16.11.19

Chile: o direito de viver em paz



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Olhem que dois: Chomsky e Mujica



Ler ISTO.
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Chile: da barbárie




«Vítimas foram atingidas por balas de borracha ou chumbo disparadas por policiais durante as manifestações, iniciadas há menos de um mês. Governo diz que vai custear tratamento de quem sofreu "violência política".

A principal associação médica do Chile anunciou nesta quinta-feira (14/11) que pelo menos 230 pessoas perderam a visão, parcial ou completamente do olho afetado, devido a tiros com espingarda de pressão disparadas por agentes de segurança do Estado durante protestos no país sul-americano.»
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O fim do neoliberalismo e o renascimento da História



«NOVA IORQUE — No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.

Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingénua. Mas reforçou a doutrina económica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos. A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.

A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik, de Harvard, explicou de forma tão clara, e tal como afirmo nos meus livros “Globalization and Its Discontents Revisited” e “People, Power, and Profits”. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam assim uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.

Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” — fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado — “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão.”

Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento económico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.

As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos económicos científicos e na “investigação com base em provas”. Após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de ações subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.

Como é que a restrição salarial — para alcançar ou manter a competitividade — e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados. Enfrentamos agora as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da ‘ciência’ económica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.

A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspetivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.

Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos — um fenómeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados autorregulados e a rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolemaicas de ajustá-la aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.

Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas. O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização é um renascimento da História. Temos de revitalizar o século das luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.»

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15.11.19

UE sobre Bolívia




Se se perguntar agora ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros qual é a posição do governo português, já se sabe que resposta dará.
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Nazismo vs fascismo



Lembrei-me de que iam ser apresentados hoje cinco votos relacionados com a resolução do Parlamento Europeu que condenou, em termos iguais, o nazismo e o comunismo e tive tanta sorte que liguei a TV precisamente quando o tema ia começar a ser discutido.

Esta notícia resume o que passou e João Oliveira, do PCP, acertou em cheio: está a tornar-se «cada vez mais claro que PSD e CDS estão a cobrir por cima" as iniciativas "reacionárias" da Iniciativa Liberal e do Chega». Habituemo-nos! (Terá sido a IL que apresentou o primeiro voto.)

Foi apenas aprovado o que o PS apresentou? Obviamente. Só não entendo por que motivo este voto existiu, até porque não me parece que o PS opte sempre pela «condenação de todos os regimes totalitários». Deixasse, hoje, a direita a propor e a perder sozinha – creio que teria sido mais «pedagógico». Opinião minha, claro.

Ler AQUI notícia sobre a votação.
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A escola tem responsabilidades



«Todas as crianças e jovens têm o dever de ir à escola. E que deveres tem a escola para com eles? O tom em que o PSD e o CDS se pronunciaram sobre educação no debate quinzenal com o Governo sugere que pouco ou nenhum.

Para quem assim pensa há um problema no fim de cada ano letivo quando um aluno não atingiu os objetivos definidos. Mas não têm razão, a retenção é a má resposta que damos a um problema que se forma desde o primeiro dia de aulas, quando uma escola desiste de educar alguns dos seus alunos ou os entrega ao exterior, aos centros de explicações e aos pais, para que compensem essa sua desistência, se tiverem capital social e dinheiro para isso.

Há mesmo quem tenha intelectualizado a ausência de deveres da escola e ache que quando os níveis de retenção descem é porque se instala o "facilitismo", termo inventado por uma corrente de opinião que - como no fantasma que CDS e PSD brandiram - pensa que sempre que melhoram os resultados escolares dos alunos é porque a exigência baixou. Mesmo sabendo que os factos dizem que os alunos portugueses estão a subir nos rankings internacionais de competências adquiridas.

A visão neoelitista que tem muita ressonância na direita (e em alguma esquerda) portuguesa é, no entanto, muito ignorante sobre o que é hoje a educação e para que serve no mundo do século XXI. A escola ocupa um papel nas sociedades modernas que lhe cria um dever especial de preparar todos os seus alunos para viverem numa sociedade complexa, que exige a todos elevado nível de competências, em mudança permanente e que requer uma abertura ao mundo que lhes permita não serem excluídos para a vida logo nos primeiros anos da sua existência. Aqueles que a escola excluir agora muito provavelmente estão lançados numa vida de pobreza e falta de oportunidades. E a escola é responsável por evitar que isso aconteça, porque não pode ser mais um braço da fábrica de desigualdades, tem que ser um instrumento de uma sociedade inclusiva.

A transição da escola irresponsável para escola responsável pelos seus alunos é difícil. Para que a retenção deixe de existir porque a escola é eficaz, muita coisa tem que mudar. Os orçamentos de funcionamento têm que subir. Os quadros de pessoal especializado têm que ser diversificados e adequados ao meio social em que cada escola atua. Tem que haver dentro de cada escola (neste artigo chamo sempre escola aos agrupamentos escolares) poder, competência e recursos para tomar as decisões necessárias no tempo certo. E tudo isto, não ao nível de projetos-piloto ou ações limitadas, mas em todo o território nacional e como prática normal de todo o sistema educativo.

Os governos - alguns deles - bem, têm procurado ter atenção a estas carências e muitos municípios, melhor ainda, têm assumido responsabilidades que permitem criar escolas exemplares. Mas estamos longe de ter atingido o patamar de excelência que necessitamos neste domínio e é muito saudável que o Governo tenha agora a ambição de o atingir.

Os amantes da educação têm um desafio enorme pela frente para criar uma escola responsável pelos seus alunos. E sabem que não é ela que cria a maior parte dos problemas que levam atualmente à retenção, recebe-os da nossa enorme desigualdade social e da segregação espacial. Por vezes, não os consegue mitigar, desiste. Muitas outras vezes consegue e quando consegue põe em funcionamento comunidades educativas inclusivas, que têm muitos protagonistas, mas que passam inevitavelmente por dois perfis da maior importância, a direção e os professores, os maestros e os solistas desta orquestra.

Na minha experiência como sociólogo e como pai já vi escolas prosperar e definhar pelo dinamismo e pela decadência da sua direção. Mas todas as que vi ter sucesso dependeram de um trabalho intenso de professores que acreditam na educação, procuram atualizar-se permanentemente, se dedicam aos seus alunos, têm enorme consciência das suas dificuldades e se mobilizam por eles.

Esse trabalho, infelizmente, não tem sido reconhecido social, política nem salarialmente. Com frequência excessiva tratam-se os professores como se fossem um grupo de gente que se sobrevaloriza, trabalha pouco e tem uma profissão fácil. Nada mais errado. Sem repor uma relação saudável do governo com os professores e sem atuar firmemente na promoção do respeito e dignidade da sua função, sou cético quanto a que se atinjam os resultados pretendidos.

Aos que pensam sobre a escola como Rui Rio faria bem tentarem ser professores, não digo um ano letivo, só um mês.»

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14.11.19

Terreiro do Paço daqui a uns anos?



Para já, são turistas em Veneza.
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«Faz diferença termos três deputadas negras?»




Vale muito a pena ouvir esta entrevista a Beatriz Dias, deputada do Bloco de Esquerda.
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Porque sobe a extrema direita em Espanha



Vale sempre a pena ler o que escreve Vicenç Navarro.

« Dos fenómenos han estado ocurriendo en los últimos diez años en España, y que han generado las condiciones para que se dieran los resultados de las elecciones del pasado domingo, incluyendo el gran crecimiento de Vox (la ultraderecha española de raíces franquistas). Uno es el tema nacional (también llamado territorial), que se ha centrado en el conflicto entre el Estado central, por un lado, y el movimiento independentista catalán, por el otro. Este conflicto ha polarizado el panorama político español y ha centrado la mayor parte de la atención mediática del país durante el período electoral. (…)

El otro gran tema ha sido la enorme crisis social, sin precedentes en el período democrático, que ha afectado muy negativamente el bienestar de las clases populares, cuyo nivel de vida es hoy menor que el que tenía antes de que se iniciara la Gran Recesión.»
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A globalização do desespero



«Talvez não tenhamos ainda reparado, mas aquilo que se está a globalizar não é apenas o capital ou o investimento, as empresas ou a inovação, o turismo ou a tecnologia – é também o desespero.

De alguém que foi despejado da sua casa por não poder pagar o valor da renda, do imigrante que trabalha como escravo “invisível” na agricultura, do operário industrial substituído por mão-de-obra barata contratada do outro lado do mundo, da criança explorada numa mina na Índia, da mulher que recebe menos que o colega de trabalho pela mesma função, do idoso que espera nos hospitais por uma operação, das populações dos bairros de barracas que aguardam infinitamente por melhores condições de vida, das vítimas da discriminação, do racismo ou da xenofobia, do jovem que envelheceu e subsiste de um trabalho precário, da população rural que sofre com o abandono e o isolamento, dos índios perseguidos na sua floresta pelos madeireiros, etc.

Este desespero é directamente proporcional à erosão que o mercado económico global foi semeando na sociedade e nos territórios. É que a “mão invisível” de Adam Smith (o mercado “auto-regulado"), afinal, concentrou o poder e a riqueza à custa da escassez das pessoas, da instabilidade social e da degradação ambiental. Foi uma mão que chegou para “dividir e reinar", explorando as feridas existentes – coloniais, raciais, de género, religião e classe para prosseguir o seu plano. Consigo trouxe um léxico financeiro que povoou e tornou refém o discurso e as práticas políticas.

Ao Estado Social redistributivo e que provisiona sucedeu o Estado Liberal da “competitividade”, da “flexibilização laboral”, da “atracção de investimento estrangeiro”, da “privatização” – um Estado que se “funde com o capital” e por isso é cada vez mais permeável à corrupção. Se a “mão invisível” se impôs sobre os países e as suas legislações, as pessoas e o ambiente, munindo-se de todos os dispositivos jurídicos, institucionais e tecnológicos para agir globalmente, pelo contrário a luta contra as desigualdades permanece dispersa no interior de uma geografia de nações e do seu sistema de contradições internas.

Para agravar, os contentores ideológicos tornaram-se difusos. Ao “conflito entre classes” sucederam-se os interesses dos diversos “grupos sociais” e agora, no limite, resta-nos a nossa própria “identidade” como forma de expressão e argumento no combate político. Será suficiente ou terá chegado o momento de “globalizar” a própria luta? O grau de marginalização e de invisibilidade ampliou-se a camadas vastas da sociedade — implica, por isso, que articulemos “conjuntos de reivindicações diversas” numa mão colectiva comum — tal como se anuncia nas questões ambientais. Só assim será possível fazer frente a um sistema económico cumulativo, global, monopolista e desregulado que se apoia na produção da desigualdade (entre pessoas e territórios) e na dispersão da luta social para progredir. Se este não for o caminho, o melhor será começarmos a poupar minutos de silêncio pelo conjunto de democracias que poderão colapsar. À nossa volta multiplicar-se-ão os rinocerontes psicóticos da peça do Eugéne Ionesco.»

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13.11.19

Bolívia: e siga o baile...



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Políticas identitárias


Sem que concorde com todo o conteúdo deste texto, vale a pena lê-lo.

«A teoria da política identitária que o Livre subscreve fecha cada opressão numa cofragem identitária, e, portanto, abstracta, sem vasos comunicantes, representações por procuração ou solidariedades.»

«Caras negras em lugares importantes podem servir apenas para desviar a discussão sobre o racismo estrutural, institucional e histórico, para uma questão de símbolos e elites. O sistema capitalista é capaz de absorver mulheres, gays e negros para as tais «elites» por que suspira Joacine sem que nada de essencial se altere. Na verdade, para os opressores pode até ser politicamente conveniente ter oprimidos a representá-los.

Essa é a realidade da identidade de Joacine: ela representa as elites e assume-o. Foi nos bairros dos ricos (Lapa, Campo de Ourique, Paço de Arcos, Cascais) que Joacine somou mais votos, não foi nos bairros dos negros pobres; e foram também os académicos, os intelectuais, os professores, as elites, que em sua defesa fizeram um abaixo-assinado em que não entram pés-rapados.

Da mesma forma, Rafael Esteves Martins, o assessor de Joacine e do Goucha, hoje diz que os conceitos de esquerda e direita estão ultrapassados. O que não está ultrapassado é o conceito de «negro» e de «branco», suponho.»
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Um golpe para repor a normalidade latino-americana



«Os resultados da governação de Evo Morales são difíceis de contestar. O PIB per capita saltou de mil dólares, em 2005, para próximo de 3400 dólares, atualmente. Na última década, o país cresceu a uma média de 5% ao ano. Este ciclo começou com a chegada de Evo Morales ao poder, depois de algumas empresas privadas terem passado para as mãos do Estado e as multinacionais terem sido obrigadas a renegociar os contratos leoninos que tinham na exploração dos hidrocarbonetos. Hoje, a economia é mista e genericamente bem sucedida, apesar de ser evidente que, mais tarde ou mais cedo, sentirá os efeitos negativos de um modelo que não deixou de ser extrativista.

No último ano, o crescimento desacelerou, há alguns sinais de alarme nas contas públicas e nas receitas garantidas pelas matérias primas, por causa das crises nos países vizinhos, principais importadores. Os níveis de endividamento aumentaram, mas ainda estão muito abaixo dos vizinhos e a léguas dos nossos. Não foram os resultados económicos de Morales que o fizeram cair, seguramente. Quem dera à maioria dos líderes latino-americanos ter para mostrar, como currículo, a evolução que ele conseguiu.

Com o resultado do sucesso económico, Evo Morales financiou políticas sociais inéditas num país onde os recursos eram delapidados por estrangeiros e o que sobrava não saía das mãos de meia dúzia de pessoas. Com políticas fiscais e sociais redistributivas e apoios ao acesso dos mais pobres à saúde e à educação, a percentagem de bolivianos a viver na pobreza passou de 61%, em 2005, para 39%, em 2014. A viver na pobreza extrema passou de 38% (24% nos meios urbanos, 63% nos meios rurais), em 2005, para 17% (8% nos meios urbanos e 36% nos meios rurais), em 2014. A população com menos de 3,2 dólares por dia passou de 32%, em 2005, para 12%, em 2017.

Uma das primeiras medidas tomadas por Morales foi simbólica: reduzir o salário para menos de 1900 dólares por mês. Todas as tentativas para o desacreditar por esta via, como se fez com Lula da Silva, acabaram por ser facilmente desacreditadas. Com todos os erros que Morales possa ter sido cometido (já lá vou), a Bolívia deu, com ele, um salto económico, social e até ético que não tem qualquer paralelo com a sua História e que ninguém de boa-fé se atreve a contestar. Com políticas muitíssimo mais inteligentes e cautelosas, pode dizer-se que a Bolívia foi, de alguma forma, uma Venezuela que deu certo. Às suas políticas sociais decentes chama-se, em jargão político atual, “populismo” e “demagogia”. Porque não podem ser pagas? Não. Porque são decentes.

Apesar de ter de lidar com a irritação de várias potências regionais habituadas a tirar os recursos do país quase à borla e com uma oposição bastante agressiva, que convive mal com as suas políticas sociais e ainda pior com o facto de ter um indígena “cocalero” no poder, a Bolívia nunca deixou de ser uma democracia. Nem mesmo perante movimentos separatistas da população não andina, apoiados por países vizinhos e pelos EUA, Morales cedeu à facilidade. Sempre houve oposição ativa e o Presidente foi sempre eleito com margens confortáveis. No meio do processo constituinte de 2007, em que foi contestado, submeteu-se a um referendo revogatório que estava previsto na Constituição e teve um apoio de mais de 67% do povo. Em 2009, quando promulgou a nova Constituição, Morales passou a poder ser reeleito duas vezes, o que aconteceu em 2010 e 2014.

Foi no fim deste último mandato que tudo se complicou. Em 2016, os seus apoiantes tentaram fazer aprovar uma alteração constituinte que acabasse com o limite de mandatos. Foram derrotados, por uma margem estreita, em referendo. Ainda assim, o Supremo Tribunal e o Tribunal Eleitoral deram luz verde para a sua recandidatura. Que fique claro que, apesar da contestação, não foi por causa disso que assistimos a um golpe de Estado. Isto aconteceu há já algum tempo, o golpe veio agora e com outros argumentos, se assim lhes podemos chamar. Fossem estes e a oposição teria sido politicamente obrigada a boicotar as eleições.

Evo Morales, que se bateu com sucesso por entregar à Bolívia o poder sobre os seus recursos e dar a metade de um país eternamente ignorado o direito à sua cidadania e dignidade, cometeu o eterno erro deste tipo de lideranças: pensou que a mudança era ele e que só dele podia depender. Ou até pode ter criado as condições para que isso fosse verdade, o que é pior. Como Chávez, Morales não percebeu que se a revolução dependia dele não havia revolução. Que não há mais democracia social sem mais democracia política e que a democracia política implica ninguém ser insubstituível. Entregar o poder ao povo depende desta premissa. Podiam todos falar mais com Pepe Mujica, o popular ex-presidente uruguaio que ninguém teve de arrastar para fora do palácio.

A gota de água terá sido a acusação de fraude nas últimas eleições. Não está em causa o facto de Evo Morales ter ficado em primeiro (teve 47%, com uma diferença superior a 10% do segundo). O que está em causa é a acusação de um súbito aumento de percentagem, em algumas décimas, que lhe permitiu evitar a segunda volta. Não tenho dados, num continente onde o jornalismo independente e ONG livres de pressões são uma miragem e os observadores internacionais são quase todos interessados, de um ou de outro lado, para dizer se houve ou não fraude. Não me espantaria. Apenas reforço que, com ou sem fraude, a oposição não venceu a primeira volta. Ou seja, não tem qualquer legitimidade democrática para governar.

Perante os protestos e a enorme pressão internacional, Evo Morales decidiu marcar novas eleições. Fez bem. Quando anunciou essa decisão, a União Europeia deu-se por satisfeita. O golpe militar, que se dá depois da decisão saudada pela comunidade internacional, não pretende repor a legalidade constitucional. Se alguém tem dúvidas, bastaria olhar para os acontecimentos que lhe sucederam.

Frente às câmaras, Luis Fernando Camacho, o líder político do golpe, fundamentalista religioso que prometeu levar Deus de volta ao Palácio do Governo e que ontem o invadiu para lá depositar uma Bíblia, revelou sem pudor os seus encontros com as autoridades brasileiras, referindo-se a elas como “garante da Constituição da Bolívia”.

Milícias de direita queimaram casas de governadores, espancaram autarcas na rua, ocuparam e vandalizaram a casa do Presidente, muitas vezes com o apoio da polícia e das Forças Armadas. O mandato de prisão ilegal e o exílio forçado de Evo Morales, sem que qualquer processo penda sobre o Presidente, deixa clara a natureza golpista deste momento. Qualquer ideia de que estamos perante um levantamento democrático desafia os factos. Estamos perante um movimento revanchista violento apoiado por Forças Armadas que, na América Latina, não têm qualquer compromisso com a democracia.

Não é seguro que traga a paz. Muitos partidários de Morales deslocaram-se de El Alto para La Paz, empunhando bandeiras Whipala, que representa os povos indígenas. Nas manifestações contra Morales foram queimadas muitas destas bandeiras. Evo Morales ofereceu aos povos andinos a cidadania plena. Não é provável que prescindam dela sem resistência.

O enorme erro de Morales, ao não garantir a sua sucessão para salvar as suas enormes conquistas sociais e económicas, não transforma golpistas em combatentes pela liberdade e pela democracia. A capitulação do Presidente, sinal de que não quis que as coisas chegassem ao ponto a que chegaram na Venezuela, resultou de uma imposição das Forças Armadas. Dizer que renunciou ao cargo é o mesmo que dizer que alguém que tem uma pistola apontada à cabeça ofereceu a sua carteira.

As Forças Armadas não depuseram Morales em nome da democracia, fizeram-no para entregar o poder a uma oposição agressiva que não ganha uma eleição desde 2006. Não houve qualquer ato constitucional legítimo para depor Morales. Que não tem a maioria do Congresso e do Senado. E que, mesmo que sejam verdadeiras as acusações de fraude, não tinha ficado em primeiro na primeira volta destas eleições. O golpe, levado a cabo quando Morales já tinha aceitado repetir as eleições, não pretende garantir eleições livres. Pretende escolher já o vencedor e criminalizar quem resista. A perseguição violenta aos movimentos sociais, sindicalistas e dirigentes políticos oferece-nos um padrão já conhecido, que tem longa história na América Latina e assistiu ao seu último episódio nas Honduras, hoje mergulhadas no caos social e criminal.

À hora em que escrevo, não é claro se será, como manda a Constituição, a presidente do Senado, Adriana Salvatierra Arriaza (do MAS, partido de Morales) e próxima na linha sucessória depois da deposição de Presidente e do seu vice, a ocupar o lugar interinamente. Duvido. Se não for, seja porque a recusam seja porque renunciou a “convite” das Forças Armadas, fica claro o que se pretende: derrubar todos os que podem constitucionalmente suceder a Evo Morales, para dar uma falsa legitimidade constitucional à entrega do poder à minoria do Congresso e do Senado. Qualquer simulação de legalidade é, neste cenário, uma anedota.

Claro que o enfraquecimento de Evo Morales tem culpas próprias. E graves. Mas que isso não sirva para legitimar um golpe antidemocrático, que se alimenta do revanchismo social e económico. Com este golpe, não é a reposta a normalidade democrática e constitucional, que os mandatos anteriores de Morales respeitaram. É a normalidade latino-americana que regressa. Com os militares ao leme, o fim da redistribuição com crescimento, as potências internacionais a comprarem políticos para rapinarem os recursos e um homem como Carlos Mesa, vindo das profundezas da miséria boliviana, a destruir o que se fez nestes 13 anos. Eu, que sou incapaz de levantar um dedo de solidariedade com o tresloucado Maduro, não tenho qualquer dúvida em fazer uma pausa nas críticas a Morales perante o regresso do pior da América Latina. Nenhuma das críticas que reservo a Morales move as sinistras figuras que agora regressam ao poder de um país muito mais rico, justo e democrático.»

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12.11.19

Jigajoga



Registo a patente.
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Apertem os cintos porque o Chega já chegou



«O Chega apresentou um projeto de resolução, na Assembleia da República, a “recomendar ao Governo que proceda à instauração de uma celebração solene do 25 de novembro”. O objetivo do partido liderado por André Ventura é que seja dada a esta data a mesma dignidade do 25 de Abril.»
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Sáchez / Iglésias – Texto do pré-acordo de governo



El PSOE y Unidas Podemos hemos alcanzado un preacuerdo para conformar un Gobierno progresista de coalición que sitúe a España como referente de la protección de los derechos sociales en Europa, tal y como los ciudadanos han decidido en las urnas.

Ambas formaciones comparten la importancia de asumir el compromiso en defensa de la libertad, la tolerancia y el respeto a los valores democráticos como guía de la acción de gobierno de acuerdo con lo que representa la mejor tradición europea.

Los detalles del acuerdo se harán públicos en los próximos días. Actualmente, estamos avanzando conjuntamente en una negociación encaminada a completar la estructura y funcionamiento del nuevo gobierno que se regirá por los principios de cohesión, lealtad y solidaridad gubernamental, así como por el de idoneidad en el desempeño de las funciones.

Los ejes prioritarios de actuación del gobierno progresista de coalición se centrarán en dar respuesta a los principales retos que tiene ante sí la sociedad española en su conjunto:

1.- Consolidar el crecimiento y la creación de empleo. Combatir la precariedad del mercado laboral y garantizar trabajo digno, estable y de calidad.

2.- Trabajar por la regeneración y luchar contra la corrupción. Proteger los servicios públicos, especialmente la educación – incluyendo el impulso a las escuelas infantiles de cero a tres años-, la sanidad pública y la atención a la dependencia. Blindaje de las pensiones de nuestros mayores: asegurar la sostenibilidad del sistema público de pensiones y su revalorización conforme al coste de la vida. La vivienda como derecho y no como mera mercancía. Apostar por la ciencia como motor de innovación económica y dignificar las condiciones de trabajo del sector. Recuperar talento emigrado. Controlar la extensión de las casas de apuestas.

3.- Lucha contra el cambio climático: la transición ecológica justa, la protección de nuestra biodiversidad y la garantía de un trato digno a los animales.

4.- Fortalecer a las pequeñas y medianas empresas y a los/as autónomos/as. Impulsar la reindustrialización y el sector primario. Facilitar desde la Administración las bases para la creación de riqueza, bienestar y empleo, así como el impulso digital.

5.- Aprobación de nuevos derechos que profundicen el reconocimiento de la dignidad de las personas como el derecho a una muerte digna, a la eutanasia, la salvaguarda de la diversidad y asegurar España como país de memoria y dignidad.

6.- Asegurar la cultura como derecho y combatir la precariedad en el sector. Fomentar el deporte como garantía de salud, integración y calidad de vida.

7.- Políticas feministas: garantizar la seguridad, la independencia y la libertad de las mujeres a través de la lucha decidida contra la violencia machista, la igualdad retributiva, el establecimiento de permisos de paternidad y maternidad iguales e intransferibles, el fin de la trata de seres humanos con fines de explotación sexual y la elaboración de una Ley de igualdad laboral.

8.- Revertir la despoblación: apoyo decidido a la llamada España vaciada.

9.- Garantizar la convivencia en Cataluña: el Gobierno de España tendrá como prioridad garantizar la convivencia en Cataluña y la normalización de la vida política. Con ese fin, se fomentará el diálogo en Cataluña, buscando fórmulas de entendimiento y encuentro, siempre dentro de la Constitución. También se fortalecerá el Estado de las autonomías para asegurar la prestación adecuada de los derechos y servicios de su competencia. Garantizaremos la igualdad entre todos los españoles.

10.- Justicia fiscal y equilibrio presupuestario. La evaluación y el control del gasto público es esencial para el sostenimiento de un Estado del bienestar sólido y duradero.

(Daqui)

P.S. – Ena! Nos acordos da nossa Geringonça, em 2015, não houve abraços…

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Sem liderança, a Espanha pode vir a ter de escolher entre a desintegração e os fascistas



«Os resultados das eleições espanholas deste domingo não denunciam grandes transferências entre blocos políticos. O Podemos cai ligeiramente mas os seus votos parecem ter ido para o Más País, a sua cisão moderada liderada por Íñigo Errejón. O PSOE aguenta-se praticamente na mesma, o que quer dizer que a dramatização que andou a fazer para tentar conquistar voto útil à esquerda não teve outro efeito que não fosse o voto útil do centro-direita no PP e o crescimento do VOX. O PP cresceu à custa do descalabro do Ciudadanos. E o VOX foi o grande vitorioso da noite – acompanhado pelo crescimento dos nacionalistas de outras regiões –, passando para terceira força, chegando aos 15% e dobrando o número de deputados. Deverá ter ido buscar votos a todo o resto da direita.

No que toca à possibilidade de formar governo, ficou tudo mais ou menos na mesma. PSOE, Podemos e agora o Más País continuam a ter mais deputados do que PP, Ciudadanos e Vox. O PSOE continua a ser o mais votado. Mas continua a ser impossível formar governo sem partidos regionais. Na realidade, foi nisto que tudo se complicou: são precisos mais deputados fora do bloco nacional à esquerda do que antes. O impasse é exatamente o mesmo. A estratégia de tentar dramatizar a instabilidade foi um erro grave de Pedro Sánchez. De uma eleição para a outra o impasse só foi aumentando.

Mas o maior erro foi outro. Pedro Sánchez deveria ter sido mais José Luis Zapatero e menos Felipe González. Deveria ter contribuído, através da busca de uma solução negociada e uma proposta federal para Espanha, para deitar água fria sobre o conflito catalão. Era, aliás, a sua posição inicial. Preferiu seguir o caminho oposto, tentando competir com o PP na agressividade do seu discurso e alimentando, um e outro, o crescimento exponencial da extrema-direita nacionalista espanhola, que ainda há poucos anos era marginal, o que torna um acordo com os catalães ainda mais difícil. Quando um presidente de um governo de Espanha vai à Catalunha para visitar polícias e não para falar com os líderes eleitos da região sublinha que não procura qualquer solução. O resultado é que, a cada dia que passa, Madrid e Barcelona estão mais distantes da possibilidade de ter sequer uma conversa. E isso só reforçará a posição do VOX, que tem como única “solução” ilegalizar, prender e reprimir, até que Espanha fique a ferro e fogo, que é como a extrema-direita gosta de ver as coisas para justificar as suas propostas de restrição das liberdades cívicas e democráticas.

O impasse em que a Espanha se encontra, seja na possibilidade de formar um governo estável, seja na possibilidade de encontrar uma saída política para a crise constitucional – e uma coisa resulta da outra –, tem um responsável primeiro: Pedro Sánchez. Foi na sua mão que esteve, no último ano e meio, a saída para o problema. Quer nas possibilidade de encontrar uma solução política com o Podemos, quer na possibilidade de construir um roteiro para uma solução para a Catalunha e para o resto de Espanha. Era ele que tinha as chaves na mão. Sánchez pode ter-se salvo este domingo, mas tudo ficou ainda mais difícil para si e para Espanha. E uma coisa é certa: ou Espanha tem uma liderança política inteligente e realista, capaz de lidar com a questão das nacionalidades com bom senso e diálogo, ou terá de escolher entre a desintegração e os fascistas. Ou até ficar com as duas coisas.»

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11.11.19

Alô, Sánchez


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11.11.1975 – Independência de Angola



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Salvar a Fundação Mário Soares


«Para além de vastíssima documentação relativa à vida sindical assim como à génese e evolução de numerosos partidos políticos socialistas, sociais-democratas e comunistas, em particular europeus, encontram-se, na Fundação Mário Soares, fundos documentais de vultos da 1.ª República, como Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel Teixeira Gomes; de antifascistas, como Bento de Jesus Caraça, Carvalhão Duarte, Teófilo Carvalho dos Santos; de líderes nacionalistas africanos, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Arménio Ferreira; de fundadores e dirigentes do Partido Socialista, como Jorge Campinos, Francisco Ramos da Costa, Joaquim Catanho de Menezes, Mário Sottomayor Cardia; de activistas políticos e figuras marcantes da cultura portuguesa, como João Bénard da Costa, Sophia de Mello Breyner, Felicidade Alves. 



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Airbnb de marajás



Quando vi aquela «casinha» amarela em Jaipur (a fotografia é minha), que dá pelo nome de Palácio da Cidade, podia lá imaginar que ela viria a estar no Airbnb! Mas a realidade ultrapassa a ficção, sim.

Padmanabh Singh tem 21 anos, é herdeiro de uma fortuna imensa e é o Marajá de Jaipur, no Rajastão. É o primeiro anfitrião real no Airbnb. A partir do dia 23 é possível dormir no Palácio da Cidade.

Ler aqui.
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«Todo o mundo tem relógio, mas perdemos o tempo»



«A frase certeira é de Célia Xakriabá. Ao longo desta semana, e durante os próximos dias, a Associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, em parceria com organizações da sociedade civil, dá corpo à campanha Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Uma delegação de representantes indígenas composta por Alberto Terena, Angela Kaxuyana, Celia Xakriabá, Dinaman Tuxá, Elizeu Guarani Kaiowá e Kretã Kaingang esteve nesta semana no Parlamento Europeu. Não se tratou de uma visita de cortesia, mas antes de uma denúncia das sistemáticas violações contra os povos indígenas brasileiros, bastante agravadas desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil.

Com efeito, às agressões já existentes, a presidência de Bolsonaro juntou políticas claras tendo em vista o não cumprimento dos acordos internacionais sobre o combate às alterações climáticas ou o respeito pelos direitos humanos. O ataque às populações indígenas contrasta com o apoio ao agronegócio e à destruição da floresta da Amazónia ou das terras demarcadas para os povos indígenas. É esse contraste que justifica que as autoridades brasileiras usem o argumento de que é "terra a mais" para uma pequena percentagem da população brasileira, ainda que sejam quatro milhões, mas não questione as áreas bastante mais generosas de terra que estão entregues a meia dúzia de produtores que se dedicam à agricultura intensiva e ao agronegócio. Numa altura em que discutimos ainda o acordo União Europeia-Mercosul, a vinda desta delegação enche-se de sentido.

São relatos impressionantes. Quem está prestes a assinar um acordo, como o UE-Mercosul, tem mesmo de saber qual a origem dos produtos, como a soja ou a carne, e quais os custos sociais e ambientais da sua produção. Ao mesmo tempo, tem de dizer de forma transparente que se está a abrir as portas à entrada de agrotóxicos atualmente não aceites na União Europeia. Os defensores do acordo garantem que todos os mecanismos de controle serão ativados e que haverá uma cláusula sobre direitos humanos e proteção dos povos indígenas. Sabemos bem que uma cláusula não é suficiente. Basta olhar para todos os acordos de livre comércio ou de associação da União Europeia com outros países ou regiões para saber que essa cláusula nunca sai do papel ou se reveste de efeitos perversos.

Esta visita ao Parlamento Europeu e a vários países europeus é importante para que possamos assumir as nossas responsabilidades. A luta dos povos indígenas é uma luta pelo planeta e pelos direitos humanos. É uma luta que tem de ser nossa, da humanidade. É altura de parar um modelo de desenvolvimento que passa por cima das nossas vidas, que se faz contra a humanidade. Voltando a Célia Xakriabá, "todo mundo tem um relógio, mas perdemos o tempo". Ainda podemos recuperá-lo se soubermos pensar além do lucro e dos interesses privados imediatos. Afinal, este planeta é mesmo a nossa casa comum.»

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10.11.19

10.11.1948 – Mário Viegas



Mário Viegas nasceu em 10 de Novembro de 1948. Morreu novo, muito novo, antes de chegar aos 48. Fundou três companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e só quem for muito jovem não se recordará das séries televisivas «Palavras Ditas» (1984) e «Palavras Vivas» (1991).

Celebérrima ficou a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros:



Mas existiu também um Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP (candidatou-se também à Presidência da República).




Só mais duas interpretações inesquecíveis:




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Espanha, Espanha, Espanha…


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Evidências


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Bem-vindo, puto



«Bem-vindo, puto. A um país moderno, que consegue atrair investimento estrangeiro e uma das maiores, senão a maior, cimeiras tecnológicas de inovação e empreendedorismo, que conquistámos à Irlanda, onde nasceu, acenando com uns milhões mais. É mesmo perto do sítio onde foste encontrado, salvo por um sem-abrigo, para quem se pedem há uns anos políticas efetivas.

Ali ao lado, nesse megaevento, que não se pode criticar porque é na capital e este país, com uma democracia que deveria estar madura, ainda convive mal com a liberdade de expressão, ora chamando de extrema-esquerda, ora de extrema-direita, ora populista, ora marrano do interior, ora alentejano, ora lá do Norte, ora lá do Centro, se não fores de onde eles são e de onde eles decidem, neste país, escrevia, o primeiro-ministro acaba de anunciar uma vontade gigantesca de construir um novo espaço para essa feira digital que, podes apostar, será construído mais depressa do que as instalações das crianças com cancro do Hospital de S. João, no Porto, há anos e anos a serem tratadas em contentores. Isto na mesma semana em que os médicos descartam responsabilidades por eventuais falhas em serviços de urgência, por, dizem, não terem os recursos necessários.

Não, puto, não somos populistas. Nem extremistas.

Bem-vindo, puto. A um país onde milhares de pessoas ainda sobrevivem à custa da agricultura de subsistência, mesmo aí ao lado de onde nasceste, onde a indústria que emprega e que poderia ser o presente e o futuro resiste à conta da difícil iniciativa privada, onde o salário mínimo só em 2018 igualou o poder de compra de 1975, onde os grandes negócios se fazem à sombra do Estado e o Estado sabemos quem é, são os tais que somam aos negócios negociatas com a Banca negociando depois com a mesma Banca perdões astronómicos que os contribuintes pagam. É um país que precisa do Estado, profundamente funcionalizado, sem o qual não seriam, imagina tu, apenas 20 por cento os portugueses no limiar da pobreza, mas muitos mais por essas ruas onde foste encontrado.

Bem-vindo, puto. É!, o quadro não é muito bonito, mas vá lá, ainda é um país onde há esperança, não ligues a esta tirada mais cristã, e onde, apesar de tudo, pobres ou ricos, ainda há gente que não é indiferente e nos faz acreditar.»

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9.11.19

Espanha: sondagem divulgada em Andorra



Com dados de 08.11.2019.

(Fonte)
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09.11.1975 – «O povo é sereno, é apenas fumaça!»



Há 44 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro, os ânimos andavam bem exaltados e o centrão estava bem alinhado.

PS e PPD, secundados por CDS, PPM e PCP de P-ML, convocaram uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro, com o lema: «Pinheiro, em frente, tens aqui a tua gente!». O Terreiro do Paço encheu-se mas ninguém recordaria hoje o facto (todos os espaços se enchiam, dia sim dia sim…) sem as granadas de fumo e de gás lacrimogéneo (mais alguns tiros) que deflagraram durante o discurso de Pinheiro de Azevedo contra as forças à esquerda do PS. Iniciativa de autoria não muito clara e objecto de acusações cruzadas, mas que foi um enorme susto para muitos e gáudio para a esquerda da esquerda que viu a cena em casa, em directo televisivo (as paredes da sala em que estou ainda devem guardar o eco das gargalhadas).

«O povo é sereno, é apenas fumaça!», gritou o então primeiro-ministro, numa tirada que ficou para a pequena história dos últimos dias do PREC.

Três dias depois, operários da construção civil iniciaram o chamado «Cerco à Constituinte» que durou até ao fim da manhã do dia 13. Declarações de Pinheiro de Azevedo quando, nesse dia, saiu do Parlamento:


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Lula: o que disse quando saiu da prisão



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Planetas, planetas anões e satélites



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Vários micropartidos chegaram à Assembleia. Não é tão novidade quanto se diz, mas revelam tendências de voto que são relevantes para a análise eleitoral, tanto mais que acompanham o encolhimento dos grandes partidos PS e PSD, que no seu conjunto estão a ficar longe do peso eleitoral que, em percentagem, tinham no passado, e acentuam o papel da ideologia nas escolhas, diminuindo o chamado “voto útil”. Todos os partidos de poder, o PS, o PSD e o CDS, e mesmo o BE e o PCP sofreram essas consequências. Mas convém lembrar que não é assim tão difícil eleger um deputado, desde que o voto esteja muito concentrado, por exemplo em Lisboa. Veja-se o caso muito esquecido do PSN de Manuel Sérgio. Isto acentua o enorme falhanço da Aliança que, nesta ecologia eleitoral, tinha, à partida, algumas vantagens e perdeu tudo à chegada. O Chega é outra coisa, falaremos disso depois.

Se quisermos usar uma metáfora astronómica, deixamos de ter na Assembleia os planetas gigantes, que são gasosos e estão a perder muito gás e a aproximar-se dos seus núcleos sólidos, temos planetas propriamente ditos, temos planetas anões e temos satélites. Alguns planetas estão a passar a planetas anões, caso do CDS, e pode ser que alguns dos actuais anões passem uns a cometas e outros subam de categoria para planetas propriamente ditos. Esta legislatura vai ser decisiva para a sorte dos pequenos partidos.

De qualquer modo, como se verificou com o despromovido Plutão, que passou de planeta a anão, mas apesar disso, quando o podemos ver de perto, revelou-se muito mais interessante do ponto de vista científico do que se imaginava. Até um coração tem.

Os Verdes rodeados pela “acção climática” por todo o lado

Os Verdes nunca tiveram a oportunidade de serem “verdes”, nem o quiseram, nem o podiam. Criados pelo PCP, e dependentes do PCP para poderem estar nas listas da CDU, com a conta exacta para duplicar o número de grupos parlamentares de que os comunistas dispunham, nunca concorreram a eleições sozinhos. Foram de facto pioneiros em algumas questões ambientais, com a solitária companhia do PSD numa sua fase também pioneira, mas a sua voz nunca se ouviu como uma voz independente.

Agora é tarde. Com partidos que rapidamente se moldaram às modas da “acção climática”, sem grande tradição ambientalista como o BE e mesmo o PAN cujo “animalismo” rapidamente se cobriu de ecologia, o PEV não tem chance de emancipação.

O Livre e o problema de Joacine

Eu não quero saber das saias do assessor para nada, nem da bandeira da Guiné (e a da União Europeia nos outros?), mas quero saber de duas coisas que estão cada vez mais interligadas, a radicalização do Livre e a politização da gaguez de Joacine, à direita e à esquerda. A radicalização do Livre não se mede apenas pelas suas propostas programáticas, mas também pela forma como o estilo da campanha e as escolhas das pessoas fazem uma mutação invisível nessas propostas. O estilo, no caso do Livre, é hoje mais revelador do que as propostas e o estilo, que tem a empatia da imagem, vale de facto mais do que mil palavras.

A politização da gaguez vem em pacote com o estilo e ameaça ocultar qualquer discurso racional, se ele se tornar deliberadamente inaudível. Não há nenhuma razão para que um deputado eleito não seja mudo e “fale” apenas em linguagem gestual. Essa linguagem terá que ser traduzida por um intérprete, e isso não muda nada de essencial no estatuto e função do deputado. Uma solução próxima para Joacine, com alguém a ler as intervenções da deputada, deixando para o discurso directo os debates e as discussões, diminuiria o ruído e o papel da gaguez. Mas isso depende, como é obvio, da vontade da deputada. Só que o Livre e a sua representante parlamentar têm que ter consciência de que essa escolha tem implicações políticas.

A Iniciativa Liberal e o voto dos pobres

A tese da Iniciativa Liberal de que “a pobreza de muitos é aquilo que segura o PS no poder” e que, por isso, o PS não combate eficazmente uma força que o mantém no poder, é um absurdo. Se tivesse dito “a riqueza de alguns é aquilo que segura o PS no poder” estaria mais certo.

O Chega e a eficácia

A primeira tentativa da direita radical de ter um partido na competição eleitoral foi o PNR. Mas o PNR nunca conseguiu ter uma componente populista que fosse o instrumento de que essa direita precisava. Durante os anos da troika, a necessidade de ter uma expressão política para a direita radical foi resolvida pela aliança do PSD-CDS, traduzida no governo de Passos e Portas. Esta direita é fortemente pragmática, ou melhor, alguns dos seus mentores são pragmáticos, querem é resultados. Não precisava de procurar votos por si, o PSD dava-lhos para as políticas que precisava. Nunca teve tanto poder, no limite do afrontamento constitucional, com o apoio da troika e da União Europeia, e a flacidez do PS, daí a enorme orfandade quando Lopes perdeu perante Rio.

Por circunstâncias que combinam, como sempre na história, intenção e acaso, o Chega chegou e tornou-se o pólo de atracção populista que nunca existiu autonomamente desde o 25 de Abril. Fez uma excelente campanha eleitoral, começou a servir de magneto para toda a direita radical, desde os saudosos do salazarismo, aos nacionalistas e aos identitários, absorveu parte do PNR, parte dos lesados do BES, os proto-gilets jaunes, penetrou na polícia e na GNR, e começou a crescer no terreno fértil que vai das redes sociais à rua. Com um tribuno capaz na Assembleia, com o treino dos debates do futebol, tem todas as condições para crescer. É apenas um começo…»
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8.11.19

Lula - Sim? SIM!


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As camisolas de Paddy Cosgrave



Parolice tecnológica? Sim, mas, sobretudo, Money, Money…

A ler: Nos souvenirs do Web Summit, há uma camisola de lã que custa 850 euros.
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Alemanha, um muro caiu e outro ergue-se



«Trinta anos após a queda do Muro de Berlim, o que então era um sinal de abertura hoje é um sinal de fechamento, como disse ao PÚBLICO Jacques Rupnik. A utopia da economia de mercado, a imitação a leste do modelo ocidental, nem reinventou a economia nem a democracia. A Alemanha de 2019 está a perder os seus complexos quanto ao passado nazi. A Turíngia é o melhor exemplo. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conseguiu 23% dos votos nas eleições regionais do mês passado, graças a Björn Höcke, o mais radical dos seus dirigentes, e ultrapassou a CDU de Merkel.

Num estado onde o campo de concentração de Buchenwald se situa a pouca distância de Erfurt, a capital, sondagens revelam que 18% dos inquiridos consideram que o nazismo teve aspectos positivos e que 58% acredita que a imigração faz com que a Alemanha esteja a deixar de ser alemã. Desde 1949 que um partido parlamentar não desfilava ao lado de grupos neonazis. Mesmo assim, ou por causa disso mesmo, membros da CDU desafiam os valores da democracia cristã e admitem, sem o expressar directamente, a hipótese de aliança com a AfD.

Esta extrema-direita afirma-se como antidemocrata, antipluralista e recorre à violência e ao ódio para combater os seus adversários: Claudia Roth, vice-presidente do parlamento alemão, e Cem Özdemir, ex-líder dos ecologistas, foram alvo de ameaças de morte. Não faltam exemplos recentes para enquadrar este clima odioso: o ataque à sinagoga de Halle e o assassinato do político conservador Walter Lübcke, favorável ao acolhimento de refugiados, são elucidativos. O pensamento é simples e ameaça os partidos mais tradicionais: o Governo abriu as fronteiras aos refugiados, não protegeu os seus cidadãos e isso obriga a que estes se protejam e até façam justiça pelas suas próprias mãos.

A pragmática recepção de refugiados, que Merkel decidiu mais por razões demográficas e económicas do que por motivos humanistas, teve um efeito indesejado. O que explica o sucesso da AfD não é a situação económica, mas sim uma complexa conjuntura alimentada pelo medo do futuro e pela recusa da alteridade numa sociedade a fechar-se sobre si própria. Que isso seja mais natural a este do que a oeste é apenas o sintoma mais espontâneo de uma regressão democrática. Não era isso que esperávamos da Alemanha 30 anos depois. Não precisamos dos muros construídos pelo ódio, como se estivéssemos de novo perante a ameaça otomana. A ameaça está no meio de nós e está a crescer.»

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7.11.19

Marcelo na Web Summit



Ele disse mesmo isto? E houve aplausos ou uma gargalhada geral?
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Os contentores de Odemira


Helena Roseta:



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Parlamento Europeu e votações sobre o Mediterrâneo



A ouvir com atenção. E, para poupar trabalho, copio o que Helena Araújo escreveu no Facebook como comentário:

«Agradeço à Marisa Matias o esclarecimento que estava a ser necessário desde que o Nuno Melo deu uma entrevista na qual dizia "todos os eurodeputados portugueses votaram a favor e votaram contra" reforço de ajuda a migrantes no Mediterrâneo, e acusava Marisa Matias e o Bloco de Esquerda de terem difundido uma mentira.

Mentira é a do Nuno Melo ao fazer de conta que todas as resoluções eram mais ou menos equivalentes, e ao ignorar propositadamente que nem todas punham os direitos humanos acima das lógicas nacionalistas.

Mentira é a do Nuno Melo ao esconder que a proposta que lhe pareceu mais adequada era aquela que apostava na Líbia (onde os refugiados são sujeitos a horrores) como país parceiro da Europa para manter essas pessoas afastadas da nossa fortaleza.

Mentira é a de Nuno Melo ao esconder que a proposta que lhe pareceu mais adequada era aquela que queria distinguir "refugiados" de "migrantes económicos".

Como é que um deputado português é capaz de ter o desplante de ser a favor de complicar a vida aos "migrantes económicos"? Um deputado português! Isto é um ataque aos tantos milhões de portugueses que ao longo da nossa História foram para outro país em busca de uma vida melhor.»
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Web Summit: vendedora de ilusões



«Segundo dados da Informa D&E, noticiados no transacto ano, cerca de uma em cada três startups portuguesas encerra ao fim de um ano. Entre outros factores, é apontada a falta de financiamento como um dos principais constrangimentos para o sucesso destas microempresas. Mas, afinal, o que nos traz a Web Summit? Além de um mediatismo vazio de conteúdo, o que pode realmente oferecer uma conferência que apresenta oradores como Tony Blair ou Ronaldinho? Ou mesmo o negociador da União Europeia para o “Brexit"?

Desde o início deste evento em Portugal questiono qual a sua real utilidade se não lavar a cara suja do capitalismo selvagem e pintá-lo como se de uma geração cool se tratasse. Actualmente, é cool ir à Web Summit, embrenhar-se por aplicações adentro e expurgar todos os males do mundo a partir de um computador. Vendem-se as mais burlescas ilusões de que se não formos nós a criar o nosso emprego ou a desenvolver a nossa microempresa (de preferência tecnológica) estaremos condenados para sempre a viver à luz de relacionamentos laborais arcaicos e caducos que mais não fazem do que contribuir para o desperdício de tempo, enquanto podíamos estar a realizar algo de mesmo importante para o planeta, para o mundo e para a sociedade.

É deste tipo de ilusões que se pretende alimentar a sociedade — aponta-se o caminho do instantâneo, do digital, porque o resto dá muito trabalho e não releva. Não ouvi ninguém na Web Summit a criticar as políticas de baixos salários praticadas pela Google ou pelo Facebook, dirão que é outra forma de trabalho e que, portanto, o conceito de remuneração será diferente. Mentira, onde há trabalho há necessariamente direito a um salário, a condições laborais e a uma relação laboral entre patrão e trabalhador. A Web Summit ajuda a mitificar a ideia de que não existem relações laborais como as que até aqui tinham lugar, até porque devemos ser cada vez mais flexíveis, a saltar de um desafio para o outro. Dizem eles desafio, dizemos nós explorações.

Na Web Summit não se paga a quem ajuda a construir o evento, são voluntários. Mas porquê voluntários? Não terão receita para poder pagar a trabalhadores? Ou estamos perante mais uma forma de exploração, desta feita dupla, pois consegue-se explorar pessoas economicamente, explorando o seu lado mais fantasioso, aquele que as leva a acreditar que estão realmente a contribuir para algo que pode fazer a diferença nas nossas vidas.

As startups portuguesas não têm conseguido vingar porque, mais uma vez, estão a competir com o grande capital, ou seja, se te endividas ou gastas o pouco que tens na criação de uma destas microempresas tecnológicas, és rapidamente arredado por aquelas que realmente contam com financiamento de milhões para levar a cabo o seu objectivo. Com isto, fizeram-te perder um ano ou dois da tua vida, vendendo-te a ideia de uma economia tecnológica florescente que, no fundo, apenas floresce para os mesmos de sempre e, quiçá, roubaram-te uma ou outra ideia que ruma direitinha para o seu sucesso. Não seria inédito.

A Web Summit não é mais que uma espécie de centro de turismo tecnológico. Não deixa de ser turismo porque não produz nada.»

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6.11.19

06.11.1975 - «Olhe que não, olhe que não!»



Nem os seus dois intervenientes, nem muitos dos que assistiram àquele que foi o mais célebre debate da nossa democracia, estão cá hoje para o recordar. Os outros nunca esquecerão o frente-a-frente entre Soares e Cunhal, em 6 de Novembro de 1975. Durou quase quatro horas – uma eternidade impossível de repetir nas televisões apressadas que hoje temos – e o país parou para ver e ouvir.

Há 44 anos, a poucos dias do 25 de Novembro, eram mais do que raros os pontos de acordo entre Soares e Cunhal. Dessa noite ficou para a história uma frase com que Cunhal respondeu a Soares quando este afirmou que o PCP dava provas de querer transformar Portugal numa ditadura: «Olhe que não! Olhe que não!»



Texto com alguns excertos do que foi dito:


Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, pp. 382-383. 
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Sophia, 100



Sophia de Mello Breyner nasceu em 06.11.1919. Jornais, televisões e rede sociais estão hoje cheias de biografias, poemas e fotografias. Escolho recordá-la como a resistente à ditadura, que foi durante décadas: juntamente com o marido, Francisco Sousa Tavares (o «Tareco», para os que éramos seus amigos), nunca recusou uma presença, uma assinatura, uma voz, integrada no universo dos chamados «católicos progressistas».

Foi candidata pela oposição (CEUD) às eleições legislativas de 1969 e um ano antes escreveu um poema que muitos cantam mas poucos sabem ser de sua autoria: a «Cantata da Paz», tão divulgada por Francisco Fanhais depois do 25 de Abril, e que foi por ele «estreada» numa Vigília contra a guerra colonial, na igreja de S. Domingos em Lisboa, na passagem do ano de 1968 para 1969 (onde Sophia esteve obviamente presente). Quem não conhece «Vemos ouvimos e lemos»…


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O azul-sangue do Mediterrâneo



«Esta é a cor de que se tinge a nossa vergonha, colectiva, de Humanidade. Desta Humanidade europeia que reclamamos ser berço de civilização, mas para a qual, pelos vistos, continua a haver uns mais humanos do que outros. Ou mais iguais do que outros, relembrando Orwell.

E é impossível não relembrar Orwell, nos dias que passam. É impossível não pensar na crueza encerrada nas suas visões distópicas, que, afinal, se revelaram, em tanto, previsões acuradas de um futuro, que hoje é o nosso presente.

O futuro em que nos morrem à porta, figurada e literalmente, outros seres humanos, tão humanos quanto nós, tão menos humanos que nós, tão mais humanos que nós.

Humanos no sofrimento de quem tem fome, ou tem sede, ou tem medo, ou, simplesmente, sonha. Sonha nessas paragens onde sonhar é proibido (ou é-o para a maioria, porque os outros sonhos, megalómanos e cruéis, são a realidade dos poucos que lhes destinam os futuros).

Humanos na fragilidade de quem é explorado, traficado, vendido e comprado. No desespero de quem empenha a pouca vida que tem, na procura de outra vida, que só poderia ter sido melhor. A vida que estaria para além de um mar que antigamente era apenas azul. E que tornou a ser clausum.

Humanos sim, demasiado humanos talvez, pois que conservam em si o que a nossa humanidade, dita desenvolvida, parece ter perdido: a convicção, a perseverança e a força, essa tão apregoada resiliência, que nós, no nosso “desenvolvimento” acomodado, vamos deixando afundar no sofá, como no sofá afundamos os nossos corpos e as nossas almas, perante a visão dos que se afundam na morte, num mar que antigamente era apenas azul e que tornou a ser clausum.

Humanos na vontade de sobreviver e fazer sobreviver os filhos que transportam nos braços ou nos ventres. Humanos, demasiado humanos, porque vulneráveis e acossados.

Demasiado humanos porque pobres, descartáveis e rapidamente esquecíveis e esquecidos. Sem nome, sem rostos e sem histórias. Ou com nome, rostos e histórias que se confundem, porque (nos) parecem todos iguais. E porque (nos) incomodam um pouco, mas apenas o pouco em que a tragédia nos ecoa nos ouvidos, porque a seguir vem outra notícia e, se calhar, outra tragédia e nós distraímo-nos. Naturalmente, distraímo-nos…

Ou então, porque nos falam, baralhando-nos, dos contornos “menos claros” de que se revestem a filantropia e a ajuda humanitária. Porque a pobreza pode ser um negócio lucrativo, como já se sabe, há muito, nas múltiplas experiências de cooperação e ajuda internacional. E pode sê-lo para as agências e organismos internacionais, de reputação supostamente inabalável, como pode sê-lo para algumas organizações humanitárias não-governamentais. Uma leitura atenta e isenta da história da intervenção nas crises em África mostra como isto é, também, uma verdade.

Mas existe nesta área, como em todas, quem seja honesto e quem não o seja. Quem seja bem-intencionado e quem não o seja. Quem se alimente de sangue e quem tente estancá-lo. E, por isso, o discurso em torno do aproveitamento das situações, ou da suposta e iníqua conivência entre ONGs e traficantes, não pode ser o discurso apaziguador das nossas consciências cidadãs e, muito menos, das consciências de quem decide e de quem legisla.

E não pode sê-lo, não apenas pela injustiça da acusação de generalização das más práticas, por parte de quem presta ajuda, mas também, e sobretudo, porque, como se sabe, as cordas tendem a quebrar pelo lado mais fraco. E o lado mais fraco é aquele que foge, tem medo, é acossado ou, simplesmente, sonha. O lado mais fraco é aquele que é humano, talvez demasiado humano, insuportavelmente humano. Humano como o azul-sangue de um Mediterrâneo que tornou a ser clausum

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