questiúncula, provocada por uma escolha publicitária que mostra como, na luta por umas receitas de bilheteira, um programador até pode utilizar a promoção da indiferença perante as violências racista e fascista e outras barbaridades, oculta o que é verdadeiramente perigoso. É mesmo essa guerra sem freio pelas audiências. Esse é o vale tudo. E esse vale tudo até já está entre nós em modo ambicioso, num canal perto de si, e tem estaminé no sofisticado populismo de gravata, que carimba as opiniões, que exibe a pretensão de falar com o povo, se não mesmo em nome do povo. Essa é a televisão de grande audiência que pode vir a ajudar um futuro partido de extrema-direita ou simplesmente a transformação de alguns dos partidos atuais. Deixemos o Machado na cela que escolheu, há por aí gente mais perigosa e que parece mansa, mas que, como diria o Aleixo, não sendo o que parece, parece o que não é.»

.

12.1.19

Dica (842)




«Right-wing populist parties in Europe have been gaining strength for years. Now, they hope to use European Parliament elections in May as a springboard for gaining greater influence in the EU. Surveys indicate they may be successful.»
.

No PSD, a realidade ultrapassa a ficção



Pedro Santos Guerreiro no Expresso de 12.01.2019.
.

«As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» (1)




Primeira parte da conversa de Fernando Rosas com Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, co-organizadores do livro "As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação" no Socialismo 2018.


A segunda parte será disponibilizada mais tarde, hoje ou amanhã.
.

No jornalismo o mais importante é a informação



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Um dos problemas do jornalismo contemporâneo português é a sua pouca atenção à informação e a sua substituição pela opinião. A opinião é um elemento importante do tecido democrático que estende pelo espaço público o debate, mas não substitui a informação, o velho programa do jornalismo de “quem, o quê, quando, onde, porquê e como”. Ora o que se está a passar é uma contínua degradação da informação e, pior do que isso, da “vontade de informar”, em detrimento de uma informação opinativa, uma forma de “narrativa” que envolve subjectivamente o seu autor naquilo que relata, e o prende a uma sucessão de opiniões e a uma escassez ou deturpação de informações.

Já tenho várias vezes denunciado esse processo que se tem acentuado à medida que as redacções se tornam mais desertificadas, mais hierarquizadas e mais feudalizadas. E é um processo mais grave na imprensa de referência. Quem cobre um partido, ou uma área da cultura, ou do espectáculo, ou uma manifestação de rua, é hoje pouco mais do que um jornalista ou dois, e muito menos uma equipa, mesmo nos grandes jornais. Esse(s) jornalista(s) é (são) “especializado(s)” num assunto, o que em si é positivo, mas detêm o controlo da “narrativa” sobre esse assunto, o que é mau. Isto soma-se ao efeito do “jornalismo de rebanho” que isola as opiniões solitárias e tende a uniformizar o produto final, e a diminuir o pluralismo.

São eles também que falam com as “fontes”, muitas delas abusivamente anónimas, e com todos os problemas que essa relação tem, havendo quase sempre uma espécie de tradoff entre jornalista e "fonte". E não adianta rasgar as vestes porque toda a gente sabe que é assim, a que acresce a relação muito menos transparente com as agências de comunicação. Ainda me estão por explicar por que razão quando uma empresa, um escritório de advogados, uma consultora, paga a uma agência de comunicação consegue “colocar” as sua notícias e quem não tem ou não paga o serviço, não consegue publicar nada, independentemente do seu valor informativo. Os casos mais evidentes são as páginas especializadas, por exemplo, do jornalismo económico.

Existe jornalismo tendencioso por simpatia política, mas nem sequer é disso que estou a falar, embora o produto final possa caber nessa categoria. Um exemplo, do falhanço de informação, que neste caso não cumpriu a obrigação de informar, foi o completo desconhecimento na campanha eleitoral brasileira para as presidenciais em Portugal, de que havia uma forte simpatia a favor de Bolsonaro, que depois se revelou nas urnas. Os nossos jornais dedicaram muito mais atenção ao PT, nem sequer se interessando por um fenómeno também nacional.

Mas voltando à feudalização crescente nos jornais - o jornalista A “manda” no que se publica sobre a Europa, o B sobre a crítica de livros, o C sobre o PS, etc. - e condiciona a “narrativa” sobre essa matéria, e nesse caso acaba por ser envolvido no que escreve. Se diz que um autor ou um artista são muito bons, muito dificilmente dirá que são maus, mesmo que as suas obras futuras sejam de inferior qualidade. O mesmo se passa com a apreciação das pessoas em que factores de simpatia ou antipatia são inevitáveis e acabam por condicionar a “narrativa”.

O que acontece é que se algum facto ou actuação colocar em causa a apreciação jornalística, quem fica em causa é também o jornalista, porque algures cometeu um erro de julgamento ou de apreciação, ou porque se envolveu tanto com uma opinião pessoal ou de grupo, que não pode, consegue ou deseja sair desse casulo em que se meteu. E é por isso que as “narrativas” não mudam, porque há uma resistência psicológica à mudança, quando ela põe em causa todo um perfil, toda uma série de apreciações, toda uma sucessão de opiniões. É por isso quando alguém é bom, ou esperto, ou hábil, ou responsável, fica sempre assim, porque não são os factos que mandam, mas o julgamento opinativo do jornalista. E quem é mau, ignorante, desleixado, incompetente, fica também sempre assim, pelas mesmas razões.

Com a solidificação da “narrativa”, os factos deixam de contar porque ou são híper-valorizados para acentuar uma opinião, ou são ignorados se se tornam “factos incómodos”, porque colocam em causa a apreciação que o jornalista tem feito, nalguns casos de há muito tempo para cá. Não é difícil fazer uma lista de amizades, ódios, gostos e desgostos, em que se percebe bem demais a simpatia ou a antipatia em todas as áreas do jornalismo. Com a escassez de pessoas e o pouco trabalho de equipa, a feudalização e o mandarinato, os jornais são sucessões de opiniões com muito pouca informação por trás. No caso dos jornalistas individuais, isto pode ser psicologicamente compreensível, mas é mau jornalismo.»
.