18.4.19

Uma campanha democrática, sem mentira e desinformação



NO DIA 25 DE ABRIL, APELAMOS À CIDADANIA PARA UMA JORNADA DE DENÚNCIA DOS MAIORES FOCOS DE NOTÍCIAS FALSAS NAS REDES SOCIAIS PORTUGAL.

A desinformação e mentira nas redes digitais tornou-se um perigo real para a nossa democracia. Notícias falsas sempre houve, mas a internet e as redes sociais garantem hoje um meio de difusão com alcance crescente. Dos Estados Unidos da América ao Brasil, as consequências nefastas da intoxicação do debate político obrigam à ação. Segundo o Reuters Institute, o alcance de conteúdos falsos é, nas redes sociais, muito maior do que conteúdos noticiosos de fontes credíveis. Este movimento de cidadãos pretende contribuir para a transparência do debate público enfrentando a desinformação e a mentira. Quando vale tudo, é impossível a democracia baseada na escolha informada. A internet não deve ser o espaço da política suja.

Este ano há três eleições: Europeias, Regionais da Madeira e Legislativas. Apelamos a todos para que assumam publicamente um combate à mentira e desinformação, rejeitando qualquer prática que as promova nas redes sociais, nomeadamente a partilha de conteúdos provenientes de sites noticiosos não registados, seja em perfis oficiais ou não oficiais. Igualmente, os perfis e contas falsas nas redes sociais devem ser ativamente combatidos e bloqueados por partidos e políticos com presença nas redes sociais.

Estas práticas devem ser também as de todos os cidadãos, que têm ferramentas de denúncia e bloqueio disponíveis em cada rede social.

Propomos à cidadania que o dia 25 de abril, 45º aniversário da democracia em Portugal, seja a jornada #25abrilnaRede de neutralização dos maiores focos de notícias falsas nas redes sociais portuguesas, que iremos denunciar e bloquear.

Em 2019, decidiremos o nosso voto sem a intoxicação de quem despreza a democracia.

PRIMEIROS SUBSCRITORES:

Cristina Carvalhal
Cucha Carvalheiro
Daniel Oliveira
Diana Andringa
Filomena Cautela
Isabel Abreu
Joana Lopes
Joana Solnado
Olga Roriz
Pedro Vieira
Rueffa
Sara Carinhas

Manifesto, AQUI.
.esto:  

Pedro Nuno Santos? Venham mais cinco



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Sondagem Europeias



A Aximage divulgou hoje as seguintes previsões quanto a eleição de número de eurodeputados portugueses:

PS    – 8
PSD – 8
CDU –2
BE –    2
CDS – 1
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"Fuck them"



«O conceito de Verão Quente mudou em 2006. Às elevadas temperaturas - normais para aquela altura do ano - juntaram-se os inevitáveis incêndios que voltavam a consumir milhares de hectares de floresta e ainda o BCP. O maior banco privado português, que havia falhado, na primavera, uma OPA sobre o BPI, tinha em curso uma guerra pelo poder. De um lado estava o fundador do banco, Jardim Gonçalves. Do outro, o seu ex-delfim, Paulo Teixeira Pinto.

O banco ardia em lume brando há vários meses e não faltavam pessoas disponíveis para atirar cada vez mais gasolina para a fogueira. Uma dessas pessoas era o empresário José Berardo. Joe para os amigos, comendador para os jornalistas.

A história do self-made man sempre "vendeu" bem. O madeirense que veio do nada, que emigrou para a África do Sul e fez fortuna - ainda que nunca ninguém tenha percebido exatamente como - tinha, ainda por cima, uma maneira engraçada de falar. Ao português que mesclava a pronúncia madeirense com o inglês sul-africano, Berardo juntava ainda um guarda-roupa muito próprio, típico de um empresário que veste sempre de igual para não perder tempo a pensar no outfit que vai ter de usar todos os dias.

Durante aqueles meses de 2006, o comendador fez as delícias das audiências televisivas, desdobrando-se em entrevistas que lhe serviam o duplo propósito de alimentar o ego e tentar convencer os acionistas do BCP a apoiar Paulo Teixeira Pinto e afastar, definitivamente, Jardim Gonçalves do poder.

Mas, para lá chegar, esta estratégia, por si só, nunca seria suficiente. Berardo precisava de arranjar aliados e, sobretudo, de conquistar o poder acionista dentro do banco, de forma a poder ter uma palavra cada vez mais decisiva nas assembleias gerais.

O empresário madeirense, que começou por ter uma pequena participação no banco, foi aumentando o capital ao longo dos anos 2006 e 2007. Em plena crise do BCP, e com as cotações hiperinflacionadas, Berardo mais do que duplicou a sua participação, chegando mesmo aos 7%. O "como" não será, seguramente, apenas mais um pormenor desta história, mas o diabo, esse, esteve sempre lá.

Para alimentar esta espécie de brincadeira de adultos, Berardo financiou-se onde pôde. Ou, neste caso, onde tinha "amigos". A começar pelo BCP - pois claro -, seguindo-se o BES - what else? - e a Caixa Geral de Depósitos, onde, à época, pontificavam nomes como Carlos Santos Ferreira, Armando Vara ou mesmo Carlos Costa, o atual governador do Banco de Portugal, que não viu, não esteve, não sabia.

Foi nestes três bancos que Berardo se armou até aos dentes para travar a guerra de poder que estava em curso no BCP. Empréstimos de milhões de euros, que serviam para comprar ações do banco e que tinham como colateral as próprias ações. Como se de ouro se tratasse. Como se nenhum dos administradores que autorizaram estes empréstimos soubesse o risco que estavam a correr. Eles não - nós.

Uma das tarefas mais difíceis para um jornalista de economia, na altura, era conseguir explicar às pessoas - e, às vezes, à própria redação - porque é que a guerra no BCP era tão importante para o país. Que não se tratava apenas de uma novela cujo guião continha todos os ingredientes para ser um sucesso de audiências: dinheiro, traição, poder, teias de influência, maçonaria e Opus Dei. O que se passou no BCP entre 2006 e 2007 era importante sobretudo porque estava em curso a destruição do maior banco privado português. Com todos os efeitos sistémicos que isso teria para o país.

Treze anos depois, é hoje possível termos uma noção mais clara da dimensão dos estragos. Não foram apenas a instabilidade acionista que se seguiu, a ajuda que o Estado teve de dar ao banco - e que, entretanto, já foi paga -, os milhões de euros em crédito malparado que a atual administração ainda hoje anda a limpar. A consequência da irresponsabilidade de pessoas como José Berardo, mas sobretudo de quem lhe emprestou dinheiro de olhos fechados - ou bem abertos, depende da perspetiva -, é um calote de 980 milhões de euros a três dos mais importantes bancos portugueses: a Caixa, o Novo Banco e o BCP. Fora todos os outros bancos a quem Berardo também continua a dever dinheiro.

Não será preciso lembrar que a Caixa, o Novo Banco e o BCP custaram-nos - e continuam a custar - muito dinheiro. Que são três dos mais importantes bancos do sistema financeiro português, a quem o Estado teve que dar a mão para não fecharem as portas. Mas talvez seja útil recordar que muitos dos responsáveis por este "assalto" continuam a exercer atividade na banca. Que nenhum impedimento caiu sobre eles. Não será de mais sublinhar que houve quem fosse promovido: Vítor Constâncio - o governador do Banco de Portugal à época, a quem agora deu um ataque de amnésia - subiu a vice-presidente do Banco Central Europeu. Carlos Costa - o homem que não viu, não soube, não estava - passou de regulado a regulador.

Sobra-nos o próprio Joe Berardo. O investidor multimilionário que continua a passear-se pelas suas quintas e pelo museu onde expõe algumas das obras de arte mais caras do mundo, que aparentemente só tem em seu nome uma garagem no Funchal. A estratégia tem tanto de velha como de conhecida. E se é estranho, em 2019, continuarmos a contar histórias destas, é, no mínimo, revoltante perceberemos que ainda há no país muitos Berardos a gozar connosco. Citando o próprio comendador: "Fuck them"

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17.4.19

Nem com açúcar e com afecto


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Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos - Inauguração



25 de Abril, 14:00, Estação de metro Baixa-Chiado, em Lisboa.

Primeiros minutos de um filme que poderá ser visto num dos televisores do Memorial:


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Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

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Saudades, quem as não tem


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16.4.19

Marisa Matias sobre refugiados, imigrantes e a «Europa Fortaleza»





(Daqui)
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16.04.1975 – O dia de muitas nacionalizações


@Alfredo Cunha

Logo após o 11 de Março de 1975, mais concretamente por decretos publicados nos dias 14 e 15, foram nacionalizadas quase todas as instituições de crédito e de seguros.

Mas 16 de Abril foi um marco importante no processo, já que foi longa a lista de empresas que passaram a ser controladas pelo Estado nessa data: TAP, CP, empresas portuguesas refinadoras e distribuidoras de petróleo, de transportes marítimos, de siderurgia e empresas produtoras, transformadoras e distribuidoras de electricidade – entre as quais a Companhia Nacional de Navegação, Siderurgia Nacional, Cidla, Sonap e Sacor.

Ainda de madrugada, o PS emitiu um comunicado em que «saúda as decisões (...) e apela para que o maior número de militantes e simpatizantes se associem à festa socialista, no próximo Domingo, às 15h30, no estádio 1º de Maio, em Lisboa, onde será manifestado o regozijo dos socialistas por essa decisão histórica e o apoio do PS ao MFA e ao Governo Provisório». (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p.77)

Para esse mesmo dia, ao fim da tarde, foi convocada uma manifestação – promovida pelo PCP e com a adesão de MDP/CDE, MES, FSP, Intersindical, LCI e PRT – de «apoio» e «regozijo» com as nacionalizações. Do Rossio a S. Bento, 100.000 pessoas (segundo notícia do Diário de Lisboa de 17 de Abril) desfilaram com bandeiras de partidos e de comissões de trabalhadores. Por volta das 23:00, Vasco Gonçalves, então primeiro-ministro do IV Governo Provisório, recebeu na residência oficial representantes dos partidos, que lhe manifestaram total apoio às medidas decretadas e a eventuais futuras com a mesma orientação.

(O Diário de Notícias de hoje assinala a data: Aconteceu em 1975 - O apogeu do PREC.)
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Paris, ainda



Dizem-me que se trata de uma montagem. Que seja...
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A maior conquista da geringonça



«Os anos eleitorais não são bons para fazer balanços. Há demasiados atores políticos interessados em influenciar a perceção do mundo. Mesmo quem se esforça por manter uma distância crítica é afetado pelo ruído mediático ou pelas suas próprias convicções. Por estas e outras razões, a prudência recomenda que se aguarde alguns anos até fazer um balanço rigoroso dos fenómenos políticos. Com todas estas cautelas, há um aspeto que pode vir a revelar-se o maior contributo da geringonça para o desenvolvimento do país: a confiança na democracia.

Todos os dias assistimos a histórias de comportamentos menos éticos na vida política, pelo que a ideia pode parecer estranha. Mas os dados são claros: Portugal é desde 2015 um caso exemplar de reforço da confiança dos cidadãos nos atores e nas instituições democráticas. É isto que mostram os resultados do Eurobarómetro, um inquérito de opinião bianual da Comissão Europeia.

No outono de 2015 apenas 15% dos portugueses confiavam no governo e 18% no parlamento. Tal como nos restantes países do sul, estes valores encontravam-se abaixo da média da UE (27% e 28%, respetivamente). Segundo os últimos dados disponíveis, no outono de 2018 a situação tinha mudado de forma clara: os níveis de confiança em Portugal subiram para 37% no caso do governo e para 43% no caso do parlamento. Ao contrário do que era costume, os níveis de confiança naqueles órgãos de soberania em Portugal encontram-se agora acima da média da UE (35% em ambos os casos).

O mesmo não aconteceu noutros países do sul. Por exemplo, segundo os últimos dados, em Espanha a taxa de confiança no governo é de apenas 19% e no parlamento de 15%, um pouco acima do verificado em 2015, mas muito abaixo da média da UE.

No que respeita à perceção dos cidadãos sobre o sistema democrático a situação é semelhante. No outono de 2018, 64% dos portugueses diziam-se satisfeitos com o funcionamento da democracia no país, acima da média da UE (57%) e muita acima dos níveis dos outros países do sul (26% na Grécia, 40% em Espanha e 42% em Itália).

Nos últimos anos Portugal foi visitado por dezenas de jornalistas de vários países europeus que vêm tentar perceber o que alguns apelidam de "milagre português". Na maioria dos casos, quem nos visita não têm em mente os dados que referi. O que os motiva é saber como foi possível compatibilizar o aumento dos salários e dos direitos, o cumprimento das regras orçamentais da UE e a redução do desemprego.

Quando me perguntam, respondo que não há milagre nenhum. Há, em primeiro lugar, um contexto internacional favorável: baixas taxas de juro, preço do petróleo moderado, câmbio do euro face ao dólar competitivo e bom desempenho económico dos países da zona euro (que se reflete, entre outras coisas, no crescimento do turismo). A nível interno, a devolução de rendimentos e, acima de tudo, o fim da ameaça permanente de novos cortes, contribuíram para o crescimento do consumo interno. A capitalização do sistema financeiro nacional, por muito questionável que seja o modo como foi conseguida, afastou do horizonte os piores cenários de instabilidade. Tudo isto somado gerou confiança e permitiu alguma recuperação do investimento.

A solução política inovadora adotada em novembro de 2015 também contribuiu para a recuperação económica por duas outras vias: reduziu os níveis de conflitualidade social e contribuiu para passar a imagem de um país em que as mudanças de ciclo político podem fazer-se sem sobressaltos (o que investidores estrangeiros apreciam).

Mas as conquistas da geringonça vão muito além dos contributos que deu para a retoma económica. As democracias representativas são sistemas frágeis. Baseiam-se na confiança dos eleitores nos representantes que elegem e nos governos que daí resultam. Poucos em Portugal estarão convencidos de que os políticos são todos competentes e impolutos. No entanto, as pessoas estão hoje mais convencidas do que no passado (e bastante mais do que em países comparáveis) de que a democracia funciona, de que o governo existe para promover o bem comum e de que o parlamento cumpre o seu papel de representação da vontade dos cidadãos.

No mundo em que vivemos, o aumento da confiança na democracia não é uma conquista menor da geringonça. Ainda que fosse só por isto, já teria valido a pena.»

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Paris, sempre Paris



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15.4.19

Paris - Não há palavras




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O drama de Tiananmen começou há 30 anos



Foi no dia 15 de Abril de 1989 que tiveram início os protestos na Praça Tiananmen, em Pequim, desencadeados pela morte de Hu Yaobang, ex-secretário geral do Partido Comunista Chinês, anteriormente afastado por defender a necessidade de uma liberalização a nível político.

Na véspera do seu funeral, concentraram-se na Praça cerca de 100.000 pessoas, de lá os protestos irradiaram para diversas ruas de Pequim e, mais tarde, contagiaram outras cidades chinesas. Foram-se repetindo até que, menos de dois meses mais tarde, aconteceu o que todos sabemos, mas alguns ainda tentam ignorar: no início de Junho, os tanques avançaram brutalmente sobre a mítica praça da capital chinesa e tudo acabou em tragédia.

Porque se assinala hoje o 30º aniversário do início dos protestos há relatos de protagonistas, como o de Cheng Xin que declara que «o espaço das liberdades públicos se reduziu desde há trinta anos» e que a Praça Tiananmen nunca poderia ser tomada de assalto hoje, como o foi então: há que passar por entradas de segurança, câmaras que tudo espiam, etc., etc. Estive lá há um ano, confirmo tudo isso e acrescento: 1989 continua a ser tabu intransponível e retive o silêncio da simpática guia que nos acompanhava e que, várias vezes interrogada, foi dizendo que dos acontecimentos de 1989 «nada sabia», que nasceu e vivia então na Manchúria, que nada viu, que não se aprende na escola, que há muitos milhões de chineses que nunca ouviram falar desse não assunto. «Não sei nada, não posso saber, não insistam, por favor.»






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Sustentabilidade do sistema de pensões português



Quem não quiser alinhar à toa na histeria que grande parte da esquerda, alimentada por uma comunicação social irresponsável, alimentou sobre o ESTUDO que a Fundação Francisco Manuel dos Santos adjudicou ao ICS, pode ler AQUI o respectivo resumo. É longo? Sim, é, mas lê-se facilmente.

E que venham «contra-estudos», também académicos, já que só indignações de ministros, ou recurso ao dinossáurico «Livro Branco», nem em trotinetas servem para ir ao encontro do que aí vem. Inteligência Artificial e impacto no mundo do trabalho, decréscimo de população, etc., etc. não são histórias para embalar meninos, mesmo portugueses.
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O poder das famílias e dinastias



«Quando se fala tanto do poder das famílias, talvez convenha descobrir como funciona. Primeiro mecanismo, a fortuna, a base do poder, herda-se, esse é o princípio de tudo. Dois investigadores do Banco de Itália descobriram uma base de dados sobre heranças: usaram os dados fiscais de Florença desde 1427 (quem diz que os italianos são desorganizados?) e verificaram que as famílias mais ricas desse período tiveram uma probabilidade excecional de vir a gerar descendentes bafejados pela fortuna em 2011, quase seis séculos mais tarde. Os autores concluem que há um “efeito duradouro do estatuto socioeconómico dos antepassados”.

Um segundo mecanismo é a fidelidade de classe. Três universitários, da Dinamarca e de duas faculdades da Califórnia, estudaram um caso e fizeram a seguinte pergunta: o que é que aconteceu às fortunas dos proprietários do sul dos Estados Unidos com o fim da Guerra Civil em 1865, sabendo que parte da sua riqueza eram escravos que foram emancipados? Foi um choque, os 10% mais ricos perderam 73% do que tinham. Mas em 1880 os filhos tinham recuperado as fortunas e em 1900 eram mais ricos do que os pais esclavagistas. A razão do sucesso foi a cooperação nas redes sociais dos proprietários. Nas famílias poderosas, a fortuna herda-se e garante sempre um ponto de partida mais à frente.


Dinastias

Foi assim que se ergueram as dinastias, que estão por todo o lado. Em Itália, a família Agnelli tem dominado 10% da bolsa (e a Juventus). Embora seja uma grande proporção para o padrão europeu, não é inaudito. As principais 10 famílias de Portugal controlavam 34% da bolsa (até ao colapso, em 2014, do grupo Espírito Santo) e o valor na França e na Suíça é de 29%. Na Suécia, o grupo dominante, a família Wallenberg, tem quase metade do mercado bolsista, com a Ericsson, SAS, SAAB, Electrolux, Atlas Copco, Café Ritazza, a farmacêutica AstraZeneca e outras empresas. Na Alemanha, os Quandts são os principais acionistas da BMW, que inclui a Mini e a Rolls-Royce.

Na Ásia, as dinastias são ainda mais dominantes: as primeiras 15 famílias de Hong Kong detêm 84% do PIB; na Malásia, as 15 mais ricas têm 76% do PIB, em Singapura 48% e nas Filipinas 47%. No Equador, a família Naboa é dona do quinto maior produtor do mundo de bananas e de 40% das exportações. Na Coreia do Sul, os maiores conglomerados são todos familiares, como a Samsung, Hyundai, LG, CJ, Hanwha, Lotte, Hanjin e GS Group.

Nos EUA, seis Waltons e dois Kochs, possuem tanta riqueza quanto 44% da população. Os Waltons têm cerca de 150 mil milhões de dólares — o PIB de um país desenvolvido de dimensão média — com a WalMart, a maior cadeia retalhista do mundo. Os Kochs são os grandes financiadores da extrema-direita no país. O capital move-se em família.


Demasiados herdeiros

No entanto, a herança pode ser um problema, o número de herdeiros cresce depressa. Nos EUA, de acordo com a “Forbes”, temos os Rockefellers (200 pessoas com 8,5 mil milhões de dólares), os Mellons (100 com 10 mil milhões) e os Du Ponts (300 elementos com 12 mil milhões); a França tem a família Michelin (400 pessoas com 1,2 mil milhões); a Alemanha tem as famílias Porsche e Piech, donos da Volkswagen (50 com 10 mil milhões), a Boehringer (12 com 10,2 mil milhões) e a Merck (100, donos de 4 mil milhões); no Canadá estão os Bombardiers (7 pessoas com 2,7 mil milhões); e, espalhados pela Europa e pelos EUA, os Rothschilds (10 pessoas com 1,5 mil milhões). Os Wendels empregam mais de um milhar de membros da família nas suas empresas Saint-Gobain e Nippon Oil Pump. Na família Mulliez (dona da Auchan, Decathlon e Leroy-Merlin Boulanger), mais de 600 elementos da família têm ações da empresa-mãe, mas seguem um pacto interno rígido que controla a liderança da empresa.

Na China, 103 descendentes dos “oito imortais” do tempo de Mao Tsé-Tung dirigem grandes empresas estatais. Três deles dominam um quinto da economia chinesa. Na Dalian Wanda, que afirma ter “120 vezes mais funcionários do que o Vaticano” e detém propriedades em Beverly Hills, os cinemas AMC e uma parte do Atlético de Madrid, há ações reservadas para a irmã mais velha do Presidente Xi Jinping e para a filha do antigo primeiro-ministro Wen Jiabao. As famílias são poder.


Herdeiros ou empresários?

Caroline Freund, antiga economista-chefe do Banco Mundial, estudou se as fortuna herdadas são mais importantes do que as fortunas recém-construídas. Descobriu que a percentagem de multimilionários que devem a sua posição à herança diminuiu em duas décadas de 55% (em 1996) para 30,4% (em 2014). Não obstante, nos EUA o valor chega a um terço e é mais de metade na Europa. Freund notou também que nas economias emergentes o valor das fortunas novas saltou dos 57% (1996) para 79% (2014). Seria esse o caso de Terry Gou, do gigante eletrónico Foxxconn, com um milhão de funcionários; de Zhou Qunfei, a mulher mais rica do mundo, da Lens Technology; ou dos dois gigantes da internet, Jack Ma (Alibaba) e Robin Li (Baidu). Mas aqui aparecem outras redes de ligações: no nosso século, empresas que já representam 8% da capitalização financeira mundial são geridas por familiares dos líderes políticos dos respetivos países. Foi o poder que fez as fortunas em Angola ou a oligarquia na Rússia, por exemplo.

É melhor levar a sério este poder. Pelo controlo das bolsas, da banca ou de governos, estas famílias são capital que manda no mundo.»

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14.4.19

Carta aberta de Jô Soares «ao Ilmo. Sr. Presidente Jair Bolsonaro»



Caro presidente Jair Bolsonaro. Entendo a reação provocada quando o senhor afirmou que o nazismo era de esquerda. Isso se deve ao fato de que, depois da Primeira Guerra Mundial, vários pequenos grupos se formaram, à direita e à esquerda.

Um desses grupos foi o NSDAP: em alemão, sigla do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Entre seus fundadores originais havia dois irmãos: Otto e Gregor Strasser. Otto era um socialista convicto, queria orientar o movimento do partido à esquerda. Foi expulso e a cabeça posta a prêmio.

Seu irmão Gregor preferiu unir-se ao grupo do Camelô do Apocalipse. Quanto a Otto, que não concordava com essa vertente, nem com as teorias racistas, teve sua cabeça posta a prêmio por Joseph Goebbels pela quantia de US$ 500 mil. Foi obrigado a fugir para o exílio, só conseguindo voltar à Alemanha anos depois do final da guerra. Hitler apressou-se em tirar o ‘social’ da sigla do partido. Mais tarde, Gregor foi eliminado junto com Ernst Röhm, chefe das S.A., na famigerada ‘Noite das Facas Longas’.

Devo lhe confessar que também já fui alvo de chacota, mas por um motivo totalmente diferente: só peço que não deboche muito de mim.

Imagine o senhor que confundi o dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard, filósofo, teólogo, poeta, crítico social e autor religioso, e amplamente considerado o primeiro filósofo existencialista, com o filósofo Ludwig Wittgenstein, que, como o senhor está farto de saber, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico e um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século 20.

Finalmente, um conselho: não se deixe influenciar por certas palavras. Seguem alguns exemplos:

1. Quando chegar a um prédio e o levarem para o elevador social, entre sem receio. Isso não fará do senhor um trotskista fanático;

2. A expressão ‘no pasarán!’, utilizada por Dolores Ibárruri Gómez, conhecida como ‘La Pasionaria’, não era uma convocação feminista para que as mulheres deixassem de passar as roupas dos seus maridos;

3. ‘Social climber’ não se refere a uma alpinista de esquerda;

4. Rosa Luxemburgo não era assim chamada porque só vendia rosas vermelhas;

5. Picasso: não usou o partido para divulgar seus gigantescos atributos físicos;

6. Quanto à palavra ‘social’, ela consta até no seu partido.

Finalmente, adoraria convidá-lo para assistir ao meu espetáculo.

Foi quando surgiu um dilema impossível de resolver. Claro que eu o colocaria na plateia à direita. Assim, o senhor, à direita, me veria no palco à direita. Só que, do meu lugar no palco, eu seria obrigado a vê-lo sempre à esquerda.

Espero que minha despretensiosa missiva lhe sirva de alguma utilidade.

Convicto de ter feito o melhor possível, subscrevo-me.

Jô Soares,
Influenciador analógico

(publicada na Folha de S. Paulo)
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Simone de Beauvoir morreu num 14 de Abril



Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir morreu em 14 de Abril de 1986, com 78 anos. Ela que disse um dia, num documentário divulgado mais abaixo, que «a vida não é uma coisa que se tenha, mas sim algo que passa».

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.




Um longo documentário legendado em português, que merece ser visto:




E Simone dita por Fernanda Montenegro:


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Quem nunca...?


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Máfias gold



«A reportagem da SIC "A cidade e o medo" conta a tragédia do incêndio na Rua de Alexandre Braga, no Porto, em março, que deixou um morto, cinco feridos e duas famílias desalojadas. Conta que o fogo foi posto para expulsar uma octogenária, culminando um processo de intimidação por agentes de um fundo imobiliário detido por um chinês com visto gold.

Conta como estes investidores encomendam a redes de meliantes o assédio psicológico e físico a residentes em certas zonas das nossas cidades, para os forçar a abandonar as casas. Vulneráveis e apavorados, confrontam-se com profissionais que compram barato imóveis para os vender a estrangeiros em busca de autorizações de residência (ARI), ou vistos gold: as "máfias gold"...

Porque há toda uma "indústria" mafiosa por detrás dos vistos gold. Incluindo advogados, imobiliárias, contabilistas, notários, especialistas em angariar estrangeiros compradores e em esvaziar casas bem situadas...Com a cumplicidade do MAI/SEF e do MNE que gerem as ARI e não cuidam de, ao menos, impor controlos sobre a origem dos capitais investidos e das fortunas dos candidatos a residentes. Muitos não vão cá residir, querem é poder circular sem entraves na zona Schengen.

Acresce que em Portugal os titulares de vistos gold - já mais de sete mil, além de mais de 12 mil familiares que se lhes reuniram desde que Paulo Portas instalou o esquema - contam com a proteção do segredo. Ao contrário de pensionistas e devedores ao Fisco que veem dados pessoais divulgados pelo Estado, e ao contrário de outros países com tais esquemas, por cá não são publicados os nomes de quem requer ou obtém vistos gold: ideal para tríades se infiltrarem na UE e para cleptocratas e corruptos de todos os azimutes lavarem proventos e darem segurança europeia aos seus investimentos. Como deputada no PE, pedi repetidas vezes aos sucessivos titulares do MAI os nomes dos beneficiários de vistos gold: em vão. Por que se teme o escrutínio?

A Comissão Europeia publicou em 2018 um estudo sobre vistos gold que aponta riscos para a segurança do Espaço Schengen. O PE pede que se acabem estes esquemas, que não compensam os danos para a integridade do sistema económico e financeiro.

A UE está a acordar para o perigo das máfias gold. Há medo nas nossas cidades. Que mais precisa Portugal para também acordar?»

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13.4.19

Marcelo soma e segue




Como escreveu Rui Rocha no Facebook, «Pensando bem, talvez estivesse na altura de Marcelo nomear um familiar que o aconselhasse a não fazer estas figuras.»
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O Bispo do Porto morreu há 30 anos



Bispos do Porto houve muitos, mas «O» Bispo do Porto será sempre, para muitos, António Ferreira Gomes, aquele que, em Julho de 1958, escreveu uma longa e célebre carta a Salazar e que morreu em 13 de Abril de 1989.

A carta em questão, muito crítica da situação política, social e religiosa do país, deu-lhe direito a um exílio de 10 anos em Espanha, França e Alemanha, do qual só regressou em 1969, já durante o marcelismo.

É bom recordar que tinham tido lugar, um mês antes de a carta ser escrita, as eleições a que concorreu Humberto Delgado e que o país se encontrava ainda em grande agitação. Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Era difícil ter acesso ao texto da carta, mas coloquei-o online na íntegra, já há alguns anos. Trata-se de um documento histórico que não deve ser esquecido.
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Brexit e a verdade dos factos



(Fonte: Libération)
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“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)



«As discussões sobre a existência de populismo em Portugal resultam quase sempre na resposta de que este não existe. Os partidos populistas, como o Chega, nunca foram às urnas e não há movimentos populistas capazes de chegar à “rua” com mais do que dezenas de pessoas, como foi o caso recente da tentativa de fazer uns “coletes amarelos” portugueses, mesmo contando com um núcleo duro que incluía os lesados do BES e o PNR. Mas a resposta é errada: o populismo em Portugal está a crescer e, mesmo que ainda não tenha “rua”, domina as “redes sociais”, que são, para muita gente, a única informação que consomem e o único sítio onde “debatem”. Domina também cada vez mais a discussão pública, impregna o discurso político do Presidente da República e dos partidos parlamentares, e está cada vez mais estabelecido na comunicação social, a começar pelas televisões e a acabar na imprensa, mesmo na intitulada de referência.

O populismo define os temas, marca o tempo dos temas muito para além da habitual febre de “novidade” comunicacional, condiciona o seu tratamento e apresenta as suas soluções de que cada vez mais políticos e jornalistas têm dificuldade em se afastar, até porque muitas vezes concordam com elas. A tendência adversarial do jornalismo junta-se a muita cobardia política, de gente acossada e que sabe que não tem moral para falar alto contra a maré populista. O resultado é um debate público inquinado, dominado pelo pathos, quase sem logos, até porque há pouco ethos circulante.

A génese do populismo dos dias de hoje, em democracia, está nesta dicotomia: o povo é intrinsecamente bom, altruísta, honesto, trabalhador, desprovido de más intenções, verdadeiro, deseja o bem para todos, e os “políticos” são o exacto oposto, maus, egoístas, desonestos, preguiçosos, mal-intencionados, mentirosos e desprovidos do sentido de solidariedade, só de interesse próprio. Esta dicotomia não é verdadeira, e acima de tudo é antidemocrática.

Vem, no caso português, de uma longa tradição de demonização da política, dos partidos e da democracia, que encontrou na nossa história sempre mais duros críticos da democracia do que da ditadura, numa tradição intelectual que vem da Grécia antiga. São discípulos de Platão e dos críticos gregos da democracia ateniense, e que, como muitos intelectuais no século XIX e XX, salvo raras excepções, a maioria das quais americanas e europeias de Leste, namoraram sempre mais ideias e regimes como fascismo e o comunismo, do que a “porca” da democracia, demasiado vulgar para lhes dar o papel de “conselheiros” que eles sempre pretenderam. Em Portugal, isso sempre fragilizou a tradição liberal e democrática, na monarquia e na República, e páginas de Ramalho e caricaturas de Bordalo foram usadas pela propaganda do Estado Novo. À ideia da “porca da política”, a que se contrapunha a obsessão do “consenso” e da “unidade orgânica de todos os portugueses”, para além dos partidos e do voto, foi dada consistência propagandística pela Censura durante 48 anos, e ela está mais metida dentro das nossas cabeças do que se imagina.

O que há de novo sobre esta péssima tradição é que a conversação democrática é duramente atingida pela crise das mediações, em particular do debate a partir de factos e não de boatos, maledicências e falsidades, muitos deles colocados deliberadamente por profissionais da desinformação, beneficiando da crise da comunicação social e do ascenso de uma nova ignorância agressiva que serve o populismo como o pão para a fome de comer. Não estamos perante um renascer do fascismo, como alguns dizem, mas de um fenómeno novo que acompanha outras transformações sociais num conjunto complexo, impulsionado por interesses, por manipuladores da democracia, como alguns serviços secretos, pela ganância de algumas empresas tecnológicas e pela apatia e mesmo medo colectivo em lhe fazer frente.

Substituir a democracia pela demagogia é mais fácil do que travar este processo. Políticos em democracia, fragilizados pela corrupção, pela ignorância, pela partidocracia e pela cobardia de ceder às ondas na moda são os últimos a servir de barreira. E o resultado é que as pressões populistas dão origem a soluções erradas, ou porque punitivas, ou porque ilegais, ou porque ineficazes, ou porque perversas, gerando novos problemas, piores dos que os que se desejam combater.

Já estou a ouvir o sussurro e os berros – e então “os políticos” não têm culpa (uma palavra fundamental do discurso populista) de nada? Têm, têm todas as culpas que os populistas lhes apontam, só que não são “todos”, nem são “os políticos”, como se fossem uma classe à parte. E só no contexto da democracia, dos partidos, das escolhas, do voto, isto se pode melhorar.

Só que estas afirmações não servem apenas para adornar e “moderar” o discurso – devem ser tomadas a sério e na sua substância, ou seja, devem ser um elemento fundamental e estrutural da narrativa sobre a política em democracia. Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”.»

José Pacheco Pereira
(Sem link, recebido por mail.)
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12.4.19

Não é o único.



Hugo van der Ding no Facebook
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O «Capuchinho Vermelho» é sexista?




Devolvam-me um mundo sem loucuras destas!. Tiraram a história do «Capuchinho Vermelho» da lista de leituras aconselhadas a criancinhas por ser sexista??? Ainda se fosse para elas não acharem que todos os lobos são maus, nesta era de respeito sacrossanto pelos animais…
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Parece Imprensa Falsa, mas não é




«Um advogado argumenta em tribunal, num caso de rapto e casamento forçado, que o testemunho de uma mulher não deve valer porque as mulheres ‘são seres – umas mais que outras – muito voláteis. O que hoje é verdade, poderá ser mentira amanhã. Alguém ter a pretensão de interpretar a vontade presumida [da vítima] aquando dos factos é temerário.‘
Outro advogado pede substituição da desembargadora Adelina Barradas de Oliveira num caso de violação de uma rapariga pelo pai porque a juíza, sendo mulher e mãe, seria parcial.»
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Nepotismo por pontos



«"Qual o grau de incompatibilidade? Tem de envolver só membros do governo ou outros órgãos de soberania? Impedimento com cargos autárquicos? Qual o período? Qual o grau de parentesco? Onde se traça a fronteira? Parentes em linha direta?" - António Costa é um mago na formulação de perguntas. Mais de metade ficavam respondidas se desenhasse uma simples árvore genealógica, mas tendo em conta o tanto que no seu mandato se tem dito, e legislado, sobre o que é a família, compreende-se as dificuldades acrescidas - é preciso muito raminho para pendurar pais biológicos, pais afetivos, dadores, duas mães, dois pais, sem contar com a fraternidade adquirida. Mas o que fazer então para responder ao repto do senhor Presidente, criando uma lei em tempo útil?

Pela minha parte, atrevo-me a propor uma adaptação do sistema da Carta por Pontos. Receberíamos todos 12 pontos no cartão de cidadão, que iriam sendo subtraídos por cada contraordenação grave, muito grave, ou crime de nepotismo. Podíamos também ganhá-los, porque estas coisas querem-se pedagógicas. Objetivamente, ficaria assim apenas por definir as infrações que devem ser incluídas em cada categoria. Deixo-vos a minha proposta:

Crime de nepotismo, retirada de 6 (seis) pontos:

Namorados e Amantes - Ninguém dúvida do seu poder de influência. Esses sim, mandam mesmo. É assim desde o tempo de D. Teresa e de D. Afonso Henriques.

Irmãos - Não os de sangue, coitados, que esses toda a gente sabe que só dá vontade de fazer o contrário do que nos pedem. Refiro-me aos outros, aos da Maçonaria e das demais irmandades. Desportivas, inclusive.

Colaços - Porque se acreditava que o leite conferia os mesmos laço do que os do sangue, os filhos das amas dos príncipes recebiam privilégios acrescidos. Se substituirmos copos de leite, por copos de três, percebemos até onde pode chegar o nepotismo.

Contraordenações muito graves, retirada de 5 (cinco) pontos

Ex-mulheres/maridos - A história recente não deixa dúvidas de que são elos de parentesco muito perigosos. Segundo a tese do MP, foram as Ex as principais colaboradoras do eng. Sócrates ou do juiz Rangel. Só para citar dois casos.

Primos - É um dos parentescos com fronteiras mais difíceis de traçar, como diz António Costa, já que tal como nas bebidas alcoólicas, também aqui há graus para todos os gostos. Proponho que tirem mais pontos os que partilharam a adolescência, e podem fazer chantagem com as histórias mais comprometedoras.

Contraordenações Graves, retirada de 3 (três) pontos

Tios - Suspeito que Marcelo Rebelo de Sousa se esqueceu de ponderar o risco desta ligação familiar: o próprio é "tio" dos meninos que frequentam a praia do Guincho, comem gelados no Santini, ou vão às Jornadas da Juventude. Um sarilho que pode impedir milhares de portugueses de ascender a qualquer lugar de poder.

Como Ganhar Pontos

Tal como na Carta, também este sistema prevê a possibilidade de arrecadar pontos. Devem ser atribuídos 3 (três) pontos aqueles que nomearem os respetivos cônjuges, padrastos, cunhados e enteados, porque é óbvio que não têm influência nenhuma. No caso da nomeação da sogra, volta-se à casa da partida, recebendo os 12 (doze) pontos iniciais.

Se não gostarem desta sugestão podemos sempre recorrer ao Código de Conduta ou ao Código Penal. O MP entra por um Conselho de Ministros alargado e pergunta aos presentes se foram favorecidos por algum pagamento da renda da casa, se alguém ali presente lhes ofereceu anéis, viagens ou carros, e fica o assunto arrumado. Mas eu prefiro o nepotismo por pontos. Acho mais justo. E é novo, que é o que interessa.»

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11.4.19

Brumas com uma dúzia de anos



À dúzia não é mais barato, já que tudo isto foi sempre de borla, mas a verdade é que este blogue anda por aí há 12 anos. E eu com ele, todos os dias, aquém e além fronteiras pelos cinco continentes, só o tendo deixado parado quando longuíssimas viagens de avião o deixaram no porão, ou em países em que blogar é mal amado: se bem me lembro, apenas na Birmânia e na parte da China que ainda julga que é um país com dois sistemas.

Repositório de memórias, de efemérides e de simples textos ligados à espuma dos anos, ainda não é desta que o largo – vai avançando de braço dado com o Facebook, o amigo leal que traz muitos dos que aqui aterram, mas que também alimenta com o que se passa por lá.

Este é o 15 679º post aqui publicado. A todos os que o lerem muito obrigada. Com esta música.



La nave va!
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11.04.1964 – A Cooperativa PRAGMA


Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.

É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou-se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.

A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em 11 de Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.

Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).

Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu-se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.

Mais detalhes aqui.
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Pós-Brexit?


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Este País não é para Doutores



«Somos um País com idiossincrasias engraçadas, e esta é uma delas.

Todos querem ser licenciados em alguma coisa, para acederem ao vocativo social do doutor, engenheiro ou afim, que depois usam e convidam os outros a usar como se fizesse parte do seu nome próprio ou coisa que o valha. Ser licenciado é tão importante, que a classe política, especialmente ela, não hesita em tomar atalhos para aceder ao almejado título. Equivalências, cursos sem rigor de avaliação, expedientes vários. Vale tudo, porque vale muito ser licenciado.

Mas também somos o País que despreza os doutores em sentido próprio – isto é, quem tem um doutoramento. Isto não tem uma boa explicação, é da natureza das idiossincrasias, é como é.

Dados publicados por estes dias não enganam. Produzimos Doutores, mas esses Doutores ficam fechados nas Universidades e Politécnicos ou no sistema de investigação da precariedade e do baixo salário. Temos Doutores a produzir licenciados, mestres e mais Doutores e pouco mais.

Estou bastante à vontade para ser crítico disto porque, sendo doutorado, sou professor universitário. Mas, fruto de uma vida de opções errantes, também sou quadro da administração pública e já fui gestor de empresas. E tenho três ou quatro coisas para dizer.

Primeiro, o problema não está só nas empresas que se recusam a ver o valor de um doutorado – já lá vamos – o problema começa no Estado. Não são só as empresas. O Estado, para lá do sistema universitário e politécnico de investigação e ensino também emprega uma quantidade muito pequena de doutorados. Ainda menos que as empresas. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço?

Se o Estado, que é a maior organização de recursos do País não internaliza o valor que a contratação de doutorados lhe pode trazer na sua política de contratações, podemos esperar que as PME’s o façam? Noutros Países da Europa a Administração Pública emprega, fora do sistema do Ensino Superior e Investigação, como quadros, 10 ou 20% dos Doutorados. Em Portugal, menos de 4%. É poucochinho e alguém devia olhar para isto. A caridade começa em casa e um bom exemplo vale mil proclamações políticas.

Segundo, nas empresas, onde normalmente se coloca o foco, a situação é igualmente confrangedora. Apenas um pouco mais de 4% dos doutorados é absorvido pelas unidades produtivas privadas. Uma economia de baixos salários, empresários apostados na renda confortável da pouca concorrência e no uso de capitais alheios associados à falta de escala nas empresas – temos poucas grandes empresas, e mesmo essas, muitas vezes em sectores de mão de obra intensiva, que convidam a procurar quantidade e não qualidade – são fatores importantes, mas não serão o único.

Terceiro, num País onde um doutorado é visto como uma espécie de cientista maluco, capaz apenas de pensamento abstrato e hermético, com zero sentido prático da vida e pouco dado a visão de negócio o preconceito impera. Talvez isso explique porque é que em muitas empresas, doutorados, nem com 50% de desconto.

Sim, porque há programas de apoio a estas contratações, abertos neste momento, em que são elegíveis os custos salariais com a contratação de doutorados até ao montante de 3.209,67 euros/ mês, e além do salário base, são elegíveis os respetivos encargos sociais obrigatórios, nomeadamente as despesas com a segurança social e o seguro de acidentes de trabalho. O Estado, durante 3 anos, paga. Não é coisa pouca. De pouco serviu. O preconceito tem falado mais alto.

Quarto, os doutorados, por sua vez, se calhar também não estão muito motivados para ir para as empresas. Ir para as empresas, diga-se, é muito menos cómodo que ficar na Academia, onde até podemos não ser muito valorizados, mas ao menos estamos com a nossa tribo, que nos compreende.

Como se quebra esta quadratura que rouba ao País parte do retorno económico que este investimento em qualificação deveria trazer?

Há bons exemplos – desde logo os Laboratórios Colaborativos juntam debaixo do mesmo teto empresas e unidades de investigação – mas não será uma medida única que irá resolver isto. É preciso abrir várias frentes e explorar diferentes abordagens. Em suma, é preciso mudar mentalidades, e isso demora.

Dá-se, de forma inoportuna, o caso de que tempo é o que não temos. A transformação do trabalho está aí e ou estamos na vanguarda, ou estamos condenados. A capacidade de integrar doutorados nas empresas e nas organizações vai fazer a diferença entre a vida e a morte de muitos modelos de funcionamento. Somos demasiado pequenos para desperdiçarmos recursos. Estou tão preocupado com isto que estou no Colabor, onde se juntaram empresas, centros de investigação e organizações da área social, com apoio do Estado, para em conjunto e sem preconceitos pensarmos como nos adaptamos a tudo isto. E já começámos.»

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10.4.19

Ele nunca se engana e raramente tem dúvidas


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10.04.1924 - Sebastião da Gama



O nome de Sebastião da Gama nunca terá dito muito a alguns, outros tê-lo-ão já esquecido, mas a verdade é que faria hoje 95 anos. Morreu novíssimo, com 27, não cheguei a encontrá-lo, apenas conheci a sua viúva, minha homónima, alguns anos mais tarde.

Deixou pegadas pela Arrábida, terra de eleição de algumas das minhas férias e  habituei-me a lidar com a saudade a que alguns, muito próximos dele e de mim, jamais se habituaram. Uma dessas pessoas – Maria de Lourdes Belchior – escreveu um longo prefácio para Campo Aberto e deu-me um exemplar, que tenho aqui à minha frente, com dedicatória: Natal de 1962... E, dela, sou eu que tenho saudades.

Um poema de Cabo da Boa Esperança.

Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!…

E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam! 
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Donos de Portugal




Vale muito a pena ver a versão completa do documentário:


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O regresso do velho fantasma da privatização da Caixa



«Numa entrevista desta segunda-feira ao “Eco”, Rui Rio terá deixado uma mensagem críptica que, segundo o jornal, terá sido: “sou favorável a que a CGD mantenha uma maioria pública de capital, mas estou aberto à abertura de critérios de gestão privados.” A coisa caiu no silêncio profundo que seria de esperar, dado que aparentemente não se refere a qualquer família em especial.

Lida com cuidado, a segunda parte da frase não tem qualquer significado: a CGD é gerida como qualquer banco, logo com os tais “critérios de gestão privados”, ou seja, concede crédito e escolhe operações financeiras segundo a regra da rentabilidade e da gestão de risco que faz parte do negócio bancário normal. Portanto, nada no seu regime de propriedade altera essa norma de gestão, para o melhor e para o pior. Então, o que importa é a ideia, essa também antiga, de uma “maioria pública da capital”, que é a forma mal amanhada de sugerir uma “minoria privada de capital”. Tudo mansinho, como aliás ocorreu no passado com as privatizações, nunca começaram pela declaração de uma vontade de alienação completa e, no entanto, foi sempre aí que terminou o processo.

Quem lê estas linhas, gente avisada, bem se lembrará de que existe uma espécie de latência no PSD sobre a privatização da Caixa, com recaídas de quando em vez: na época mais recente, a proposta surgiu num livro de Passos Coelho, então ainda candidato à liderança do PSD, depois houve algum ensaio na preparação do programa do Governo, até que os outros bancos ou alguém acima deles se colocou no caminho. O facto é que os acordos com a troika não incluíram a CGD-banco na lista das privatizáveis, mas não pouparam a CGD-seguros, que representava um terço do mercado e a mais poderosa das seguradoras, a Fidelidade.

Houve depois um abanão com os dois processos de recapitalização, em 2012 e em 2016-17, obrigando mais uma vez o banco a ceder parte do seu negócio a concorrentes no estrangeiro, ou garantindo-lhes uma generosa renda por aplicações de capital. Que agora, em vésperas de eleições, venha Rio sugerir, sem chegar a propor, uma entrada de privados no capital da CGD, tudo como se fosse um simples ajustamento de carteira, pode ter mais que ver com a necessidade de disparar em todas as direções do que com um programa coerente.

Em todo o caso, coerência não tem nenhuma. Todas as privatizações e vendas de ativos na banca portuguesa ajudaram a destruir os centros de capital nacional, e levaram o BCP, o BPI e o Novo Banco para as mãos de interesses angolanos, catalães e norte-americanos, sendo nuns casos concorrentes diretos e noutros aventureiros avulsos. Ter a Caixa nas mãos do Estado é a única garantia de um sistema de crédito gerido em Portugal, no mínimo.

Bem sei que, no dia em que nos bater à porta a próxima vaga de austeridade, os credores exigirão parte da Caixa. Talvez devêssemos então olhar para este tipo estranho de família que, do PSD aos agentes financeiros, está tão interessada em ir banalizando a ideia de que lhe cabe ficar com uma parte do maior banco português. Água mole em pedra dura, esta velha ideia vem por vagas, testa o terreno, explora a desatenção, procura os elos fracos, vai tentando os dirigentes do PSD, cola-se aos liberais. O seu argumento é tremendo, revelador e evidente: o privado gere melhor a banca. Como se tem visto, não tem?»

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O Grito


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9.4.19

Eleições na Índia – para além do imaginável



Um milhão de assembleias eleitorais, eleições em sete fases, entre 11 de Abril e 19 de Maio, mais de 2.000 partidos, taxa de analfabetismo de 64,8%.

(Expresso diário, 09.04.2019)
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09.04.1974 – Quase no fim da ditadura, a última acção armada



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.
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